Fundação Maitreya
 
Rafael - Comemoração

de Maria

em 11 Jan 2020

  Presto homenagem a Rafael de Urbino, conhecido autor de impressionantes obras de arte que enriqueceu o Renascimento e que viveu entre 1482 e 1520. Agora, passados quinhentos anos, assinala-se a comemoração da sua morte. Considerado um grande Ser, um dos maiores criadores da arte com uma obra impar nesta civilização; foi retratista, com especial inspiração em ícones religiosos, onde se inclui também a arquitetura, pois foi um dos projetistas da Basílica de S. Pedro, em Roma. Actualmente milhares de visitantes rumam aos Museus para apreciarem as suas obras, beneficiando da sua sublime mestria na execução da arte pictórica. São, de facto, ainda os temas religiosos que Rafael retratou de forma tão transcendente que deixam o visitante em estado contemplativo pelo sagrado nos seus arquétipos espirituais, que nos mostram o quanto o sagrado ou o divino assume relevância pela influência que exerce no interior de cada ser humano. Sem dúvida que Rafael soube imprimir na tela essa vivência mais espiritual com obras como a Ascensão, como se tivesse presenciado a real elevação de Cristo aos céus. Ou, o Anjo que aparece a São Pedro, quando este se encontra preso e o leva pela mão à liberdade.

São inesquecíveis estas obras pela solenidade que transcende a materialidade e nos transporta no tempo a lugares e planos, que ficaram impregnados de santidade, eternamente a irradiar a sua vibração que toca o coração de quem as contempla.

Rafael, cedo se dedicou ao ofício influenciado pelo pai e pelos grandes mestres que com eles conviviam e, com os quais, aprendeu a arte de sacralizar e perpetuar a beleza celeste ressoando por séculos e, iluminando o pensamento humano. No seu legado, ficou expressa a ligação ao Divino, estando a sua obra pronta a despertar o coração de quem o saiba captar.
O mundo progride e será cada vez melhor pela mão de seres que trazem no seu interior essa ligação transcendente e depois conseguem irradiar através dos seus feitos, pelo coração tocando os outros e, isso Rafael conseguiu, perpetuados pelos quinhentos anos que agora se celebra. Bendito Rafael…

A Luz do Anjo

A obra pictórica que apresentamos, enquadra-se na corrente Humanista do Renascimento, fonte poética, filosófica e espiritual da pintura, profunda incentivadora da criatividade, tal uma estrela que ilumina com a sua luz a escuridão da noite. Ela foi o farol que alumiou novos rumos para a humanidade, e de certa forma toda a Arte do Renascimento é de Deus que fala directa ou indirectamente.

Todas as manifestações do espírito humano interpenetram-se com as manifestações do Universo, dependem delas, evidenciando, portanto, uma atração recíproca. Um pensamento atrai obviamente uma acção correspondente. Também uma acção elevada e altruísta atrai forças etéricas espirituais que fazem vibrar e harmonizar determinadas esferas de onde podem soar notas musicais. O som dessa música é o íman que atrai o Anjo da vibração respectiva, sintonizando-o automaticamente com o seu emissor, e quanto mais elevada for a emissão do poder criador também mais alto soará a nota que atrairá maior luz angélica. Por outro lado, a Luz do Anjo define o poder e a qualidade do seu amor, e a ajuda que um Anjo pode dar aumenta de acordo com a força e pureza interior do ser que com ele se harmoniza, ao tocar as notas que pertencem à escala vibratória da sua Alma. Deparamos com um verdadeiro ciclo de atracção de energias numa escala de valores, onde as notas de música que soam mais alto se entrelaçam com os raios de Luz que envolvem um Anjo. A criatividade segue também este curso universal, onde a diversidade das aspirações artísticas, encontram maior consonância com os planos superiores, naquelas actividades que podem tocar as notas que “acordam” os Anjos dispostos a colaborar com os seres humanos. Um impulso bem dirigido, atrai no seu rasto a espiral que deve trazer a força magnética positiva para o encontro com a criatividade ilimitada, infinita. Desta forma, a arte constitui uma poderosa contribuição para a elevação a planos de amor e de beleza como arquétipos de perfeição, onde naturalmente se revela uma maior intuição de Deus.

Rafael de Urbino, que viveu entre 1483 e 1520, compartilha e colabora activamente dos grandes ideais do Renascimento, expressando no conjunto da sua grande obra evidentes valores espirituais. Ele tinha, com efeito, tão grande poder criativo que produziu uma corrente inexaurível de energias numa transmutação ígnea patente nos raios luminosos que exaltam e iluminam a sua obra. Há ainda em Rafael um carácter introspectivo e contemplativo de Beleza que nos revela as suas próprias aspirações interiores, num estilo apuradíssimo e gentil.

Ora, a Beleza será tanto mais transcendente quanto mais cristalina for a nota de música, que irá atingir o Som específico e detonador, e que se encontra no ressoar do Som Primordial, ou Cósmico. Movimentam-se então certas forças celestiais ou energias inspiradoras de Amor e de Harmonia às quais o homem pode “chegar”, impregnando depois na tela ou nas páginas de um livro o fruto dessa inspiração, que vai catalisar corações, elevando-os aos ideais da beleza, da candura e da felicidade.
O autor, consciente desse poder, pode de facto impulsionar outros seres ao despertar criativo e espiritual, ao transmitir para a sua obra o “Fiat Lux”, que ficará eternamente a irradiar a luz, luz esta que será melhor absorvida por aquele contemplativo cujo coração está mais aberto à transcendência divina, capaz pois de absorver o fluxo espiritual que se encontra por detrás de uma pintura.

Quando Rafael nos lega o Anjo a conduzir S. Pedro para fora da prisão, é a mão de Deus que vemos. A majestade do Anjo induz-nos ao Supremo Bem e impulsiona interiormente ao conhecimento do divino. Esse Anjo, que Rafael delineou de forma tão sublime e ao mesmo tempo tão poderoso, transmite-nos a ideia de estar acima dos homens, a cumprir a vontade de Deus, encaminhando-os. O Anjo dá-nos uma impressão intensa e concisa desse mundo invisível que manobra o mundo visível e conduz os destinos dos homens. Esta é uma das obras mais bem conseguidas nesta temática da catalisação de energias internas e do impulso espiritual através duma imagem religiosa. É de grande originalidade, entrecruzando-se nele técnica e devoção, e emana naturalmente desta beleza ideal uma qualidade mística. Rafael tenta, pois, revelar a beatitude da Alma, ou a parte divina do homem, tanto mais que considerava as virtudes, nas quais assenta a experiência mística ou interna, a grande força da Alma.

Para Giorgio Vasari, Rafael era a personificação desse ideal. Ele acreditava que se a sua Alma, a de Rafael, embelezava o mundo com as suas virtudes, embelezava da mesma forma o céu. E, independentemente do carácter transcendente das suas pinturas, Vasari encontrava em Rafael génio, rectidão e pureza de costumes, sendo por isso mais elevados os modos e os motivos da sua criatividade. Consequentemente na sua “Vida dos Pintores Célebres”, concluirá de Rafael: «Um sopro da divindade parece exalar-se da beleza das figuras».

Na “Libertação de S. Pedro”, partindo de uma base de concepção unitária, Rafael dividiu a obra em três instantes, e a luz que emana do Anjo é o elemento que conecta e estabelece a coerência das três partes da composição, reflectida num espelho de luz inesquecível.
Na primeira parte, com uma luz cálida e prateada, Rafael mostra-nos os guardas, que se encontram a velar a prisão, estupefactos e confundidos por algo que está a acontecer. É o Apóstolo S. Pedro que, vibrou harmoniosamente e tão alto, que atraiu um Anjo de grande irradiação de Luz, de onde fluem raios poderosos que derrubam todos os entraves à sua passagem.
Ao centro, numa cena expressiva, está ainda S. Pedro, encarcerado e guardado por soldados. Ele dorme e sonha... E é despertado pelo Anjo salvador, submergido na própria Luz, cujo resplendor ilumina toda a prisão, exaltando a sua figura.

Na terceira parte, à direita, o fulgurante Anjo conduz docemente S. Pedro pela mão. O caminhar do Anjo é resoluto, claro e magnificamente delineado pelo impulso dinâmico do seu movimento, enquanto no rosto de S. Pedro a luz espiritual não apaga os seus traços, onde se reflecte uma temerosa surpresa e dúvida, ao passar acanhadamente por entre os guardas que tombaram perante o poder ígneo do Anjo.

Toda a obra se encontra iluminada apenas pelo clarão de luz que provém da aura do Anjo — tal uma chispa divina — e, de tal modo que envolve e toca intimamente a sensibilidade humana. São, pois imagens duplamente belas pelo seu conteúdo subtil e real, e bastante enriquecedoras para quem as contempla, mesmo que seja indiferente a este tema religioso, pois de alguma forma, o que toca e inspira mais a humanidade à perfeição e à beleza é esta junção de religião e arte.

A religião, no seu verdadeiro sentido, liga o Homem ao Criador, e a arte resulta da criatividade (o aspecto mais divino) do homem. Tendo a arte o poder de imobilizar os acontecimentos no tempo, imortalizando-os, tem também o poder e o objectivo de irradiar a realização mística e a beleza que, como setas de Cupido, acertam nos corações dos Homens que as contemplam.

Texto que se insere no livro "Folhas de Luz" - Publicações Maitreya
   


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Impresso em 23/2/2020 às 23:58

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