Fundação Maitreya
 
Entrevista com Maria

de Joel Neto

em 01 Jul 2020

  “Escrevo porque tenho algo a transmitir. Tudo o que digo resulta de realizações internas, das minhas experiências pessoais de compreensões. E é isto que me leva a que chamo a minha missão: ajudar ao despertar espiritual de Portugal e dos portugueses” diz. A sua esperança é que, no dia em que vier Maitreya, o segundo Buddha, também haja no nosso país pessoas prontas a recebê-lo. “No Ocidente, encara-se muito a vinda de Maitreya como a segunda vinda de Cristo. Como se tratasse da mesma energia. No Oriente, contesta-se esta visão. A mim, sinceramente, nem me interessa isso: será algo acima de todos os rótulos”.

Vendi dez mil livros de espiritualidade,

Eis o grande cabeçalho do artigo do jornalista Joel Neto a partir da entrevista que fez a Maria, e que saiu no dia 22 de Outubro no Correio da Manhã.

Maria. Assim mesmo, com um só nome. Quem vai aos livros de Maria Ferreira da Silva, um total de dez obras sobre espiritualidade publicadas nos últimos anos em edições de autor ou na recém-criada editora Maitreya, só encontra esse nome no lugar do autor: Maria. “Aquilo que procuro é um caminho de despojamento. Despojamento do nome, despojamento de dinheiro, despojamento de convenções sociais, até despojamento de afectos. Sou vegetariana (…), exerço a renúncia”, explica a própria autora. Com 60 anos, Maria Ferreira da Silva é a principal impulsionadora do Budismo Theravada em Portugal e, ao mesmo tempo, a maior escritora portuguesa sobre filosofias orientais, com mais de dez mil exemplares vendidos. Vive numa casa antiga mas confortável, em Cascais. É educada, elegante, polida – a antítese do estereótipo de vidente português, de ar semilouco e discurso desconchavado. E, porém, dispara a certa altura: “Numa das minhas vidas anteriores fui Maria Madalena”, dispara não, di-lo num tom cauteloso, quase envergonhado, prevendo de imediato o que acharão dela os mais cépticos. E é inevitável que, a partir desse momento, a conversa siga por aí.

“Tenho um percurso “sui generis” na espiritualidade. Casei-me muito cedo e fui muito feliz durante bastantes anos. Por volta dos 35 no entanto, comecei a sentir um apelo interior para ajudar os outros por um lado, e para encontrar respostas para uma determinada transformação mística para que me sentia vocacionada. Aos 40, estava divorciada e afazer um caminho independente no domínio espiritual”, conta.
É nessa altura que recomeçam na minha vida algumas experiências espirituais que já tivera na infância. Aparece-me Mestre Jesus e pede-me que faça um período de recolhimento, meditação e jejum, de forma a preparar-me para o que se vai passar a seguir. Uma semana depois, volta a aparecer-me e diz-me, então sim, que numa das minhas vidas anteriores eu havia sido Maria Madalena. No estado espiritual em que estava naquele momento, foi uma felicidade. Quando ele começou a desvanecer-se pensei que não estava boa da cabeça. Depois voltei a acreditar”.

Dois pontos: primeiro, aquela não terá sido a primeira vez que Jesus Cristo lhe apareceu, de acordo com o que diz a própria Maria Ferreira da Silva. Segundo, Maria Madalena não foi sua única encarnação – longe disso. “Nasci num lar católico praticante do Porto e comecei a ter experiências de vidência muito cedo. Entre os 8 e os 12 anos. Mesmo Jesus apareceu-me várias vezes, sempre nos planos etéricos, invisíveis. Foram visões que se repetiram ao longo desse tempo”, garante. “Numa das minhas vidas, portanto, fui Maria Madalena. Noutra, fui um faraó no Egipto. Noutra ainda, um pária na Índia, no que terá sido uma vida de enorme sofrimento. E, numa vida mais recente, fui uma freira em França. Esta foi uma das vidas mais relevantes, a par da de Maria Madalena. Agora, porém, estou a fazer tudo para não voltar a incarnar. É muito doloroso percorrer de novo o processo de crescimentos de um corpo físico, do nascimento até à morte, passado pela infância pela adolescência e pela idade adulta. E, de qualquer forma, Cristo diz-me que eu tenho muito trabalho a fazer com eles do outro lado, no pós-morte, que é também vida”, acrescenta.

Muitas destas experiências vêm contadas em “O Avatāra”, o mais bem-sucedido dos livros de Maria. Mergulhada há 25 anos nas filosofias orientais, a escritora tornou-se entretanto num verdadeiro ícone para um determinado nicho do mercado editorial português. À margem, investiu-se a si própria no papel de principal promotora do Budismo Theravada em Portugal. Com quase tMaria com crianças no Nepalrês mil anos, a filosofia budista nasce com Buddha, príncipe indiano que viveu 600 anos antes de Cristo e se deixou sensibilizar pelos males do Mundo após ter passado os primeiros tempos de vida a salvo dos mesmos, retido no palácio por decisão paterna. Ao longo dos séculos, a filosofia acabou por ramificar-se em quatro correntes principais: Budismo Mahāyāna (ou tibetano), a principal corrente, cujo líder é Dalai Lama; Budismo Zen, divulgado sobretudo no Japão, na Coreia e na China; Budismo Vrajayāna e Budismo Theravada, o ramo mais ortodoxo de todos onde e cultivam as práticas mais ancestrais e mais ênfase se dá à meditação. Em Portugal, onde a União Budista congrega os vários ramos, apenas o Budismo Tibetano tem alguma expressão – e mesmo assim residual, se tido em conta o contexto da sociedade portuguesa. Já este ano, porém, Maria Ferreira da Silva conseguiu organizar um retiro na Arrábida com a participação de Ajahn Sumedo, líder mundial da corrente Theravada – e dos colóquios e “workshops realizados ao longo da estada de Sumedho em Portugal resultou o aparecimento de vários interessados.

“O Budismo está muito longe de ser uma coisa para mulheres sozinhas, como parece dizem alguns. Há muitos homens budistas e, aliás, nos mosteiros à excepção dos Theravada, só há homens. Por outro lado, a mulher, sendo tão inteligente como o homem, tem um espírito mais aberto. A maternidade desenvolve a sua capacidade de amar, a sua sensibilidade”, explica Maria. “O que é preciso de qualquer forma é procurar a espiritualidade. Todos somos espirituais, mas apenas alguns têm consciência disso. E é essa consciência que faz a diferença. Em mim, a espiritualidade renasceu quando, por volta dos 35 anos, acordei de um sonho com uma profunda sensação de felicidade, como se viesse de um estado de não-existência, de morte, de comunhão com Deus – de tal modo que, no fundo, até tive pena de acordar. Às outras pessoas, ela há-de manifestar-se de maneiras diferentes. Mas, se estivermos atentos aos apelos que surgem, podemos fazer um trajecto”.

Um centro espírita em Lisboa, um mosteiro em Inglaterra, os mais diversos locais de romaria (peregrinações) no continente asiático – vários são os palcos onde Maria Ferreira da Silva se tem dedicada à espiritualidade. É sensibilizar Portugal, porém, o seu principal objectivo. “Escrevo porque tenho algo a transmitir. Tudo o que digo resulta de realizações internas, das minhas experiências pessoais de compreensões. E é isto que me leva a que chamo a minha missão: ajudar ao despertar espiritual de Portugal e dos portugueses” diz. A sua esperança é que, no dia em que vier Maitreya, o segundo Buddha, também haja no nosso país pessoas prontas a recebê-lo. “No Ocidente, encara-se muito a vinda de Maitreya como a segunda vinda de Cristo. Como se tratasse da mesma energia. No Oriente, contesta-se esta visão. A mim, sinceramente, nem me interessa isso: será algo acima de todos os rótulos”.

É em “O Avatāra” (título originalmente em sânscrito), lançado em Maio de 2005 (2ª edição, a 1ª em Outubro 2002), que Maria Ferreira da Silva mais se expõe. Nele se contam alguns passos da sua progressão espiritual. Mas o percurso literário de Maria começa muito antes, há cerca de duas décadas com “Maitreya Vem…”, publicado em edição de autor. Seguem-se os mais variados livros, entre os quais “O Silêncio – A Melatonina e a Meditação”, “A Eterna Sabedoria – Religiões”, “Folhas de Luz”, “Guia de Meditação – A Meditação e o Equilíbrio Interior”, Tratado de Meditação”, ou “As Iniciações” entre outros. Alguns foram entretanto reeditados e integrados na chancela Maitreya, criada pela própria Maria Ferreira da Silva. “Hoje em dia as livrarias já aceitam os meus livros. Antigamente, achavam que era bruxaria ou coisa do género. Olhavam-me de lado”, explica Maria. “Aliás, só de há uns dois anos a esta parte é que Portugal começou a despertar um pouco para a espiritualidade. E, agora tenho esperança de que essa tendência triunfe”.

Correio da Manhã - Outubro,2006
   


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Impresso em 30/10/2020 às 7:42

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