Fundação Maitreya
 
Tratado de Meditação

de Maria

em 30 Set 2018

  Baseado nos Yoga Sūtras de Patañjali

Não poderia reeditar o “Tratado de Meditação” sem uma breve nota para sublinhar a importância espiritual desta obra, a qual com o decorrer dos anos se tornou para mim mais evidente. Os Yoga Sūtras de Patañjali, que se incluem na literatura filosófica e clássica da Índia, representam por si só, um guia para a demanda espiritual que contém, na sua profundidade, os requisitos fundamentais e imprescindíveis para o caminhar seguro, independente e consciente. Sem dúvida, esta obra aprofunda e sintetiza valores espirituais possíveis de realizar através de uma disciplina com base na Meditação, temática hoje em dia explorada por aqueles que sinceramente buscam o equilíbrio e a paz de espírito. Na presente edição, houve um aperfeiçoamento em todo o seu contexto e, embora se encontre diferente na configuração, o conteúdo essencial permanece; esperando continuar a merecer leitura atenta, no entanto, peço, compreensão para algumas falhas que ainda possam subsistir. Os Sūtras estão agora mais destacados e separados dos comentários, permitindo assim uma leitura mais directa e, também, a inserção na grafia original do sânscrito.


Prefácio à 2ª edição

Para Patañjali, o Caminho para a iluminação abarca três pontos fundamentais:

1º - O Conhecimento, Jñāna, que é um caminho de busca (investigação) para obter a Libertação.
2º - A Libertação, que é inseparável do Conhecimento.
3º - A Realização humana espiritual, que é uma via pessoal (reflectiva existencial), filosófica e mística.

Encontramos, assim, reunidos três requisitos para a realização pessoal: a prática da Meditação, que leva ao auto-conhecimento (introspecção), o estudo e a reverência religiosa-mística, que é o Amor à Verdade, ao Absoluto. Nenhum destes passos seria, em si, completo sem os restantes; eles são suportes que ajudam gradualmente ao enriquecimento interno para atingir o objectivo: a União Divina. Sem dúvida que para tal é necessário o Conhecimento, que liberta de dogmas e de conceitos estabelecidos, pois só pela via directa da indagação se realiza uma sabedoria própria, contudo, num contexto universal.

O objectivo do caminho da libertação deve ser sempre encontrado pessoalmente (livre de conceitos), realizado de forma interior, directa e espontaneamente, rompendo barreiras conceptuais. A realização pessoal implica transformação, a metamorfose consciente, enquanto uma doutrina é necessariamente limitadora, já que é baseada em conceitos, em classificações, em dogmas estáveis e insuperáveis. O Conhecimento é toda a filosofia que acompanha a transformação e envolve todo o tipo fenomenológico interno, imprescindível no caminhar consciente, onde a fé e a razão são inseparáveis e redentoras. Nesta base, a filosofia, enquanto tal, representa o amor à verdade e ao saber pela indagação e liberdade pessoal, através do raciocínio, da razão. A fé é o suporte da indagação para chegar ao objectivo que o filósofo intui.

Desta forma, o método de Patañjali, para além de ser um guia, pois logo que se começa a empreender a prática da Meditação, a própria Alma de cada Ser o conduz espontaneamente, é também uma referência para o que já se realizou e para o que ainda possa persistir como obstáculo no subconsciente.

Assim, na Índia há um exemplo notável de complementaridade, onde a Filosofia ou Religião engloba a prática viva e criativa da Meditação.

Infelizmente, a maior parte das obras comentadas dos Yoga Sūtras por ocidentais ficam pelas interpretações superficiais e incompletas, pois ignoram a prática da Meditação, meio pelo qual se obtém conscientemente a Realização e a Libertação, as quais fazem parte de todos os métodos ou sistemas filosóficos da Índia. Não dão valor ao lado mais profundo da prática, que é a Meditação – Yoga, e não os rituais, os movimentos (āsanas) e as respirações (prāṇayāma). É fundamental que se compreenda que, mesmo o método de Patañjali, só resulta se de facto for empreendida a prática da Meditação.

Na realidade, para a Índia clássica toda a Filosofia é uma filosofia de libertação, onde se conjugam vários factores sobre os quais o praticante deve estar consciente, sendo os mais importantes: a determinação, o conhecimento, a devoção e a fé. Nos Yoga Sūtras, a fé é um complemento de base para a indagação e para a prática espiritual. Porém, no Ocidente, se a fé é o suporte fundamental das doutrinas religiosas e filosóficas, elas também estão assentes em conceitos e dogmas que criam barreiras à descoberta desses mistérios, que se têm como aceites e não questionáveis.

Assim, a Filosofia, enquanto tal, e englobando tanto o conhecimento como a fé, liberta não só das cadeias da ignorância, como também do medo, da acção e da prisão das nossas construções limitativas mentais. A verdadeira finalidade ou o supremo objectivo de todas estas formas de salvação, que passa pelo conhecimento de si mesmo, é o Conhecimento de Deus. Ele é o Conhecimento, é o conhecimento por identificação, que se torna o conhecido e consiste na compreensão directa daquilo que anteriormente era externo e estranho. O conhecido passa a ser parte do Conhecimento ou do conhecedor. O Conhecimento passou para a interiorização do Ser, para expandir o Ser. Naturalmente, para se chegar a este Conhecimento, implica haver outros conhecimentos, outras ciências auxiliares e sobretudo, disciplina espiritual: purificação de coração, concentração, Meditação, silêncio, interiorização, recolhimento, eliminação de desejos. Deste modo, o Conhecimento com a realização espiritual constitui uma conquista gradual no caminho de busca permanente para obter a graça libertadora: a Consciência divina.

Ser consciente é um estado do Ser com dimensões da realidade que se vão descobrindo ao chegar a tal estado. Não é um estado de consciência psíquica ou de emoção, subjectiva, mas é um estado sereno, aquietado, fruto de realização interior, de identificação e conhecimento do Absoluto. O Conhecimento nesta base é iluminação. Esta Consciência não é apenas um estado de consciência, ela é de Ser, é um estado iluminativo, de claridade mental, mas não só: ela ultrapassa o conhecimento de si ou a consciência de si; é um saber para além do conhecimento, da materialidade, é Consciência pura, a qual já não é nada ao nível da identificação humana, nem sequer de si mesmo. É a super Consciência inacessível à consciência directa, é um campo numa dimensão da Realidade, a pura, sem ilusões. Já não são estados subjectivos, são modos de Ser, dimensões da realidade integrada na Realidade Absoluta.

Obviamente, a Filosofia expressa uma linguagem, mas a sua nobreza depende da claridade mental de quem a usa, de quem a formula. Por exemplo, o sânscrito, suporte linguístico dos Yoga Sūtras, é o mais alto exemplo de uma língua precisa, objectiva e concreta, onde todas as palavras contêm um significado profundo e directo. Cada palavra sânscrita é um tratado filosófico, é em si uma autoridade, um alimento inteligente para a mente.

Nos Yoga Sūtras, cada palavra é, por si só, um símbolo profundo que sintonizada com cada passo da realização interna do Ser, se torna inter-activa: age sobre a Alma e vai directa à mente e ao coração. As palavras têm o condão de destruir barreiras ou obstáculos emocionais, dando espaço à mente para abarcar uma energia mais pura e renovadora do pensamento, para a realização espiritual. Isto, aliado a uma prática contínua de Meditação, permite encontrar minuciosamente, a cada momento, o seu próprio ponto de evolução ou a superação desses obstáculos, como um ganho irreversível no caminho de aperfeiçoamento, que será de Libertação.

Todas as Filosofias da Índia e, neste caso, dos Yoga Sūtras, acabam por ser um fenómeno linguístico; expressam a Verdade da linguagem, em que cada palavra é uma meditação, mas ao mesmo tempo, quase uma sentença, tão clara e directa à mente, que por vezes se torna difícil de ser assimilada por aqueles que ainda estão longe de revelações demasiado profundas e reais. Cada palavra tem a força para abrir portas à realidade da vida. As palavras não são meros instrumentos mentais, mas são os próprios instrumentos em si, são o pensamento em vez do ser pensante. Cada palavra é um mantra.

Concluímos que o aperfeiçoamento do homem nunca acaba: o homem é uma obra inacabada. A iluminação não é um fim, mas o princípio de algo que transcende o humano. Se alguém se diz iluminado, está a ser limitado e a levantar barreiras à sua própria Libertação. O Ser liberto não tem limites, não tem metas, vive por si só a plenitude do Absoluto, porque o Absoluto tem muitos graus de integração. Um grau que representa mais uma integração na Divindade é também mais uma porta que se abre para o Infinito.

Outra obra posteriormente publicada, o “Guia de Meditação” (2004), representa uma continuidade deste “Tratado de Meditação”, abrangendo explicações mais detalhadas, pelo que ambas se completam.

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Impresso em 15/12/2018 às 4:59

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