Fundação Maitreya
 
Folhas de Luz - Antologia

de Maria Ferreira da Silva

em 28 Nov 2014

  “Folhas de Luz” resulta de uma selecção de textos de diversos temas. Sempre sob a vertente espiritual, tal como toda a minha obra (nove livros já publicados), estes temas englobam assuntos sobre a actualidade, caso dos Capítulos 6º e 7º respectivamente, Ciência, com especial relevância para o ensaio “O átomo é o embrião da Inteligência” e as Crónicas onde surgem os mais variados assuntos, como catástrofes mundiais e as suas desastrosas consequências, para as quais a serenidade parece ser a única arma para enfrentar a impermanência da vida. Também se encontram prosas simples, mas de súbita inspiração, bem como outros temas de uma abordagem espiritual mais profunda, como os sistemas filosóficos ou ainda sobre arte, abrangendo tanto a cultura do ocidente como do oriente.

Seguem-se alguns trechos, de inéditos de Folhas de Luz.

Amrta

O resultado da produção de Amrta é a vivência real da imortalidade, não como ela é conhecida no Ocidente, designando alguém que se notabilizou por algum feito heróico, cultural ou social e ficou conhecido para a posteridade. O verdadeiro significado da imortalidade, não é necessariamente o reconhecimento do mundo, mas reconhecer-se a si próprio pela realização espiritual, como ser imortal que sobrevive para além da morte física como Ser, Espírito, como sendo a sua verdadeira essência. Na realidade somos, não só em essência mas no concreto, real, uma entidade de corpo, porém, em simultâneo, com a substância energética e subtil etérica, numa realidade existencial, em planos que são afins a essa existência em essência. Conhecer esta essência, só por um processo de evolução e realização espiritual, até chegar ao momento de produzir a Amrta; o elixir da imortalidade que existe, potencialmente, dentro de cada ser humano.
Esta realização dá um estado de suprema beatitude, não só por períodos, caso da kuṇḍalinī, mas constante e irreversível. O ser sabe que está a viver a nobreza super humana, liberto dos atávicos problemas da vida, ou dos bloqueios existenciais.
A Amrta, o “Poder de Vida”, ou a imortalidade realiza-se quando chega a uma expansão de Consciência que permite compreender, mas sobretudo, Realizar, que a vida e a morte são uma e a mesma coisa. Deixar um corpo físico, é descartar a casca, mas a vida não se extingue, sendo esse facto vivido com plena Consciência do Todo.

6º Capítulo

O Infinito

Estamos no limiar duma nova visão do mundo e de nós mesmos, devido aos rápidos progressos desencadeados pela Ciência na descoberta de enigmáticos e vastos mundos Cósmicos. Assim, no evoluir dos ciclos de vida e da Consciência Humana colectiva, surgem perspectivas e horizontes cada vez mais belos e profundos, onde os seres já são capazes de abarcar e desvendar certos mistérios da vida universal, apesar de a existência humana se dissolver a cada instante em algo irreal, onde milénios se reduzem a momentos e anos em minutos.
Aparentemente aos nossos olhos e sob o ponto de vista de uma vida humana, nada muda no Cosmos, porém, ele é regido por forças indomáveis, repleto de surpresas, onde também estranhos objectos iluminam recantos outrora sombrios no Universo. Por exemplo, é difícil encontrar outros planetas noutros sistemas solares, devido a ficarem ofuscados pela luz das estrelas à sua volta.
Todavia, é lentamente que vamos conhecendo o Espaço onde vivemos, apesar de ocorrerem constantemente mudanças. Hoje, as informações são rápidas e diversas, alterando os conceitos, sobretudo os religiosos acerca da vida nos céus. Mais do que nunca, o tempo veloz, leva-nos a concluir que nada é durável e verdadeiro, axioma budista da impermanência, em concordância com a própria Ciência, que na sua procura nos encaminha nesse sentido da incerteza. A descoberta do Cosmos apresenta-se tão complexa, que é difícil tirar conclusões ou obter teorias finais e absolutamente certas, pois embora as revelações científicas sejam numerosas, anulam por vezes, certas convicções já formuladas, principalmente, quanto ao misterioso começo da Creação.
E em que indício se baseia a Ciência para nos fazer acreditar num Big-Bang?
Os cientistas não estarão como os videntes e profetas de todos os tempos, assumindo moderna e disfarçadamente a sua intuição e clarividência acerca dos enigmas do céu? A teoria do Big-Bang dificilmente poderá vir a ser provada, pois não se baseia em dados concretos ou históricos, apenas assenta numa dedução do estudo dos fotões que constituem a luz que chega à Terra, vinda de objectos distantes.
Provavelmente, o Universo não emergiu de um ponto, mas toda a matéria do Cosmos, explodiu em toda a sua extensão onde não há centro algum, e espalhando-se em muitas direcções, criou tempos diferentes. Portanto, a medida de tempo, resulta da organização da matéria no Espaço e da sua dimensão, e sendo o tempo incomensurável no Cosmos, torna-se incompreensível para a nossa dimensão de consciência, abarcar esse Eterno Existir que sempre foi, é e será.

4º Capítulo

Savanarola

Jerónimo Savanarola, frade e citadino de Florença, foi por excelência um mártir cristão. Promotor de uma grande Reforma dos costumes, benfeitor dos pobres, incentivou as Artes e as Letras. Designava-se “Cavaleiro de Cristo”, portador da Sua palavra, e afirmava revolucionariamente: «Toda a autoridade que impedisse a expressão da livre vontade, quando esta é seguramente boa, quando conduz a Deus pela graça e promove o bem, pode e deve ser banida».
Jerónimo Savanarola nasceu em Ferrara, a 21 de Setembro de 1452 às 23h30 no dia da festa de S. Mateus. Foi um miúdo precoce e o preferido de um médico famoso de Pádua (seu avô Miguel Savanarola), que admirava nele a profunda diligência e seriedade, preparando-o para que continuasse a tradição médica. Porém, Savanarola teve aspirações bem diferentes, e um dia, silenciosamente saiu de casa, bem cedo para evitar nos seus pais a tristeza da partida, a dor da despedida, percorrendo a pé cinquenta quilómetros de caminho, desde Ferrara a Bolonha. Não tinha ainda vinte e três anos, mas a sua decisão é irrevogável e assim é conduzido por apelo interior, ao encontro do chamamento da Alma para a vida de recolhimento, com fervorosa devoção,
«Era tanta a minha dor e paixão que sentia no meu coração, devendo partir dali que se tivesse dito que partia, eu creio sinceramente que me impediriam e seria doloroso ao meu coração». E justifica-se: «A razão pela qual me move entrar para a religião é esta; a miséria no mundo, a iniquidade do homem, o adultério, a ignorância».
Em 1475 toma o hábito em São Domingos de Bolonha e em 1479 é enviado à sua terra natal para completar os estudos na Faculdade de Teologia.
Três anos depois, em 1482, chega a Florença. Para este jovem frade, Florença constitui uma experiência maravilhosa, já que a considerava “A Cidade de Deus”. Aqui estuda e aprofunda com crescente entusiasmo a Sagrada Escritura e inicia a sua explicação aos noviços do Convento de S. Marcos. Jerónimo Savanarola que tinha ido em busca da paz do claustro para serenar a sua alma inquieta amargurada pelos pecados do mundo, teve a oportunidade de empreender um novo rumo na sua vida de austeridades: redobra os jejuns e as penitências. Usava os hábitos mais gastos e prestava os serviços mais modestos levando ao extremo a sua humildade.
Era um jovem muito concentrado e silencioso, e vivia debaixo das secretas e íntimas realizações espirituais que se processavam no seu interior. Os seus superiores cedo descobriram um ser especial, um espírito cultivado, e que havia aprofundado Aristóteles e S. Tomás de Aquino. Era forte e directo na dialéctica escolástica e tinha natural eloquência.
Na verdade, haveria mais grato destino para quem queria renunciar ao mundo do que aquele que os claustros de S. Marcos oferecia?
   


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