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Um luso Natal

de Maria João Firme

em 11 Dez 2014

  A partir de meados do Outono, entram-nos pela casa imagens sucessivas da época natalícia, chegadas por via postal, digital ou outra. Pais-natais de expressão idêntica cumprimentam-nos nas lojas, supermercados e grandes superfícies, sorrindo-nos a partir de placards e écrans, ou abordam-nos em carne e osso, num protótipo de múltiplos clones. São figuras que se movimentam e integram em cenários de luzes, pinheiros, bolas, fitas, lacinhos e azevinho sintético. Mas, muitos de nós que brevemente poderão ser avós ou tios-avós, relembram ainda uma forma mais tradicional de festejar o Natal. Podemos lembrar uma festividade sóbria e íntima, em que se faziam presépios com figurinhas de barro pintadas, e cujo tema era o nascimento do Menino Jesus.

As condições humildes deste nascimento eram relembradas através do burro e da vaca presentes no estábulo, e que acompanhavam Maria e José. Por outro lado, e para mostrar a abrangência do acontecimento, eram representados os três reis magos a adorar Jesus e a oferecer-lhe ouro, incenso e mirra. Quem fazia o presépio tinha o cuidado de colocar a estrela (§) brilhante que levava ao menino, colada num firmamento azul. As figuras eram cuidadosamente desembrulhadas e tiradas das caixas onde se tinham guardado no ano anterior, quando se dava por finalizada a época, no dia de Reis.

Cumpria-se desta forma um ritmo da natureza e, à passagem de mais um solstício de inverno, um novo Sol-menino trazia cada vez mais luz à Terra, a todas as criaturas vivas e à humanidade. Assim, este acontecimento devia ser comemorado por cada família, por cada coração. Quanto a mim, retenho a imagem de um corajoso pastorinho, que subia um monte de papel pintado de castanho e coberto de musgo verde, no presépio de minha casa. Consigo levava uma ovelha, como oferenda ao Menino Jesus.

O tempo foi passando e o Menino Jesus foi cedendo o lugar central à figura do Pai Natal. Se bem lembro, penso que andava um pouco baralhada, pois não compreendia bem a ligação entre o primeiro, que nascia para o mundo, e o segundo, que descia pela chaminé. Cheia de ternura pelo primeiro, não apreciava menos o segundo que, atendendo todas as crianças, não se esquecia de deixar alguns presentes no meu sapatinho, e no dos meus irmãos.

Não muito longe dos sapatos ou botas colocados na chaminé, permanecia tapada uma grande panela de fritos de abóbora, aos quais mais tarde e noutras regiões do país, ouvi chamar sonhos ou filhoses. Tenho provas evidentes de que não são a mesma coisa, pois os fritos nasciam da massa batida num grande alguidar, pelos braços fortes da senhora Cristina, cansados de lavar e bater roupa à mão. Sim, porque era necessário possuir conhecimentos e competências para os fazer!...

Em primeiro lugar, a massa tinha que ser fortemente batida para levedar; em seguida, necessitava de receber o sinal da cruz (§) e submeter-se a uma ladainha para que pudesse crescer, sendo este um saber inquestionável, pois se comprovava há gerações. Depois, esse mesmo alguidar era tapado por cobertores durante a véspera de Natal (a mim, lembrava-me um menino a dormir...), ficando a cozinha impregnada de um delicioso cheiro a abóbora e fermento natural. À noite, num ritual demorado, a minha mãe (§) fritava os pedaços de massa e moldava-os com duas colheres para formar pequenas bolas. Observávamo-las, víamo-las dançar entre as borbulhas de óleo quente e esperávamos para passá-las por açucar e canela, lambendo os dedos às escondidas. Eram separados dois ou três pratos para oferecer a vizinhos e familiares, sendo entregues, de preferência, ainda quentinhos e estaladiços. Só depois da panela se encher e esse trabalho estar terminado, se coziam as batatas, o bacalhau e as couves para a consoada. Calculo eu que o bacalhau seria, na época, a ementa mais igualitária e democratizada possível, por ser barato e de fácil acesso.

Em minha casa comiam-se fritos e fazia-se o presépio. Este era feito com musgo verdadeiro, que íamos apanhar ao campo. Só mais tarde se fez a árvore de Natal, e a minha mãe, depois de contar oitenta invernos, ainda a achava um desvio ao espírito natalício, quadra que devia ter como tema central o nascimento do Menino Jesus, sem outras derivações. Devia, pois, recriar-se uma atmosfera confortável, um menino em palhinhas deitado, aquecido pela respiração dos animais e envolto pelo amoroso olhar de seus pais, Maria e de José. Num tempo suspenso, recriavam-se momentos de partilha e amor, com o Céu e a Terra mostrando o seu esplendor.
Relembrando tempos passados, para todos um feliz e luso Natal.
   


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