Fundação Maitreya
 
Yoga Vāsiṣṭha -6ª Palestra

de Alejandro Corniero

em 09 Dez 2012

  Nem o mundo é teu, nem tu és deste mundo; não confundas o falso como o certo. Nunca alimentes na tua alma a ideia falaciosa de que serás dono de grandes bens e de coisas agradáveis, porque tu, tal como essas coisas, existes para deleite do Creador supremo e Dono de tudo. A menos que o bem de todos não se converta no teu próprio bem, ó Rāma, não farás mais do que acrescentar dificuldades na tua caminhada. Inclusive o bem do teu Império é ilusório, se for exclusivo e se estiver separado do bem de todos os seres. A alma submetida a incessantes desejos parece-se com o firmamento claro obscurecido pelas nuvens; uma alma assim, ó Rama, sofre como um morcego cego pelas luzes do dia, até que, desprendendo-se de suas falsas convicções, alcance o conhecimento do verdadeiro Deus e da felicidade sem fim. O homem nobre e sábio que queira vencer os seus adversários deverá, primeiro, esforçar-se por submeter os inimigos interiores dentro do seu próprio coração e na sua alma, assim como o seu corpo e seus membros. Os homens mais afortunados são os que têm a valentia de dominar a sua alma, em vez de se submeterem a ela.

Disse o príncipe Rāma:
«Venerável Senhor, tu que conheces os mistérios de todas as coisas. Uma grande dúvida encrespa-se no meu coração, como uma onda no mar. Como é possível, Senhor, que a impureza adira à alma, assente na pureza eterna do Espírito infinito, Brahman, sem limite de tempo nem de espaço.
Além disso, se não há – nem nunca houve, nem haverá jamais – outra coisa que não a Entidade espiritual, como e de onde apareceu n’Ele semelhante impureza?»
Respondeu Vasiṣṭha:
«Bem dito, amado Príncipe!
Observo que a tua compreensão se aproxima da via da libertação e recolhe o perfume das flores que se abrem no jardim do paraíso. Ainda não é o momento apropriado, porém, para tal pergunta. Poderás fazê-la quando chegue à conclusão do tema.
É preferível examinar a alma com cuidado precatando-te da natureza de seus actos e operações, os quais contribuem para provocar os renovados nascimentos dos humanos. A alma deleita-se com pensamentos sobre os objectos desejados; então, assimilando a natureza destes, assume a mesma forma do que lhe proporciona prazer.

Já que o corpo está submetido à alma, molda-se na forma desta, exactamente como o vento se perfuma com os aromas dos maciços de flores, sobre os quais sopra.
Os sentidos interiores, uma vez estimulados, animam os órgãos exteriores dos sentidos, de acordo com as suas modalidades. Seja qual for a natureza que, por suas disposições, adopte a alma, fica reflectida na forma de suas actividades: a vontade e a acção.
Discípulo bem-amado (Rāma tocou os pés do bem-aventurado Sábio como sinal de enormíssima veneração), sabe que a alma é a fonte de todas as regras e métodos, tal como o mar é a origem de todas as pérolas escondidas no seu seio.

Assim, os discípulos amados de seus gurus, que desejam deleitar-se com a bem aventurança sem mistura do seu espírito, devem habituar a sua alma a permanecer nesse estado de felicidade.
A alma que escapou da esfera do mundo fenoménico, fica, mais adiante, livre de qualquer prazer e de todo o sofrimento, como o passarinho que sai voando pelos ares, depois de sair da casca do ovo e deixar o chão.

Ó inocente Rāma, não mantenhas nenhuma inclinação pelo mundo fenoménico. É ilusão sem realidade, está cheio de medos e tendências más, e expande-se para seduzir a alma distraída.
Os sábios chamaram à nossa consciência do mundo, cenário mágico (māyā), designando-a como aparição da ignorância, simples ideia, causa e efeito de nossos actos.
Sabe que é a alma enganadora a que apresenta aos teus olhos o mundo visível - desembaraça-te dela!

A meditação concentrada do yogī contemplativo e consagrado ao santo Yoga é o que atenua as impressões de fora, e, ao dissociar a alma de tudo quanto é exterior, mantém-na em estabilidade e em paz. Então, a alma já não presta atenção às suas reflexões internas ou externas: fica insensível tanto ao prazer, quanto ao sofrimento, e experimenta, em si própria, o deleite da unidade.

A alma submetida a incessantes desejos parece-se com o firmamento claro obscurecido pelas nuvens; uma alma assim, ó Rama, sofre como um morcego cego pelas luzes do dia, até que, desprendendo-se de suas falsas convicções, alcance o conhecimento do verdadeiro Deus e da felicidade sem fim.

Tal como acontece quando se liberta de um medo imaginário de um tigre na selva, e se reencontra o repouso interior, assim, ao aprofundares a tua busca, descobrirás que não existe cativeiro no mundo: as noções “esse é o mundo” e “este sou eu”, nada são senão enganos da alma.
Os caprichos assaltam-nos e depois afastam-se, tomando formas diversas, da mesma forma que as nossas mulheres desempenham o papel de esposas na nossa juventude, e de enfermeiras na nossa velhice.

Quem tenha uma alma propensa a saborear os prazeres da carne deveria começar por reprimir essas tendências, como quem arranca plantas venenosas da terra.
O homem nobre e sábio que queira vencer os seus adversários deverá, primeiro, esforçar-se por submeter os inimigos interiores dentro do seu próprio coração e na sua alma, assim como o seu corpo e seus membros. Os homens mais afortunados são os que têm a valentia de dominar a sua alma, em vez de se submeterem a ela.

Reverencio esses homens puros e santos que dominaram a grande e perversa serpente que é a sua alma enrolada no fundo do coração; são eles os que repousam na paz interior e na serenidade do espírito. Os reis da terra, com os seus capitais materiais, não são tão felizes como os senhores das cidades do seu próprio corpo e mestres de suas almas. O homem está à mercê das dificuldades deste mundo lúgubre e escuro como um pássaro caído nas águas do oceano. Por isso, Rāma, retira com o teu esforço pessoal, como se fosses um búfalo, a alma para fora do charco ilusório do mundo. O homem com uma alma que não é inquietada, nem pela sucessão de alegrias e sofrimentos mundanos, nem pelas vicissitudes da doença ou da morte, já não é um ser humano, é como um Yaksa 1.

Nem o mundo é teu, nem tu és deste mundo; não confundas o falso como o certo. Nunca alimentes na tua alma a ideia falaciosa de que serás dono de grandes bens e de coisas agradáveis, porque tu, tal como essas coisas, existes para deleite do Creador supremo e Dono de tudo. A menos que o bem de todos não se converta no teu próprio bem, ó Rāma, não farás mais do que acrescentar dificuldades na tua caminhada. Inclusive o bem do teu Império é ilusório, se for exclusivo e se estiver separado do bem de todos os seres.
Adora o Sempre-Misericordioso, o Amor infinito, como se se tratasse de tua própria alma, e permanece na paz, dando paz a todos.
Notas
1.Criatura pertencendo a uma categoria de seres celestiais.
Tradução de Helena Gallis
   


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