Fundação Maitreya
 
Em Belém

de Maria

em 10 Mai 2021

  Se há lugares privilegiados pelo acolhimento da arte, de espaços verdes e de acontecimentos culturais, ele encontra-se em Belém (Freguesia de Belém). Conjugam-se neste espaço delimitado de escassos quilómetros, uma vasta narrativa histórica com ícones tão relevantes, e reunindo tantas obras de arte, que a criatividade e a beleza, parecem abençoadas e sacralizadas pelas águas do Tejo.


A começar pelo Mosteiro dos Jerónimos, mandado construir por D. Manuel I, cujas obras se iniciaram em 1501/1502. Marcada pela excelência de arte arquitectónica, escultural e espiritual como um marco de beleza e de engenharia patente em todo o edifício, está sustentado por assombrosas e rendilhadas colunas que suportam a monumental abóboda, relevos únicos em qualquer lugar do mundo. Devido à prolongada obra que durou décadas, teve vários mestres responsáveis, desde Diogo de Boitaca, João Castilho, Diogo de Torralva e Jerónimo de Ruão.

O Mosteiro dos Jerónimos foi doado aos monges da Congregação de S. Jerónimo, cuja permanência durou até ao século XIX. De evocar as imagens do Patrono de Portugal, o Arcanjo S. Miguel e a de Santa Maria de Belém, da qual resulta originalmente o nome do Mosteiro. Alberga os túmulos de vários membros de dinastias reais, tendo sido mais tarde incluídas entidades que se distinguiram por feitos notáveis, tais como, Vasco da Gama e Luís de Camões.

Dentro deste espaço de ressalvar o icónico claustro, geometricamente luminoso contando tanta história desde sempre ligado ao período áureo português, único no seu género, em Portugal e no mundo. De riqueza iconográfica notável, conjugando símbolos religiosos e elementos naturalistas, ou mesmo esotéricos, onde sobre esta égide se enquadra de forma justa, os restos mortais daquele que nos deixou um legado literário/espiritual, Fernando Pessoa, desde 1985.
O Claustro comporta ainda, a Sala do Capítulo, onde se encontra o túmulo de Alexandre Herculano, o refeitório, o confessionário e a biblioteca, construída em 1640.

Neste complexo e histórico edifício do Mosteiro dos Jerónimos, encontra-se o Museu de Marinha e ainda o Museu Nacional de Arqueologia. O Museu de Marinha foi fundado pelo rei D. Luís, cuja sede era num edifício da antiga Escola Naval de Lisboa, e só a partir de Agosto de 1962 foi inaugurado neste espaço do Mosteiro dos Jerónimos. Tem cerca de 17 mil peças em exposição permanente. De destacar logo na entrada do Museu, a monumental estátua do Infante D. Henrique rodeada de estátuas de outros navegadores.

O Museu Nacional de Arqueologia fica sensivelmente ao meio do Edifício do Mosteiro dos Jerónimos. O Despacho-Régio foi promulgado pelo rei D. Carlos em 1893. Este Museu com mais de um século de existência, que já teve a sua sede na Academia das Ciências de Lisboa, sendo posteriormente transferido para o Mosteiro dos Jerónimos em 1903 e abriu ao público em 1906. Este Museu é uma referência na Arqueologia Portuguesa e com ligações a centros de investigação em todo o Mundo.

Podemos ainda encontrar nestas imediações, o Planetário, pertença da Marinha Portuguesa, tendo a Fundação Calouste Gulbenkian contribuído para a sua Construção, entre 1963 a 1965, num projecto do arquitecto Frederico George. Em 2004 teve obras de melhoramento e hoje com novo equipamento está integrado na rede de Centros de Ciência Viva. Tem projectores com capacidade de apresentar mais de 9.000 estrelas, bem como a Via Láctea, cúmulos estelares e nebulosas. Para além do auditório alberga uma galeria com exposições temporárias e uma biblioteca de obras especializadas.

O Centro Cultural de Belém, CCB, espaço cultural que nos congratulamos pela sua existência, embora polémico de início, mas que a sua arquitectura não implica com o que o rodeia, portanto, o antigo e o moderno coabitando em perfeita harmonia, tem um lugar de destaque nesta Praça do Império. De salientar o departamento dedicado à Música, que ao longo do ano oferece distintos concertos, especialmente valorizados pela música clássica. Também com espaços de lazer com o principal jardim virado para o rio, desfruta de boa atmosfera. Museu Berardo, biblioteca, restaurantes, lojas e livraria completam este espaço que sem dúvida, enriquece Belém.

Ainda nesta linha do Mosteiro dos Jerónimos, encontramos o Jardim Botânico Tropical. Classificado como Monumento Nacional, integra uma grande colecção de plantas e, onde esguias e assombrosas palmeiras nos acolhem em desanuviadas alamedas. Neste Jardim, onde encontramos recriação de espaços de lazer desde recantos para sentar à sombra de acolhedoras árvores, algumas muito antigas, lagos, patos, gansos e vaidosos pavões, que circulam livremente, contém, ainda vários edifícios, entre eles o Palácio da Calheta. O Jardim Botânico ocupa uma área de 7 hectares e pelas inúmeras espécies a maioria de origem tropical, serve como estudo a investigadores. Este Jardim confina com o jardim do Palácio da Presidência, que abre os portões aos visitantes quando decorre a Feira do Livro, promovida pelo actual Presidente da República. O Jardim Botânico Tropical está aberto ao público todo o ano.

O Museu Nacional dos Coches, ou o novo Museu à excepção dos outros edifícios de que vimos falando, a sua arquitectura destoa um pouco de tudo o que o rodeia pelas suas linhas nuas e geométricas. Os carros antigos ou coches, terão aqui um ambiente mais saudável de conservação e de circulação para os visitantes, contudo perdeu-se a originalidade do espaço. O seu nome inicial “Museu dos Coches Reais”, fazia parte do Picadeiro do Palácio Real, que se insere no edifício do Palácio da Presidência da República. Este Museu foi criado em 1905, por iniciativa da rainha D. Amélia de Orléans e Bragança, consorte do Rei D. Carlos, não só para resguardar as viaturas, mas também para as mostrar ao público. A partir de 2015, ano em que foi inaugurado o novo edifício, serviu para a instalação da maior parte da colecção, permanecendo no antigo espaço ainda alguns elementos do acervo. O Museu Nacional dos Coches, que acolhe esta colecção de coches e carruagens reais do século XVI ao século XIX, divide-se entre o novo edifício e o antigo.

Passando para o outro lado, ou beira-rio, que se pode atravessar pela ponte pedonal a partir do novo Museu dos Coches, termina na Estação Fluvial. Virando para a esquerda e percorrendo o cais, damos com a modernidade do MAAT, da Fundação EDP, que, no entanto, não fere a arte nem o propósito, pois por um lado é um amplo miradouro sobranceiro ao rio e à outra margem, da qual se destaca o Cristo-Rei e, por outro, é um Museu de exposições temporárias. Inaugurado em 2016, o MAAT, “Museu de Arte Arquitectura e Tecnologia” enquadra-se no espaço da antiga Central Termoeléctrica (hoje Museu), edifício emblemático construído em 1908, onde jardins e caminhos foram redefinidos para o lazer dos visitantes.

Depois, caminhando junto ao rio em direcção ao Clube Naval de Belém, vamos encontrar o tão falado e famoso monumento Padrão dos Descobrimentos, que apesar de grandioso, tanto na evocação, como no tamanho, enquadra-se bem na paisagem, espelhando pelo rio a sua história. Dos espaços à volta sobressaem discretos edifícios que ajudam a manter a ideia original perpetuando-se no tempo, de onde se destaca a figura do Infante D. Henrique à frente da simbólica Caravela e, da “Escalibur” gigantesca, outrora símbolo de glória.

Embora já estivesse erguido desde 1940 sobre estrutura de ferro e cimento foi em 1960, ao comemorar os 500 anos da obra do Infante D. Henrique, que ficaria completa em betão, com 56 metros de altura e 46 de comprimento. É composto por 32 figuras relevantes desde o começo da História de Portugal. Antecedendo o Padrão dos Descobrimentos pode-se apreciar-se a colorida e engenhosa Rosa dos Ventos. Também duas Esferas Armilares compõem esta magnífica obra.

Nas imediações do Padrão dos Descobrimentos encontra-se o Museu de Arte Popular contendo um conjunto de composições murais que caracterizam diversas regiões do País retratando a faina do quotidiano, festas e romarias.

Mais à frente, a Torre de Belém, um dos símbolos mais significativos da identidade portuguesa, à semelhança do labor arquitectónico do Jerónimos ou arte manuelina, como celebração à navegação, é por si só uma magnífica obra de engenho e arte conjugados numa só peça. Os espaços verdes que a circundam completam esta paisagem ímpar, onde a poesia de vários autores inscritas em bancos de pedra, nos avivam a memória da cultura literária herança de tantos ilustres poetas. Considerado Património Mundial (UNESCO, tal como o Mosteiro dos Jerónimos) é um valioso testemunho da arte tardo-gótico “manuelino” com heráldica régia, que denuncia a sua construção no reinado de D. Manuel I, em 1495/1521. Está associada ao Mosteiro dos Jerónimos e que teria o propósito da sua defesa e protecção, assim, o diz Damião de Góis:

“Defronte deste edifício mandou el Rei fazer a torre de S. Vicente, que se chama de Belém fundada dentro da água, para guarda deste Mosteiro e do porto de Lisboa, edifício que ainda que em si não seja grande em quantidade, contudo a estrutura dele é magnifica. A qual torre se vela de noite, e de dia, de modo que nenhuma vela pode passar sem ser vista…”.

Ainda deste lado do rio se pode caminhar pelo paredão que acompanha o edifício da Fundação Champalimaud, com uma ampla vista sobre o horizonte. Árvores e bancos convidam ao desfrutar deste espaço.

Fica, então a sugestão para visitar um ambiente especial dedicado à cultura em geral e de espaços da natureza de amplos jardins em Belém.
   


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Impresso em 21/6/2021 às 23:03

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