Fundação Maitreya
 
Vesak

de Bhikkhu Dhammiko

em 20 Mai 2013

  Entre as diversas Comunidades Budistas, principalmente a Linha Theravada existente em diversos Países como a Tailândia e o Sri Lanka, partilha-se e mantêm-se a Tradição unânime de comemorar a data que representa três acontecimentos fulcrais na Vida de Siddhārtha Gautama, o Buddha: o momento da Concepção em que o Seu Ser se ligou ao útero de Sua Mãe; o momento em que Ele alcançou a Iluminação sob a Árvore Bodhi aos 35 anos; e o momento da sua morte física com passagem para Parinibbānna aos 80 anos.

Muita controvérsia e incerteza existem ainda em torno da data de nascimento de Gautama Buddha. A Lenda inicial que deu origem à identificação dos três eventos, Concepção, Iluminação e Morte do Buddha reunidos numa mesma data, surgiu no Sri Lanka, algum tempo depois do Budismo se ter estabelecido como Religião no País, no entanto não existe nenhuma referência no Cânone Budista que suporte esta tripla conjunção, tendo sido a celebração desta data conjunta posteriormente propagada para outros países, principalmente para o Sudeste Asiático, aonde a Tradição se manteve até aos dias de hoje.

Mais uniforme e estendendo-se à quase maioria de todas as Linhas Budistas no Mundo, é, em relação ao Seu Nascimento, a Crença e a Tradição de que Buddha Gautama nasceu quando a Lua Cheia se encontrava em Vaiśākha (palavra sânscrita).
Vesaka ou Vesak, são hoje em dia nomes correntes utilizados para identificar esta Cerimónia Sagrada, a mais importante do ano no mundo Budista.
Vesaka ou Vesak derivam precisamente da palava sânscrita Vaiśākha, que na realidade remonta aos antiquíssimos anais do original Calendário Lunar Védico, que deu origem ao antigo Calendário Hindu com as diferentes adaptações subsequentes e regionalizações que vieram a resultar nos diversos Calendários Regionais Indianos da nossa actualidade.
Originalmente Vaiśākha é o nome Sânscrito Védico de uma determinada Estrela ou Constelação, hoje identificada como Alpha Libra (Al genubi) ZubenelGenubi Libra-3a segundo R.H.Allen e S. Balakrishna, usado para representar uma específica Mansão Lunar (Nakshatra em Sânscrito) ou signo.

No antigo Calendário Védico a Nakshatra Vaiśākha é uma das 27 Mansões Zodiacais de 13.3 graus sensivelmente, Mansões estas que na sua totalidade perfazem os 360 graus da eclíptica zodiacal, ou seja, este sistema é idêntico ao nosso Calendário Solar, só que em vez de 12 signos de 30 graus, é composto por 27 signos de 13.3 graus.
Hoje, esta Mansão Vaiśākha, considera-se estar situada entre o 13º (223) e 26º (236) graus do Signo de Escorpião, não da Constelação de Escorpião, respectivamente, uma vez que actualmente as Constelações e os Signos com o mesmo nome já não estão alinhados, devido à precessão dos Equinócios que os recua 0.36 graus por ano, significando isto que as Estações do Ano vão recuando 0.36 graus anualmente em relação à esfera Celeste e suas Estrelas (Constelações), representadas pelos Signos na banda do planisfério Eclíptico.
Assim segundo reza a História o Buddha Gautama, nasceu no momento em que a Lua Cheia se encontrava na Mansão de Vaiśākha. Isto significa que estando o disco Lunar cheio de Luz em círculo perfeito, o Sol está em oposição a 180 graus à Lua, com a Terra alinhada entre a oposição Sol-Lua. O que quer dizer que ocorrendo a Lua Cheia no Signo de Escorpião, o Sol estará em oposição perfeita no Signo oposto, Touro.

Com o passar dos séculos e milénios, o Calendário Védico Hindu sofreu aferições e reformas, sendo hoje o Calendário Indiano resultado proveniente das mudanças operadas em marcos cruciais da sua reforma como o “Jyotish Vedānga” (um dos seis adjuntos dos Vedas, séculos XII-XIV a.C.) e padronizado no ‘Surya Siddhanta” por volta do século III a.C. Nestas reformas, sucedeu a determinada altura a mudança do Sistema Lunar de 27 Nakshatras para a adopção do Calendário Solar de 12 meses/Signos de 30/31 dias/graus, utilizando o nome da Nakshatra oposta onde ocorre Lua Cheia, para designar determinado mês Solar.
Sendo o primeiro mês designado por Chaitra (correspondente ao Signo de Carneiro), Vaiśākha designa hoje no Calendário Nacional Indiano, o segundo mês Solar do Ano, indo de 21 de Abril a 22 de Maio, correspondendo assim ao Signo do Touro no Calendário Ocidental. No entanto, em termos precisos, o Nakshatra Vaiśākha do Calendário antigo continua a situar-se hoje em dia na secção que vai de 4 de Novembro (13º de Escorpião) a 17 de Novembro (26º de Escorpião), o que nos fará deduzir que, para ocorrer Lua Cheia entre essa área, o Sol terá que estar na área oposta a 180 graus no Zodíaco, ou seja entre 4 de Maio (13º de Touro) e 17 de Maio (26º de Touro), sensivelmente.

Como regra geral e pelo que dita a Lenda e o Mito, comemora-se o Vesak normalmente na Lua Cheia do mês de Maio (quando o Sol está em Touro), podendo por vezes suceder a escolha da Lua Cheia de Junho conforme a Convenção Budista Internacional, devido à necessidade das aferições a realizar entre o ciclo Lunar e Solar ao longo dos anos.
No entanto, é difícil, hoje, asseverar-se com certeza, qual foi a data e Estação precisa em que na realidade Siddhārtha Gautama nasceu, estando no entanto convencionado quase em todas as tradições budistas, seja por tradição ou por carácter mais esotérico, que esse evento ocorreu na Lua Cheia de Touro. De qualquer forma as certezas são maiores no que respeita à relação Lua Cheia-Abóbada Celeste (Vaiśākha) no momento do nascimento, do que da relação Lua Cheia-Estação do Ano (Equinócio Vernal). Este ano ocorre a 20 de Maio às 2h12 (a data escolhida este ano pela convenção budista é 18 de Maio).

Passando agora para a Simbologia mais profunda deste evento, Vaiśākha é a única Mansão/Signo das 27 com duas Divindades Regentes, Indra, o Deus da Transformação; e Agni, o Deus do Fogo. Combinados, Eles reflectem a energia, a força e o potencial poderoso da Transmutação Alquímica e Espiritual. Júpiter é o seu Planeta regente, o qual inspira Entusiasmo, Fé, Optimismo e Esperança. A Lua Cheia nesta Mansão é assim um poderoso momento que conforme a energia envolvida neste aspecto Lua-Sol, em interacção com a zona celeste de Vaiśākha (Al-Genubi ou Alpha Libra), invoca a Solene descida e inspiração das Energias mais elevadas e sagradas na dimensão superior da nossa vida, em que um maior recolhimento na profundidade do nosso ser interior, se predispõem ao convite da meditação contemplativa e ao silêncio, em honra aos nobres ideais, abrindo-nos assim aos príncipios do ensinamento que não só o Buddha, mas também o Cristo, manifestaram e trouxeram ao plano da nossa existência.

Esta data inspira e invoca assim o regresso e o renovamento da energia Budhi Crística em mais um ano das nossas vidas, simbolizando esta data auspiciosa não só o regresso do Buddha à Terra, nossa Mãe Sagrada, mas também o despertar do potencial búdico no interior dos nossos Corações, Iluminação esta que Siddhārtha Gautama realizou aos 35 anos de idade e que por sua vez podemos corresponder simbolicamente com a Ressurreição Crística da Páscoa Cristã. Deveremos assim prestar mais atenção não à morte em si, mas ao regresso à Vida, como um acordar e despertar do Espírito na carne e não da carne por si só. Eis a verdadeira Ressureição que tanto se identifica com a Iluminação Divina do Buddha, consumada ainda no corpo antes da morte física. Tal como Luang Por Chah disse «...”morre antes de morreres”…, para que quando o corpo morrer, já tenhas então passado para o reino imortal da Verdadeira Vida».
Este é sem dúvida um momento propício à invocação da fraternidade e união dos nossos Corações num ideal comum para além de Raças ou Religiões, em que os princípios que o Buddha cultivou como exemplo e ensinamento, se unem ao exemplo e ensinamento do Seu Irmão, o Mestre Jesus Cristo. Amor, Compaixão, Gentileza e Paz são a essência da ética do verdadeiro caminho. O objectivo da Divina Realização para lá do Nirvāna (Paranirvāna), é a mais alta meta a almejar neste mundo de matéria, a qual sem a base primária da prática da meditação e do ensinamento (Dhamma), se torna uma utopia.

O Buddha encorajou com o seu exemplo e ensinamento, que o homem buscasse e investigasse em si próprio, diligentemente, as causas do sofrimento no mundo do apego e do desejo, abrindo caminho à solução pelo cultivo e adopção de uma vida mais pura, virtuosa, permeada de perfeição em direcção à Libertação final. O caminho da pureza interior conduz à Saúde, traz Alegria e Paz.
Alice A. Bailey, na sua “Autobiografia incompleta”, relata-nos de uma forma bela e explícita, o significado deste momento tão importante:
«Por duas vezes (enquanto vivia e trabalhava na Grã-Bretanha) tomei parte numa extraordinária Cerimónia e foi sensivelmente duas décadas depois da minha participação, que descobri na realidade do que se tratava. A Cerimónia da qual fiz parte, eventualmente descobri, que na realidade ocorre todos os anos na altura da “Lua Cheia de Maio.” É a Lua Cheia do mês de Vaiśākha (Touro) do Calendário Hindu, segundo o seu antigo nome. [...] Este tremendo evento acontece todos os anos nos Himālayas. Ocorre num vale e não é um mítico, subconsciente acontecimento, mas uma ocorrência real no plano físico. [...]

O Vale era largo e de forma oval, rochoso e com montanhas altas de ambos os lados. As pessoas reunidas no Vale, encaravam o Este em direcção a uma passagem estreita que afunilava no fim. Logo antes desta passagem encontráva-se uma rocha imensa, surgindo do chão do Vale como uma grande mesa, e no topo dessa rocha estava um Cálice de Cristal que parecia suportado por três pés entrelaçados. Este Cálice estava cheio de água. Defronte da multidão e à frente da rocha estavam três Figuras. Estas formavam um triângulo e, para minha surpresa, a do ápice do triângulo parecia-me ser o Cristo. A multidão espectante parecia estar em constante movimento, e à medida que se moviam formavam grandes símbolos conhecidos – a cruz nas suas várias formas; o círculo com o ponto no centro; a estrela de cinco pontas e vários triângulos interlaçados. Era quase como que, uma solene dança rítmica, muito lenta e digna, quase sem som. Subitamente, as três Figuras ante a rocha estenderam os Seus braços aos Céus. A multidão imobilizou-se por completo. Na longa distância da passagem estreita, uma Figura foi vista no Céu, pairando sobre a passagem e lentamente aproximando-se da rocha. Eu sabia subjectivamente que de certo modo era o Buddha. Eu tive um senso de reconhecimento. Eu sabia ao mesmo tempo que de forma alguma estava o nosso Cristo relegado para um plano inferior. Pressenti a Unidade e o Plano aos quais o Cristo, o Buddha e todos os Mestres permanecem eternamente dedicados.

Apercebi-me pela primeira vez, mesmo de um forma subtil e incerta, da Unidade de toda a Manifestação e Existência – o mundo material, a dimensão espiritual, o aspirante discípulo, o animal que evoluí e a beleza do reino vegetal e mineral – constituindo um Todo Divino Vivo que se movia numa demonstração para a Glória do Senhor. Eu subtilmente compreendi que os Seres Humanos precisam do Cristo e do Buddha e de todos os Membros da Hierarquia Planetária, e que havia acontecimentos e eventos de longe com momentos de maior peso e crucial importância para o progresso da Humanidade, que aqueles registados na História. Fiquei confusa, porque para mim (naquele momento) o gentio pagão ainda era gentio pagão e eu era uma Cristã. Profundas e fundamentais dúvidas permaneciam na minha mente. A minha vida foi daí em diante colorida (e ainda hoje) pelo conhecimento de que havia Mestres e acontecimentos inaparentes nos planos espirituais internos e no mundo do significado e propósito que faziam parte da própria Vida, talvez a parte mais importante. Como podia eu encaixar estes acontecimentos na minha limitada teologia e vida diária?! Eu não sabia.

[...] O trabalho do Buddha preparou as pessoas para o Caminho do Discipulado, enquanto o trabalho do Cristo preparou as pessoas para a Iniciação.
[...] ...o grande dia de Buddha, o Festival Vesak (o Festival Vesak na Lua Cheia de Maio), e o Domingo de Páscoa, estabelecido na Lua Cheia de Abril, permanecem para o Buddha Iluminado e o Cristo Ressurrecto».

No Livro da Disciplina Mahāvagga do Cânone Páli, no primeiro Kandhaka (Mahākandhaka), encontramos a seguinte passagem no Brahmayācanakathā Suttā, Estância 12:
12. «Assim o Abençoado, olhando para o mundo com o Seu Olhar de Buddha, viu os seres com os olhos mentais obscurecidos e quando Ele assim os viu, dirigiu-se a Brahmā Sahampati na seguinte estância:

«Apāruta tesam amatassa dvārā;
Ye sotavanto pamuñcantu saddham;
Vihimsasaññī pagunam na bhāsim;
Dhammam panītam manujesu brahme».

«Bem abertos estão os Portões para onde a morte não existe,
para todos aqueles que tenham ouvidos para ouvir;
deixai-os conseguir a Fé para realizar essa travessia.
O doce e bom conhecimento eu não o revelei Brahmā,
Desesperado por essa fatigante tarefa em ensinar os
Homens».

Essa tarefa, esse fardo enorme para tentar abrir o Coração dos Homens para lá das portadas da morte, sofreu Jesus na Cruz, o Cristo, ao transmitir com Amor a Lei do Perdão e da Compaixão, tentando ensinar o saber morrer interiormente (morte iniciática) que já Buddha Gautama tinha apontado através da libertação dos complexos da mente, completando o que este achou dificílimo de transmitir na sua época. Poucos compreenderam o Cristo, para além do seu ensinamento deturpado até aos dias de hoje.
É depois das mortes consecutivas no íntimo, à Luz da compreensão e do desapego através da renúncia ensinada pelo Buddha e pelo Cristo, que o Amor e a Luz vão surgindo nos anais superiores do Ser Humano.
Para terminar ficam aqui as palavras sábias de Ajahn Amaro, um dos Monjes originais da Escola de Ajahn Chah, da Tradição da Floresta Theravada – Tailândia:

«Quando a condição cessa, experimentamos a felicidade e a graça da mente liberta. Essa felicidade, clareza e paz plena esteve sempre presente durante todo o tempo, mas estava obscurecida pela experiência de agarrar o sentimento, a esperança, o medo ou a excitação. O modelo percurso da vida do Buddha, esquematiza assim o processo da nossa experiência, se o coração fôr conduzido sábiamente, assim como se manifesta em poucos segundos de meditação. O Nascimento, Iluminação e Parinibbāna celebrados no Vesaka Puja, congregam-se desta forma como um símbolo deste caminho de investigação interior e verdadeiro saber que conduz à libertação e abertura do coração».
* Adaptado de uma palestra em Maio de 2000.

Autores e Obras consultadas:
Vināya Pitaka – Mahāvagga – Mahākandhaka – Brahmayācanakathāsuttā
Swāmi Chidānanda - 1 Maio 1964
Prasad Gokhale - Fredericton, New Brunswick, Canada
Venerable Mettanando Bhikkhu
Diálogo da interrogação e das maravilhas (Majjhima Nikâya, Sutta 123.)
S. Balakrishna, Ph.D - Names of Stars from the Period of Vedas - January 1998
S. Balachandra Rao, Indian Astronomy: An introduction, Universities Press, Hyderabad, 2000.
Anindita Basu
Dennis Harness, Ph.D.
Alice Bailey
   


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Impresso em 28/9/2020 às 12:54

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