Fundação Maitreya
 
Dhammapada - 17

de Acharya Buddharakkhita

em 02 Out 2017

  O ensinamento do Buddha pode apenas dar-nos uma compreensão inicial do Dhamma, mas não pode fazer com que o Dhamma fique nos nossos corações. E porque não? Porque ainda não praticámos, ainda não ensinámos a nós mesmos. O Dhamma emerge com a prática. Conhecem-no através da prática. Se duvidarem do Dhamma, duvidam da prática. Os ensinamentos dos mestres podem ser verdade, mas somente ouvir o Dhamma não é, por si só, suficiente para sermos capazes de o realizar. O ensinamento apenas indica qual o caminho. Para realizar o Dhamma temos de agarrar no ensinamento e trazê-lo para os nossos corações. A parte que é para o corpo, aplicamos ao corpo, a parte que é para a fala aplicamos à fala e a parte que é para a mente, aplicamos à mente. Isto significa que depois de ouvirmos o ensinamento devemos ensinar a nós mesmos.

Tanhavagga; O Anseio

334. O anseio de uma pessoa que vive descuidada cresce como uma trepadeira. Tal como o macaco buscando frutas na floresta, essa pessoa pula de vida em vida (provando o fruto do seu kamma).

335. Quem quer que se deixe vencer por este anseio miserável e pegajoso, as suas tristezas crescerão como a erva depois das chuvas.

336. Mas quem quer que vença este anseio miserável, tão difícil de superar, suas tristezas cairão como a água cai da folha de lótus.

337. Por isso digo: Boa sorte a todos reunidos aqui! Desenterrem a raiz do anseio, como alguém em busca da perfumada raiz da erva birana. Não deixem que Mara vos esmague vezes sem conta, como a inundação esmaga a cana.

338. Assim como uma árvore, que apesar de cortada, se as raízes se mantiverem intactas e firmes, brota de novo da mesma forma, até que o desejo latente seja desenterrado, o sofrimento surge vezes sem conta.

339. O homem equivocado no qual as 36 correntes(u) do anseio ainda correm fortemente em direcção aos objectos deliciosos, é varrido pelo dilúvio dos seus pensamentos apaixonados.

340. Essas correntes fluem por todo o lado, e a trepadeira (do anseio) brota e cresce. Vendo que a trepadeira despontou, corta a sua raiz com sabedoria.

341. Fluindo (vindo de todos os objectos) e regados pelo anseio, os sentimentos de prazer despontam nos seres. Presos aos prazeres e buscando o gozo, estes homens são vítimas do nascimento e da morte.

342. Atormentadas pelo anseio, as pessoas correm como uma lebre prisioneira. Presas por bloqueios mentais, regressam ao sofrimento, uma e outra vez por um longo tempo.

343. Atormentadas pelo desejo, as pessoas correm como uma lebre perseguida. Portanto, aquele que anseia por ser livre de paixões deve destruir o seu próprio desejo.

344. Existe quem se afasta dos desejos adoptando a vida da floresta (i.e., de monge). Mas depois de sair dos hábitos mundanos, corre de volta para eles. Observai esse homem! Apesar de livre retorna para essa mesma escravidão!

345-346. Os sábios dizem que correntes de ferro, madeira ou corda, não são fortes. Mas a paixão e o anseio por jóias e ornamentos, crianças e mulheres - isso, dizem, é uma corrente bem mais forte e que, embora aparentemente solta, é difícil de tirar. Esta também os sábios cortam. Sem saudade alguma, abandonando
o prazer sensual, renunciam ao mundo.

347. Aqueles que são apaixonados pela luxúria caiem de novo na corrente em redemoinho (do saṃsāra) como uma aranha em sua teia. Esta também os sábios cortam. Sem qualquer saudade, abandonam todo o sofrimento e renunciam ao mundo.


348. Deixa o passado, deixa o futuro, deixa o presente, e passa para a margem mais distante da existência. Com a mente plenamente livre, não regressarás jamais ao nascimento e à morte.

349. Para uma pessoa atormentada por maus pensamentos, que é dominada pela paixão e dada à busca do prazer, o seu anseio cresce constantemente. Ele cria de facto uma forte prisão.

350. A pessoa que com alegria subjuga os maus pensamentos, que medita sobre as impurezas e está sempre consciente – é ela que porá um fim ao anseio e que despedaça a prisão de Mara.

351. Aquele que alcançou a meta, é destemido, livre de anseio, livre de paixão, e arrancou os espinhos da existência – para ele este é o último corpo.

352. Aquele que está livre de desejo e apego, que se aperfeiçoou em descobrir o verdadeiro significado do Ensinamento, e que conhece a combinação dos textos sagrados na sequência certa – ele na verdade, é o portador de seu corpo final. Ele é verdadeiramente chamado de profundamente sábio, o grande homem.

353. Um vencedor, Eu sou acima de tudo, tudo eu conheci. No entanto desapegado estou de tudo o que foi conquistado e conhecido. Abandonando tudo, sou livre pela destruição do anseio. Tendo assim compreendido directamente tudo por mim mesmo, a quem devo chamar meu professor?

354. O dom do Dhamma supera todas as prendas; o gosto do Dhamma supera todos os gostos, o prazer no Dhamma supera todas as delícias. Quem se libertou do anseio vence todo o sofrimento(v).


355. As riquezas arruínam só os tolos, não os que buscam o Além. Por ansiar riquezas o imbecil arruína-se tanto a si como os outros.

356. As ervas daninhas são a ruína dos campos, a luxúria é a ruína da humanidade. Portanto, tudo quanto é oferecido aos que são livres de luxúria, produz frutos abundantes.

357. As ervas daninhas são a ruína dos campos, o ódio é a ruína da humanidade.
Portanto, tudo quanto é oferecido aos que são livres de ódio, produz frutos abundantes.

358. As ervas daninhas são a ruína dos campos, a ilusão é a ruína da humanidade. Portanto, tudo quanto é oferecido aos que são livres de ilusão, produz frutos abundantes.

359. As ervas daninhas são a ruína dos campos, o anseio é a ruína da humanidade. Portanto, tudo quanto é oferecido aos que são livres de anseio, produz frutos abundantes.

Tradução de Ajahn Dhammiko
   


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Impresso em 11/12/2017 às 5:51

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