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E nós nas mãos de Deus - Antero de Quental

de Pedro Teixeira da Mota

em 04 Set 2016

  A escolha arbitrária de Oliveira Martins de finalizar os Sonetos com um que não é dos finais, antes escrito bastante antes, teve um intuito provavelmente moralizador e talvez mesmo catolicizante, fazendo terminar, aparentemente, a bem ou na entrega a Deus o percurso filosófico, poético e anímico de Antero, uns anos antes de morrer, e que o livro dos Sonetos manifesta, o qual foi mesmo dividido e ordenado cronologicamente. Com efeito neste poema, profundo e complexo, certamente algo autobiográfico, vemos o autor a depor os seus movimentos anímicos antigos, considerados agora como infantis, ilusivos, passionais e a entregar-se definitivamente a Deus, sob a forma do coração a quem "ordena" ou sugere que vá dormir na mão direita, a benéfica ou misericordiosa, de Deus, numa simbologia tradicional associada a uma visão humana ou antropomórfica da Divindade.

Há contudo no soneto algumas vozes que parecem algo passivas e derrotistas. Por exemplo, essa recomendação para a alma adormecer e dormir não parece muito de Antero, um ser com uma aspiração enorme muito forte da Verdade e do seu dinamismo perene e que o marcou sempre, provavelmente mesmo ou muito na hora insatisfeita em que se suicidou.

Talvez a possamos compreender melhor o soneto se virmos Antero a dizer: «eu não sou este coração nem o ser que se iludiu com ele mas sou o ser espiritual que diz ao coração, algo desiludido dos palácios da ilusão algo cansado ou trôpego da caminhada agreste à mera luz da fé e da razão: «dorme em Deus, descansa», e certamente apenas por algum tempos, a fim de se recompor, e não numa ideia de descanso eterno a que este poema remete pela associação da terminologia e visão católica: «Descansa em paz, adormecei no Senhor».

Talvez de realçarmos ainda no começo, a expressão de passado empregada: "descansou". Se no fim do Soneto está mais um presente imperativo, "dorme" é dito ao coração, no princípio há um passado, que nos abre para a ideia da vivência árdua da vida interior que Antero fez e que o obrigou a descer das grandes esperanças ou ilusões do que ele nomeia Ideal e Paixão.
Se a palavra ideal está perfeitamente de acordo com toda a filosofia e o ambiente cultural e revolucionário da época, e nela ressoam muitos escritores e filósofos com os quem dialogou nas suas leituras e conversas com os amigos (embora se tenha encontrado anonima e humildemente com Michelet), já a Paixão é menos esperada. Eu pensaria na palavra e conceito, sentimento e realidade do Amor, mas Antero preferiu por certas razões escolher a Paixão e não vamos pensar que as escolhas foram apenas por questões de rimas, ainda que possam em certos casos terem sido os sinónimos encontrados mais próximos. O Amor intenso, talvez absolutizante, divinizante, qual Beatriz de Dante e então Antero se inseriria nos Fiéis do Amor. Mas das paixões, sobretudo amorosas, de Antero ficaram muitas zonas esbatidas, íntimas, angélicas...

Neste soneto posto no fim da obra-prima de Antero, escolha do seu grande amigo Oliveira Martins, e a que Antero aquiesceu, e seria bem interessante sabermos melhor de todo o diálogo parturiense, eis-nos com as duas colunas do Palácio da Ilusão, que na tradição Indiana se chama Maya, e que é também o poder dinâmico da criação de formas e da manifestação da Divindade, mais tarde cultuada como a Shakti, e que é também a energia interna de cada um de nós, pelos shaktas e tântricos, e que também poderia ser chamado segundo a tradição Ocidental o Templo da Divindade, com as suas duas colunas, a do Ideal da mente e a da paixão ou amor do coração, o masculino e feminino que temos de equilibrar ou complementar dentro e fora de nós para se realizar o milagre da Unidade.

Antero desceu dos grandes sonhos juvenis revolucionários filosóficos e passionais afectivos, e reconhece que deve libertar-se do que são ainda conceptualizações e formas transitórias e almejar o Divino, ao qual acaba por se entregar numa fé de criança que vai levada pela mão da mãe (§) na jornada tão misteriosa ou complexa da vida cósmica.

É numa posição de humildade, de ser como humus da terra, que Antero se confessa perante o mistério do Universo, entregando o seu coração nas mãos da Divindade para que nela repouse.
Diria que a minha discordância maior quanto às palavras e estados psíquicos que se evolam deste soneto, como já assinalei de certo modo, está no "dormir" e sobretudo no final "eternamente", que sabe um pouco a campa romântica do séc. XIX mas que pode ser redimida se consideramos que o dormir tem a sua utilização figurada ou simbólica no sentido de se estar em íntima e confiante paz, repouso e entrega, algo que certamente desejaremos tanto para Antero como para todos nós, e não só para depois da morte mas no aqui e agora, de ser a Hora, de nos ligarmos mais confiantemente à Divindade.
  (... continua) 
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