Fundação Maitreya
 
A Via da Vigilância Interior - 3ª Capítulo

de Edward Salim Michael

em 01 Set 2019

  O corpo – a única coisa que, sabendo ou não, é um obstáculo interior para o homem, e em parte a causa da sua queda espiritual, sempre a distrair a atenção de onde deveria estar focada –contudo, pode tornar-se o veículo adequado para o auto-conhecimento, sob uma nova perspectiva, ajudando-o nos esforços de ascensão aos domínios superiores do seu ser. O aspirante pode ser bastante ajudado a manter-se mais “presente em si próprio” na vida exterior, ao cultivar pacientemente o hábito de usar os seus movimentos físicos e as variadas posturas, como um meio de alcançar um estado superior de consciência. Em vez de ser o corpo a arrastá-lo com todos os infindáveis desejos e exigências, inconscientemente, para a descida, pode ser usado como um instrumento de um pesquisador sério, para se tornar consciente de si, de uma forma completamente diferente da habitual. Esta forma particular de auto-consciência exige-lhe um esforço adicional que, se for inteligentemente repetido, com a atitude interior e abordagem correctas – i.e., sem forçar – transportá-lo-á para estados mais elevados do seu ser, levando-o eventualmente ao despertar espiritual. Até mesmo os vários incómodos, fadigas e dores podem ser usados como breves lembranças, dirigindo-lhe a atenção para o interior, para o seu acalentado ideal, despertando-o deste estranho estado de esquecimento de si, sempre que este o absorve.

O corpo e a lembrança de si próprio

É possível que o aspirante se venha a desligar de uma identificação errada com o seu corpo, desejos e necessidades e, que de uma forma subtil, possa ver os diferentes movimentos e atitudes – qualquer que seja a acção em que se envolva, seja a andar, a falar, a ler, a escrever ou a comer - através do olho da mente. Desta forma, também aprenderá a colocar distância e espaço entre ele e os objectos percepcionados do mundo exterior, evitando assim identificar-se com eles, como inevitavelmente acabaria por fazer.

Esta forma peculiar de sentir o corpo e de se tornar consciente dos seus movimentos, especialmente no princípio do trabalho interior, chamará a sua atenção para a agitação física, as irritações, os gestos desnecessários, as posturas erradas e tensões musculares, todos retirando-lhe constantemente energias – energias essenciais para os seus esforços espirituais e para a transformação. Só o facto de reparar nestas coisas, dar-lhe-á algum domínio sobre elas, permitindo-lhe começar a libertar-se. Além disso, este sentimento específico e esta particular observação do corpo, pode vir a tornar-se numa vantagem, ajudando-o rapidamente a captar e a desligar-se de toda e qualquer tensão emocional e agitação mental presentes, cuja provável origem se deve, parcialmente, a esta inquietude e às tensões físicas indesejáveis (que de outra forma seriam desconhecidas e, aumentando, se transformariam em compulsões caso ficassem sem observação).

Sempre que - especialmente no início das práticas espirituais – os pensamentos estiverem conscientemente comprometidos a sentir o corpo e a observar os vários movimentos, a mente acaba por se ocupar de forma diferente da habitual. Tal vai libertá-lo de uma considerável quantidade de divagações sem significado e impraticáveis, nas quais o ser humano perde tanto tempo da sua vida. Mais adiante, sabendo já de forma bem clara, onde se centrar, muitas destas imaginações vãs cairão por terra, por si só.
O despoletar desta sensação física e da consciência dos diversos movimentos do corpo também vêem a demonstrar intuitivamente como, de uma forma geral, ele se identifica com as sempre cambiantes exigências do seu corpo e, ao mesmo tempo, de forma paradoxal, se desliga delas de forma errada.

Pode-se ver, assim, quão pequena é a consciência que geralmente o ser humano tem do seu corpo. Talvez, sem exagero, se possa dizer, que os únicos momentos em que ele, mais ou menos, se apercebe são nas ocasiões em que a sua atenção é dirigida à força para si próprio pela exaustão, fome, sede, doença, repentinas lesões, desejos carnais, chamadas da natureza, ou pelo calor ou frio excessivo. Mesmo assim, a consciência do corpo é apenas parcial, uma vez que a sua atenção está centrada no que o incomoda, ou no que lhe exige satisfação nesse particular momento. Assim, em vez do corpo ser usado como um meio para o homem atingir objectivos mais elevados – estar “presente” em si mesmo – acaba por se tornar, numa irritação; consequentemente, acaba por gratificar os seus apelos imperativos, cega e rapidamente, para regressar ao seu habitual estado de distracção, logo que possível, ficando de novo absorvido passivamente em fantasias mentais inúteis, sonhos e até em emoções negativas.

De cada vez que se dá este inesperado movimento de interiorização e este estado raro de consciência – quer esteja inactivo, quer envolvido em acções no exterior – chamando-o de volta a si próprio da sua condição de falta de atenção e dispersão, verá como isto está intimamente ligado a um sentimento súbito e a um conhecimento subtil do seu corpo. Nesse preciso momento, sem estar consciente ao princípio emerge a memória da unidade (re-member) da mente com o corpo e com os sentimentos, o que, em certa medida, será sentido como uma peculiar consciencialização global do todo o seu eu, uma reunião invulgar destes três aspectos do seu ser, acontecendo num certo nível e plano, e por breves instantes. Abruptamente, esse estado desvanece-se, e antes mesmo que o aspirante compreenda o que aconteceu, distancia-se de novo, perdido nas suas condições habituais de auto-esquecimento e de divagações.

Sem haver uma unidade significativa destes três aspectos na sua natureza, o aspirante não consegue encontrar a atitude certa e a força necessária para tão sério trabalho. A verdadeira compreensão de tal será o começo desta tão importante união interior, a qual, finalmente, lhe consentirá esforços de determinada natureza. Infelizmente, ao princípio, este estado de unidade só é durável por breves períodos, antes que ele se afunde novamente, no estádio habitual da divisão interior. É de vital importância, para a sua busca espiritual, ver com clareza, como, mal este acontecimento inusitado da totalidade do ser aparece na sua verdadeira condição, logo se dispersa e se ausenta de novo. Compreender devidamente este problema, sem se impacientar ou irritar consigo mesmo, é, na realidade, começar a conhecer o seu caminho.
É por demais essencial, que o pesquisador constate no seu íntimo e o mais cedo possível que, de cada vez que perde esta consciência de si tão fora do comum, é como se fosse violentamente cortado em pedaços. É como se fosse, des-membrado internamente, e, de forma singular, e sem se aperceber inicialmente, deixasse de ser! Dá-se, nesse momento no seu ser, uma espécie de morte interior, impossível de reconhecer senão quando tenha, de alguma forma específica, sido preparado para a identificar.

Existe outra matéria igualmente importante a ser discutida, no que respeita ao corpo, e essa é a questão da “sensação”. Sempre que durante a meditação, ou noutra altura qualquer, se usa a sensação do corpo como suporte para esta singular “presença interior”, dar-se-á, pouco a pouco e consoante ela se vai aprofundando, uma estranha transformação do corpo denso para algo mais fino e leve. Sente-se de uma forma algo misteriosa, como uma transmutação em luz e vontade, verdadeiramente sem peso e etérea. Quanto mais profunda e fina é esta sensação, mais sublimado, subtil e rarefeito se sente o corpo. Esta peculiar forma de consciência e de sensação corporal, também ajuda a que se manifeste uma enigmática intuição, sob uma forma bem estranha, de que a pessoa não é o seu corpo.

Se este problema, de não se sentir o corpo correctamente, for posto de lado e não for resolvido logo desde o início, então, no decorrer do tempo e consoante a pessoa for envelhecendo, passará a ter cada vez menos controle sobre ele, até que, finalmente, se torne uma espécie de entidade separada dele, e ele, o seu escravo (o que vulgarmente acontece na velhice). Tornar-se-á rígido e tosco de uma tal maneira que seria impossível suspeitar na juventude. Também vem a desenvolver certas inclinações, vícios e tensões – todas elas, sérias formas de impedimentos espirituais. É interessante observar quão surpreendentemente flexíveis são todos os felinos, e, como, até ao fim, conservam uma singular liberdade de movimentos e profunda sensação física. Igualmente quem já viu um recém-nascido não deixou de notar a extrema sensibilidade dos seus dedos, e até onde sente o seu corpo. É impossível ficar indiferente ao delicado toque e ao agarrar das mãos de uma criança.

O benefício desta especial tomada de consciência e de sensação do corpo pelo aspirante, permitir-lhe-á, entre outras coisas, entrar nos últimos estádios da vida de forma digna e refinada. Ser-lhe-á possível desenvolver uma certa sensibilidade física e beleza delicada no seu tempo de declínio, uma beleza que será muito nobre e espiritualmente inspiradora para todos aqueles que o contactem.

Excerto do livro A Via da Vigilância Interior de Salim Michael
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Impresso em 7/12/2019 às 0:55

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