Fundação Maitreya
 
Viagem ao Tibete

de Maria

em 19 Mai 2019

  À partida, sobretudo quando se viaja para o Oriente, leva-se sempre alguma expectativa de encontrar algo ou pessoas especiais. Estas viagens tornam-se fascinantes pelo exótico das situações, dos costumes, pela religiosidade ainda fortemente vivida tanto no Tibete, patente no silêncio dos mosteiros, como na Índia onde os Guru e os āśrams acolhem o peregrino, porém, o principal e o mais importante é o que se leva interiormente, e depois o que se vive lá. A finalidade da viagem ao Tibete, e que teria de passar necessariamente pela Índia e Nepal, era permitir-me cumprir um karma e uma missão. Antecipadamente fiquei ao corrente dos motivos da viagem, e fui avisada pelos Mestres do sofrimento físico que iria enfrentar. Sabia de antemão que não iria encontrar ninguém em especial, pelo que só nos esperava trabalho interior.

Mosteiro de Será“Nos Himālayas do meu interior, oiço a Voz de Deus”.

(Excertos do capítulo "Viagem ao Tibete" do livro, O Avatāra)

7-7-89
Partida para Katmandu.
“Quando o avião aterrou fui tocada no coração por Maitreya. A emoção foi forte e senti um grande Amor pelo Nepal. Ainda um mundo mais exótico que a Índia. Hotel razoável, com limpeza, mas barulhento. É muito central”.

8-7-89
“Visita ao Templos em Katmandu e à Cidade de Pashupatināth. Nesta última, visitámos a área considerada sagrada, com vários templos e um terraço para cremações ao lado do rio onde eram deitadas as cinzas. Um braço do Ganges descendo pelos Himālayas, e um crematório à semelhança de Banaras.
Encontramos um asceta, um “guru”, no qual reconheci, com o meu coração, um ser no Caminho. Senti serenidade e amor, também tinha um rosto doce, olhos brilhantes e puros.
Com este “guru” aconteceu algo interessante. Quando o visitámos, ao conversarmos um pouco, (falava inglês) o Discípulo pediu-lhe para meditarmos com ele um quarto de hora apenas, visto termos vindo de táxi e não podermos despender mais tempo nesta visita. Como resposta o “guru” disse-nos, que para meditarmos precisávamos de pelo menos uma hora. Agradecemos ter-nos recebido e prometemos voltar com tempo para meditarmos.
Uns dias depois pensei em visitá-lo novamente. Como resposta ao meu pensamento, Mestre Jesus disse-me que não fosse. Achei estranho, pois reconheci no “guru” um ser puro, mas a verdade é que o Mestre disse-me que não tinha de meditar com ele.

De qualquer modo as circunstâncias proporcionaram-se e, já através de um autocarro local, visitámos de novo este conjunto de templos em Pashupatināth, considerado tão sagrado pelos nepalenses. É evidente que voltamos à casita do asceta e pensei deixar-me levar pelos acontecimentos, a ver o que sucedia. Quando entramos ele não estava sozinho: havia na sua companhia um monge budista e um leigo expondo seus problemas e, como dizia o “guru”, estavam falando das coisas de Deus. Sentamo-nos e fomos ouvindo a conversa, intrometendo-nos um pouco. Perguntou-lhe o Discípulo ao cabo de alguns minutos, se podíamos fazer então a prometida meditação. A resposta dele foi que, para a fazermos precisávamos de pelo menos de três horas. (Tinha aumentado o tempo de meditação, porquê?)
Nada dissemos e aguardamos, até que o Discípulo começa a fazer perguntas e resolve fazer uma de comparação entre hinduísmo e budismo, quanto às concepções de Deus. Pergunta difícil, diga-se em verdade. O “guru” pegou num livro e procurou a resposta para dar. Folheou durante uns cinco minutos o livro detrás para frente e de frente para trás. Pegando em algumas fotografias que estavam no meio do livro, via-as e revia-as. Olhava por vezes para nós e mantinha-se no mais completo mutismo, apenas sorrindo. Compreendi então que a ordem do Mestre estava sendo cumprida. O próprio “guru” estava a ser ”comandado” de cima, inconscientemente penso eu. Percebemos que eram horas de nos retirarmos: nem resposta, nem meditação...
Tinham-me os Mestres avisado que nesta viagem não íamos em busca de ninguém, apenas de nós próprios”.
21h.
“Deixamos os hotéis e instalamo-nos, separados num Mosteiro Budista Theravada, em Patan. Agora neste mosteiro procuro ambientar-me e espero que me permita recolhimento. Estou num quarto limpo. A meditação não foi má. Há contudo bom ensinamento espiritual. No mosteiro de Amarāvati em Inglaterra, o seu responsável, Ajhan Sumeddo, tem uma obra bem mais rica e completa, em comparação com estes mosteiros em Katmandu. Confessemos também que o problema da linguagem é por vezes o responsável pela ausência de maior entendimento.
Porém, há aqui uma grande discriminação em relação às mulheres, e como tal as monjas vivem num edifício à parte, limpam o mosteiro dos monges, são uma espécie de criadas. Por exemplo, fomos convidados para assistir noutro local a uma ordenação de monges, mas nenhuma monja será levada para assistir. Vestem de cor de rosa. Levantam-se às cinco da manhã, mas não meditam, (os monges também não meditam de manhã). Elas faziam muito barulho a arrumarem os quartos, falam muito alto, coisa a que não estava habituada, sobretudo lembrando-me do silencioso Mosteiro de Amarāvati, em Inglaterra”.

11-7-89
Partida para Pokhāra.
“Resolvemos deixar a cidade rumo às montanhas e a um lago. A espera da camioneta é feita na rua, na qual se encontram jovens dormindo no chão. Tanta miséria no Nepal impressiona-me. Tomei o pequeno - almoço numa tasca imunda onde nunca pensaria entrar alguma vez na vida.
A vida no Oriente começa muito cedo. Às seis da manhã já está muita gente na rua. Este povo é interessante pois há muita mistura de povos. Das mulheres, umas vestem à indiana, outras à nepalesa e há ainda as tibetanas. A mulher sabe conservar a tradição do seu traje. Vêem-se lindos sarís mesmo que seja em sítios de grande pobreza. Aqui no Nepal as mulheres não se cuidam tanto como na Índia, embora pintem muito os olhos, mas penso que é mais por motivo religioso. É um facto curioso ver, principalmente nos templos, as crianças desde tenra idade com os olhos pintados. Há com certeza um significado espiritual, ou religioso, do qual não tenho conhecimento. Fomos ver um templo onde há uma deusa virgem, personificada por uma criança que aparenta uns dez anos de idade e que durante um ano vive nesse templo. Para a vermos, damos algum dinheiro e a virgem, Kumarī, assoma à janela. Era uma jovem bonita e, naturalmente, muito pintada; um símbolo religioso vivo...
Há uma festa anual na qual se realiza um cortejo onde a Kumarī se passeia transportada numa espécie de coche ou andor, abençoando a população. Assisti curiosamente a essa procissão e tive a oportunidade de ver não só Katmandu em festa, como apreciar a dedicação deste povo à vida religiosa, patente em inúmeras outras festividades, ainda muito concorridas.
Porém, nos templos, por vezes, vivem as pessoas conjuntamente com os animais domésticos, o que os torna um pouco desagradáveis devido aos cheiros e à sujidade”.
17h.
“A viagem foi um pouco maçadora porque a estrada é quase um caminho de cabras esburacado. A paisagem verdejante e as quedas de água diminuíram os incómodos provocados pelos solavancos de uma camioneta pouco confortável e apinhada.
Estamos agora num Mosteiro Budista Theravada, em Pokhāra. Não fomos recebidos com cordialidade e foi preciso insistirmos para ficarmos ao menos uma noite. O local é belo e a vibração é das melhores que tenho sentido aqui no Oriente. Tem jardim com rosas e o quarto que nos foi dado, à parte as formigas gigantes, que mordem muito, é limpo. Em frente ficam montanhas e mais detrás estão os Himālayas, segundo dizem, visíveis às cinco da manhã. O Templo é limpo e sente-se bem - estar. O quarto que nos destinaram é pegado ao Templo e a uma sala onde se fazem curas espirituais, não pelos monges, mas por leigos”.

12-7-89
“Ao princípio da noite de ontem pensava que iria passar uma noite sem dormir, pois o quarto estava infestado de formigas, mas dormi toda a noite e senti muita serenidade e paz no coração. Apesar da chuva o primeiro sono foi profundo e parece-me ter ido muito longe. As formigas com a luz apagada não nos tocavam. O local é de facto muito espiritual e tenho pena de sair daqui. É difícil encontrar um sítio que reúna as condições de bem - estar físicas e espirituais.
Agora às sete da manhã, as curas já começaram, e aflui continuamente gente. O que vejo fazerem é porem as mãos na cabeça das pessoas e ficarem em silêncio...
Ao princípio da noite começou a chover e nunca na minha vida vi tanta chuva durante tantas horas. É a época da monção e a chuva continua ainda de manhã.
O facto de estarmos num sítio onde ninguém fala inglês propicia maior interiorização e o que tem acontecido connosco nos últimos dias é de facto estarmos mais recolhidos com nós próprios. É este o trabalho: possibilidade de meditação e pouca exteriorização”.
20h,30
“Depois de um dia estafante à procura de hotel, descansamos num sítio aprazível. O hotel fica na margem de um lago rodeado de montanhas e à volta e ao longe estão os Himālayas. Sítio sossegado nesta altura do ano, é um lago muito visitado, Phewa.
As meditações têm sido boas. Além de sentir e entrar na Consciência dos Mestres, entro na Consciência de Deus, onde vivi outra vez a Não-Existência. De Maitreya recebo que devo preocupar-me em escrever. Creio ser este o local mais indicado para o fazer, pois sente-se quietude no ar.
Aqui em Pokhāra também as vacas e as pessoas convivem, e as galinhas e as cabras ainda fazem parte do ambiente familiar deste povo. As condições higiénicas são poucas, como é natural”.

14-7-89
14h.
“Há mais de doze horas que chove sem parar; está um dia cinzento, triste como é vulgar dizer-se e mantivemo-nos no quarto toda a manhã a meditar e a escrever”.
20h.
“Dia calmo passado no quarto em meditação. Recuperei forças. Ontem, já me sentia muito cansada.”

16-7-89
“Deus mostrou-me mais uma vez como Ele é Inteligência. A Luz da minha inteligência é condicionada pela mente das pessoas que me rodeiam, assim como acontece com todas as pessoas, e no convívio com os outros há uma interpenetração de mentes. Quando estou sozinha essa Luz faz-me viver mais em Inteligência pura. Que devo estar sempre acima dos problemas que surjam, pois as emoções são um obstáculo à lucidez mental”.

17-7-89
“Estou com o corpo adoentado com poucas forças físicas, devido a razões alimentares: tudo aqui é picante...
Só ao fim do dia consegui forças para dar um passeio a pé. Ao regressarmos viemos “saboreando” a paisagem do lago e das montanhas. Paramos na margem onde havia um pequeno templo e meditamos. Fiz saudação aos Devas e Anjos das montanhas e recebi resposta: era de um Deva enorme, inteligente e com muito poder. Vi-O por cima do lago, mas era um Deva da montanha. Esta sintonia foi óptima”.

20-7-89
Saída de Pokhāra.
“Depois de quase uma semana em Pokhāra, apesar das condições materiais e físicas não serem as melhores, vamos conseguindo um bom ambiente espiritual, criado por nós através de elevadas meditações, com algumas revelações e muito Amor dos Mestres”.
A viagem para Katmandu não foi muito fatigante e durante o dia recuperei forças. Todo o percurso foi feito entre montanhas e com um rio ao lado da estrada, o que a tornou agradável.
Hoje, finalmente, vimos bem os Himālayas à saída de Pokhāra, quando as nuvens se afastaram deixando o sol reluzir. No percurso Deus manifestou-se fortemente no meu coração, falando-me da união com Ele. Nesses momentos sofro por ter um corpo tão denso e não poder estar todo o tempo na Sua Consciência, embora eu o esteja, de certo modo. A vida exteriorizada da viagem dificulta-me ter sempre essa consciência e a possibilidade de solidão é por vezes impossível”.

21-7-89
De novo Katmandu.
“Creio que o período para nos ambientarmos um ao outro já passou e vamo-nos conhecendo aos poucos, nos defeitos e qualidades de cada um. Há mais compreensão e paciência. Este período de adaptação não foi fácil, visto cada um de nós estar habituado à solidão. A vida a dois requer uma compreensão e aceitação mútua tão difíceis de se realizarem, que de noite fui elevada a planos superiores para ser instruída sobre estas qualidades”.
21h.
“Hoje na altura do quarto de lua olhando as montanhas em Katmandu senti Deus e, que mais uma vez, estou a representar um papel nesta vida”.

29-7-89
Faz hoje um mês que começamos a viajar e, finalmente ao fim deste tempo, repouso num hotel limpo e decente. Estamo-nos a recompor. Tomei pequeno - almoço o que já não sucedia havia uma semana.
Sinto muita felicidade, apesar de estar de cama com dores reumáticas da humidade apanhada nas últimas semanas. Preciso de ganhar forças para a viagem ao Tibete que se aproxima”.
10h da manhã.
Ao conversarmos e ao analisar os nossos passos e problemas da viagem, dizia o Discípulo ser esta época da monção a pior, enquanto eu retorquia que aceitava tudo, visto o nosso “karma” ser o de estarmos naquela altura e não noutra. Nesse momento apareceu-me o Mestre Jesus confirmando a minha ideia ao dizer-me: ”Missão cumprida!
Referia-se às viagens pelo Nepal. Vi depois o Mestre Morya e o Amor dos Mestres ficou suavemente no meu coração”.
14h.
“A viagem ao Tibete está finalmente marcada e com grandes possibilidades de a fazermos: será a 6 ou 7 de Agosto, dizem-nos na agência Tibetana que trata de arranjar o ansiado visto aguardado há tantos dias”.

7-8-89
“Dei-me conta ao acordar, que tinha estado num sítio muito elevado pois trazia o coração cheio de Amor dos Mestres. Voltei a adormecer até às 6 horas.
16h,30.
“O Nepal é o país onde até agora vivi um karma mais difícil de suportar. As minhas condições físicas para esta vida são muito condicionadas pela fragilidade e sensibilidade, que não me permitem viver de qualquer forma. Preciso e precisei sempre de muita solidão de não misturar-me muito com as pessoas, de não frequentar sítios sujos e de estar longe das multidões. Aqui tenho de aguentar o contrário, e as energias esgotam-se e as dificuldades em repô-las são muitas.
Se dum lado sofro estas condições, doutro é esta sensibilidade que me liga ao reino superior Espiritual, onde sou feliz”.
Vésperas de partir para o Tibete. Continuo com poucas forças, sinto-me doente, sempre enjoada e aos vómitos de manhã, como agora aconteceu.”

8-8-89
“As quatro horas da manhã rimos os dois à gargalhada, ao contar um sonho que tive: “em viagem para o Tibete encontrava-me muito doente do estômago, como de facto estive esta noite. Quando cheguei a Lhasa, os tibetanos olhavam para mim espantados, porque a única coisa que me Templo em Katmanducurava era comer pedras muito pequeninas, quase rarefeitas. E estava deitada no chão, sem me poder mexer pelas dores, a comê-las”.
Quando acordei às cinco da manhã comecei a vomitar aliviando a má disposição dos enjoos. Possivelmente as pedras cumpriram a sua missão e saíram...
As seis horas e trinta minutos estávamos a apanhar o autocarro para Kodari e, depois, Tibete...”

Tibete
9-8-89
“A viagem correu bem até Kodari em autocarro. Depois fomos subir sete quilómetros de montanha a pé, facto inesperado para nós, pois não fomos avisados. Foi a maior e mais dolorosa aventura da minha vida: subir montanha a pique durante horas. Os guias eram os carregadores das malas. Tínhamos um prazo curto para a subida, visto a fronteira fechar às duas da tarde, pelo que as paragens para descansarmos eram muito pequenas, por vezes nem dois minutos.
Distanciei-me do grupo, pois uns eram mais jovens e outros habituados às montanhas. Apenas um inglês nos acompanhou na lentidão da subida (em relação aos outros), pois resolveu transportar ele próprio as suas carregadíssimas mochilas, onde levava arroz integral e tachos...
Por vezes eu era puxada pelo Discípulo, outras pelo carregador. Entretanto a chuva começou a cair. Em várias ocasiões pensei que não iria chegar ao cimo e o coração trabalhava tanto que sentia que ele ia rebentar. Era um grande esforço, ainda para mais não havia comido nada no dia anterior, havia vomitado às cinco da manhã e nada havia ingerido até ao momento da subida. O Discípulo deu-me rebuçados naturais para fornecer energias e lá fui aguentando. Chegamos finalmente à fronteira do Tibete (China), onde estivemos uma hora tratando da papelada.

Foi verdadeiramente uma situação dramática para mim. (Mais tarde soube em Lhasa, no contacto com outro grupo, que a subida deles ainda se tinha revestido de maior dramatismo, pois havia algumas pessoas de idade e que choraram de sofrimento pelas dores, e pelo esforço despendido).
Estavam à nossa espera, do outro lado da fronteira, carregadores tibetanos, pois faltavam ainda mais três quilómetros a subir. Tinham o pior aspecto que já vi em algum ser humano: muito sujos e esfarrapados, embora sorridentes e com vontade de ajudar. Contudo só tomaram conta das nossas malas após algum tempo de descanso nosso, num hotel e numa cena quase que aterrorizadora. Todo o grupo descera aos andares subterrâneos onde se encontrava um restaurante, ao que parece muito fraco, e eu ficara sozinha por não conseguir ainda comer, a guardar as malas. Subitamente, qual uma horda dos infernos, precipitaram-se sobre as malas e sobre mim, que as tentava defender, um magote de homens e mulheres em grande correria e algazarra. O meu primeiro pensamento foi o de quererem roubar tudo e aflita fui às escadas "berrar" pelo Discípulo. Mas foi um funcionário do hotel que conseguiu separá-los das malas e repor a calma no agitado átrio e em mim. Isto sucedeu porque havia mais carregadores que viajantes e, competem entre si, pelos seus meios de sobrevivência. Só mais tarde é que se fez o contrato pelo guia chinês do número de carregadores e do dinheiro que receberiam.

Começamos então de novo a subir montanhas. Chovia muito e todo o percurso foi feito em terra enlameada. Foi um esforço contínuo, ainda com os perigos de atravessar uma cascata, na qual a água descia velozmente pela montanha abaixo e apenas existiam umas pedras postas pelos carregadores a fazerem de ponte. Por vezes essas pedras nem se viam, ao ficarem cobertas pela água, e tínhamos que calcular onde elas estavam e também a dimensão do salto para nelas pôr os pés. Os homens ajudavam as mulheres mas, eu e a japonesa do grupo caímos, ou dobramos os joelhos demais e ficamos encharcadas e magoadas. Mas não podíamos sequer parar por causa do perigo das avalanchas e lá fomos arrastadas, numa luta quase titânica contra tudo, encosta acima, numa progressão que parecia de doidos...
Pensava ser o fim dos meus dias. Ao cimo da montanha finalmente havia um autocarro. Estávamos todos molhados e esgotados.
Começamos então a subir já de autocarro quatro mil metros, para pernoitar num albergue chino-tibetano. A paisagem era soberba!

Durante duas horas viajei molhada o que provocou uma constipação com altas temperaturas de noite. Nada comi durante este dia nem tão pouco à noite. O grupo jantou num restaurante pegado ao albergue. No dormitório (melhor barracão), deram um quarto para as mulheres, outro para os homens. Havia uma casa de banho na rua, (ou melhor dois buracos) e água canalizada não existia. Deram-na quente em garrafas térmicas, mas tão pouca que servia apenas para lavar os dentes e a cara.
Levantámo-nos às quatro da manhã, fizemo-nos ao caminho e percorremos quilómetros e quilómetros de terras desertas até às nove horas. As montanhas nevadas apareceram ao nascer do sol e parávamos de vez em quando, uns para tirar fotografias, outros para contemplar...
Continuo sem comer: o estômago recusa-se a qualquer espécie de alimentação, além da febre que já por si tira o apetite.
Agora aqui parados em Tingrim, sob um sol escaldante, depois de termos tiritado durante toda a noite com frio, e também de manhã, não almoçamos a comida chinesa de carnes e fritos. Para mim uma maçã e uma bolacha. O restaurante é dentro dum aquartelamento chinês onde se vêem alguns soldados”.

10-8-89
Sakya.
“Ontem chegámos a esta cidade às oito horas da noite, hora local. Há uma diferença de cerca de três horas do Nepal. A viagem foi fatigante e senti-me um pouco indisposta no ponto mais alto que passamos, cinco mil metros. Porém, nas neves frias e puras, pairava sobre mim o cálido Amor dos Mestres, sentido serenamente no coração. Neste ambiente gigantesco, tão projectado nas alturas como que numa evocação aos céus, senti a comunhão do Universo com os seres da Terra.
Também enquanto caminhava parecia-me que ouvia o ressoar dos passos dos primeiros pioneiros ocidentais que ali passaram, como se nos planos astrais o seu reflexo permanecesse.
Este hotel, tal como o anterior, não tem as mínimas condições. Não há casa de banho e satisfeitas as necessidades, ou se conservam no quarto, ou são atiradas pela janela fora. Passei uma noite mal dormida, devido à febre e hoje, ao olhar para mim, pelo desgaste sofrido na viagem, pareço mais velha dez anos.
A japonesa está pior que eu, pois não reage psiquicamente. Sendo a mais jovem do grupo ressentiu-se fisicamente de todas estas condições agrestes da viagem e tinha mais febre do que eu. Viajava sozinha e, como tal, faltava-lhe o apoio humano, o que é muito importante nestas ocasiões. Isto de viajar pelo Tibete é mesmo muito desgastante...
Esta cidade é muito pobre e, como é natural, as pessoas não andam muito limpas. Os trajes não são muito definidos, embora todos vistam de modo semelhante”.

11-8-89
“A viagem é tão preenchida e fatigante que nem dá para escrever, muito embora haja muita coisa para contar. São muitos quilómetros percorridos em poucos dias, as estradas não existem, ou são apenas caminhos de pedras e, por vezes, estão alagadas de água, o que obriga o autocarro a rodar em constantes solavancos. Torna-se uma viagem incómoda, até porque a camioneta não é confortável. (É provável que os chineses não estejam interessados em proporcionar muito bem estar aos turistas, mas sim, receber divisas).
O motorista é tibetano, mas o guia é chinês, Mr. Gorky, de trinta e poucos anos.
Ontem viajamos só depois do almoço. De manhã houve visita ao primeiro mosteiro ao qual não fui por me encontrar doente. Praticamente nada comi, o que vem sendo um problema, pois já não faço uma refeição há cinco dias, o que contribui para me sentir doente: o esforço despendido é muito e o corpo precisa de novas energias, difíceis de se obterem sem descanso.
Chegamos a Shigatzé cerca das dezanove e trinta, e esperava-nos finalmente um bom hotel. Até me parecia mentira puder desfrutar de lençóis tão limpos e de uma casa de banho, principalmente com chuveiro quente.

Fizemos uma refeição no quarto, mas mal consegui comer umas bolachas. Durante a noite tive febre e tremendas dores de cabeça o que atribuo também à altitude. Sonhei várias vezes com os chineses e eles não se mostravam nos sonhos muito cordiais, o que quer dizer que temos de ter cuidado. (Sonho profético).
De manhã houve pequeno - almoço ocidental, o que reconfortou um pouco o organismo. Conversamos com os italianos, casal espiritualista que fazia parte do grupo. Ele usava o pêndulo, tinha muita sensibilidade, intuição e certos conhecimentos. A propósito de pertencermos ou não a um grupo espiritualista, disse-me que eu sozinha representava um grupo e por isso não precisava deles. Corroborou as palavras de Mestre Morya: “O teu caminho é sozinha!”
Fomos então visitar o mosteiro de Tashilhumpo, mandado construir em 1445 por Tsong-Ka-Pa. (Um dos sítios mais bonitos, em termos espirituais, já que nem em Potala senti este misticismo). Havia a maior estátua de bronze do Buddha Maitreya, o próximo Buddha, e senti uma boa vibração. Visitámos muitas capelas onde se viam tibetanos a fazer oferendas e sempre com muita devoção. Prostravam-se no chão em vénias sucessivas e senti sinceridade e religiosidade no acto. Numa dessas capelas ou salas havia constante pere- grinação e era permanente a vigília espiritual que faziam ao corpo embalsamado do Panchen-Lama, a segunda autoridade religiosa do Tibete, recentemente falecido, e que aqui residia no tempo em que estava no Tibete, pois vivia também na China. Muito incenso, velas e cânticos e, ao ouvi-los, fui tocada no coração por tanta devoção.
Foi nesta manhã e neste mosteiro, em que me sentia tão doente, quase desfalecendo, e em que tive de reunir todas as minhas forças para acompanhar o grupo sem deixar transparecer o meu estado, que contudo senti a maior ligação espiritual até agora.

No final da manhã compreendi uma das razões pelas quais os Mestres me tinham preparado tanto para a morte: o meu corpo sofria, mas o meu coração era um poço de serenidade, não me afligindo pelo estado débil, pelo contrário, pronta para desencarnar a qualquer momento. Começaram então os Mestres a emanar fortemente Amor, e a gratidão tomou conta de mim como num autêntico cântico de aleluia. Esta felicidade fazia-me chorar e quando cheguei ao quarto, ao fim da manhã, rompi em pranto (para grande espanto do Discípulo), não só pelo sofrimento físico, mas principalmente pela alegria da gratidão.
O ponto culminante e mais desgastante do meu karma desta viagem estava no auge, mas sentia-me etérica, leve, apenas espírito. Quanto à Presença tão forte da Hierarquia era uma dádiva que eu não esperava, nem pensava merecê-la.
Depois de comer alguma fruta e enquanto descansava, sentia ainda mais os Mestres e Deus e interiormente comecei a realizar a Alegria do Sacrifício.

Com forças físicas renovadas, e principalmente espirituais intensificadas, fui a caminho de outro mosteiro. No percurso continuei a sentir o estado de bem-aventurança e a realizar o Tibete interiormente, com grande êxtase. Nunca tive tanta força psíquica e interna para aguentar uma situação tão dramática fisicamente.
Agora ao fim do dia, apesar de todos os esforços estou ainda com uma grande lucidez mental. Sinto nesta cidade de Shigatzé o momento ou o começo de maior trabalho espiritual dos dois com os Mestres, de toda esta viagem no Oriente”.
22h.
“Jantar às 21h. Finalmente ao cabo de alguns dias senti por intuição o que o meu estômago aguentaria e comi uma refeição: ovos mexidos. Para os conseguir comer, tive de acompanhar com ananás, pois já os tinha banido dos meus hábitos alimentares. Foi com grande esforço que os engoli mas sabia que era preciso alimentar-me para repor energias. Enquanto comia, alguns tibetanos entoavam uma canção, por sinal bela que me pareceu, e simbolicamente interpretei, como um grito de liberdade. O Discípulo entretanto escrevia e os tibetanos acercavam-se para o ver escrever, não sendo a primeira vez que se mostram curiosos com a escrita estrangeira. Quanto ao ananás foi cobiçado e um até me pediu um pouco.
Em relação ao grupo da nossa viagem não está mal constituído: há um alemão, creio ser o mais materialista e o mais experimentado, não só pela idade como por já ter viajado muito. Não se interessa por conversas espirituais e fez especial amizade com um suíço. Deve ter quarenta e oito anos. Quanto ao suíço é mais sensível: olhos doces e introvertido. Tanto um como outro interessam-se especialmente pela arte, um dos motivos da viagem ao Tibete. O suíço interessa-se por espiritualidade, lê Rudolf Steiner e tem cerca de trinta e oitos anos.

Há um jovem inglês (que me acompanhou na subida na montanha), transparente, de bom coração e também metido consigo mesmo. Por vezes dá-me ideia que se sente longe de todos e nada tem a ver com o grupo. Interessa-se por filosofias orientais e fascina-o o Tibete, onde pensa ficar e prosseguir a viagem depois para a China. É despretensioso e dorme muito durante a viagem. Não tem mais de vinte e cinco anos e leva “tshirt” com Tintim no Tibete. A Japonesa não dá muito para definir pois desde o princípio que está doente e pouco reage. Denota certa evolução espiritual, é delicada e é pela sua sensibilidade com certeza que está a ter problemas de saúde. Terá uns vinte e quatro anos. Quanto aos italianos, ele sabe o que quer, e tem boa vibração, com desenvolvimento do coração. Rondará os trinta e sete anos. Ela tem ar doce, força interior e coração desenvolvido. Terá trinta e três anos. Estão os dois por motivos espirituais. Mr. Gorky, o guia chinês é muito atencioso, simpatiza especialmente com o Discípulo e intitula-se seu discípulo.
Não sinto especiais afinidades com ninguém...

Amanhã viajaremos até Lhasa num só dia. Vamos passar outra vez por elevadas altitudes. Esta cidade, Shigatzé, é patrulhada pelos chineses por todo o sítio. O hotel é de chineses, os funcionários superiores são chineses pouco simpáticos, muito sisudos, com ar dA autora no Tibetee desconfiados.
Num dos mosteiros visitados hoje, pedi ao Lama que me deitasse nas mãos água abençoada do altar, visto ele o fazer aos tibetanos. Ao cair a água sobre a minha cabeça, os tibetanos acharam graça e riram. No átrio, outro Lama ofereceu uma bebida, a “tsampa”, que aceitei e gostei. Um pouco salgada, mas reconfortou-me.
Nos templos dos mosteiros encontram-se muitas pinturas murais com o Buddha e grandes e belos mandalas. Visitámos uma biblioteca muito escura que só através do flash da máquina revelou a quantidade imensa de livros antigos.
A ideia que tive da morte e senti de manhã está um pouco afastada. Sinto-me melhor de saúde embora com poucas forças”.

12-8-89
“Saída de Shigatzé às oito e trinta; a viagem correu bem e não foi muito cansativa apesar das dez horas de viagem. Passamos as montanhas mais altas que tínhamos pelo caminho. O espectáculo é assombroso, os picos das montanhas encontram-se com neve. Parámos no “passe” a 5.300 metros. Foi um ponto importante para sentir os Himalayas, abruptos, imperiosos dominadores dos planaltos. Neste ponto mais alto ergue-se um montão de pedras no meio das quais foram cravadas estacas com centenas de bandeirinhas de todas as cores ostentando orações budistas.
Quando já descíamos a montanha senti fortemente a Divindade e os Mestres. Deu-se então a união e fusão em Deus, igual à de quando me “puxava” e me fazia sentir a minha morte. Vivi este estado algumas horas na viagem.
Só a uns 50 quilómetros antes de chegar a Lhasa é que a estrada se torna transitável. Finalmente chegamos a Lhasa e, quando vimos o hotel, ficamos contentes pelo bom ambiente que nos aguardava. ”Cinco estrelas”, internacional, com todas as comodidades. Havia já alguns dias que não tinha um chuveiro quente e com tanta água correndo cara abaixo.
Sinto-me ainda muito desgastada, envelhecida, magra e com pouca paciência. Não jantamos e fizemos meditação. Compreendo que a falta de apetite que tenho por um lado facilita as ligações aos planos superiores.

Na meditação, invocamos os “yoguis”, Dalai-Lamas e santos tibetanos e saudámo-los. Depois apareceu-me o Mestre Djwal Kull. A Hierarquia saudou-me e vi vários Mestres. Com tanta ternura a emanar Deles, eu chorava e lembrava-me ao mesmo tempo de todo o sofrimento que havia tido para chegar até aqui, aonde Eles me tinham mandado. Só esta recepção da Hierarquia dos Mestres, (Fraternidade Branca), valeu todo o sacrifício da viagem, embora não estivesse à espera de nada. A seguir e perante os Mestres “vi-me” com o Discípulo nas mãos e entreguei-o a Eles...
Maitreya disse-me: Era isto que Nós queríamos de ti, missão cumprida!”
Disse-me também que a partir de agora eu estaria sempre com Eles, pois tinha adquirido esse direito de permanecer sem qualquer obstáculo nas Suas Consciências”
(Só passado um mês tive plena consciência do que isto era, ao entrar na Inteligência de Maitreya. Obtive então um alargamento de consciência pelo qual passei a estar perma- nentemente ligada à Sua Consciência)

13-8-89
“Dormi de seguida seis horas e não me lembro de nada, a não ser que quando acordei vi meu corpo preso por um fio à vida.
O primeiro dia em Lhasa começou por uma caminhada que me esgotou logo as forças adquiridas durante a noite. Lhasa não foi surpresa para mim, o que a fazia um pouco estranha eram os soldados chineses por todo o lado. Muitos tibetanos, como vendedores ambulantes, acercavam-se de nós insistindo para comprarmos bugigangas ou trocarmos dinheiro.
Visitámos o Templo de Jokhana, espécie de catedral - mosteiro no centro de Lhasa. É surpreendentemente belo, tanto por fora como por dentro. No átrio viam-se já os tibetanos a praticarem as suas devoções, criando um intenso ambiente místico e espiritual, ampliado pelos odores exóticos do incenso a arder em vários sítios. As peregrinações a chegarem ao templo eram constantes nesse dia (domingo). O ambiente dentro é bastante abafado pela manteiga de Yak (a simpática espécie de vaca - búfalo do Tibete), sempre a ser consumida nas lamparinas acesas dos altares, diante dos quais os tibetanos prosseguiam as suas adorações.
Apreciei uma parte do mosteiro de grande riqueza material e espiritual. Especialmente as paredes estão revestidas de belas pinturas, umas das mais autênticas artes tibetanas, vendo-se também grandes estátuas do Buddha Sākyamuni, de Maitreya e principalmente de Tsong-Ka-Pa, por vários cantos e capelas. No resto da visita fiquei no pátio, porque as forças eram poucas para andar a subir escadas. Depois percorremos o mercado tibetano à roda do Templo onde fizemos algumas compras. O almoço foi às duas horas. Sacrifiquei-me para comer e acabei por ficar outra vez enjoada. Regressámos ao hotel, fiquei a descansar enquanto o grupo saiu para outra visita. Agora estou melhor, mas o dia de amanhã vai ser cansativo, pois iremos subir a Potala, a esplendorosa residência dos Dalai-Lamas”.
Meditação às 22horas.
“Assim que comecei a meditar fui “puxada” a determinada vibração superior, onde me foi dito que “aquele portão último”, de que fala a “ Voz do Silêncio”, foi aberto para mim. Depois vi a estrada de Luz após o portão.
Depois senti o Mestre Djwal Kull e disse-me que nos ligássemos a Ele na visita a Potala”.

14-8-89
“Noite sem nada especial e acordei às oito horas. Saímos cedo do hotel, depois de um bom pequeno - almoço para visitar a famosa Potala. Custou-me um pouco a subir, mas não foi muito desgastante, apesar da chuva.
As salas são como nos outros mosteiros decoradas com pinturas e gravuras de grande arte, enormes “tankhas” (12) e colossais estátuas. Em duas salas fiz um pouco de meditação e senti a energia espiritual fluir com facilidade. Poucos monges, e os que há nem o parecem pelos trajes sujos que envergam. Quase todas as dependências se encontram vazias daquele fervoroso sabor religioso que naturalmente existiu durante tantos séculos e agora está destruído pela opressão chinesa. Restam o silêncio e o mistério...
Só nos deixaram ver metade de Potala, o resto está fechado ao público. Mr. Gorky fez-nos visitar Potala com rapidez para depois nos levar para um museu chinês sem o mínimo de interesse. Nem sequer nos deixava voltar a Potala para melhor o apreciarmos. Obrigou-nos a ir para o hotel descansar até às três da tarde”.
23h.
“Durante esta tarde visitámos Drepung, o maior mosteiro do mundo, com muitos templos. A arte, a riqueza, a devoção e o misticismo também aqui estão de mãos dadas. A paisagem avistada é o vale de Lhasa com as montanhas ao fundo.
A seguir visitámos o palácio de verão do Dalai-Lama, rodeado de frondoso e belo jardim. Foi todo reconstruído há pouco. O palácio está conservado pelos tibetanos como se o Dalai-Lama chegasse dentro de pouco tempo. A esperança de que o seu chefe religioso voltará alimenta este povo.
A noite fiz o sacrifício de comer com o grupo, jantar oferecido por Mr. Gorky. Muita comida, muita conversa, cigarros, cerveja, mas também a imposição chinesa patente na recusa de Mr. Gorky aceitar, que o motorista tibetano comesse connosco, o que azedou os ânimos do Discípulo. Uma noite algo perdida quanto a trabalho espiritual mais profundo.”

15-8-89
“A Saída do hotel para as visitas aos mosteiros foi tarde, pois surgiram complicações: além do atraso das pessoas, as burocracias num banco. Mr. Gorky atrapalha-se com facilidade e complica tudo. Ficou atarantado com o problema dum cheque que veio da agência de viagens, mas sem ser dos participantes deste grupo e que o banco central não aceitou e, já não queria ir visitar o mosteiro, que estava previsto ser o primeiro do dia de hoje. Por fim às onze horas, perante a instância do Discípulo, pusemo-nos a caminho de Ganden Temple que fica a aproximadamente 20km de Lhasa no cimo de uma montanha. A paisagem pelo vale, já de si muito bonita, foi enriquecida aos meus olhos pela beleza interior que fui vivendo, ao atravessar as grandes extensões de campos relvados, ora com ribeiros de águas cristalinas, ora com tibetanos a cavalo, trajando de cores garridas, esvoaçando ao vento.
Comecei por entrar em união com a Divindade, ficando extasiada de Amor. Nessa sintonia, Ela faz-me sentir e realizar o que será o meu futuro nos próximos meses. Se por um lado é-me dada a felicidade, que sinto suprema, do que será esse viver, por outro é-me dado ver o sacrifício que iria fazer e chorava.
Embora tentando que os companheiros de viagem não dessem por tal, chorava pelo estado místico, pela energia da kundalinī quase insuportável, e pela antevisão do futuro, pois naquele momento não me sentia preparada para enfrentar a missão que a Divindade me entregava.
Todo o percurso para o mosteiro foi feita nesta transcendência espiritual, em que num todo me era dado ver, através da comunicação directa com Deus, o que me esperava futuramente. O sentir que não estava preparada ou mentalizada, ainda me deixava mais lavada em lágrimas.
A subida foi feita com lentidão e já a meio da montanha se podia apreciar melhor a imensidão dos planaltos tibetanos. Lentamente ia surgindo o topo do mosteiro. Mas, abruptamente, após uma curva da montanha, deparamos com tendas de soldados chineses que nos aguardavam de metralhadoras nas mãos. Há tibetanos a viverem nas cercanias do mosteiro. Quase tudo foi destruído pelos chineses e é pena pois data este mosteiro do século treze, contudo, conserva ainda grande riqueza, apesar dos escombros visíveis por toda a parte. Interiormente o Mosteiro nada tem que o distinga dos outros, apesar de ser uma comunidade de monges grande em relação a outros já vistos.
Compramos iogurtes aos tibetanos e comemos com os monges. A seguir voltamos a Lhasa e visitámos ainda outro mosteiro; Será.
Depois dos estados espirituais por que passo, fico tão etérica que não chego a apreciar devidamente a forma de viver deste povo, ou a sentir-me fascinada pelo que quer que seja. Toda a minha riqueza interior abafa todo o deslumbramento de uma viagem como esta. Gostaria, por exemplo, em vez de ser obrigada a exteriorizar-me nas visitas, poder estar em recolhimento para reflectir sobre este meu futuro que tão incógnito se me apresenta, e para permanecer nestes estados de bem-aventurança”.

17-8-89
“Ontem saímos de Lhasa, de retorno ao Nepal. A viagem correu normalmente à parte algumas discussões com Mr. Gorky. Visitámos ainda um mosteiro numa pequena aldeia tibetana, esta com condições degradantes. Entrámos num restaurante onde a sujidade e os cães me fizeram sentir mau estar, mas como não havia mais nada, tivemos que comer o que nos apresentaram, embora eu só tenha bebido chá. Tudo é sujo desde a rua aos copos.
Uma parte deste mosteiro está em restauração, facto habitual no Tibete, pois os chineses tentaram destruir a religião lamaísta e a cultura tibetana, especialmente os templos e obras de arte. Viam-se em algumas pinturas as coronhadas bem marcadas das armas dos soldados. A febre maoísta já acalmou e só agora com a abertura às divisas ocidentais é que têm autorizado os pobres tibetanos a repararem os seus templos.

18-8-89
“Ontem a viagem foi maçadora e fiquei com os rins desfeitos. Pernoitamos em Tingrim no forte militar; as condições eram péssimas, mas dormi bem apesar da febre e do mau estar do coração manifestados no princípio da noite.
Saímos às sete e trinta e, assim que entrei no autocarro, voltei a entrar em sintonia com a Divindade, ficando em estado contemplativo toda a viagem. Recebi determinadas compreensões e senti o trabalho espiritual, ou responsabilidade, como ainda não havia sentido nesta viagem. A fusão com Deus deixou-me serena quanto ao futuro porque tudo virá de Cima. Sinto que realizei muita obra espiritual no meu interior, estou feliz, arrasada, mas mais uma vez realizada.
Continuo a receber de Maitreya a minha responsabilidade quanto à vinda dessa criança de Vénus”.
17horas.

“Regresso e fim da viagem ao Tibete.
E chegamos à fronteira do Tibete com o Nepal. Ficámos num hotel razoável com uma linda vista para a montanha. Chove bastante, como vai sendo costume no Nepal. Tivemos sorte na descida da montanha, não chovia e, assim não foi muito difícil descer. Só as pernas doíam. Na travessia da cascata apesar da ajuda dos outros caí de novo e molhei-me. Agora, no final da viagem, sinto-me calma e sem grandes problemas de saúde”.

19-8-89
“Quando estávamos ainda a poucos quilómetros da fronteira, por insistência do Discípulo sobre Mr. Gorky, parámos para visitar a cave de Milarepa.
Tinha recebido dos Mestres quando preparava a viagem, que devia visitar locais onde andou Milarepa, mas entretanto tinha perdido as esperanças de o fazer, visto não haver informações precisas acerca disso. Por acaso, ao olharmos o mapa dos italianos, já quase em cima da gruta, deparamos com a anotação clara de “Milarepa cave”. Descemos alguns metros de montanha, por entre uma bonita vegetação especialmente cuidada. Em baixo, corria um riozinho pelo desfiladeiro e viam-se montanhas com gelo ao longe.
Ao lado da cave propriamente dita fizeram um Templo dedicado ao yogui tibetano Milarepa, feiticeiro, eremita e poeta que aqui viveu de gruta em gruta, refugiado do mundo, meditando, para obter a libertação dos sofrimentos terrestres, ou a iluminação.
A razão porque era importante visitar este local, indicado pelos Mestres, era a de termos sido os dois, em vidas anteriores, discípulos deste santo tibetano.
Outra coisa importante, e pela mesma razão, pois por aí passou Milarepa, era meditar na fronteira entre o Nepal e o Tibete. Embora já estivéssemos estado em Kodari não houve nessa altura ocasião dum bom trabalho. Agora, neste sítio mais limpo e em plena montanha, consigo ter uma experiência meditativa mais profunda, e bastante inspiradora quanto à missão que nos espera.
Conversa entre os dois após a meditação, em cima de uns penedos de granito, estou serena e feliz”.

19-8-89
“Ultimo dia no Tibete, saída às nove e trinta do hotel. Esperamos meia hora na fronteira chinesa, pois só abre às dez. Começamos então a caminhada e a descida da montanha. Foi fácil, apesar da chuva.
A viagem de Kodari para Katmandu não se fez sem alguns contratempos, desde um pneu furado à falta de gasolina.
Aguardo agora a viagem para a Índia. Não tenho qualquer vontade de regressar seja para onde for, nem de ficar quer no Nepal, quer na Índia. As poucas coisas que ainda tenho comigo, apetece-me dá-las ou deitá-las fora. Sinto vontade de estar na Não - Existência”.
   


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Impresso em 19/7/2019 às 13:59

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