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Apresentação do projecto de criação do Mosteiro Budista Theravada da Tradição da Floresta da Tailândia em Portugal.

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A Perspectiva da Floresta

de Ajahn Amaro

em 17 Dez 2011

  Quando estou em contacto com os ensinamentos Dzogchen, tenho frequentemente a estranha sensação de ouvir os ecos e ver as imagens dos meus próprios mestres, Ajahn Chah e Ajahn Sumedho. Quer pela maneira como esses ensinamentos descrevem princípios com os quais estou familiarizado, quer pelo uso de algumas das mesmas analogias e frases. Quando me apercebi desta semelhança, dei-me conta que tinha estado a praticar de um modo parecido ao Dzogchen durante pelo menos a última metade da minha vida monástica, desde aproximadamente 1987. Se eu tivesse sobrancelhas, acho que as teria erguido um pouco! Mas talvez a convergência não deva ser tão surpreendente. Afinal, todos temos o mesmo mestre: o Dhamma provém do Buddha e está enraizado na nossa própria natureza. Pode haver 84.000 distintas portas para o Dhamma, mas em essência há um só Dhamma.

Existem vários ensinamentos Tibetanos que com o passar do tempo passei a apreciar, em especial aqueles que descrevem a excelsa anatomia e nuances de rigpa (1), também traduzido como conhecimento ou perspectiva. A tradição da Floresta da Tailândia, a linhagem na qual predominantemente treinei, depende muito mais da eloquência e inspiração de alguns mestres que improvisam temas do Dhamma que lhes ocorrem no momento. Isto mantém os ensinamentos vivos e frescos, mas também significa que pode haver muita inconsistência na maneira como os conteúdos são expressos. Por isso, aprendi muito com a natureza bem estruturada e sistematizada dos ensinamentos Dzogchen.

Os ensinamentos de Ajahn Chah cobriam temáticas de âmbito bastante alargado, mas ele era particularmente notável pela maneira aberta, hábil e livre com que falava sobre a esfera da derradeira realidade. E ele era capaz de o fazer com qualquer pessoa que ele sentisse ser capaz de compreender, fossem leigos ou monásticos. A sua maneira de falar sobre esse tema e sobre a ‘consciência que sabe’ – a sua compreensão do conhecimento – reflecte muitas similaridades com o Dzogchen. Por conseguinte, pensei que descrever algumas dessas similaridades poderia ajudar, bem como descrever alguns dos métodos ensinados por Ajahn Sumedho, o discípulo sénior ocidental de Ajahn Chah. Tentarei também proporcionar outros ângulos ou pontos de vista da tradição Theravada, que têm alguma relevância na nossa compreensão e prática nesta área.

Quanto mais nos apressamos, mais devagar avançamos
É fácil ficar muito ocupado com a vida espiritual, até mesmo compelido e obcecado. Durante os primeiros 10 anos da minha vida monástica tornei-me um monge, até certo ponto fanático. Isto pode parecer um paradoxo, mas não é de forma nenhuma impossível. Eu tentava fazer tudo a 120 por cento. Levantava-me de manhã muito cedo e fazia todo o tipo de práticas ascéticas, todos os tipos de pujas especiais e coisas do género. Nem sequer me deitava; não me deitei para dormir durante cerca de três anos. Por fim dei-me conta que estava a fazer coisas a mais e não havia nenhuma noção de espaço interno ao longo do dia.
Estava desesperadamente ocupado com a meditação. Durante aquela época, a minha vida estava completamente preenchida. Estava sempre um pouco empertigado e agitado. Não conseguia sequer comer ou atravessar o pátio sem que isso fosse um problema. Por fim tive de me perguntar: “Porque estou a fazer isto? É suposto vivermos esta vida em paz, para a realização, para a libertação, e no entanto os meus dias estão todos atafulhados.”

Eu já devia ter percebido a mensagem há muito tempo. Costumava sentar-me no chão duro, sendo o uso de um zafu (almofada para meditação) um sinal de fraqueza para mim. Uma das monjas ficou tão farta de me ver adormecer durante todas as sessões que aproximou-se e perguntou, “Posso lhe oferecer uma almofada, Ajahn?”
“Não muito obrigado, não preciso.”
Ela respondeu, “Eu acho que você precisa.”
Finalmente, fui ter com o Ajahn Sumedho e disse, “Decidi abrir mão das minhas práticas ascéticas. Vou simplesmente seguir a rotina estabelecida e fazer tudo de modo absolutamente normal.” Foi a primeira vez que o vi ficar empolgado. “Finalmente!” foi a resposta dele. Pensei que ele fosse dizer, “Bem, se achas que sim….”

Ele estava à espera que eu percebesse que o importante não era a quantidade de coisas que eu fazia, as horas que passava sentado em meditação, a quantidade de mantras que recitava ou o quão estrito eu seguia as regras. O que importava era incorporar o espírito do não-devir e do não-lutar em tudo o que fazia. De repente percebi que a importância do não-lutar era algo que Ajahn Sumedho havia ensinado por muitos anos; eu simplesmente tinha estado a ouvir.
Ajahn Sumedho encorajava o estar consciente daquilo que chamamos a “tendência para o devir”. Em pāli a palavra é “bhava”; na tradição Tibetana a palavra é usada da mesma forma.
  (... continua) 


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