Fundação Maitreya
 
Buda e Jesus

de Diogo Castelão Sousa

em 07 Jan 2024

  A nossa condição como homens é definida pelo desejo. O ser que deseja está em tensão entre a sabedoria e a ignorância. O ser humano é fundamentalmente um ser em procura, nunca completo. A sua condição é definida pela falta, alargando-se ao escopo de todas as vertentes da sua vida pessoal, profissional, afetiva, amorosa ou espiritual. Como tal, o seu trabalho recai fundamentalmente sobre a direção, sublimação e compreensão do desejo.

Ora, há dois caminhos em relação à completude do desejo. Dois caminhos que surgem fundamentalmente opostos na superfície, mas se revelam semelhantes na sua essência. São eles o caminho de Buda e de Jesus. Enquanto Mestres, cada um preconizou o Seu Caminho de acordo com a época e mentalidade dos seus conterrâneos. A cultura, o país ou a religião vigente foram determinantes na definição da linguagem e abordagem das suas Mensagens.

Enquanto ser ascético, Buda preconizou o desapego ao desejo. Não a sua erradicação, mas a observação passiva e inteligente do mesmo, tendo como fim a equanimidade da mente. De acordo com os seus ensinamentos originais, a felicidade é alcançada ou descoberta através do abandono do apego ao desejo, da obtenção de um estado tranquilo em sua essência. O monge ou adepto obtém o Nirvana, ao mergulhar no silêncio meditativo da sua consciência.

Por sua vez, Jesus apresenta um Caminho diferente. Preconiza o caminho do desejo elevado ao sumo bem, da devoção, do amor, ao máximo que a consciência pode atingir, Deus. Através da oração, a prática de focalizar a mente num objeto mental, o ser concentra o seu desejo num momento de intensa comunhão. Neste processo, existe uma imagem e uma projeção. Um pensamento que tem como fim alcançar algo Real, algo de verdadeiro por detrás. Assim, falamos ou direcionamos o pensamento ao Mestre ou a Deus, sabendo que cada movimento tem como fim o alcance de algum sinal interior.

É importante referir que a via de Jesus, de sublimação do desejo, tem a particularidade muitas vezes esquecida de seguir uma Lei oculta expressa no Novo Testamento. Essa Lei define que manifestamos uma realidade quando ao orarmos, evocamos o sentimento do desejo já consumado. Expresso através de diversas parábolas, de modo a clarificar e apresentar aos seus discípulos e ouvintes a simplicidade da sua fórmula, Jesus evoca-o claramente no versículo Marcos 11:24: “Portanto, vos afirmo: Tudo quanto em oração pedirdes, tenhais fé que já o recebestes, e assim vos sucederá.”

Consequentemente, Jesus refere nos seus Ensinamentos que na oração devemos evocar não só mentalmente a imagem do desejo, mas o sentimento da sua realização. Deste modo, a via de Jesus, que trabalha com a fé e a sublimação do desejo, revela uma atitude inédita, que lida com a consumação prévia do desejo num plano mental, antes mesmo da sua manifestação externa, em visualização sublimada. Ou seja, a evocação do sentimento do desejo consumado tem como realidade implícita a sua futura manifestação no mundo objetivo.

Como tal, enquanto Buda apresenta uma via que tem como principal ferramenta a meditação como meio de alcance da felicidade suprema, Jesus apresenta, a par de uma vida nobre e ética, a fé, ou o ardente desejo do coração de se unir ao Senhor.

Assim, todas as práticas da oração e da fé estão ligadas ao corpo etérico-físico. Está comprovado que um pensamento altera a química das células e um pensamento elevado, naturalmente, eleva mecanismos ocultos no nosso corpo. Nunca é em vão um pensamento direcionado para o Bem. Escusado será dizer que existem também práticas budistas que se concentram numa imagem mental, de modo a aquietar o pensamento. Contudo, o fim será sempre o silêncio meditativo, a entrada nas profundezas do vazio da mente, da ausência de qualquer tipo de pensamento ou desejo.

No fundo, tanto Jesus como Buda preconizaram a união ao Superior, seja o Nirvana ou a Deus. Apesar de os caminhos divergiram na superfície, são fundamentalmente semelhantes. Por isso, sob esta perspetiva, os ensinamentos de Jesus e Buda fundem-se num só Ensinamento Universal.

Assim, neste esquema, ‘desejar’ ou ‘não desejar’ torna-se superficial. Realizar-se ou não se realizar, é a verdadeira questão. Enquanto Buda falou do vazio, Jesus falou do pleno. Mas ambos concretizaram os seus Ensinamentos na elevação ao Absoluto, na união com o Divino, e no alcance do conhecimento superior, que é a Verdade.
   


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Impresso em 14/4/2024 às 15:21

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