Fundação Maitreya
 
Efemérides do Oriente e do Ocidente

de Pedro Teixeira da Mota

em 07 Jun 2017

  1. Segundo certas tradições, entra no Mahanirvana, a grande extinção do ego e da separatividade em relação à Unidade, Siddhartha Gautama Sakya, o Buddha, o iluminado, em 483 A.C. em Kusinara, no actual Nepal. Deposta a vestimenta terrena, o corpo espiritual desprende-se da terra e a essência de pura luz desabrocha totalmente (ou mais...), mas também inefavelmente - quantos discípulos e discípulas junto aos seus mestres ou mestras em tal momento sentiram e viram o que se passava? - e daí os mistérios e interrogações que a religião budista gerará quanto ao nirvana, à continuidade do espírito individualizado, ou ainda à existência da Divindade ou do Absoluto. De qualquer modo, como terapêutica libertadora do sofrimento e da ignorância primária e como caminho de não-violência, compaixão e discriminação, o Budismo caminhará luminosamente ao longo dos séculos, com uma divisão básica: Via Pequena, Hinayana, mais formal e nua, e a Grande Via Mahayana, sobretudo desenvolvida nos Himalaias e Tibete, mais mágica e carregada de entidades, rituais e iniciações.

As efemérides do encontro do Oriente e do Ocidente, Índia e Portugal

Com a queda do Tibete livre, o Budismo Mahayana tem-se espalhado selectivamente por todo o mundo, com a irradiação pessoal do Dalai-Lama a destacar-se, embora também a linha Hinayana, sobretudo da Tailândia, tenha conseguido erguer os seus mosteiros no Ocidente, tal o de Amaravati, em Hemel Hempstead, Inglaterra, ou mesmo já hoje em Portugal, na Ericeira, Quinta do Pinhal, Cabeça Alta, onde monges como os Ajahns Dhammiko e Appamado transmitem em português o Budismo Theravada da Floresta. Os encontros mais ecuménicos ou pelo menos dialogantes dos Budistas com os Cristãos portugueses no tempo das navegações XVI e XVII passaram-se no Tibete, China e Japão. Eis um excerto do testamento final de Gautama transmitido através da sua fala ao fiel e mais íntimo discípulo Ananda: «Sede vós para vós, Oh! Ananda, o vosso próprio archote e o vosso próprio recurso, não procurai outros apoios. Que a verdade seja o vosso archote e o vosso apoio, não procurai outros apoios... Aquele que será o seu próprio archote e recurso... e o que faz da verdade o seu guia e fundamento, sem se socorrer de mais nada, esses serão, Oh! Ananda, os meus verdadeiros discípulos, os que seguem a boa maneira de viver».

2. O papa Paulo III em 1537 pela bula Sublimis Deus declara não só que os Índios da América são capazes de receber a fé e os sacramentos cristãos, como os defende energicamente: «Nós decidimos e declaramos que os chamados indígenas, bem como todos os que vierem a entrar em relação com a cristandade, não deverão ser privados da sua liberdade e bens — não obstante as alegações contrárias — ainda que eles não sejam cristãos». Por detrás desta vitória estava a mão e a vida do Padre Bartolomeu de las Casas e atalhava-se assim a cupidez de colonos espanhóis e portugueses que alegavam serem os Índios animais privados de razão. No Brasil, os jesuítas Manuel da Nóbrega, José Anchieta e António Vieira destacar-se-ão como defensores firmes dos seus direitos.
Naufrágio da nau “S. Gonçalo” no imponente Cabo da Boa Esperança neste dia em 1630. Os sobreviventes experimentam a vida selvagem, ou a de Robinson Crusoé, até construirem com os restos da nau dois barcos, dos quais um regressa a Goa e o outro naufraga já na barra de Lisboa.
D. Joana de Castro, a crioula Begun, filha dum francês e duma indo-portuguesa de Baçaim, nasce em 1706. Casada duas vezes com franceses, vem a ser uma excelente governadora de Pondichery, com o marquês de Dupleix, na orientação do Estado Francês na Índia.

3. Manuel Faria e Sousa, escritor de grande cultura e subtileza, embora para historiador com demasiada criatividade imaginativa, morre neste dia em 1649 e o corpo é sepultado na Igreja dos Premonstratenses (ordem fundada em França no séc. XII), na corte de Madrid. Comentador da obra de Camões, defendeu as suas utilizações de acusação de heterodoxo, autor prolífero, com obras de engenho simbólico, foi um dos elos da Cavalaria do Amor, segundo Sampaio Bruno. Na introdução à sua monumental Ásia Portuguesa mostra bem a sua visão espiritual dos seres e dos portugueses: «Os corações portugueses não cabiam já na pequenez do seu reino. Desse modo, uma ousadia sublime os foi dilatando a tal ponto que os colocou em absoluta necessidade de se alargarem tanto que acabaram por exceder a quantidade de matéria-prima». «Nos assaltos às praças, ou expugnáveis ou duvidosas, obstinavam-se mais intrépidos os seus peitos, porque já os seus espíritos parecia estarem dentro delas... Na medida dos feitos, subiram as utilidades e, com estas, os vícios... Veremos alguns entrarem pobres na Índia rica, e, para de lá saírem riquíssimos, deixarem-na pobre, o que é bem para lastimar. Mas há muito mais: que não bastou o exemplo de alguns terem saído dela sem caudal, quando ela estava caudalosa, para que de lá não saíssem com grande substância, quando ela estava soltando gemidos de pura miséria». Descobrindo constantes analogias entre as religiões, Faria e Sousa relaciona «na Igreja da Santíssima Trindade em Madrid, uma Imagem de três Homens, cujos corpos se uniam em um; com três cabeças divididas, e todas de um parecer; e tudo isto se via incluído num triângulo... por mais que quanto à vista corpórea pareça monstro» aprovada contudo como «virtuosa, lícita, e católica», com a imagem indiana, provavelmente a descrita por D. João de Castro, de um «Gigante de três cabeças, coroado com tiara pontifical, que hoje se vê no estupendo pagode da ilha de Elefante, e o seu nome é Mahamurti, tido por superior a todos os Deuses que se vêem na mesma construção». Assim se arriscava Faria e Sousa, considerando ainda ignorantes os que não vissem nisso «utilíssimas memórias da Corte celeste entre os mortais»...
4. Siddhartha Gautama, o Buddha, teria pregado neste dia o seu primeiro sermão, depois da iluminação em Sarnath, junto a Kashi, em 528 A.C., aos seus antigos companheiros de ascese e que aceitando o Nobre Óctuplo Caminho do Meio se tornam os seus primeiros discípulos, dizendo-se que a roda do Dharma, o Dever, Ordem, ou Lei, começou a rodar para toda a eternidade.

P. Baltazar Barreira, bem recebido no Congo, Cabo Verde e Serra Leoa, missionário abnegado e cheio de amor, morre com 74 anos, suavemente, na ilha de Santiago em 1612.
Depois de 12 anos na Índia, passou o P. Diogo de Matos em 1620 à Etiópia para apoiar a conversão do imperador Susénio. Assisti-lo-á na morte, em 1632, ainda na fé de Roma, embora já antes este tivesse restaurado os ritos e costumes antigos em desacordo com os de Roma, vindo a ser o seu filho quem expulsará os jesuítas do reino etíope. Deixou-nos duas Cartas e morre neste dia em Goa em 1633.
Júlio Gonçalves nasce em Nova Goa em 1881. Oficial da marinha e médico, autor de obras sobre a Índia notáveis, como Os Portugueses e o Mar das Índias. Da Índia Antiga e sua História, onde explica que «conheceram-na os Iranianos sob o nome de Hendu, com o H fortemente aspirado, porque a banhava o rio Sindhu. A esse rio chamaram os gregos Indu — e Índia ao país adjacente. E Índia ficou sendo para toda a Europa... Só o índio não conheceu como Índia a sua terra, que para ele foi sempre Ariawarta ou Baratawarta, a terra dos Árias (nobres) ou dos reis Baratas».
Ardeshir Ruttoni Wadia, pensador, filósofo, nasce em Bombaim em 1888. Escreverá sobre Zoroastro, Gandhi, a liberdade da Mulher e no seu ensaio Democracia e Sociedade profetizará a era actual da globalização, embora com talvez alguma confiança exagerada na democracia e na educação modernas:«No futuro o Ocidente e o Oriente não serão mais que termos geográficos e não evocarão mais diferenças morais, políticas, religiosas. A democracia é igualizadora e o seu instrumento mais eficaz é a educação. É possível que o Ocidente venha a considerar os princípios fundamentais do pensamento indiano, o karma e a reincarnação; e talvez o génio científico do Ocidente consiga dar-lhes uma base científica, de modo que não terão de ser aceites como dogmas».

5. O infante D. Fernando ganha o cognome de Santo ao suportar com muita paciência o longo e atribulado cativeiro, que ao princípio não quis, e que o levou de Tânger a Arzila e por fim a Fez onde morre neste dia em 1433, depois de 15 meses em estreita cela e a ferros, suspirando: «Ora deixai-me acabar». No testamento antes de partir de Lisboa, numa antevisão já do pobre que de seu, na nua cela, só terá o breviário, dirá: «Deixo a Fernão Lopes que foi meu escrivão de puridade, um livro em português que ele me deu, que se chama Ermo Espiritual».Os seus companheiros enterraram o seu coração e entranhas, enquanto o corpo ficava dependurado nas muralhas da cidade. Oito anos depois, ao ser resgatado o seu secretário o P. João Álvares, foi trazido o coração para Portugal e depositado dentro dum cofre no túmulo real da Batalha, com o infante D. Henrique e outros a rezarem. «Le bien me plait», entre ramos de roseiras, foi a sua divisa na vida e com efeito sofreu os espinhos da rosa da glória guerreira, mas destilando-se em fragrância alquímica de virtude imortal. Para alguns portugueses ele é o Ser central e duplo dos Painéis de Nuno Gonçalves.

O P. Mateus Ricci em 1583, aproveitando-se dos almanaques astronómicos portugueses que anunciam um eclipse lunar, consegue determinar a longitude aproximada de Macau: 125° a oriente do meridiano das Canárias, com erro apenas de 5°. Começava assim a reduzir-se a figura geográfica da China aos seus contornos reais, e durante 18 anos o P. Ricci será infatigável e certeiro nas observações das latitudes e longitudes em que estava compreendida a China.

6. D. Manuel escreve uma carta em 1513 ao papa Leão X, um Medici de Florença e protector dos humanistas, anunciando-lhe os feitos dos portugueses no Oriente, especialmente a tomada de Malaca por Albuquerque. A reacção do papa é entusiástica, e manda celebrar missas de acção de graças e preces públicas a favor dos Portugueses no Oriente. Traduzida para latim e impressa em Roma em Agosto, a carta espalha-se por toda a Europa culta em inúmeras reedições.

O vice-rei da Índia D. João de Castro, cientista, humanista e íntegro governador, morre em 1548, com 48 anos de estudos e de lutas. Antes de morrer, chamou os cidadãos mais importantes de Goa para lhes comunicar: «Não terei, Senhores, pejo de vos dizer, que ao Vice-Rei da Índia faltam nesta doença as comodidades, que acha nos hospitais o mais pobre soldado. Vim a servir, não vim a comerciar ao Oriente, a vós mesmos quis empenhar os ossos do meu filho, e empenhei os cabelos da barba, porque para vos assegurar, não tinha outras tapeçarias, nem baixelas. Hoje não houve nesta casa dinheiro, com que se me comprasse uma galinha; porque nas armadas que fiz, primeiro comiam os soldados os salários do Governador, que os soldos de seu Rei; e não é de espantar, que esteja pobre um Pai de tantos filhos. Peço-vos, que enquanto durar esta doença, me ordeneis da fazenda Real uma honesta despesa, e pessoa por vós determinada, que com modesta taxa me alimente». E jurou sobre o missal «que em nada se havia aproveitado da fazenda do rei nem de qualquer outra pessoa, que nenhum contrato havia tido para multiplicar a sua». E ditou-lhes uma carta ao rei, em que lhe lembra os grandes serviços feitos por Manuel de Sousa Sepúldeva, Francisco da Cunha, D. Francisco de Lima, Vasco da Cunha, D. Diogo de Almeida Freire e outros. Acompanhado por S. Francisco Xavier e dois franciscanos liberta-se como espírito do despojo corporal.

Reincarna em 1935, e prova (na escolha acertada dos objectos que lhe teriam pertencido na vida anterior) poder ser o 14º e actual Dalai-Lama do Tibete, Tenzin Gyatsu, a fina alma que terá contudo de exilar-se para a Índia desde 1950. Dirá: «Nós, os budistas, acreditamos que todos os seres passam por nascimentos sucessivos e esforçam-se, no decorrer desta série de vidas, por chegar à perfeição búdica [o estado realizado por Gautama, o Buddha])».

O excepcional professor de filosofia e mestre Gurudeva Ranade ou de seu nome completo Ramachandra Dattatreya Ranade, desincarna neste dia em 1957 em Nimbal, Maharashtra, na Índia, com 71 anos. Mestre reconhecido por centenas de discipulos, ao mesmo tempo que era professor universitário, desenvolveu a linha tradicional do Bhakti yoga, na qual bhava ou sentimento e aspiração por Deus são fundamentais, a par de uma meditação que une o nosso espírito com o espírito Divino. Afirmou: «Não há outro caminho para a libertação a não ser a pronúncia do Nome Divino transmitida pelo mestre e a visão consequente de Deus». Como actividades meritórias apontou: «a seguir à meditação estão as profissões de saúde que diminuem o sofrimento dos outros e a seguir a isto está distribuição de comida aos pobres». Mas advertirá que sem realização divina, a consciência da presença luminosa do Espírito em nós, as obras virtuosas de pouco valem...

7. O rei D. Afonso V, em 1454, doa neste dia à Ordem de Cristo toda a espiritual administração e jurisdição das terras conquistadas e por conquistar em África.

E em 1494: «Em nome de Deus todo poderoso, Pai e Filho e Espírito Santo, três pessoas realmente distintas e apartadas e uma só essência divina, manifesto e notório seja a todos quanto este público instrumento virem, como na vila de Tordesilhas, a sete do mês de Junho do ano de nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1494... se assinale pelo dito mar oceano uma raia ou linha direita do polo ártico ao polo antártico... a 370 léguas das ilhas de Cabo Verde». Castelhanos e Portugueses assinam o tratado de Tordesilhas pelo qual o mundo é dividido ao meio por uma linha (puxada nas negociações para Oeste de modo a caber o trajecto com ventos favoráveis para a Índia e provavelmente o Brasil que já se deduziria ou saberia), cabendo aos primeiros a zona a nascente e aos segundos a zona a poente. D. João de Sousa, cavaleiro da Ordem de Cristo e senhor de Sagres, e Duarte Pacheco Pereira são dois dos embaixadores enviados por D. João II, arguto delineador das rotas que asseguraram a expansão.
Tratado de paz entre o imperador Mogol Jahangir e o rei de Portugal em 1615, pondo fim aos apresamentos de navios mogóis em Surate e a um certo desassossego nada adequado ao respeito mútuo que desde Akbar devia reinar entre tão poderosos e dilatados senhores...
Natural de Peniche, o irmão franciscano Pedro da Madre de Deus esteve servindo no Ceilão, Chaul e Baçaim. Uma noite saiu da oração no coro à pressa e meteu-se na cela a dar muitos ais: «O seu companheiro pôs-lhe a mão no peito donde mostrava queixar-se, e o achou tão inflamado que parecia que abrasava», tão intensos eram o seu amor a Deus e a corrente espiritual. Perguntado à hora da morte se tivera visões em vida, respondeu: «uma só, estando em oração, um frade que ele creu que era o nosso Padre S. Francisco de Assis, e que lhe dissera: — Filho, persevera». Morre neste dia em 1624, emitindo o som prático do Verbo ou Palavra: Amem.

Morte e ascensão de Maomé
8. Maomé, o profeta do Islão, cujos 5 pilares são a oração, a fé, o viver em caridade, o jejum e a peregrinação, morre neste dia em 632 em Medina, a cabeça apoiada em Aicha, a preferida das suas nove mulheres. Não foi fácil a sucessão dos que se tornariam os detentores das rédeas do Islão pois os califas não quiseram aceitar a sucessão indicada por ele para Ali, casado com a sua filha Fátima, e assim se criará a divisão hoje tão lancinante entre os chiias e os sunitas. Serão os sufis, ascetas e místicos, tanto dos chias como dos sunitas aqueles que ao longo dos séculos e em todos os povos e lugares se elevarão às sublimidades do conhecimento e amor de Deus, na ausência das quais toda a religião é uma caricatura da sua essência divina. A tradição islâmica, influenciada pelo cristianismo e judaísmo, imaginará como estes uma transladação aos céus do próprio corpo do seu profeta, não deixando os seus ossos em terra, mas desnecessária e no fundo materializando os ensinamentos e a visão do mundo espiritual. No tempo dos Descobrimentos a grande fonte do sangue derramado foi a luta islâmico-cristã, talvez mais por interesses políticos e económicos do que pelos ensinamentos religiosos, que devem ser hoje equacionados pelo comparativismo ecuménico e comungados ao nível espiritual. Entre os estudiosos ocidentais da espiritualidade islâmica deve-se realçar o espanhol Miguel Asin Palacios, o francês Henry Corbin e o inglês Reynold Nicholson. Dois conhecidos intelectuais franceses, o hermetista René Guénon e Roger Garaudy, converteram-se mesmo ao Islão.

Os ossos de D. Vasco da Gama (ou dum seu descendente, pois vieram transladados da Vidigueira), o realizador da tão desejada união por mar entre Portugal e a Índia legendária, são lançados em 1880 solenemente numa barca tumular neo-manuelina no mar fluídico do templo dos Jerónimos, obra imortal dos mestres Boitaca, João Castilho, Diogo Torralva e Jerónimo de Ruão. Aqui mandara erguer o infante D. Henrique em 1460 uma ermida para os navegadores velarem antes das partidas e para socorro dos navegantes, entregando-a aos freires da Ordem de Cristo. Com a chegada à Índia mandou D. Manuel construir os Jerónimos, onde foram inscritos muitos símbolos importantes, dentro da geometria sagrada da sua construção, na recreação dum ambiente tanto marítimo como oriental que evoque o Divino. Num dos templos de Deus, realizado pelo Portugal dos Descobrimentos, as imagens de Luís de Camões e Vasco da Gama, o poeta amoroso e o navegador ousado (a que se juntaram no claustro o íntegro historiador e municipalista Alexandre Herculano e Fernando Pessoa), são um apelo ao aperfeiçoamento dum povo cuja missão mais elevada, como é a de todos os povos, é fraterna e ecuménica e que deve agora unir as dualidades em amor e sabedoria, fazendo guerra ao infiel que está em si próprio, tendo no olhar determinado a subida ao mais alto monte da Ilha dos Amores, os Himalaias da alma.

9. D. João II manda em 1493 dar ao Rabi Abraão (Zacuto) astrólogo dez espadins de ouro. Chegado de Espanha em 1492, permanece em Portugal publicando obras como o famoso Almanaque que serviu nas navegações e aconselhando os reis, até que em 1497 D. Manuel o cola à parede com a conversão, ou a saída pela expulsão. Recolhendo-se a Tunis e vindo a morrer possivelmente em Jerusalém, manifestou a crença na vinda próxima do Messias. Luís de Stau Monteiro escreverá em 1968 as Mãos de Abraão Zacuto, denunciando as opressões da liberdade, ainda no tempo do governo e da censura de Salazar
Duarte Galvão, enviado como embaixador à rainha da Etiópia Helena, morre na ilha do Camarão, no mar Vermelho em 1517, devido às asneiras do vice-rei Lopo Soares de Albergaria que acabaram por anular a expedição e fizeram perder-se os presentes e livros únicos para o Preste João, provavelmente algum manuscrito do “Livro da Corte Imperial”, uma obra na linha de Raimundo Lulo e destinada a convencer judeus, muçulmanos e gentios da excelência cristã, exemplares da Vita Christi, etc. Fora Cronista-mor do reino e embaixador em três reinados. Com 70 anos foi ainda animador da expedição que com o patriarca Mateus procurou chegar ao Preste João, tendo então escrito uma Exortação aos que iam à Índia, «para que saibam e folguem muito mais de saber que bem, e serviço de Deus vão fazer». Enterrado o corpo na areia, 8 anos depois o P. Francisco Álvares irá buscá-lo e trazê-lo para Cochim, onde seu filho António Galvão o recebe com grande procissão e o finge enterrar no mosteiro de S. António, levando-o secretamente de noite para a sua nau, a “Santa Maria do Espinheiro”, na qual o traz até Lisboa, para a igreja de Xabrégas. António Galvão levou por diante o testamento anímico do pai, na coragem, determinação e altruísmo e será chamado o “Apóstolo da Molucas”.

D. Cristóvão da Gama e os seus 400 companheiros internam-se neste dia pelas terras do Preste João para o ajudar a sobreviver aos ataques dos mouros do emir de Harar, em 1541. Na ardente e saudosa despedida da expedição, o governador e seu irmão D. Estêvão inicia-o: «Aqui vos entrego esta bandeira d’El-Rei nosso senhor, como divisa de Cristo e vo-la encarrego quanto posso, e vo-la mando sobre a bênção do nosso bom pai, vós a guardeis e enxalceis quanto em vós fôr, com todas as vossas forças até por isso fenecerdes a vida».
Abre neste dia em 1585 o 3º Concílio Provincial de Goa. Se no segundo (1575) ainda se dizia que não devia haver constrangimento nas conversões, neste a rédea já vai solta: multas aos infiéis, proibição dos brâmanes usarem a linha, expulsão de gentios prejudiciais e pede-se ao rei que acabe com os casamentos hindus. Quem ainda os protegia era a população portuguesa de Goa e algumas autoridades como os desembargadores e por isso pretende-se que estes não possam apelar, nem agravar.
Morre mártir na Etiópia, depois de oito anos de batalhas para trazer ao grémio católico os fiéis da terra, em 1638, o bispo de Niceia, Apolinário de Almeida. Como teria sido melhor se tivesse compreendido que a uniformidade mata a alma própria de cada ser, região ou povo...
Como tantos portugueses dos Descobrimentos, que evoluiram rapidamente em contacto com tanta amante, madrasta e mãe experiência, Manuel da Cruz, depois de ser capitão na Índia, sentiu-se chamado ao estado de religioso mas, dando-se mal com o clima de Goa, veio a viver 28 anos no convento da Arrábida, onde tinham brilhado S. Pedro de Alcântara, Agostinho da Cruz e outros franciscanos, falecendo neste dia em 1730.

10. Dia de Portugal, ser espiritual, anímico e eco-geográfico. Dia dos propósitos duma colectividade e daqueles que por obras valerosas se vão da lei da morte libertando, ou que tem respondido à condição: «Vós, que à custa de vossas várias mortes / A Lei da vida eterna (a realização da Verdade) dilatais». Embora mais um dia de palavras e condecorações, do que reflexões, invocações, decisões, meditações e realizações, há que manter a esperança, tanto numa melhoria da qualidade de vida, como em que as gerações futuras se harmonizarão melhor com a grande alma Portuguesa, com a sua Natureza mais preservada e amada, com os elos mais importantes da sua Tradição Espiritual, ou mesmo com o Arcanjo de Portugal.

Vera efígie (anónima) de Camões, na cela prisional de Goa, em 1558, sempre escrevendo e às Musas dado.
Luís de Camões, um dos símbolos da Pátria, morre com ela em 1580, provavelmente numa peste, pouco tempo após Alcácer Kibir. Com 17 anos de Oriente, Camões estava pronto para cantar a gesta dos Descobrimentos e para desaparecer com o crepúsculo da pátria, tão sangrada no norte de África. Fernando Pessoa, o “Super Camões” como ele próprio se intitulou na revista portuense Águia, dirá na carta ao Conde Keyserling que publiquei pela 1ª vez na Grande Alma Portuguesa que esta desde Kibir tornada subterrânea se aventurará de novo um dia já não materialmente, mas supra-religiosamente. E se a Mensagem é finalizada com o aviso do nevoeiro, também os Lusíadas, templáriamente, murmuram: «Não mais, Musa, não mais, que a lira tenho destemperada e a voz enrouquecida, / E não do canto, mas de ver que venho / cantar a gente surda e endurecida». Mesmo assim, Luís de Camões, ao deixar algo desiludido da vida terrena o «instrumento da alma» ou corpo perecível, entregava-nos a sua obra, obtida pelo esforço iniciático dum ideal real, «para servir-vos braço às armas feito; / Para cantar-vos mente às musas dada». Ao conseguir realizá-lo com harmonia e beleza, libertou-se da lei da morte e, não só como «sombra gentil, da sua prisão saída, do mundo à pátria (celestial) volveu», como tornou a sua vasta e subtil obra um instrumento imorredoiro da cultura, o culto de Ur, a Luz Fogo.
Sir Edwin Arnold nasce em 1832 no Reino Unido e obterá um sucesso extraordinário com os longos poemas dedicados à vida dos mestres Jesus e Buddha, A Luz do Mundo, e A Luz da Ásia, catalizadores dum interesse maior pelo Oriente.
   


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Impresso em 22/11/2017 às 5:38

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