Fundação Maitreya
 
Dhammapada19 - O Homem Santo

de Acharya Buddharakkhita

em 05 Jun 2018

  O ensinamento do Buddha pode apenas dar-nos uma compreensão inicial do Dhamma, mas não pode fazer com que o Dhamma fique nos nossos corações. E porque não? Porque ainda não praticámos, ainda não ensinámos a nós mesmos. O Dhamma emerge com a prática. Conhecem-no através da prática. Se duvidarem do Dhamma, duvidam da prática. Os ensinamentos dos mestres podem ser verdade, mas somente ouvir o Dhamma não é, por si só, suficiente para sermos capazes de o realizar. O ensinamento apenas indica qual o caminho. Para realizar o Dhamma temos de agarrar no ensinamento e trazê-lo para os nossos corações. A parte que é para o corpo, aplicamos ao corpo, a parte que é para a fala aplicamos à fala e a parte que é para a mente, aplicamos à mente. Isto significa que depois de ouvirmos o ensinamento devemos ensinar a nós mesmos.

O Homem Santo - Brahmanavagga


383. Esforça-te, ó homem santo! Corta o fluxo (do anseio) e descarta desejos sensuais. Conhecendo a destruição de todas as coisas condicionadas, torna-te, ó homem santo, o conhecedor do Incriado (Nibbāna)!

384. Quando um homem santo atingiu o ápice dos dois caminhos (concentração meditativa e compreensão introspectiva), sabe a verdade e todos os seus bloqueios caiem.

385. Aquele para quem não existe nem esta nem a outra margem, nem mesmo ambas, que está livre de preocupações e sem apegos – a esse chamo de homem santo.

386. Aquele que medita, sem mancha e pacífico, que faz o seu trabalho e está livre de impurezas, tendo atingido o mais alto objectivo - a esse chamo de homem santo.

387. O sol brilha de dia, a lua brilha à noite. O guerreiro brilha na armadura, o homem santo brilha ao meditar. Mas o Buddha brilha resplandecente sempre dia e noite.

388. Porque se descartou do mal é chamado de homem santo. Porque é sereno na conduta, é chamado de solitário. E porque renunciou às suas impurezas, é chamado de renunciante.

389. Não se deve atacar um homem santo, nem deve um homem santo, quando atingido, dar lugar à raiva. Vergonha para aquele que atinge um santo homem, e mais vergonha sobre aquele que dá lugar à raiva.

390. Nada é melhor para um homem santo do que refrear a mente das suas tendências. À medida que a intenção de fazer o mal desaparece, também o sofrimento desaparece.

391. Aquele que não faz nenhum mal em acção, em palavra e em pensamento, que é comedido nestas três formas – a esse chamo de homem santo.

392. Assim como um sacerdote brahmane reverencia seu fogo sacrificial, da mesma forma se deve reverenciar a pessoa de quem se aprendeu o Dhamma ensinado pelo Buddha.

393. Nem pelo cabelo emaranhado, nem pela linhagem, nem pelo nascimento alguém se torna um homem santo. Mas aquele onde a verdade e a justiça existem - é puro, esse é um homem santo.

394. De que serve o teu cabelo emaranhado, ó homem insensato? E a vestimenta de pele de antílope? Dentro de vós está o emaranhado (da paixão); só exteriormente se limpam.

395. Aquele que usa um hábito feito de trapos, que é magro, mostrando veias sobre todo o seu corpo, e que medita sozinho na floresta – a esse chamo de homem santo.

396. Eu não chamo um homem santo a alguém só por causa de sua linhagem. Se ele está cheio de apegos impeditivos, é ape135 nas um homem arrogante. Mas aquele que é livre de impedimentos e apego – a esse chamo de homem santo.

397. Aquele que, depois de ter cortado todos os grilhões, não treme jamais, que superou todos os apegos – a esse chamo de homem santo.

398. Aquele que cortou o fio (do ódio), o laço (da cobiça), e a corda (de falsos pontos de vista), juntamente com os pertences (tendências más latentes), aquele que removeu a trave (da ignorância) e é iluminado – a esse chamo de homem santo.

399. Aquele que sem ressentimento aguenta o abuso, espancamento e punição; cujo verdadeiro poder, é a paciência – a esse chamo de homem santo.

400. Aquele que está livre da raiva, que é devoto, virtuoso, sem cobiça, comedido e que carrega o seu último corpo – a esse chamo de homem santo.

401. Como água sobre uma folha de lótus, ou um grão de mostarda na ponta de uma agulha, é aquele que não se apega aos prazeres sensuais – a esse chamo de homem santo.

402. Aquele que nesta vida compreende por si mesmo o fim do sofrimento, que deixou de lado o fardo e se libertou – a esse chamo de homem santo.

403. Aquele que tem conhecimento profundo, que é sábio, preciso em discernir o caminho certo ou errado, e que atingiu o mais alto objectivo – a esse chamo de homem santo.


404. Aquele que se mantém distante tanto de chefes de família como dos ascetas, e que perambula sem residência fixa e que precisa de pouco – a esse chamo de homem santo.

405. Aquele que renunciou à violência para com todos os seres vivos, fortes ou fracos, que não mata nem faz com que os outros matem – a esse chamo de homem santo.

406. Aquele que é amigável entre os hostis, pacífico entre os violentos, e desapegado entre os apegados – a esse chamo de homem santo.

407. Aquele cuja luxúria e orgulho, ódio e hipocrisia caíram como uma semente de mostarda cai da ponta de uma agulha – a esse chamo de homem santo.

408. Aquele que profere suavemente, palavras instrutivas e verdadeiras, que não ofende ninguém – a esse chamo de homem santo.

409. Aquele que neste mundo nada tira que não lhe seja dado, seja isso longo ou curto, grande ou pequeno, bom ou ruim – a esse chamo de homem santo.

410. Aquele que nada quer, tanto deste mundo como do próximo, livre de cobiça e em liberdade – a esse chamo de homem santo.

411. Aquele que não tem apego, que através do conhecimento perfeito é livre de dúvidas e mergulhou na Realidade Imortal – a esse chamo de homem santo.


412. Aquele que neste mundo transcendeu tanto os laços do mérito e do demérito, que não tem tristeza, imaculado e puro – a esse chamo de homem santo.

413. Aquele, que, como a lua, é impecável e puro, sereno e claro, que destruiu o prazer da existência – a esse chamo de homem santo.

414. Aquele que, depois de ter atravessado este pântano, esta roda da existência perigosa e ilusória, que atravessou e chegou à outra margem; que medita, calmo, livre de dúvidas, que não se apegando a nada, alcança o Nibbāna – a esse chamo um
homem santo.

415. Aquele que, tendo abandonado os prazeres sensuais, renunciou à vida doméstica, tornando-se um mendicante; destruiu tanto o desejo sensual como a existência continuada – a esse chamo de homem santo.

416. Aquele que, tendo abandonado o desejo, renunciou à vida doméstica, tornando-se um mendicante, destruiu tanto o anseio como a existência continuada - a esse chamo um homem santo.

417. Aquele que, deitando fora laços humanos e transcendendo laços celestes, é totalmente livre de todas as prisões – a esse chamo de homem santo.

418. Aquele que, tendo deitado fora gostos e desgostos, se tornou tranquilo, livre dos substratos da existência e como um herói conquistou todos os mundos – a esse chamo de homem santo.
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419. Aquele que de toda a maneira conhece a morte e o renascimento de todos os seres, e é totalmente desapegado, abençoado e iluminado – a esse chamo de homem santo.

420. Aquele que nem deuses, nem anjos, nem humanos conseguem encontrar rasto, o Arahant que destruiu todas as impurezas – a esse chamo de homem santo.

421. Aquele que não se apega a nada do passado, presente e futuro, que não tem apego a nada – a esse chamo de homem santo.

422. Ele, o Justo, o Excelente, o Heróico, o Grande Sábio, o Conquistador, o Desapaixonado, o Puro, o Iluminado – a esse chamo de homem santo.

423. Aquele que conhece os seus nascimentos prévios, que vê o céu e o inferno, que chegou ao fim dos nascimentos e atingiu a perfeição da sabedoria introspectiva, o sábio que alcançou o cume da excelência espiritual – a esse chamo de homem santo.

Tradução de Ajahn Dhammiko
   


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Impresso em 19/6/2018 às 21:27

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