Fundação Maitreya
 
Pétalas

de Maria

em 15 Fev 2019

  Pétalas, reúne um conjunto de textos de temáticas de variada inspiração, onde o seu núcleo se vincula na ligação à Fonte Suprema, tal o centro de uma rosa que mantém unidas suas pétalas e, quando se desprendem mantêm o seu fragor e beleza. Desde as interrogações às nossas origens, à espiritualidade portuguesa ou Ordem de Mariz, aos sistemas filosóficos e religiosos da Índia, bem como a investigações científicas actuais sobre a evolução do cérebro e a prática da meditação, encontram-se reflexões espirituais que propomos para momentos especiais de leitura.Todas as religiões e sistemas filosóficos da Índia se concentram em redor da transcendência do Ser. Quem sou Eu? Quando começou e onde acaba a realidade da existência da vida? Onde estão os limites? Trata-se de questões para nos entendermos a nós próprios, e de que maneira podemos dominar a transitoriedade que nos escapa a todo o momento e à qual reagimos. Dão a chave de como ultrapassar o sofrimento, pelo conhecimento directo da realidade da existência. Estas filosofias têm este domínio como arte. A descida de uma energia espiritual que abrace toda a humanidade e a ajude a despertar, poderá ser o Graal planetário da transformação espiritual»

O Elixir da Felicidade

Há processos internos no corpo humano que coordenam mecanismos, que por sua vez desencadeiam forças geradoras de energias, entre as quais as ligadas aos órgãos que fomentam bem-estar ou mesmo prazer interno. Não se restringe necessariamente os órgãos sexuais, pois abrange outras áreas do organismo, tais o aparelho digestivo e os intestinos, repercutindo-se depois, naturalmente, por todo o organismo.

Todavia, as correntes energéticas que se movimentam nestas áreas, só se tornam mais perceptíveis depois de certa intensidade das forças internas, as quais resultam da evolução espiritual do ser humano, quando purificado, tanto físico como psiquicamente. Encontra-se aqui a razão porque quando um ser evolui no seu caminhar espiritual, deixa espontaneamente de se polarizar na actividade sexual, porque passa a recolher em si o resultado dessa pureza e, quanto mais pureza - neste caso (estado) é mesmo condição fundamental a sublimação sexual - mais despoleta as energias. Estas energias (para quem já está na posse desta realização) passam a ser cada vez mais poderosas com o evoluir espiritual e, se impulsionadas pela Meditação (modo mais eficaz) pode levar directamente ao Absoluto. Realizam-se então, estados de samādhi (graus elevados de realização espiritual), com uma exponencial de felicidade muito superior ao que se pode obter num relacionamento sexual e, ao contrário deste, em que o prazer se esvai em minutos, a felicidade obtida no samādhi permanece, integrando-se na Consciência, atingindo-se finalmente o estado em que se é sempre essa felicidade em constante beatitude.

Na realidade, este é o elixir de que se fala nas tradições filosóficas e espirituais da Índia, a amṛta, o soma dos deuses, que estes temiam que os homens o descobrissem, pois tornar-se-iam iguais a eles ou mesmo, os suplantariam em poder. De facto, este estado ao qual o homem tem acesso no seu caminhar espiritual é um poder que se adquire com a realização espiritual, quando se eleva a uma dimensão superior de viver, ultrapassando a sua própria humanidade, e não poderes para manipular o que quer que seja, ou os outros. Chegar a este ponto de criar a sua própria beatitude nos recessos internos do corpo físico é sinal de que se purificou, já que sem a sublimação não é possível produzir a amṛta. É neste estado de iluminação de amor e sabedoria, já desapegado das questões de poder, que se alcança então, uma capacidade de inteligência invulgar e um alargamento de consciência poderoso, mas direccionado para o Divino ou Absoluto, numa integração profunda, onde tem o conhecimento directo e real de Deus.

Este estado é de facto, um passo adiantado da realização espiritual, onde o Ser-Consciência se torna ele próprio a Sabedoria, percepcionada, sentida, observada e realizada em si, melhor dizendo, absolutamente consciente do que está a contemplar. Porém, nunca esquecer que isto se realiza quando, um ser acredita em Deus, porque o integra e vive em união com Ele ou é Ele, e não por práticas para alcançar estados de poder ou de ambição espiritual, ou seja, sem Deus – nunca! É a união com Deus que acciona essa energia, portanto, esta produção de amṛta, significa um grau bem adiantado na evolução espiritual do ser humano.

O Graal da Índia

Na literatura filosófica e religiosa da Índia há três obras fundamentais, verdadeiras jóias do conhecimento espiritual, sobre as quais assenta este trabalho comparativo: a Bhagavad Gītā, a Aṣṭāvakra Gītā e os Yoga Sūtras de Patañjali.
Existe por vezes, entre os ocidentais, certa confusão tanto quanto ao valor religioso, cultural, espiritual e social, como ao objectivo de cada uma delas devido à complexidade dos temas, mas também pela falta de correlação entre as diversas obras e de uma formulação definida que faça a diferença entre elas.

Todas as religiões e sistemas filosóficos da Índia se concentram em redor da transcendência do Ser. Quem sou Eu? Quando começou e onde acaba a realidade da existência da vida? Onde estão os limites? Trata-se de questões para nos entendermos a nós próprios, e de que maneira podemos dominar a transitoriedade que nos escapa a todo o momento e à qual reagimos. Dão a chave de como ultrapassar o sofrimento, pelo conhecimento directo da realidade da existência. Estas filosofias têm este domínio como arte.

Começando pela Bhagavad Gītā, ela contém, já em si, várias correntes filosóficas numa assombrosa e magistral síntese; Jñāna Yoga, o Yoga do Conhecimento; Bhakti Yoga, o Yoga da Devoção, Karma Yoga, o Yoga da Acção e o Rāja Yoga, o Yoga da Auto-realização (que se diz Rāja, Real, porque engloba todas as outras); inclui ainda a filosofia do Vedānta, Dvaita e Advaita, dualista e não dualista; Sāmkhya e Jainismo, duas das mais antigas filosofias da Índia, baseadas na renúncia, sendo o Jainismo, fortemente enraizado na doutrina da não-violência, sem que qualquer de todas estas correntes mencionadas, se sobreponha como a melhor ou a mais importante.

Apresenta-se de facto, um ensinamento adequado a cada estado de consciência dos seres, começando por ser uma incitação à acção, onde Kṛṣṇa auxiliando Arjuna o impele à coragem e ao dever e acaba explanando todo um contexto filosófico e espiritual de grande profundidade, assente sem dúvida, em toda a nobre filosofia da Índia, onde encontramos capítulos como a devoção, louvores à Natureza, apelos à dignidade e ao dever, etc.

Na leitura da Bhagavad Gītā podemos encontrar a força catalizadora, razão da beleza desta obra que inspira, ora coragem para a acção na vida nos momentos difíceis, ora, vontade para se encetar um caminho mais justo e correcto connosco e com os outros, ora desejo de conhecimento para se ultrapassar a ignorância, ora determinação para se embrenhar na floresta da mais austera renúncia.

O conhecimento transmitido por Kṛṣṇa é no sentido do aprofundamento interno e no conhecimento de Deus, que ele próprio personaliza ou representa. O divino encarna em Kṛṣṇa como salvador e a sua palavra é uma revelação. Sendo o seu ensinamento acessível a todos, mostra os vários caminhos para chegar a um mesmo fim, fluindo pela corrente mais necessária daquele que busca, e que tem como objectivo de peregrinação terrena, a meta da libertação ou iluminação.

A Eternidade

A contagem do tempo dentro da vida humana contribui para a ilusão da finitude. No espaço cósmico infinito onde está o tempo? Haverá outras dimensões de tempo? De facto, o tempo não existe, ele é apenas um conceito delimitando as fronteiras da mente.

O conceito que temos de que o Sol nasce e se põe apenas resulta do movimento da Terra à volta do Sol, dando-nos uma realidade aparente, mas verdadeiramente é apenas um conceito científico, pois o Sol só desaparece para um dos lados da Terra permanecendo indiferente aos seus efeitos e, se ultrapassarmos com a nossa mente ou Consciência mais alargada, essa barreira das portas do tempo, compreendemos a infinitude da vida face à limitação do tempo e espaço a que a matéria nos confina. Também as fases da Lua derivam desse movimento já que ela se mantém imperturbável no seu percurso cósmico. Contudo, a vida na Terra é desta ilusória aparência que se desenvolve, guiando-nos com os dias e as noites, as semanas, os meses e os anos. O tempo regido pelo movimento do Sol do qual dependemos é o principal factor de ilusão.

Elevada a mente ao infinito, ou seja, para lá da limitação da vida na Terra, o tempo não existe da mesma forma, ou a existir será de uma forma mais vasta para distâncias incomensuráveis, onde contagem de dias ou anos se esfumam no espaço. Vivemos realmente, no intemporal cósmico, pois fazemos parte de um Universo Eterno, isto no sentido de não sabermos o seu começo nem o seu fim.
Publicações Maitreya, 2011
   


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Impresso em 18/3/2019 às 20:05

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