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Filhas e Filhos

de Ajahn Jayasaro

em 19 Abr 2021

  (...anterior) Depois de me ter tornado monge, por vezes não conseguia evitar recriminar-me. Enquanto vivia com os meus pais, tive todos os dias a oportunidade de fazer coisas por eles para retribuir o seu amor e raramente o fiz. Agora tinha o desejo de expressar o meu sentido de gratidão por eles de uma forma tangível mas não podia: eu era monge e vivia a milhares de quilómetros de distância deles. Que pena. Ainda assim eu podia fazer o que os monges fazem há mais de dois mil anos e enviar-lhes pensamentos de amor benevolente todos os dias.

Na Tailândia falamos com regularidade do boon khoon dos pais. Não há uma equivalência exacta para este conceito de boon khoon na língua inglesa [nem na portuguesa], mas podemos explicá-lo como a convicção de que sempre que recebemos bondade ou assistência de alguém – sobretudo quando é dado gratuitamente –, incorremos em certas obrigações. Uma boa pessoa é aquela que honra essas obrigações, e a mais profunda dessas obrigações é com os nossos pais. O Buda ensinou-nos a desenvolver tanto um apreço profundo pela dívida de gratidão que temos com os nossos pais como a intenção de a pagar da melhor forma que conseguirmos.

Boon khoon não é um valor com o qual eu tenha crescido. Nas culturas ocidentais existe, naturalmente, amor e apego entre pais e filhos, mas de um modo geral o sentido de obrigação mútua é mais fraco. Dá-se mais peso a valores como independência e liberdade individual. Talvez o vínculo especial profundo entre pais e filhos seja sentido por muita gente, mas ele não é expresso como uma referência moral que sustenta a sociedade, como acontece nas culturas budistas como a da Tailândia. A importância que atribuímos ao boon khoon dos pais talvez tenha origem nos ensinamentos do Buda sobre a Visão Correcta mundana, a base para entender o que é o quê nas nossas vidas. Nos textos em pāli, o Buda diz que devemos acreditar que o nosso pai é real e que a nossa mãe (§) é real. Ficaram confusos ao ler isto? Porque é que o Buda achou que tinha de nos dizer isto? Não é uma coisa óbvia? Quem é que não sabe que nascemos neste mundo porque temos pais que existem de facto?

O que há a compreender aqui é que estas palavras são idiomáticas. O que o Buda está a dizer é que temos de acreditar que existe um significado especial na relação entre pais e filhos, um significado que devemos reconhecer e honrar. A relação entre pais e filhos é misteriosa e profunda. O Buda ensina-nos que não há kamma mais pesado do que matar a própria mãe ou o próprio pai. Em pāli, chama-se-lhe anantariya kamma – um kamma tão abominável, que os seus terríveis resultados não podem ser evitados, por muito sincero que seja o arrependimento do perpetrador. Embora Angulimala pudesse ser um arahant mesmo tendo matado 999 pessoas, teria sido impossível se ele houvesse matado apenas uma pessoa, caso essa pessoa fosse ou o seu pai ou a sua mãe.

O Buda não ensinou a profundidade desta relação simplesmente como um meio inteligente de promover os valores familiares. Trata-se de uma verdade intemporal que ele descobriu e depois revelou para benefício da raça humana. É um princípio budista importante, o de que a relação entre os nossos pais e nós é intensa e profunda, e provavelmente assim foi por muitas vidas. Posto isto, devemos aceitar, respeitar e cuidar desta relação.

Podemos dizer, em suma, que nesta vida estamos a retomar “assuntos por tratar” com os nossos pais. Em alguns casos, este estado não resolvido das coisas pode manifestar-se de uma forma má, como quando um bebé é abandonado pelos pais ou uma criança é vítima de abusos físicos ou psicológicos por parte do pai ou da mãe. Existem casos destes e eles parecem ser mais todos os dias. Só que as coisas terríveis que os pais podem fazer aos filhos não invalidam esta relação especial. A vida presente é apenas uma cena de um longo drama, e nós não sabemos o que aconteceu no passado.
  (... continua) 
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