Fundação Maitreya
 
Onde existe uma vontade existe um caminho.

de Ajahn Sucitto

em 29 Dez 2023

  O que é o ‘kamma’ e qual a sua relação com o Despertar? Ora bem, tomado como uma palavra, ‘kamma’ é a versão em língua Pali do termo em sânscrito ‘karma’, que tem vindo a ser usado no inglês coloquial com um significado semelhante a ‘destino’. Neste sentido, esta noção pode apoiar uma aceitação passiva das circunstâncias: se algo corre mal podemos sempre dizer que ‘era o meu carma’, querendo dizer que tinha de acontecer. Onde a ideia de base realmente se perde é quando é usada para pactuar com determinadas acções, como por exemplo ‘ser ladrão é o meu carma’. Se este fosse o significado do carma tirar-nos-ia a responsabilidade sobre as nossas vidas. Para além disso, não haveria qualquer forma de nos orientarmos de modo a sairmos das nossas circunstâncias ou da nossa história passada – que é aquilo em que consiste o Despertar. Contudo, ‘kamma’, no sentido em que o Buddha ensinou, significa acção adequada ou inadequada – algo que fazemos agora. É o aspecto activo de um processo de causa e efeito conhecido como kamma-vipāka, no qual vipāka ou ‘kamma antigo’ significa o efeito, o resultado de acções anteriores. E, em larga medida, vemo-nos envolvidos nos resultados das nossas acções.

Uma Panorâmica Sobre os Ensinamentos do Buddha acerca do Kamma

Não obstante, enquanto ‘acção’, o kamma apoia a escolha. Podemos escolher as acções que vamos empreender. Causa e efeito regulam a actividade dos vulcões, das plantas e dos sistemas planetários, mas o kamma diz respeito especificamente aos seres que têm poder de escolha sobre aquilo que causam – ou seja, o leitor e eu. Da mesma forma, nem tudo o que experienciamos é devido ao kamma antigo (para além do que diz respeito a termos nascido). Assim, se adoecemos ou se formos apanhados num terramoto, não é necessariamente porque tenhamos praticado más acções numa vida anterior. Em vez disso, o kamma centra-se na nossa intenção ou ‘volição’ (cetanā) actual. Desta forma, os ensinamentos sobre o kamma encorajam um sentido de responsabilidade relativa à acção – a responsabilidade de prestar atenção às muitas escolhas conscientes e semiconscientes que realizamos, em relação ao que fazemos. Isto significa que, neste preciso momento, temos possibilidade de escolha sobre a forma como o futuro vai decorrer: se nos vamos sentir contentes e tranquilos connosco próprios, ou ansiosos e deprimidos, dependerá das nossas acções neste momento. E, de igual forma, através das nossas acções neste momento, podemos ser libertados do passado, do presente e do futuro. É isso que resulta do Despertar para o kamma.

Kamma físico, verbal e mental

‘Kamma’ significa ‘acção’, num sentido que vai para além do físico. Inclui também a acção verbal – quer insultemos e gritemos com as pessoas ou digamos coisas verdadeiras e fiáveis. E isso inclui o ‘discurso interno’ do pensamento! Mas, na realidade, o kamma das nossas respostas emocionais – o kamma ‘mental’ (ou ‘do coração’) – é o mais forte. As respostas – e as propensões sobre as quais elas se baseiam – regem as acções do corpo e do discurso, originando igualmente resultados no domínio das emoções, das atitudes e dos estados de espírito. De igual modo, as nossas acções físicas ou verbais resultam apenas de convicções, pressupostos, interpretações e atitudes (ou seja, todos provenientes da mente). Por si próprio, o corpo não faz bem nem mal – estas qualidades éticas encontram-se enraizadas na mente que inicia o acto físico. Passa-se o mesmo com a fala e o pensamento: a linguagem é neutra – é a bondade ou a malícia da mente, que utiliza a linguagem e os conceitos, que produz resultados felizes ou infelizes.

Considerarmos o kamma sob este prisma motiva-nos a libertar a mente da má vontade ou da cobiça, porque estas conduzem a acções verbais ou físicas que deixam uma marca desagradável: geram rudez, apego e obstinação e, mais tarde, preocupação, arrependimento e dúvida. Por outro lado, acções e pensamentos baseados na compaixão proporcionam à mente clareza e afecto. Daí os ensinamentos sobre causa e efeito: eles são um lembrete para verificarmos, investigarmos e purificarmos os estados de espírito associados à acção, seja ela qual for. Tal como as nossas acções trazem conflito ou harmonia ao contexto em que vivemos, controlar o kamma permite-nos ter um efeito positivo no mundo que nos rodeia. Perceber o kamma desta forma também possibilita que percebamos amplamente que o nosso bem-estar não é independente do modo como agimos para com os outros.

As dinâmicas do kamma

A lei do kamma define que um efeito ou resultado é inevitável a partir de uma causa activa. Se eu ofendo e maltrato alguém hoje, isto tem como efeito que essa pessoa se sente magoada e isso quer dizer que ela, provavelmente, irá ser desagradável comigo no futuro. É igualmente provável que essa acção tenha efeitos imediatos sobre a minha própria mente: agitação e remorso. Ou pode acontecer que me habitue a agir dessa forma: de modo que continuo a agir de forma ofensiva, desenvolvo uma mentalidade insensível e perco amigos. Desta forma os efeitos acumulam-se, tanto em termos de estados de espírito (ofensas e remorsos), como também de estruturas comportamentais (um padrão ou uma programação de ser egocêntrico ou de possuir uma língua afiada). O que é verdadeiramente problemático são os ‘programas’, as ‘formações’ (ou, em linguagem budista, saṅkhāra) em decurso. Estes padrões de comportamento tornam-se parte da nossa identidade e, uma vez que não conseguimos ver para além dos nossos próprios hábitos entranhados, estes padrões e programas sustêm o girar, o saṁsāra, de causa e efeito.

Desta forma, se nos queremos libertar, é importante, controlar o modo como estamos a funcionar. E isso é possível porque o processo kamma-vipāka forma circuitos de feedback de sensações mentais de tensão ou de agitação, ou de tranquilidade, que podemos contemplar e ter em consideração. Para além disso, podemos responder de diferentes maneiras ao resultado das nossas acções - de forma a que cada efeito não venha a inevitavelmente gerar uma causa correspondente. Eis a escolha: posso fazer uma pausa, sair do estado de espírito de irritação ou de imprudência, prestar-lhe a devida atenção e tentar fazer melhor no futuro. Este é o primeiro passo no sentido da libertação.

Os ensinamentos do kamma são mais facilmente acessíveis no contexto do comportamento exterior. O Buddha viu que a clareza relativamente ao comportamento proporciona uma via pragmática, através da qual o sofrimento e a tensão podem ser evitados, e a paz, a confiança e a clareza podem ser geradas. Assim, o Buddha falou de kamma escuro – acções tais como assassínio, roubo, falsidade e abuso sexual, que conduzem a maus resultados – e kamma luminoso – acções tais como bondade, generosidade e honestidade, que fazem o inverso. O Buddha falou igualmente de uma mistura de kamma escuro e luminoso – acções que possuem algumas boas intenções mas que são conduzidas de forma inadequada. Um exemplo disto seria termos o objetivo de proteger e cuidar da nossa família, mas fazê-lo de um modo prejudicial para os nossos vizinhos.

O kamma é também dinâmico: agimos de acordo com informação que recebemos e, à medida que recebemos de volta os resultados agradáveis ou desagradáveis, as nossas acções subsequentes vão sendo moldadas. Contudo, uma vez que parte deste retorno não ocorre imediatamente e pode mesmo levar anos a suceder, existem aspectos deste circuito de retorno que são caóticos. Isto significa que o nosso ritmo de aprendizagem não acompanha necessariamente o ritmo ao qual podemos desenvolver novas acções. Estivemos a poluir alegremente a atmosfera durante décadas, até se tornar claro o que se estava a passar e, por essa altura, outras acções já tinham sido realizadas – estabeleceram-se indústrias e estilos de vida dependentes de recursos não sustentáveis, o que torna a mudança mais complicada.

Este ponto é significativo: encoraja-nos a esforçarmo-nos por clarificar a consciência da mente e dos seus impulsos. É necessário que investiguemos as nossas mentes e os programas mentais frequentemente e de forma mais detalhada. Então aí é possível interromper o circuito de retorno com informação que pára ou que modera os nossos impulsos. Esta informação é o kamma que leva ao final do kamma e constitui o eixo dos ensinamentos do Buddha. Ao ser plenamente realizado, pode levar não apenas a mudanças no comportamento, mas à libertação completa.

Excertos do livro
   


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Impresso em 14/4/2024 às 14:41

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