Fundação Maitreya
 
Os Evangelhos 2005 Comentados

de Firmamento Editora

em 05 Mai 2006

  O Livro "Os Evangelhos 2005 Comentados", da Firmamento Editora, publicado em Dezembro de 2004 contém os Evangelhos dominicais do ano de 2005, relidos e comentados por 61 pessoas com experiências de fé e de vida. Cada evangelho é comentado por uma pessoa cuja biografia, experiência interior ou religiosa justifique um encontro entre o texto bíblico e a sua experiência pessoal irrepetível e única. Por amável cedência da Firmamento Editora e a autorização dos respectivos autores, congratulamo-nos por esta possibilidade de editar no Spiritus Site alguns desses comentários, sendo o presente de Adel Yussef Sidarus.


De Frei Carlos - Museu N. Arte Antiga«Conceberás e darás à luz um Filho»

Evangelho Lc 1, 26-38
Naquele tempo, o Anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia chamada Nazaré, a uma Virgem desposada com um homem chamado José, que era descendente de David. O nome da Virgem era Maria.
Tendo entrado onde ela estava, disse o Anjo: «Ave, cheia de graça, o Senhor está contigo».
Ela ficou perturbada com estas palavras e pensava que saudação seria aquela.
Disse-lhe o Anjo: «Não temas, Maria, porque encontraste graça diante de Deus.
Conceberás e darás à luz um Filho, a quem porás o nome de Jesus. Ele será grande e chamar-Se-á Filho do Altíssimo. O Senhor Deus Lhe dará o trono de seu pai David; reinará eternamente sobre a casa de Jacob, e o seu reinado não terá fim».
Maria disse ao Anjo:
«Como será isto, se eu não conheço homem?».
O Anjo respondeu-lhe:
«O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra. Por isso o Santo que vai nascer será chamado Filho de Deus. E a tua parenta Isabel concebeu também um filho na sua velhice, e este é o sexto mês daquela a quem chamavam estéril; porque a Deus nada é impossível».
Maria disse então:
«Eis a escrava do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra».
Lucas 1, 26-38

Comentário

Imaginemos a cena!
Uma jovem mulher começa a sentir no seu íntimo coisas novas. Meditando com humildade e abertura ao Transcendente, é-lhe sussurrado o mistério da vida: dádiva preciosa e cheia de promessas. Não só para ela, sua família e seu povo, mas para todo o universo. Dom de participação na criação sublime e redentora, uma criação ou recriação contínuas feitas de amor e de entrega recíprocas.
Logo a jovem mãe faz-se mais pequena, agradecida e celebrante, para acolher dignamente o que a transcende e deixar a Dádiva cumprir o seu destino. Magnificat!
Para concorrermos plenamente no processo da criação-evolução, devemos antes do mais estar disponíveis e abertos, com humildade e sentido de gratidão. Sem mérito próprio, a vida nos é dada e somos continuamente convocados a participar no seu processo e sua dinâmica. Agir com o Criador e à sua imagem. Graciosamente e sem narcisismo. Entregar-se à lógica do amor, que nos transcende. Esse amor que leva a Humanidade, a criação inteira, para a sua plena realização: o Pleroma crístico de que fala Paulo e que presidiu ao acto criador, ora recordado ou explicitado, mais que “anunciado”.
Desde o princípio que Maria aderiu a esse mistério, contemplando (“guardava todas essa coisas no seu coração”, Lc. 2, 51) e agindo em conformidade, com discrição e esperança. Confidente na dádiva anunciada, no seu filho divino (“fazei o que ele vos disser”, Jo. 2, 5), no desígnio do Senhor dos Mundos. Ave Maria!
Um toque pessoal.
Em muitas sociedades, antigas e contemporâneas, os nomes de pessoas têm um significado, traçam um programa de vida. Um dos elementos da minha onomástica é Sidarus: deformação árabe do antropónimo egípcio-grego Isidoros, a saber: “Dádiva de Ísis”.
O culto dessa deusa egípcia era vigente em todo o Mediterrâneo antes da cristianização do Império Romano. Prenunciava algo do dogma (deveras ambíguo e polémico) da Theotokos, “Genitora de Deus”, e do culto mariano, pois que em Ísis se celebrava “a fonte da vida”... Era por demais mãe do deus Hórus, filho de Osíris...
Mas ao mesmo tempo, nas lendas ligadas às origens da agricultura, Ísis é tida, com o seu esposo Osíris, pela deusa que ensinou ao homem o cultivo do trigo e o fabrico do pão – este sustento da vida, hoje subalternizado; o meio de partilha por excelência no mundo mediterrânico, hoje descurado – e contudo, Ele “partiu o pão e deu-o aos seus discípulos...”.
Vida-criação, maternidade-paternidade, sustentação-melhoria da vida, partilha e comunhão, entrega redentora... Quão profundamente universal e humana essa passagem da “Boa nova”! Anunciação diária e repetida iluminando o nosso caminho...

Adel Yussef Sidarus
Professor na Universidade de Évora
   


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