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Filhas e Filhos

de Ajahn Jayasaro

em 19 Abr 2021

  (...anterior) Entretanto passaram-se vinte anos, e eu gostaria de exaltar publicamente a virtude desta bodhisattva carrancuda, para que toda a gente saiba que mesmo numa cidade grande, ainda existem pessoas boas e que talvez existam mais pessoas boas do que imaginamos.

Esta mulher não foi a única pessoa com bom coração que eu conheci. Fui o receptor de bondade e ajuda por parte de muita gente em muitos países enquanto viajava e acumulava experiência de vida, mesmo sem ter pedido nada a ninguém. Isso fez-me determinar na minha mente que de futuro se me encontrasse em posição de ajudar os outros da mesma forma, ajudaria. Eu queria ajudar a sustentar o espírito da bondade humana no mundo. Por vezes a sociedade pode parecer um lugar duro e sem piedade, mas o que pensei foi que cada um de nós pode tentar ser pelo menos um pequeno oásis no deserto. Não cheguei a regressar a Inglaterra. Perdi o passaporte perto da fronteira turca e voltei para o Teerão, onde fiz amigos e arranjei um trabalho a dar aulas de inglês. Ao fim de uns meses, com algum dinheiro no bolso, regressei à Índia. No meu décimo nono aniversário, encontrava-me a viver junto a um lago com um monge hindu. Ele era um professor inspirador cujas práticas se assemelhavam ao budismo e ensinou-me muitas coisas. Enquanto estive com ele, tive imenso tempo para contemplar a minha vida. À tarde, gostava de subir uma montanha que ficava ali perto, de me sentar debaixo de uma árvore antiga e desfrutar da brisa. Olhar para o lago lá em baixo e para o deserto que se estendia até ao horizonte permitia-me pensar com clareza.

Houve um dia em que a minha mente se encheu de perguntas. Porque é que seria que, embora ficasse impressionado sempre que me lembrava da bondade das pessoas que me haviam ajudado durante a minha viagem – aquelas que me deram comida ou abrigo por uma noite ou duas –, eu nunca me sentira da mesma forma em relação à bondade dos meus pais. Eles tomaram conta de mim durante dezoito anos, deram-me comida todos os dias – três ou quatro vezes por dia – e ainda por cima preocupavam-se com o facto de a comida poder não ser suficientemente deliciosa para mim. Eles tinham-me dado tanto roupa como abrigo. Havia-me levado ao médico quando estava doente, e quando eu adoecia, era como se eles sofressem mais do que eu. Porque é que isso nunca me impressionara? De repente, senti que fora vergonhosamente injusto. Apercebi-me de como não lhes dava o devido valor. Nesse momento, foi como se as comportas se tivessem aberto. Muitos exemplos do boon khoon dos meus pais, da sua generosidade e bondade, vieram-me então à mente de forma absolutamente avassaladora e impressionante. Este foi o início da minha gratidão para com os meus pais.

Continuei a imaginar quão difícil deve ter sido para a minha mãe (§) quando estava grávida. Ao princípio, há-de ter tido enjoos matinais e mais para a frente deve ter tido dificuldade em andar. Todos os tipos de movimento hão-de ter sido incómodos e dolorosos. Mas ela aceitou o sofrimento porque acreditava que havia algo nele que valia a pena, e esse algo era eu. Quando eu era pequeno, tive de depender dos meus pais para tudo, mas porque é que me sentia indiferente – como se fosse obrigação deles darem-me e um direito meu receber? Ao fim de um tempo, apercebi-me de que ganhara a oportunidade de praticar o budismo para desenvolver um verdadeiro refúgio interior, uma vez que os meus pais me haviam providenciado um refúgio exterior estável e seguro quando eu era pequeno. Eles tinham-me dado uma fundação sólida para o meu coração enfrentar a batalha contra as impurezas.

Aos 20 anos, fui para a Tailândia para ser ordenado monge budista. Os meus pais não levantaram objecções porque eles queriam que o filho vivesse a sua vida do modo que desejava e que fosse feliz. Os meus pais preferiram isto às suas próprias esperanças para mim. No ano passado, a minha mãe confessou-me que o dia em que eu saí de casa fora o dia mais triste da vida dela. Fiquei muito comovido com isso. O que me impressionou mais foi o facto de ela ter sido muito paciente e ter escondido este sofrimento de mim durante vinte anos, porque não queria que eu me sentisse mal por isso.
  (... continua) 
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