Fundação Maitreya
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  Homenagem  09 Mar 2012

Prestemos homenagem a Dalila Pereira da Costa, notável escritora, poetisa, jardineira, celtista, mística e gnóstica, um ser que procurou a verdade em toda a sua vida, tendo-se especializado na grande alma portuguesa, e nos seus arquétipos, mitos, personagens, símbolos e forças, investigando sobretudo as raízes lusitanas, celtas, judaicas, cristãs e islâmicas, e que agora partiu para o Outro Mundo...
Estava inserida numa linha de procura da Tradição Perene e podemos dizer que alguns dos seus mestres, além de Antero de Quental, Leonardo de Coimbra e Teixeira de Pascoais, foram René Guénon e Henry Corbin, tendo ainda convivido com Sant'ana Dionísio, Agostinho da Silva, José Marinho, Afonso Botelho, António Quadros, Pinharanda Gomes e outros representantes da denominada Filosofia Portuguesa. Mas sobretudo foi uma mística, uma clauriaudiente, uma inspirada, profetisa ou druída, com um grande amor a Maria, mãe de Jesus, e à terra e pátria portuguesa, para cujo despertar e elevar muito trabalhou...
A valorização da mitologia, da poesia, da filosofia e da mística como vias de salvação ou de iniciação foi uma das suas ideias forças e num dos seus melhores livros, "A Nau e o Graal", defende o conhecimento como acto total de um ser total. "Em alma, corpo e espírito. Onde a realidade será conhecida partilhadamente pelo pensamento e sentimento. Onde o coração é o órgão eminente do conhecimento. Em participação com a Realidade"...
Oiçamo-la então numa bela e densa página de esperança, das muitas que nos deixou na sua vasta obra, editada pela Lello, comentando uma imagem de um navio ou barca e profetizando uma nova fase na espiritualidade portuguesa:
«E agora, após o baptismo duma pátria pela água, após o seu acto de assumir o rito divino joânico na sua história e pelos seus homens, em corpo e alma, como Descobrimentos, e de o ofertar ao Ocidente e mundialmente com ele o partilhar, agora se aproximará o segundo acto, - e prometido – do baptismo pelo fogo, no Espírito Santo, como sua próxima vinda e acto de o assumir por uma pátria e de o ofertar ao Ocidente e mundialmente com ele o partilhar. Então o espírito descerá sobre a terra, penetrará nela, a vivificará e redimirá. E tudo será um movimento completamente de processão, afastamento ou queda, como prova. Assumido no Ocidente e especificamente e singularmente numa sua extremidade, numa sua nação, na Idade Moderna.
Como as palavras de S. João, em acção: «Ninguém, a menos de nascer da água e do espírito, não pode entrar no reino de Deus» (XV,5).
Mas agora o espírito, subindo à sua origem, ao céu, consigo levará a matéria, por ele transfigurada. E então a prova, como imolação, paixão ou «Retenção», estará justificada. E também In tempus [no tempo], o homem salvando-se, salvará consigo a Terra.
E depois da imagem do navio da Restauração, agora tudo surgirá como a imagem primordial, dos dois triângulos sobrepostos, um no outro invertidamente. Na tríade, assente em corpo, alma e espírito, virá cravar-se, penetrando até ao fundo, a ponta do fogo do Espírito, do seu duplo invertido, nele descendo virado para baixo do alto, do céu, para a terra. E à assunção, a subida ao conhecimento e participação com o Uno, se seguirá o segundo movimento, como segunda via, descida: a do Espírito, o que vem salvar o mundo (...)
… Mas para que cada ser humano, num certo espaço e tempo de terra, como uma pátria, possa colaborar nessa nova redenção, como assunção, transfiguração sua e do mundo, necessário se torna que, por uma gnose amante, todos os estados sucessivos, e sucessivamente vividos e ultrapassados, sejam conhecidos e esgotados, em todas as suas virtualidades. O corpo e a alma terão de ser, no amor, totalmente assumidos e iluminados pelo espírito (ou o inferno e a terra pelo céu). Até ao seu mais recôndito interior e seus extremos.
Então também por essa ignição derradeira (por ele operada) todas as escórias cairão e corpo e alma (ou inferno e terra) delas libertadas, puras, possuirão a sua vera natureza, primeira, gloriosa.
Assim, se assumirá, ultrapassando-se pela união da complementaridade, para além da oposição (aparente): noite e dia, corpo e alma, vigília e sonho, terra e céu, mundo visível e invisível, morte e vida
… E então também, para transcender-se e servir, ele fará transcender todas as suas possibilidades latentes, todas as suas forças inclusas, escondidas e não usadas em si (depois da sua idade primeva, paradisíaca). E de si um novo homem (de novo o primevo), de si desconhecido e não suspeitado até agora, depois dessa idade, surgirá...».
Do livro “A Nau e o Graal” (p.18), editado pela Lello, em 1978, e dedicado a José Santiago Naud.
Realcemos o seu apelo a uma prática interior de fazer descer o espírito e de nos transfigurarmos por ele, num despertar profundo, pleno, primevo ou primordial...
Que ela esteja no Divino e nos inspire e assista em tal demanda...

Pedro Teixeira da Mota



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Impresso em 23/11/2017 às 13:05

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