Fundação Maitreya
 
Páginas de Reflexão

de Ajahn Jayasaro

em 07 Fev 2020

  Ajahn Jayasaro, nasceu na ilha de Wight em Inglaterra, em 1958. Em 1978 juntou-se à comunidade de Ajahn Sumedho para o retiro das chuvas como anagarika, e saiu em Novembro para ir a Wat Pah Pong no noroeste da Tailândia onde se ordenou como noviço no ano seguinte como discípulo de Ajahn Chah, um dos mais renomados mestres de meditação da tradição Theravada da Tailândia. Teve ordenação completa em 1980 com Ajahn Chah como seu preceptor em 1980. Durante muitos anos alternou entre retiros solitários e serviço à sua ordem monástica, até assumir o papel de abade de Wat Pah Nanachat, monastério internacional da linhagem de Ajahn Chah, em 1997, onde permaneceu até ao fim de 2002. Desde então Ajahn Jayasaro tem vivido em um eremitério no sopé da montanha Khao Yai, na Tailândia, ensinando regularmente num centro de meditação próximo. É uma figura central no movimento para integrar princípios do desenvolvimento budista na educação. Possui diversos livros escritos e traduzidos para diversos idiomas, incluindo português.

Estas reflexões de sua autoria são enviadas por sms a milhares de seguidores semanalmente e, amavelmente traduzidas por Helena Gallis para este Site.

1/6/2019
Quando os problemas surgem, os praticantes do Budismo vão além da procura de quem é a culpa. Em vez disso, procuram firmar-se num estado mental que conduza à descoberta das causas e das condições que contribuíram para este problema. Não perguntam “De quem é a culpa?”, mas examinam a natureza da falta. Culpar significa apontar o dedo, enquanto que o contributo da compreensão significa descobrir a origem da teia dos factores internos e externos. A primeira é grosseira, a segunda é subtil. A culpa afirma “Estou certo, sei que estou”. A contribuição faz perguntas”, isto é, o me parece. Mas será que há algo que eu não esteja a ver? Que outra explicação alternativa poderá haver?” A culpa alimenta-se de falta de consciência; a contribuição prospera em consciência pura. A atração para delegar a culpa é a purga emocional que pode proporcionar; a compensação que vem de mapear contribuições é a alegria de conseguir ver com clareza.

4/6/2019
O desejo de uma explicação não é, necessariamente, a mesma coisa que o desejo da verdade. Inicialmente o primeiro objetivo é um sentido de conclusão. Desejamos que as experiências dolorosas façam sentido e, não é raro, que elas aconteçam encaixadas numa história. Ao longo da História, as ideias de destino e poder divino têm sido as histórias mais populares. Os hindus e os budistas têm olhado para o kamma como uma profunda necessidade de significado e consolo.
Numa ocasião uma leiga budista partilhou com Ajahn Chah uma sucessão de experiências dolorosas. Perguntou-lhe porque lhe estariam a acontecer estas coisas. Em vez de lhe dizer que a dor era o resultado de ações de alguma vida passada, ele disse-lhe simplesmente “Por teres nascido”.
A resposta de Ajahn Chah não foi nenhum consolo. Foi um relembrar de uma verdade desafiante. Ao nascermos humanos, somos seres vulneráveis, frágeis. Não obtemos qualquer garantia de que não acontecerão coisas penosas, tanto a nós como aos nossos entes queridos. Caminhamos sempre nem cima de gelo fino. Não é nem justo nem injusto, é como é. A nossa melhor opção é praticarmos o Dhamma. Com os olhos bem abertos conseguimos a estabilidade, a clareza e a compaixão interna para conseguirmos viver bem e de forma sábia, neste mundo inerentemente instável.

8/6/2019
O filósofo romano estóico Séneca falou frequentemente sobre a virtude da simplicidade e da rejeição de riqueza desnecessária. Escreveu que todo o ouro do mundo nunca daria felicidade suficiente que compensasse as dores de cabeça que daí adviriam. Contudo, este mesmo Séneca fez chorudos investimentos e tornou-se um homem imensamente rico. Um dos seus biógrafos disse que nos cânticos a favor da pobreza “ninguém excedia este milionário” e a sua riqueza fez-lhe muitos inimigos. O conflito óbvio entre as suas palavras e as suas ações tornou-o num mentiroso.
Embora ele se defendesse ferozmente, parece claro que o talento de Séneca para promover as virtudes foi minado pelos desejos.
Não podemos esperar que as palavras ganhem peso se forem contraditas pelas ações. Uma das razões pelas quais as crianças nem sempre ouvem as palavras dos pais é porque as ações deles os influenciam mais. Alguns de nós conseguimos quase rivalizar com Séneca na habilidade de racionalizar as nossas faltas. Devemos lembrar-nos que, embora possamos convencer-nos que estamos a ser consistentes, isso não assegura que os outros o vejam dessa maneira.

11/6/2019
Qualquer que seja o foco de meditação, o desafio inicial é criar e manter essa relação entre a mente e o objeto, que as falhas mentais não deixam fazer acontecer. Tal relação tem muitas semelhanças com as relações saudáveis do mundo exterior – em ambas precisamos de cultivar a sinceridade, apreço e o contentamento. A relação com o objeto da meditação é a nossa âncora e refúgio. Não é um escape aos problemas, mas o fornecedor de um ambiente no qual as raízes do sofrimento podem ser identificadas com plena consciência, sem medo, ansiedade ou aversão. Por vezes os problemas simplesmente se dissolvem nesta luz de conscientização. Outras vezes, precisamos investigar a natureza impermanente, defeituosa da nossa experiência para que a libertação aconteça. Estamos todos interligados com nós. A meditação permite desatar esses nós.

18/6/2019
O Buda ensinou que manter na mente nove pensamentos de ressentimentos para com os outros, crescem como veneno dentro de nós:
“Prejudicaram-me”
“Estão a prejudicar-me”
“Vão-me prejudicar”
“Prejudicaram alguém de quem eu gosto”
“Estão a prejudicar alguém de quem eu gosto”
“Irão prejudicar alguém de quem eu gosto”
“Agiram de forma a beneficiar alguém de quem eu não gosto”
“Estão a agir de forma a beneficiar alguém de quem eu não gosto”
“Irão agir de forma a beneficiar alguém de quem eu não gosto”
Aqui o Buda não está preocupado com os meios legais usados para nos protegermos ou àqueles que estimamos. Ele foca-se somente no ressentimento. Ele sugere que para largar estes pensamentos obsessivos, refletimos que, dadas as crenças, percepções, desejos, medos e hábitos desta pessoa, como poderia ser de outra forma?
O Buda sublinha que o sofrimento se encontra sempre no pensamento ‘deveria ser assim’.

22/6/2019
Agarrar-se aos seus princípios de forma eficaz não é fácil. Há pessoas que se comprometem com muita facilidade. Outros podem ser muito duros e críticos. Aqui vos deixo uma história sobre o meu professor Ajahn Chah, contada por um dos seus discípulos.
“Certo dia um leigo de Ubon trouxe um carro para oferecer a Ajahn Chah. Disse-lhe” Recuso-me a levá-lo de volta, tem de aceitar esta minha oferta.” Levou o carro e aparcou -o nas traseiras da cabana de Ajahn Chah, sob uma grande árvore, colocando as chaves do mesmo na sacola dele. Estava tão orgulhoso de si próprio que até ria.
Ajahn Chah nem uma só vez saiu para ir ver o carro. Sempre que saía da cabana ia por um caminho diferente. Se tivesse que sair do mosteiro para tratar de algo dependia do carro de outra pessoa. Nunca demonstrou qualquer interesse no carro, nem sequer para ir ver que tipo era, ou que cor tinha. Passados sete dias Ajahn Chah pediu a um apoiante leigo para dizer ao dono do carro que viesse buscá-lo. Ajahn Chah tinha aceitado o carro, o homem tinha obtido o mérito disso e agora Ajahn Chah gostaria de o devolver. Um carro não era uma posse adequada para um monge.”

25/6/2019
Aprender a referir-se aos fenómenos inconstantes com nomes inconstantes, foi um dos grandes triunfos da inteligência humana. Permitiu-nos rotular sistemas complexos com palavras tão simples, tais como rio, eletricidade ou dinheiro. Como consequência disso, temos meios eficientes e convenientes para pensar e comunicar.
Mas há inconvenientes. É fácil esquecermo-nos que existe uma diferença crucial entre o fenómeno em si e o seu nome. Ao confundirmos os dois perdemos de vista a impermanência fundamental de todas as coisas e daí o contacto com a realidade. Muito sofrimento vem deste erro.
Como budistas devemos examinar regularmente a perceção que temos sobre os outros. Será que conseguimos ver para lá das etiquetas com que nos referimos a eles? No mínimo, conseguimos ver como é que estamos unidos como companheiros de nascimento, envelhecimento, doença e morte?
   


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Impresso em 24/2/2020 às 0:11

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