Fundação Maitreya
 
Alberuni na Índia

de K.K. Kullar

em 08 Abr 2006

  Abu Raihan, um dos maiores amigos da Índia que veio há mil anos com as forças invasoras de Mahmud de Ghazni, foi o primeiro a observar a unidade subjacente na diversidade vasta da cultura indiana. Ele considerou os indianos como filósofos excelentes, bons matemáticos e astrónomos extraordinários. Esta afirmação vindo de um dos astrónomos mais eminentes da sua época, é um grande encómio para a astronomia hindu.

AlberuniFalando dos tanques e balneários de Multão e Kāśmir ou a beleza escultural do Sul da Índia Alberuni disse: «Neste assunto eles atingiram um grau altíssimo de arte. Por isso, o nosso povo (os muçulmanos), maravilham-se quando vêem alguma coisa parecida.» Homem de grande sabedoria surpreendeu indianos com o seu conhecimento de sânscrito, pali e prakṛtī. Mas ao mesmo tempo, considerou os indianos socialmente atrasados e intelectualmente pretensiosos.
Descrevendo as várias dificuldades que ele enfrentou em aprender as línguas e filosofias da Índia, disse: «Achei muito difícil trabalhar no assunto. Gosto dele e neste respeito estou sozinho na minha época, e não me poupo a esforços nem a dinheiro em reunir livros de sânscrito, de lugares onde penso que sejam possíveis de encontrar e os procurar para mim mesmo, até em lugares remotos e dos estudiosos hindus que os percebem e são capazes de me instruir».

Alberuni foi um livre-pensador do mundo medieval. Sobre os indianos que ele encontrou e observou, disse: «Eles são arrogantes, insensatamente vãos, reservados e teimosos. Eles pensam que não há nenhum país como o seu, nenhuma ciência como a sua, nenhuma religião como a sua. Por natureza são mesquinhos em comunicar o que eles sabem, e tomam o maior cuidado possível para o reter dos membros de outras castas entre o seu próprio povo, e ainda muito mais de estrangeiros. Segundo o seu pensamento, não há nenhuma raça no mundo como a sua e nenhum ser criado além deles tem algum conhecimento e ciência parecidos como os seus…».
A última afirmação de Alberuni é muito significativa. Isto significa que o espírito hindu não foi sempre tacanho. Noutras palavras, Alberuni observou que a mente indiana foi não científica apesar de tantos progressos científicos na Índia.

Sendo o primeiro muçulmano a ter estudado escrituras hindus minuciosamente em sânscrito, língua original dos hindus, as suas obras são inestimáveis. Ele era um forte crítico da política de Mahmud de destruir os centros hindus de religião e adoração. Ele acusou-o abertamente da destruição da prosperidade do Punjāb e de outras áreas. Nascido em Khiva no actual Usbequistao em 4 de Setembro de 973, Alberuni faleceu em Ghazni em 11 de Dezembro de 1048, depois de ter servido a três governadores de Ghazni, nomeadamente Mahmud, Masud e Mahdud. Entre 1017 e 1030 visitou a Índia muitas vezes com as tropas invasoras e ficou em Lamgan, Peshawar, Lahore, Jhelum, Sialkot, Srinagar e Benares. Aonde ele não conseguiu ir, dependeu dos dados oferecidos por funcionários civis, militares e de receita pública de Mahmud. Aonde quer que ele tivesse ido, encontrava sapientes e trocavam opiniões.

Segundo um Banarashistoriador, Dr. Suniti Kumar Chatterji, foi sob a influência de Alberuni que Mahmud se enterneceu na última parte do seu reinado em Ghazni. Ele emitiu uma moeda num lado da qual foi inscrita a tradução para sânscrito do kalima em que o Profeta foi descrito como um Avatāra (incarnação) Esta moeda especial foi posta em circulação para o Punjāb, província recém anexada ao seu império de Ghazni. Esta transformação na atitude de Mahmud para com os seus sujeitos hindus foi efectuada obviamente por Alberuni.

A língua materna de Alberuni foi Khwarizmi, um dialecto da língua turca mas ele falou fluentemente sete línguas que incluíram hebreu, saraíco, sânscrito latim, arábico e persa e tinha a alcunha de Haft-Zaban. Ele também falou as línguas indianas das áreas entre Punjāb e Ghazni com que se comunicou com comerciantes e estudiosos hindus. Alberuni afirmou que outrora a Índia tinha sido um grande mar. Ele referiu as planícies do Ganges e do Indo como uma planície aluvial feita dos sedimentos de vários rios dos Himālayas do norte. Disse que estas planícies são feitas de pó ou sedimentos aluviais. Também escreveu sobre os deltas e ilhas da Índia. É interessante notar que, segundo a observação de Alberuni, peregrinações não eram obrigatórias para os indianos mas facultativas e louváveis. Porém, pensou que dar esmolas era obrigatório: «Eles (hindus) não deixam o dinheiro ficar por um ano ou mesmo um mês, visto que isto seria um saque sobre um futuro desconhecido». Ele assistiu a grandes cenas de esmolarias em Kurukshetra, Thaneshwar, Benares, Multão, Lahoree e Srinagar.

Alberuni foi um livre-pensador cujo relato da Índia é objectivo, imparcial e pode-se depender dele facilmente como uma fonte importante da história indiana da época em que ela completou o seu primeiro milénio. Eis uma nota sobre Edward Carl Sachau (1845-1930) que traduziu Kitab- ul-Hindde Alberuni de arábico para inglês e introduziu a sua sabedoria ao mundo moderno. Sachau foi professor de línguas semíticas na Universidade de Viena e, mais tarde, professor de línguas orientais na Universidade de Berlim. A tradução é acompanhada por notas exaustivas que podem ser objectos de inveja de qualquer estudioso sincero. O livro de Sachau foi traduzido para urdu, hindi, bengali e russo. Uma edição abreviada da tradução inglesa também está disponível através do Truste Nacional de Livros com introdução e notas por Qayamuddin Ahmad. Alberuni Ke Geographiyi Nazariyat (A visão geográfica do mundo de Alberuni), escrito por o Dr. Hasan Askari Kasmi, foi publicado pela Agência para promover Urdu. É uma das descrições mais francas da sociedade indiana no século X e XI, sobre a qual, a matéria é tão rara como as fontes são poucas.
Já é a altura de avaliar Alberuni novamente na luz de invenções e descobertas científicas modernas, visto que ele era uma das personagens principais do primeiro milénio que conservou a sabedoria.

Da Revista "Índia Perspectives".

   


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