Fundação Maitreya
 
De Darjeelling ao Sikkim

de Maria

em 08 Fev 2007

  Eis algumas notas duma peregrinação a locais importantes, que contudo não são reconhecidos exteriormente como sagrados, ou haja algo de especial a assinalá-los, a não ser uma agradável atmosfera de bem-estar, convidativa geralmente ao repouso...


Kanchendzonga - Pintura de MariaQuando me dirigia para o Sikkim passei por Darjeelling e, encontrei os tibetanos tanto os puros, como os cruzados com naturais do Sikkim, e com indianos e nepaleses. Um dos hotéis onde estivemos, o Windmaree, de origem inglesa, fundado para acolher os plantadores de chá, é ainda dirigido por uma idosa senhora tibetana, viúva de um inglês, apresentando uma curiosa educação mista, vestindo elegantemente à tibetana e falando com um óptimo acento inglês.
Sendo ainda da “velha guarda”, filha dum oficial elevado na hierarquia da polícia tibetana dos princípios do século, tendo por isso, inúmeras possibilidades sociais e económicas, conta-nos como Alexandra David Neil, foi por ele protegida, quando andou pelo Tibete disfarçada de monge, convivendo e aprendendo nos mosteiros com os lamas. Evoca-nos também a sua participação num chá oferecido ao casal Roerich quando ali passaram em 1930, em que Helena fez levitar a sua chávena, numa demonstração curiosa do poder mental e espiritual.

Darjeelling é assim no limiar das montanhas himalaicas um centro de mistério e uma encruzilhada de passagem de seres ligados à Hierarquia. Aqui encontrei um sítio bem no centro e alto da cidade, com vista importante para as montanhas, num hotel que foi outrora o Clube Inglês, para o qual fui fortemente atraída. No belo jardim que rodeia o clube existe uma ampla mesa redonda, com bancos a volta e uma cobertura ou guarda-sol. É agradável à vista e apetece estar lá sentada, mas o “chamamento” que sentia para subir ao jardim vinha do “alto”. Não compreendi de imediato a causa de sentir tanto amor pelo local até que, ao sentar-me e meditar, recebi interiormente do Senhor Maitreya ser aqui que se reuniram grandes Seres e Mestres da Hierarquia, permanecendo ainda hoje essa irradiação e continuando o local a ser o ponto de encontro de alguns seres não só os que vivem em Darjeelling, como os de passagem.

Prosseguindo viagem, surgem-nos horizontes de planícies distantes, ou gigantes imponentes de imaculada brancura, as fascinantes montanhas himalaicas, que exercem tanta atracção nos seres vivos que, não obstante os rigores das condições de vida, sempre várias espécies e povos se têm adaptado a estes verdadeiros cálices dos raios cósmicos, abertos a todos os que neles se querem instalar ou peregrinar.
Encavalitadas na cordilheira himalaica, Sikkim, Tibete, Buthão e Nepal constituíram-se nações independentes a partir de sistemas muito próprios de ecologia e cultura. Em grande parte, assentes em terrenos montanhosos, exigindo-lhes grande austeridade e força, os povos destes locais conseguiram desenvolver profundas formas de cultura, desde as artes e ofícios passando pela agricultura à espiritualidade, que ainda hoje nos maravilham, apesar da perda constante, sobretudo nas cidades, de algumas características específicas, que os invasores e a modernização têm causado. Com efeito tanto a China em relação ao Tibete, como a Índia em relação ao Sikkim, e os turistas e o consumismo ocidental em geral, têm ferido e diminuído as tradições deste povo. Só o Buthão, através de controlos apertados do turismo e por manter a sua independência, é que tem conseguido permanecer incólume.

A capital do Sikkim, Gangtok, o monte suave, está a 1.800m de altitude e com vistas já apreciáveis sobre as montanhas sagradas dos Himālayas. É o ponto base principal para os exploradores montanhistas ou religiosos, já que as outras cidades são pequenos aglomerados, nas imediações dum mosteiro, de algumas casas e lojas. A cidade está construída em plena montanha e, por isso, à parte os aplanamentos artificiais, toda ela é em declive. O bazar fica na parte mais baixa da cidade e oferece-nos as coisas mais diversas, desde frutas variadas, manteiga caseira, sedas orientais, incensos tibetanos, vegetais da região e, mais que tudo, uma variedade riquíssima humana, pois para o Sikkim convergiram alguns povos diferentes, cujo trato contudo é amigável, embora como povos das montanhas sejam maPaisagem de Darjeellingis reservados, calmos e maduros, do que os indianos das planícies, muito mais curiosos e atrevidos.

Os habitantes originais do Sikkim são os Lepchas, o que significa o povo de ravina. São de raça mongol e falam o lepcha. Primitivamente, como no Tibete, a religião deles era o culto dos espíritos e da natureza, mais tarde chamada a religião “Bom”. Aquando da chegada do Budismo, a conversão para esta forma muito mais perfeita e elaborada da explicação da vida e do Universo fez-se com dificuldades, pelo que certos resquícios mágicos ficaram a impregnar o Budismo. Os lepchas, porém, não serão hoje mais do que uns 12%, da população, enquanto os bhutanis preenchem outros 10%, sendo provenientes ao longo dos séculos do Tibete e do Bhutão. Contudo, até meados do século dezanove constituíram toda a população do Sikkim. Então, os ingleses, ao aliarem-se com os nepaleses favoreceram a emigração destes para o Sikkim e, de tal modo o fizeram, que em poucos anos se tornaram a população dominante, sendo hoje quase 80%.
Até ao século dezassete o Sikkim era apenas Denzong, o Vale do Arroz, embora se considere que o famoso mestre indiano Padma Sambhava aqui estivera no século oitavo reerguendo o Budismo dos ataques dos “Bom”, como fizera no Tibete, deixando também alguns tesouros ocultos em grutas e subterrâneos das montanhas.

Em 1640, data importante parece que em mais de um país, um lama tibetano, Lhatsum Chembo, tem a inspiração de fundar um reino budista nesta zona e, abandonando o Tibete, encontrou dois outros lamas e depois Phunkstok, descendente de chefes de clãs, que em 1641 é sagrado rei, “Chogyal”, em Yuksam. A sua dinastia, dos Namgyl chegou até nossos dias, mais precisamente Maio de 1975 mas, desde a independência indiana em 1948, a sua continuidade viu-se ameaçada pois o maior partido dos nepaleses, o “Congresso”, desejava a democracia e a entrada no Estado Indiano. O rei conseguiu negociar o estatuto do protectorado mas a situação, deteriorando-se em 1973, levou os indianos a tomarem conta do poder.

Sobre o Budismo aqui praticado, o tântrico, diz-se que não há compulsoridade de práticas, mas os 10º e 25º dias do mês lunar são importantes e as pessoas vão aos templos, ou então aos sítios e a águas sagradas, já que no Sikkim adoram-se muitas divindades locais, das quais a principal é a montanha do Kanchenzunga, a divindade tutelar do país. O mestre principal é Padma Sambhava, mas há muita devoção a outros lamas ou santos, vivos ou desincarnados, um deles, Milarepa. Já no Budismo da Tailândia, Ceilão (Budismo Theravada) nada destas devoções e práticas se admitem em teoria, embora subsistam nas crenças populares. Nos Himālayas, o Budismo Mahāyāna é caracterizado pelo seu tântrismo, ou seja, pelas práticas movimentadoras das energias, como cerimónias rituais, acções mágicas, exercícios esotéricos e yogui e em que o folclore, cultos de natureza, magia e Budismo fundem-se em modos muito ricos de beleza, força e conhecimento, ainda que pela ignorância de muitos haja por vezes temor e dependência a mais.
Um dos mosteiros mais importantes é Rumteck. Da capital são 24 km de caminho serpenteante pelos famosos terraços de arroz que deram o nome ao país. Rumteck é o actual centro de seita Kargyudpa desde a invasão chinesa do Tibete em 1959, quando o 16º Karmapa escolheu este sítio para se estabelecer com quinhentos monges e começar a irradiar pela primeira vez o Budismo para, fora da Ásia. Até ao ano da sua morte, em 1981, trezentos centros ou mosteiros foram fundados em todo o mundo.

Entretanto só há pouco noticiavam os jornais da região que, após preocupações, orações e buscas aturadas, se descobriu algures no Tibete o rapazinho no qual se teria incarnado esta santidade e que se tornará o 17º Karmapa. Para já, o governo chinês reconheceu o estatuto de Buddha vivo a esta criança que passará a poder viajar e a ser instruída convenientemente.
Visita-se o Sikkim por várias possíveis razões, mas as principais serão conhecer os povosMosteiro de Rumteck e as tradições da cultura himalaica, nomeadamente as suas festas, danças, costumes bem como a religiosidade budista, com os seus 67 mosteiros ou “gompas”, ver e escalar as montanhas fascinantes, e escapar do calor e das multidões das planícies asiáticas, refrescando-se nestas paisagens verdejantes, montanhosas e cheias de quedas de água, onde a fauna e a flora são também riquíssimas, destacando-se os rododendros, as orquídeas, as borboletas e os pássaros.
O hotel onde nos instalámos, o Hotel Tibete, conserva ainda certas tradições, tendo um porteiro ou guarda tibetano, já de certa idade mas entroncado, que calmamente vai remoendo durante todo o dia as suas orações desfeitas num belo rosário tibetano. É o famoso “Om Mani Padme Hum”, alusivo à jóia da compaixão que se encontra na flor de lótus da Alma e que é assim mantida a rodar, qualquer que seja a ocupação do devoto...

O Hotel Tibete tem ainda a particularidade de ser gerido por tibetanos, numa associação presidida pelo Dalai Lama, o chefe espiritual do Tibete, agora no exílio em Dharamsāla, no Noroeste da Índia e que aqui tem sempre o seu aposento reservado. No Sikkim o que encontrei de verdadeiramente fascinante foram as crianças, com as quais tive uma relação muito espiritual e afectiva, embora sentisse também grande simpatia com as mulheres, amáveis, de rostos vivos e alegres, vestidas de formas belas e coloridas, numa mistura de traje, ora tibetano adaptado aos costumes dos outros povos, ora sikkimense adaptado aos costumes tibetanos. Nota-se uma maior complementaridade entre estes dois povos que, com os nepaleses ou indianos. Poucas mulheres vestem à ocidental.

Num dos encontros com as crianças, descíamos uma rua em direcção a um colégio na hora da saída. Era uma avalanche de crianças em sentido contrário e algumas vinham acompanhadas pelas mães, já que as suas idades eram dos seis aos dez. Entusiasmada que eu ia pela felicidade sentida no meu interior por percorrer as ruas himalaicas cheias de gentes exóticas e rostos sorridentes amavelmente dirigidos aos ocidentais, não me apercebi de um grupo de crianças que à minha volta se juntou para cumprimentar e fazer perguntas. Só quando os meus passos foram interrompidos pelo grupo, é que compreendi como elas mereciam a minha atenção e dispus-me a responder-lhes sentindo que havia de parte a parte uma alegria enorme, sincera e espontânea pelo encontro. Quem me acompanhava disse: «as crianças ficaram como hipnotizadas!» E as trocas foram jubilosas, muito ricas internamente. Quem sabe o que elas também sentiram e levaram dentro delas...
Já noutra cidade, Pameyangtse, descia uma rua em que havia de um lado um morro onde se encontrava no alto uma criança que me chamou para me cumprimentar e fazer as perguntas sacramentais dos orientais curiosos sobre os ocidentais. Depois de satisfazer todas as perguntas da criança de olhos vivos e voz alegre, pergunta-me ela ainda, o que raramente fazem: «Como te chamas?» - «Maria». «Oh, beautiful name!» Se exercia alguma atracção nas crianças também elas me atraíram, não só pela beleza dos seus rostos luminosos e de olhos amendoados, mas também pela simpatia e espontaneidade com que se me dirigiam.
Uma nova raça a despontar? Novas culturas e quem sabe um dia, civilização? São crianças a serem educadas de modo muito especial, pois sob a mistura de culturas orientais, sábias e espirituais e certa cultura ocidental e científica, enriquecem! Hoje o inglês é a segunda língua oficial e permanece ainda na maior parte destes colégios a “farda” à inglesa.

Mas antes de chegar ao Sikkim tivera um sonho, avisando-me da atenção que deveria dar às crianças, que não foi compreendido na altura, pois só quando a realidade me foi apresentada é que realizei a mensagem do sonho: «Viajava de comboio pelo Tibete e as crianças de olhos rasgados eram a componente principal do sonho. Quando o comboio parou havia muitas crianças a esperar-me, às quais eu dava pouca atenção, e só quando o comboio novamente se põe em marcha é que me apercebo nos rostos ansiosos delas a súplica a um carinho meu». Talvez isto simbolize também a angústia do povo tibetano, em busca de auxílio para a recuperação da sua liberdade e do país perdido...
Mas as transformações no mundo passam inexoravelmente através do tempo e muito lentamente, e não há dúvida que na época actual da evolução humana se pode tomar conhecimento com mais precisão e clareza dessas mudanças em comparação com o passado e compreendê-las melhor. É a época do individualismo, mas em que inevitavelmente se caminha para a Unidade.

Da obra, "As Iniciações e a Expansão Portuguesa".
2ª Edição - Publicações Maitreya
   


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