Fundação Maitreya
 
Dos Sonhos

de Pedro Teixeira da Mota

em 03 Jan 2011

  I - Antes de mais vejo-os chegar como sinais ou mensagens das quase infinitas fontes de informação que nos atingem (nós, consciência a funcionar com um cérebro, um corpo e mente e uma alma) ou visitam, sem que compreendamos bem a sua origem, conteúdos, funcionalidades e potencialidades.
Tanto mais que o registo que fazemos, consentimos, conseguimos ou conservamos, já de si tão limitado (ah, os sonhos de janela aberta, ou sobre um grande tela, claros, que não se desvanecerão nem deixarão de nos alimentar toda a vida, que raros são...), implica em seguida a compreensão ou interpretação, que por sua vez vai reflectir as nossas carências e expectativas, receios ou desejos...


Dos Sonhos: aproximações em diários...

O mundo invisível, psíquico e espiritual, de que muitos dos sonhos são reflexos ou mesmo detritos do nosso barco afundando-se nele, também chamado por vezes inconsciente outras super consciente, é de facto ainda muito misterioso, apesar os grande progressos do conhecimento dos mecanismos cerebrais correspondentes aos sonhos...
Instável, a sua geografia poderá fazer lembrar a dos icebergues flutuando, deslocando-se nas águas oceânicas, movidos por correntes, e contendo uma parte invisível, que pode ser bem maior da que avistamos a olho nu...
Temos aliás uma visão muito estática da nossa mente e cérebro, e vemos quase uma arrumação em gavetas, em zonas localizadas e perdemos de vista todo o dinamismo fluídico com que estamos constituídos, e de que os sonhos dão por vezes sinais, ainda que simbólicos, e necessitando da tal interpretação, que pode realizar-se melhor se tentarmos descrevê-los ainda frescos, se é que podemos denominar assim a fina textura e a tão fugaz e transitória durabilidade deles...

II - Como o mundo invisível, de que os sonhos são experiências ou reflexos, está constituído sobretudo pelos seres e pelas forças psíquicas do universo, dos pensamentos, sentimentos e emoções, percepções e actos que nós e os outros constantemente produzimos e inter-relacionamos, sucede assim que em cada noite a nossa alma mergulha nessa dimensão e sonha por vários motivos, em primeiro assimilativos e organizativos, para limpar certos sectores e fortificar outros, ora porque ficou cheia de certas impressões, ou ainda de energias que lhe enviaram, e em segundo porque saindo do corpo a alma encontra pessoas e situações afins, muitas vezes relacionadas com o que aconteceu no dia ou no que se está a preparar para acontecer, e em terceiro porque pode ser inspirada pelas músicas, geometrias e correntes das esferas cósmicas e dos seus seres...
Para vermos ou compreender mais claramente, seja nas viagens nocturnas seja nos meros sonhos internos, recomenda-se antes de adormecer a prática da revisão mental do que foi sucedendo ao longo do dia e meditação, ou mesmo uma limpeza e estimulação da circulação energética (com algum tipo de movimento e oração-mantra), para que possamos estarmos menos bloqueados e mais harmonizados e portanto tanto elevar-nos mais como compreendermos melhor os sonhos...

III - Quem sonha, quem está a sonhar, que eu é esse?
Não é o eu normal do estado de vigília, mas provavelmente será mais acertado falar-se tanto de uma entidade ou de uma auto-identificação flutuante, dependente do espírito e do eu nos seus mais diversos níveis, como simplesmente de processos assimilativos e regenerativos orgânicos, cerebrais ou anímicos.
Talvez possamos dizer de um sonho que é um eu que se posiciona num certo tempo e espaço que se lhe apresenta ou que ele quer e em que, incarnando oniricamente tal situação, ele age, pensa e fala com uma rapidez e subtileza bem maior do que quando raciocina, sente e comunica no mundo e corpo terreno...

Algumas pessoas, porém, desconhecendo certos níveis de si próprio, admiram-se com certas características dos seus sonhos, ou de elas neles...
Perguntar-se-á: é o eu que sonha (pode mesmo fazer sonhos lúcidos ou desperto...) ou é o eu que recebe ou sofre os sonhos, ou não haverá antes uma extensão e unidade muito mais vasta do que a nossa pequena concepção do eu e do que pensamos e germinamos dele, e de que a meditação e certos estados conscienciais unificados ou expandidos nos transmitem?
Um aspecto importante disto é-nos mostrado nos sonhos em que o eu, estando livre dos limites do tempo e do espaço objectivos, vê-se e sente-se bem mais desanuviado e pode explorar o passado, viver o presente de modo subtil e até sondar o futuro, antevendo ou mesmo enfrentando ou até expiando certas situações difíceis, traumáticas ou complexas...

Este fortalecimento espiritual, esta libertação do tempo e do espaço é porém algo que se conquista dia a dia e que cresce ou diminui conforme a nossa vida de vigília e é o que nos permite nos sonhos escapar de certas situações, voar, abreviar o sonho, acordar, ainda que estes dois últimos acontecimentos possam ter muitas causas e motivações...
Assim, uma das formas de ela crescer será pelos momentos diários em que o nosso eu, interagindo com o exterior, eleva-se acima das circunstâncias e cria quadros ou ambientes mentais diferentes, nos quais a nossa própria percepção dessas limitações comuns e concretas é alterada...
Desta libertação do tempo e espaço comuns se usa constantemente na poesia, na imaginação artística, na religião, na dança, nas drogas e libações, nos rituais e cerimónias, nos grandes esforços e peregrinações, nas meditações e contemplações. E o seu sentido mais forte ou profundo é pois o de nos identificarmos com o espírito, com o fogo ardente, com a realidade invencível espiritual que somos potencialmente e que nos galvaniza corporal e animicamente...

Quem tiver atingido um grau elevado desta identificação pode vencer mais facilmente as circunstâncias desfavoráveis que recebe ou que lhe são impostas, e o próprio local de perseguição, por exemplo, deixa de existir, como disse Jesus, no Evangelho de Tomé, e a pessoa torna-se cada vez mais o espírito imortal e sereno, a unidade com o bem e com o todo, e já não o ego e o corpo, vítimas dos seus fantasmas ou de outros e que tanto alimentam a indústria farmacêutica dos tranquilizantes e soporíferos....

É neste sentido que as provações, dificuldades e doenças são-nos úteis, para que possamos conhecer-nos melhor, controlarmos as ondulações psíquicas e elevarmos as energias internas e a nossa consciência ou eu, que se afirma ou talha assim, ao vencer as influências destrutivas e ao manter uma consciência mais constante e actualizada da sua identidade espiritual, desenvolvendo então as suas múltiplas capacidades cognitivas e comunicativas, que tão pouco utilizamos ou aprofundamos, mas que são essenciais também para melhor comungarmos com o Cosmos e os seus grandes seres e a Divindade, na luz amorosa e tão criativa da Verdade em manifestação...
   


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