Fundação Maitreya
 
Bhagavad-Gītā

de Rājarāma Quelecar

em 09 Nov 2006

  Durante os anos 2004 e 2005 editamos nesta Área os primeiros capítulos da Bhagavad-Gītā, pelo que retomamos agora a sua apresentação, a partir do capítulo décimo.
Bhagavad-Gītā, (que literalmente significa «cântico do Bem-aventurado») é um episódio do Mahābhārata a grande epopeia indiana obra monumental de Vyāsa quinhentos anos antes da era cristã e traduzido em quase todas as línguas literárias da Índia, desde os Himālayas até ao cabo Comorim e em várias outras do mundo.


Introdução

É uma das obras primas da literatura mundial e a melhor jóia da literatura indiana. A Gītā ensina-nos que a finalidade do homem é a sua espiritualidade e que todo o homem deve trabalhar sem esmorecer para alcançá-la utilizando para esse fim, todas as suas possibilidades, esclarecendo-nos mais as verdades superiores da filosofia e da religião, a conduta do homem na sociedade e a da sociedade humana no mundo cósmico. Quando nós deixarmos de nos limitar neste centro estreito que é o nosso corpo realizaremos então em nós Deus que é o nosso Eu. São estes e outros ensinamentos que tornam o poema maravilhoso. Kuru é o nome dum importante «clan» ariano. Os Árias depois de se estabelecerem na Índia trouxeram à cultura uma grande região da terra que, mais tarde, se chamou Kurukshetra (campo de Kuru) e fundaram o reino de Hastināpura (hoje Delhi). Sendo esse campo a primeira obra geo-económica dos Árias, os seus descendentes consideraram-no como sagrado e fizeram dele o lugar, para celebrarem os seus sacrifícios religiosos e praticarem austeridades.

Pāṇḍu, rei de Hastināpura, tornado enfermo, nomeou regente seu irmão Dhṛtarāṣṭra, cego, e foi ele, acompanhado das suas duas rainhas, por recomendação do seu médico, para as regiões dos Himālayas, em mudança de clima. Melhorou a sua saúde e teve lá cinco filhos, sendo da rainha mais velha três, que se chamaram Yudhistira, Bhīma e Arjuna, e da mais nova dois, Nakula e Sahadeva. Chamaram-se todos eles Pāndavas, nome este derivado de Pāṇḍu, seu pai. Alguns anos depois o rei Pāṇḍu morreu repentinamente. A rainha mais nova, segundo os costumes de então, sujeitou-se a Sati, encarregando dos cuidados dos seus filhos a mais velha. Esta, com cinco crianças, regressou a Hastināpura, onde lhes foi dada instrução, incluindo a da arte militar, pelo mestre de incontestável valor Droṇa, ou Droṇāchāria, juntamente com os filhos do XII regente Dhṛtarāṣṭra, que eram em número de cem e que se chamavam Kauravas, sendo Duryodhana o primogénito. Chegados à maioridade e concluídos os estudos, os Pāndavas pediram a Dhṛtarāṣṭra a parte do reino que lhes cabia de direito. Mas Duryodhana obrigou o pai a negar-lhes este direito.

A intervenção de Bhīsma, tio-avô dos Pāndavas e dos Kauravas também, um dos conselheiros do reino, foi em vão. Śri Kṛṣṇa, que era chefe do «clan» Yadava amigo e parente comum e que mais tarde foi reconhecido Deus incarnado, reclamou a Dhṛtarāṣṭra, como medianeiro, em nome dos cinco Pāndavas, cinco aldeias só, que Duryodhana recusou brutalmente, dizendo que não daria nem uma polegada de terra, nem mesmo a que se pudesse reter na ponta duma agulha. Assim, tornou-se inevitável a guerra, que dividiu a Índia em dois blocos. Todos os príncipes da Índia tomaram parte nessa guerra. Śri Kṛṣṇa, a quem Arjuna e Duryodhana foram pedir auxílio, disse que dispunha da sua pessoa e do seu exército, que cada um escolhesse segundo entendesse. Duryodhana escolheu o exército e Śri Kṛṣṇa, então, tomou o partido oposto, não como combatente, mas como condutor do carro de Arjuna, que Ele, Deus-Homem, elegera para seu discípulo, a fim de dar a sua mensagem à Humanidade e conduzi-la à imortalidade, neste mundo.
O mestre Droṇāchāria e o tio-avô Bhīsma tomaram o partido de Duryodhana, por Dhṛtarāṣṭra os ter sustentado, economicamente durante toda a sua vida. Sañjaya, o condutor do carro do velho e cego Dhṛtarāṣṭra, conta-lhe tudo o que se passou no campo da batalha. E é neste campo de Kuru que começa a Bhagavad-Gītā, o cântico divino que ensina a Humanidade a elevar-se à consciência universal, a única maior conquista que o homem, neste mundo, deve alcançar.

CANTO X

Suprema Palavra
I
Śri Kṛṣṇa: - Escuta, oh Arjuna, ainda uma vez a minha palavra suprema; vou-te dizer, para teu bem e porque te prezo muito:
II
Nem os deuses nem os maiores Ṛṣis conhecem a minha origem, porque Eu sou a origem desses deuses e desses Ṛṣis.
III
Aquele que Me conhece, sem ilusão, como sem nascimento, sem origem, Senhor Soberano do mundo e dos povos, fica livre de todos os pecados e males.
IV
A inteligência, o conhecimento, o discernimento, a indulgência, a verdade, o auto-domínio, a serenidade, o prazer, a aflição, o nascimento, a morte, o medo e a coragem,
V
Bem assim, a não violência, a igualdade, a satisfação, a austeridade, a generosidade, a glória, a infâmia, todas estas qualidades no homem procedem de Mim.
VI
Os setes grandes Ṛṣis e os quatro Manus de que descendem todos os seres vivos deste mundo, são emanação intelectual Minha.
VII
Aquele que conhece, em todos os princípios, essa Minha expansão Yoguica, sem dúvida alcança o Yoga e se mantém firme e inabalável nele.
VIII
Sou a origem de todas as criaturas e sou Eu que animo tudo. Conhecendo profundamente esta verdade, certos homens Me adoram com um amor fervoroso.
IX
E eles, concentrando todo o seu espírito em Mim, sacrificando toda a sua vitalidade por Mim, ilustrando-se uns com os outros, Me gloriam e assim exultam.
X
A esses enlevados que me adoram com o amor profundo, dou-lhes a claridade intelectual suficiente para Me atingirem.
XI
E, por piedade deles, com o facho Meu, qual lâmpada refulgente do conhecimento, destruo todas as trevas da sua ignorância.
XII
Arjuna: - Tu és o supremo Brahman, a suprema mansão, a suprema pureza, a única existência, Deus único e original, não nascido, Senhor e omnipresente.
XIII
Todos os Ṛṣis Te louvam, unanimemente, nesses termos e os poetas Nārada, Asita, Devala e Vyāsa Te cantam da mesma forma, e Tu próprio me declaras o mesmo.
XIV
Acredito em tudo o que Tu me dizes. Mas, oh Kṛṣṇa, a Tua origem é uma incógnita, tanto para os deuses como para os demónios.
XV
Tu, o criador e senhor do universo, animador de toda a existência, Deus Único, só Tu Te conheces, oh Supremo, pelo Teu misterioso poder.
XVI
Diz-me, sem nada omitir, as tuas manifestações sublimes, pelas quais Tu transpareces neste mundo cósmico.
XVII
Diz-me também, como eu Te posso conhecer, em todos os instantes e em todos os lugares, e qual o Teu aspecto que eu devo tomar na minha oração mental quotidiana, oh Kṛṣṇa.
XVIII
Explica-me, oh Kṛṣṇa, detalhadamente, todo este Teu mistério e as Tuas manifestações. Será para mim o néctar da imortalidade e um encanto ouvi-lo, sem me fartar.
XIX
Śri Kṛṣṇa: - Sim, vou-te enumerar, oh Arjuna, com prazer, só as minhas manifestações proeminentes, porque todas elas são sem fim e sem limites.
XX
Sou a essência eterna oh Arjuna, de todas as criaturas do universo e sou o princípio, o meio e o fim de todos os seres.
XXI
Entre os Adityas sou Viṣṇu e o sol radiante entre as luzes e esplendores. Sou Marishi entre os Maruts e a Lua entre os astros que brilham no céu.
XXII
Sou Sāma entre os Vedas e Vāsava (Indra) entre os deuses. Sou a mente nos sentidos e sou a vitalidade de todos os seres vivos.
XXIII
Sou Śiva entre os Rudras e o senhor das riquezas entre os Yākṣas e Rākṣasas. Sou o fogo entre os Vasus e Meru entre as montanhas.
XXIV
Sabe tu, oh Arjuna, que sou Bṛhaspati entre os predicadores eminentes. Sou Skanda entre os comandantes dos exércitos e o oceano entre as águas correntes.
XXV
Entre os grandes Ṛṣis sou Bṛgu e sou AUM, sílaba sagrada entre as palavras. Sou Japa (repetição silenciosa dos nomes sagrados) entre as formas de adoração e Himālaya entre os imóveis.
XXVI
Entre as árvores sou Ashvatha (árvore do pipal) e Nārada entre os Ṛṣis divinos. Sou Shitaratha entre os Gandharvas e o sábio Kapila entre os perfeitos.
XXVII
Sabe tu que sou Ucchaiśravas, nascido do néctar, entre os cavalos, e Airāvata entre os elefantes, e entre os homens o chefe soberano sou Eu, oh Arjuna!
XXVIII
Sou o raio entre as armas e kāmadhenu (vaca da abundância) no gado vacum. Sou o instinto genésico nos progenitores e Vāsuki entre as cobras.
XXIX
Sou Ananta entre os Nāgas e Varuna entre os povos marítimos. Sou Aryaman entre os manes e Yama entre aqueles que sancionam as leis.
XXX
Sou Prahlāda entre os aborígenes selvagens e o Tempo entre os devoradores. Sou o leão entre os animais silvestres e a águia entre as aves.
XXXI
Entre os purificadores sou o vento e Rāma entre os guerreiros. Sou o crocodilo entre os aquáticos e Ganges entre os rios.
XXXII
Da criação sou Eu o princípio e o fim e também o meio. Nas ciências sou o conhecimento espiritual e nos debates sou dialéctica, oh Arjuna.
XXXIII
Sou A nas letras do alfabeto e composto dual nas palavras compostas; sou o imperecível tempo e senhor soberano de toda a existência.
XXXIV
Sou a morte que ceifa tudo, sem distinção, e o começo daqueles que virão a nascer. No vocabulário feminino que diz respeito a qualidades, sou a glória, a riqueza, a palavra, a memória, a inteligência, a constância e a misericórdia.
XXXV
Sou o grande Sāman entre os hinos e Gāyatrī na rítmica; Sou Mṛgashīrsha entre os meses e a Primavera entre as estações.
XXXVI
Nas artimanhas especulativas sou o jogo dos dados, e nos poderosos a força. Sou a resolução, a perseverança e a vitória e sou a qualidade sátvica dos bons.
XXXVII
Sou Kṛṣṇa no clan dos Vṛśnis e Arjuna entre os Pāṇdavas. Sou Vyāsa entre os sábios e Ukśana entre os poetas profetas.
XXXVIII
Sou a soberania e o poder dos governantes e a diplomacia dos conquistadores. Sou o silêncio do segredo e dos grandes sábios o conhecimento.
XXXIX
Sou a semente de todas as criaturas. E, oh Arjuna, nenhum ser, quer animado quer inanimado, pode existir, neste universo sem Mim.
XL
As minhas manifestações proeminentes são sem fim, oh terror dos inimigos. O que te acabei de expor é um sumário delas, para tua ilustração.
XLI
Tudo o que te inspira o respeito, bem assim, tudo o que é belo e sublime, considera-o como originado do facho da Minha essência.
XLII
Mas, que te importa a ti conhecer tudo isso em detalhe? Sabe tu, oh Arjuna, que o universo inteiro tem o seu “devir” na pequena parcela da Minha Essência.
   


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Impresso em 14/4/2024 às 9:52

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