Fundação Maitreya
 
Impacto do Islamismo na Índia

de Utpal K. Banerjee

em 23 Fev 2007

  O processo histórico do advento do Islamismo na Índia foi normalmente observado como o triunfo, domínio e introdução da cultura islâmica contra a indígena. A verdade, porém, é que um período inicial de conflito e confrontação foi seguido pela co-existência e apreciação mútua, conduzindo finalmente à interacção e assimilação, formando uma composição singular da cultura da Índia.

O processo histórico do advento do Islamismo na Índia foi normalmente observado como o triunfo, domínio e introdução da cultura islâmica contra a indígena. A verdade, porém, é que um período inicial de conflito e confrontação foi seguido pela co-existência e apreciação mútua, conduzindo finalmente à interacção e assimilação, formando uma composição singular da cultura da Índia.

As forças da unidade do Islamismo estavam baseadas em rituais e crenças partilhadas na umma (comunidade muçulmana), com o sistema de ijma (consenso) em assuntos teológicos oferecendo uma estrutura de governo islâmico. O mundo islâmico – do Alântico ao Mar da China - incorporou a herança comum, que influenciou profundamente as artes quando chegaram a Índia. Uma enorme quantidade de emigração de arquitectos muçulmanos, artesãos e artistas desenvolveram um papel importante na fusão de duas tradições nas várias formas de arte.

Na tradição islâmica da adoração comunitária, masjid (mesquita) é o lugar de prosternar para o jama’a (congregação), especialmente o masjid al-jama’a (mesquita de Sexta-feira). O uso da cor na arquitectura islâmica é um sucesso especial. O exemplo é o uso de azulejos da cor de turquesa e azul na abóbada do túmulo do santo ou da mesquita, em contraste forte com o controle cromático visível em outro local. Diferente dos temas simbólicos ou representativos em outras culturas, essa ânsia decorativa que surge de um desejo puramente decorativo passou a ser o marco da arte islâmica. Outra expressão artística islâmica é manifestada pelo chahr bagh, Jardim com quatro partes, considerado como reflexo terrestre do paraíso.

Tais jardins podem ser observados na Espanha, Ásia Central e Índia, muitas vezes revelando o caminho usado pela arte islâmica para alcançar esses lugares. Esses jardins são normalmente planeados com caminhos geométricos, caminhos de água e árvores. Outra influência da imagem de paraíso nas artes decorativas pode ser observada nos tapetes exóticos desenhados na Pérsia e Índia. Finalmente, o movimento Sufi, que cresceu entre aqueles que desejavam estar em contacto próximo com Deus e alcançar as margens da Índia mesmo antes dos conquistadores islâmicos conquistarem, envolviam sama (música), poesia raks (dança) como meios de intensificação do amor por Deus e sentido o estado de extasia. Tais práticas contribuíram muito para as artes de palco, dentro do quadro místico. Em artes visuais, a Índia pré islâmica observou uma grande quantidade de templos hindus e jainistas, viharas budistas (templos) palácios e fortalezas reais. O islamismo trouxe consigo mesquitas para oração colectiva, uma prática distinta daquilo que teve lugar dentro do sanctum sanctorum do templo – a oração individual para a salvação. O islamismo também trouxe consigo a tradição de maqbara (mausoléu em homenagem aos mortos), uma estrutura não observada até então na Índia. Enquanto o mausoléu poderia ser octogonal, quadrado ou rectangular, o único preceito religioso era enterrar os mortos voltados para o oeste, isto é, para Meca. Finalmente, as cidades islâmicas incorporavam prédios seculares tais como madarsa (escola), darwaza (grande portão), sarai (pousadas). Diwan-I-Am (local de reclamações públicas), Diwan-I-Khas (local para confabulação secreta), hamam (banheiro), khwabgah (quarto de dormir) e daftar (escritório), entre outros.

Durante a rápida urbanização que teve lugar na Índia no início do primeiro milénio, muitos arquitectos muçulmanos e construtores juntaram blocos de templos antigos para criar as primeiras impressões arquitecturais do islamismo. Exemplos que vêm à mente imediatamente são a mesquita de Qutab em Delhi, os masjids em Pandua (Bengala), Dholka, Bharuch, Camby e Daulatabad, Lat ki Masjid em Dhar e Lal Darwaja Masjid em Jaunpur. À medida que os anos foram passando, desenhos geométricos começaram a ser usados para a criação de lindos jalis (biombos). A influência islâmica foi oferecendo, no decorrer do tempo, grandes presentes à Índia: o palácio real em Fatehpur Sikri, com o seu portão majestoso – Buland Darwaja; estruturas dentro do Castelo de Agra e, certamente, o Taj Mahal. Sob a influência ecléctica de Akbar, poucos dos seus nobres construíram templos hindus em Vrindavan em estilo arquitectónico singular que também é conhecido por estilo indo-islâmico.

A tradição caligráfica islâmica é muito bem ilustrada nos escritos Quranicos do Taj pelo celebrado artista Amanat Khan. Da caligrafia das mesquitas e cópias iluminadas do Corão, pode-se identificar o nome de Deus, do Profeta e as palavras chaves de abertura do suras, e respectivamente da escrita sendo Kufic ou Nasta’aliq. Khushnaveesi (linda caligrafia) mas elevada para uma arte visual para satisfazer as necessidades religiosas e estéticas. Com toques para cima e curvas totais, ele substituiu imagens figurativas de acordo com as doutrinas islâmicas. Continuando a tradição desses antepassados Timurid que enfeitaram as cidades da Ásia Central de Bukhara, Samarkhand e Oxus, Akbar usou escultores hindus para embelezar a cidade de Fatehpur Sikri. As esculturas de Buland Darwaza, Diwan-e-Khas, Panch Mahal e o dargah (túmulo) de Salim Chisti são alguns exemplos em Sikri. As pinturas de murais no Palácio de Akbar foram talvez feitos por artistas hindus, mas foi Abdus Samad, o famoso "mestre de cunhagem” de Akbar , que produziu moedas de ouro com uma imagem de Rama e Sita, sentados entre cisnes e flores. Akbar seguiu o estilo de retrato do primeiro século dos Kushans para iluminar as traduções persas islâmicas da epopeia Rāmāyana e Mahābhārata (chamada Razmnamah - os Anais de Guerra). Outros manuscritos ilustrados constituíam traduções de Atharvaveda. Vedānta, Yoga Shashtra, Harivamsa. Kuthasarítsagar, Simhasana Batrísi, Yogvashista, Nal Damayanti e o tratado matemático de Leelavati. A pintura, decoração e caligrafia juntaram-se para decorar esses manuscritos. A maioria deles foi produzida no "estúdio colectivo": o artista principal fazia o esboço e os artistas assistentes misturavam cores, o terceiro fazia caras, o vasilgar encardenava os livros, o nakshanavis trabalhava com as bordas e, finalmente, o khushnavis faziam a caligrafia.
O AkbarNama de Abdul Fazl - contando os sucessos e fracassos do imperador, sonhos e idiocracias, pompa e grandeza, conspirações e excursões, e muito mais - possui 109 dessas iluminações, dos quais 98 são trabalhos colaborativos! Hamzanamah, aventuras do tio do Profeta, possui 1400 pinturas, feitas por Mir Said Ali e Abdus Samad.

O impacto da civilização islâmica no artesanato indiano tem sido profundo. Os muçulmanos trouxeram não apenas roupa costurada para a Índia mas também as adaptaram aos tecidos locais, clima e forma de vestir. O mull e chikan e trabalho de katao angrakha e jamdaani sash da corte mogul esta em perfeita harmonia com o dhoti flutuante e angavastra da tradição Indiana. Nas karkhanas (oficinas) de Akbar e Jahangir, os artesãos indianos trabalharam com mestres persas e turcos para criar novas formas de arte que integravam o melhor de ambas as culturas. A criação de lindos objectos não era apenas um ato de religião, mas também se expandiu para os interiores domésticos com tecido feito à mão, bordado, com missangas, trabalho de aplicação e estampado bem como exteriores decorativos com trabalho de barro moldado, azulejos lustrosos, mosaico e trabalho com espelhinhos, biombos de cimento com relevo, mármore esculpido e trabalho embutido. Milhares de trabalhadores de pietra dura em Agra ainda fazem pratos e topos de mesa com desenhos moguls e ouro, prata e jade ainda são embutidos com pedras preciosas.

A música Indiana já tinha impressionado as cortes reais turco-afganesas. Quando os Sufis da Ásia Central e Irão começaram a chegar à Índia em grandes números a partir do século XI em diante, a música desempenhou um papel importante no khanqahs (hospícios) das seitas de Chisti e Suhrawardi. Shiekh Bahauddin Zakaria, um santo da seita de Suhrawardi, influenciou de maneira considerável as músicas populares do Punjab e Sind, que são cantadas ainda hoje. Entre os discípulos de Hazrat Nizamuddin Aulia - e ele próprio tinha um gosto delicado pela música e poesia – Amir Khusrau era um génio profundo na música. Ele introduziu duas formas novas nas existentes composições musicais e poéticas, tais como, qawwali, qalbana, naqsh-gul e nigar. De acordo com os textos persas, ele criou doze novas melodias incluindo zilad, sarparda e outros. Cantores muçulmanos como Bakshoo optaram livremente por formas musicais novas tais como dhrupad e eram patronizados por várias casas reais. No tempo de Akbar, o famoso músico Tansen se elevou para alturas exultantes compondo novas ragas como Mian Ki Malhar e Deepak. Antigas formas musicais, sob a influência de qawwali e qaul, surgiram como novas formas de música, o khayal. No último período medieval, elementos místicos foram substituídos por elementos de romance na composição de khayals popular, alguns deles ainda hoje existem. Outras formas musicais tarana, thumri e tappa eram o resultado directo da síntese de música indígena com influência islâmica. Os músicos muçulmanos também estabeleceram gharana, literalmente “famílias”, cada uma delas com uma singular tradição musical, continuando a oferecer um treino excelente. Alguns dos instrumentos mais populares hoje em voga, tais como shehnai, sarangi, sarod, sitar e tabla passaram a existir sob a influência islâmica. Componentes muçulmanos e hindus na música Hindustani têm, sem dúvida, sido trabalhados harmoniosamente e de forma complexa num rico tapete.

Os santos sufis de Caxemira no período medieval incluíam poetisas como Lai Ded e Habba Khatun, cujas músicas inspiraram a dança de hafizas e formas populares em coro como rouf na dança e dança dramática. Kathak, uma reconhecida forma de dança clássica, também beneficiou da síntese e adquiriu novas dimensões para se tornar uma dança da corte nas cortes reais dos imperadores moguls. Dizem que Jahangir até desenhou os trajes de dançarinas de kathak! Nautanki, um lindo teatro popular existente em UP e Bihar desde o século XI-XII passou a ser uma fusão da cultura hindu e muçulmana na sua língua, música, traje, temas e caracteres reflectindo um complexo cenário social. A linguagem da corte de nautanki necessitava de composições musicais decoradas em urdu persiano, com uma mistura de outros dialectos. Bhavai de Gujarat, embora secular na origem, também usou muitas influências islâmicas. Os Naqals do Punjabe e Mirasis de Caxemira eram na maioria artistas - bobos muçulmanos. Bhand Jashna (festival de imitadores), forma de teatro popular caxemiri com meio milénio de existência, que se desenvolveu na corte muçulmana ainda existe. No teatro de marionetas, também, a influência islâmica pode ser visivelmente observada.

Assim, a influência islâmica criou uma nova liberdade e secular, usada no dia a dia nas formas de arte, introduzindo não só conceitos figurativos, narrativas e decoração simbólica como também abstractos e decorativos.

Cortesia da Revista India Perspectives
   


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Impresso em 19/5/2024 às 13:22

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