Fundação Maitreya
 
O Messias

de Maria Ferreira da Silva

em 24 Nov 2011

  Um Messias é o Ser que transmite poderosamente a vivência de Deus e, com grande convicção fala do Poder Supremo, pois é Ele mesmo uma força sintetizada desse Poder. Um Messias ou Avatāra está por isso fora de qualquer religião, não tem que trilhar via alguma para a perfeição e os seus ensinamentos é que ficam naturalmente como doutrina ou religião.Imagens sagradas e locais sagrados perpetuam-se no tempo para denunciar acontecimentos especiais, onde certos Seres realizaram a comunhão com o Divino num Acorde Universal. Porém, actualmente a palavra Sagrado foi substituída pelo profano. O Sagrado não é o meramente oculto, o Sagrado consiste na secreta intimidade da união com o Divino, tornando-se o alento para uma razão mais elevada de viver e impulsionar o coração à pureza. O Sagrado pode encontrar-se nas profundezas do Espírito e encher a vida de infinita beleza.

O Sagrado é o que toca espiritualmente o homem, e até uma estrela distante pode iluminar o seu interior, qual fogo espacial gerador de vida divina.

É pela atracção do Coração que se pode ascender e evocar a consonância com o Sagrado, pois as fontes de elevação de consciência, provêm de dimensões de luz espiritual para desencadear estímulos, que levem os homens cada vez mais à Cooperação. Contudo, só Aquele que retém o poder do Espírito, sintetiza uma consciência ardente e afirma o Amor na exaltação do Sagrado. E, sagrado é Aquele Ser que vem anunciar uma Boa Nova, que traz um pensamento inovador, que dá um novo impulso à Inteligência para despertar a Humanidade da sua letargia.
Falaremos aqui de uma imagem sagrada, a famosa e sublime Anunciação tão maravilhosamente representada na Arte Sacra, do Arcanjo Gabriel à Virgem Maria pelos grandes mestres da pintura desde Botticceli a Leonardo Da Vinci, a Frei Angélico, encontrando-se também este tema em tantas obras da Escola de Arte Portuguesa, de cuja época séc. XVI, escolhi a que pertence ao retábulo da Igreja da Madre de Deus, exposta hoje no Museu Nacional de Arte Antiga de Lisboa.
São ícones eternos, que denunciam acontecimentos que se passaram e passar-se-ão sempre com aquelas mulheres, cujos ventres serão berços de Seres especiais como Messias, o “Ungido do Senhor”, o chamado Avatāra na terminologia indiana, que significa “a descida do Espírito Divino à Terra”.

Estas revelações espirituais dão-se de forma natural no interior de Mães realizadas humanamente, para serem portadoras da mensagem Sagrada através do Messias para a humanidade.

Haverá sempre um Anjo Anunciador, Àquela cuja visão não se limita aos níveis físicos, mas transcende-os porque vive simultaneamente em dois planos, onde universos visíveis e invisíveis coexistem num espaço e sucedem-se no tempo e, quer sejam naturais ou sobrenaturais são a manifestação de uma original e eterna Fonte que envolve os seres no fogo da Existência.
O culto à Mãe Divina tem naturalmente ligação com Messias e Avatares. Prosaicamente se diz que Elas são belas virgens, contudo, isto é uma ideia ou noção criada pelos homens acerca da pureza, porque a verdadeira pureza entendida a níveis superiores, é sobretudo elevação e realização espiritual e portanto a Mãe na sua essência é pura. A Mãe de um Avatāra ou Messias personifica a pureza nos planos internos, (virtudes, altruísmo, amor devoção) e só deles dependem as suas atitudes exteriores, como também da sua capacidade de transportar e aguentar tão poderosa corrente de energia divina. Por esta razão, a Mãe de um Avatāra ou Messias é escolhida de forma singular e na sua vida ocorrem sempre estranhos presságios e acontecimentos. Tal como Maria, Mãe de Jesus, teve de fugir para o Egipto para proteger o seu nascimento, também Devaki a Mãe de Kṛṣṇa teve de ausentar-se da sua cidade natal, ao ser perseguida pelo seu próprio irmão, que receava o poderoso ser que iria nascer para tomar-lhe o trono.

Um Avatāra, um Messias dos tempos presentes não deixará também de estar ligado ao aspecto transcendente com acontecimentos especiais que denunciem o seu nascimento. Ele começa sobretudo com a Mãe que, obviamente, é a primeira pessoa a senti-lo, pois ela é o elo que estabelecerá a corrente com o Divino para manifestar-se na Terra. Só a Mãe no seu mais profundo nível e íntima ligação com o Ser que é ele mesmo essa manifestação de Deus, conseguirá compreender, aceitar e viver esses momentos tão especiais, já que um ambiente místico e espiritual a rodeará para conceber e depois acompanhar tal Ser. Antes mesmo da Concepção ela será envolvida por uma aura de energias protectoras, que a isolam de certa densidade terrena, permitindo-lhe receber informações ou se quisermos intuições, que só um ser preparado espiritualmente pode entender, e levar depois a bom termo, a tarefa de acolher em seu seio a beatífica criatura, com a qual fará uma conspiração amorosa para dar finalmente a “Luz ao Mundo”. Portanto só um ser iniciado pode ser a Mãe de um Messias, Avatāra, já que toda a preparação para Ele nascer, depende naturalmente da sua ligação aos planos mais subtis ou espirituais, de onde são enviadas “directrizes”, para que se desencadeiem os acontecimentos e se cumpram os Desígnios Superiores.

Os Messias demonstram que existe uma Justiça através da acção apropriada, proclamam uma norma religiosa, e apelam à necessidade do Amor entre os homens. Sobretudo os seus sublimes ensinamentos revelam que provêm de Fonte Sagrada, e como raios expulsam a luz em todas as direcções, tornando a humanidade mais segura na sua marcha à evolução. Eles não procuram qualquer realização pessoal pois estão imbuídos de conhecimento espiritual e incumbidos de o divulgar, para acordar a humanidade quando ela está em sono profundo, despontando então a clássica batalha da luz contra as trevas.
A vida está inserida num processo eternamente em movimento, onde as energias não só são transformadas, como novas correntes se combinam. Obviamente o Cosmos não é estático, ele está permeado de forças incessantes, que ora se aniquilam ora se renovam, movendo-se em direcções espaciais desconhecidas. Também a vida na Terra se renova e ajusta constantemente, ora rejeitando o decadente, ora aceitando o intercâmbio de forças para que se revele maior criatividade que conduza à renovação do homem.

Na vibração eterna, o Espírito brilha como tesouro e a Verdade é estabelecida subtilmente de tempos a tempos, com Alguém especial que vem afirmar novas possibilidades à Humanidade. Um Messias é o Ser que transmite poderosamente a vivência de Deus e, com grande convicção fala do Poder Supremo, pois é Ele mesmo uma força sintetizada desse Poder. Um Messias ou Avatāra está por isso fora de qualquer religião, não tem que trilhar via alguma para a perfeição e os seus ensinamentos é que ficam naturalmente como doutrina ou religião.
O Avatāra, o Messias, invoca as forças puras e superiores para que o homem supere a sua própria resistência de acomodação ao estabelecido e rompa todas as formas inertes que obstruem a cadeia da evolução. Quando uma renovação se aproxima, surge o Avatāra que impele à aspiração divina, à perfeição, à beleza, ao amor e então é afirmado mais um degrau rumo ao Infinito.

O princípio mais elevado no Sacramento do Altar da Vida é a beleza de um coração amoroso e compassivo, qual força ígnea transmutando o poder destruidor em raio de Amor como um archote no Caminho dos homens.
Messias e Avatāras na sua essência mais profunda têm o mesmo valor, tornando-se aparentemente diferentes pelas designações dadas pelo homem, mas ambos transferem a Vontade Divina para a Terra, e vêm com o mesmo objectivo, o de elevar a Consciência colectiva da Humanidade.
Não é por acaso que falo de Avatāras e da Pintura Portuguesa, pois os ecos da nossa História repercutem ainda a esperança num Salvador que estabeleça um Reino Espiritual e que irradie para o mundo a Vontade Divina. E, embora seja na Índia, que se encontra a grande tradição de Avatares, Eles são contudo, uma realidade universal pois o Messias é também uma esperança redentora dos povos do Ocidente.

É ainda incerta a identificação dos autores do Retábulo da Igreja da Madre de Deus, provavelmente executado por vários artistas nomeadamente Jorge Afonso, este referente à Anunciação, sendo plausível considerá-lo o Mestre de 1515.
Jorge Afonso pintor Régio designado por D. Manuel em 1508 cargo confirmado por D. João III, em 1529, foi o fundador (?) da Oficina de Lisboa por onde passaram pintores notáveis nas décadas seguintes. A Pintura Quinhentista vinculada especialmente ao período de D. João III tinha uma complexa estrutura de trabalho cooperativo e era notoriamente um centro cosmopolita, denunciado nos elementos ornamentais e arquitecturais de cunho renascentista, donde sobressaem certas influências da Escola Italiana e Flamenga.
Infelizmente sem uma base documental que se possa afirmar a individualização de Jorge Afonso temos contudo, uma plêiade de autores que nos legaram uma magna obra. Teria sido este Mestre da Pintura Portuguesa educado no estrangeiro, nomeadamente Itália, ou convivido em Portugal com Mestres estrangeiros?

Os elementos arquitectónicos e decorativos colocam-no na órbita de um Leonardo da Vinci ou de outros pintores nomeadamente de Antuérpia já sensíveis aos ecos de Florença. As Oficinas de Lisboa da primeira metade do séc. XVI, suscitam numerosas dúvidas quanto à identificação das obras não assinadas, dando ideia de valorização e prestígio apenas da Escola e não de individualidades, não na procura de notoriedade mas da mestria, trabalhando anónima e profundamente num único sentido: o de aperfeiçoamento da Arte.
Ora esta obra da Anunciação embora não apresente uma simetria e perspectiva perfeita, contém todavia, uma criação de cores e de movimentos, próprios de uma inspiração artística que já ultrapassou as fronteiras para a universalidade. Tem um significativo discurso simbólico, desde a Vieira peregrina, aos Lírios brancos da pureza debruçados sobre o Livro, como um elogio à Sabedoria.

Os tons de azul são uma combinação feliz que se harmonizam num apuramento de técnica com a restante decoração, onde se assumem colunas de estilo clássico, e arcos e nichos compondo o ambiente espacial, com uma perspectiva de fundo, que induz ao longínquo...
O autor apodera-se de uma intuição de beleza divina, que idealizada, transfere para o rosto da Virgem dando-lhe uma suave expressão de transparência beatífica
Uma saudação amistosa sobressai num delicado gesto da Virgem encorajando o Arcanjo a aproximar-se e que, ajoelhado respeitosa e religiosamente, se dirige à escolhida de Deus, rodeada de um resplendor de santidade. O Embaixador divino apresenta-se investido do Poder Supremo, simbolizado pelo ceptro.

Como ponto central, a pomba do Espírito Santo, designa Aquela que humildemente se transformou no símbolo da Mãe Divina.

Demos as boas vindas suavemente Àqueles que são enviados do Absoluto para trazer a Luz, que tornará os seres humanos mais livres.
Benditas sejam as Mães e Benditos os Messias!
   


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