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  Consciência plena  07 Ago 2013

Quando a cabeça não tem ruído o corpo é que ganha

Por Hugo Pereira, fisiologista do exercício*

De que forma estar parado numa atitude contemplativa pode ajudar a melhorar a sua saúde? Já ouviu falar de consciência plena ou "mindfulness"?

Muitas doenças cardiovasculares, metabólicas e até alguns cancros possuem uma forte componente comportamental, pelo que a forma como as pessoas agem no seu dia-a-dia desempenha um papel importante na gestão da saúde. Poderá a prática da consciência plena promover estilos de vida mais saudáveis? Este assunto foi abordado há não muito tempo na Journal of the American Medical Association (JAMA), a revista médica mais conceituada em todo o mundo.

Historicamente, "mindfulness" pode ser considerado a capacidade humana universal de pensar de forma clara, flexível, sem preconceitos e de “coração aberto”. A palavra em si parece ter origens na palavra sati,da linguagem Pali, que quer dizer presença de espírito ou atenção plena, referindo-se ao estado psicológico em que os indivíduos experimentam uma consciência aumentada do contexto que os rodeia, assim como dos seus pensamentos e sensações. O interesse nesta atitude perante os eventos e no seu papel na melhoria da qualidade de vida em domínios tão importantes como a saúde mental, saúde física e a regulação do comportamento, tem crescido nos últimos anos.

Progressivamente, a consciência plena está a ser integrada no tratamento de algumas condições mentais e físicas, sendo alvo de investigação científica por algumas correntes da Psicologia (alguns exemplos são a Terapia Cognitiva, a Terapia da Aceitação e Compromisso e a Teoria da Autodeterminação). Por seu turno, a meditação como prática de "mindfulness" teve a sua origem em professores budistas e é vista como uma disciplina necessária para se ter controlo sobre a mente e assim atenuar o sofrimento.

Com a atenção no momento presente, as experiências, os objectos, pensamentos e sentimentos são percebidos sem julgamentos ou distorções, originando respostas conscientes em vez de automáticas. Aumentar a disposição para enfrentar e aceitar os pensamentos, adversidades e emoções pode facilitar a percepção de volição e compromisso nos comportamentos, diminuindo a tendência para ceder ao controlo de pressões internas ou externas.

Como consequência de uma consciência aumentada acerca das suas necessidades, valores e interesses, assim como do contexto com o qual interage, o sujeito poderá alinhar o seu comportamento com estes, agindo de forma internamente regulada. Sugere-se assim, que a consciência plena esteja relacionada com um comportamento mais auto-determinado, que se traduz em maior bem-estar, satisfação, criatividade e persistência no comportamento.

Na área do controlo do peso, os escassos estudos que se encontram são relativos à alimentação consciente e ainda pouco robustos, embora com resultados animadores na redução do peso e de episódios alimentares compulsivos, stress psicológico e aumento da qualidade de vida.

Este tipo de intervenção carece ainda de modelos teóricos assentes em forte evidência científica. Entretanto, não há muito a perder em estarmos mais atentos ao momento presente, à nossa mente e à nossa volta, sem necessidade de classificar, avaliar, controlar ou interferir. Apenas a observar. Talvez seja mais difícil do que parece. E também mais benéfico do que esperaríamos de algo aparentemente tão simples.

*Fisiologista do exercício e Personal trainer
Faculdade de Motricidade Humana da Universidade Técnica de Lisboa
hpereira@fmh.utl.pt



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Impresso em 24/6/2017 às 11:21

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