Fundação Maitreya
 
Os Evangelhos 2005 Comentados

de Firmamento Editora

em 27 Jul 2006

  O Livro EVANGELHOS 2005 COMENTADOS, da Firmamento Editora, publicado em Dezembro de 2004 contém os Evangelhos dominicais do ano de 2005, relidos e comentados por 61 pessoas com experiências de fé e de vida. Cada evangelho é comentado por uma pessoa cuja biografia, experiência interior ou religiosa justifique um encontro entre o texto bíblico e a sua experiência pessoal irrepetível e única. Por amável cedência da Firmamento e a autorização dos respectivos autores, congratulamo-nos por esta possibilidade de editar no Spiritus Site alguns desses comentários, este de Gilda Nunes Barata.


«Saiu o semeador a semear»

São Mateus, 13,1-23

Naquele dia, Jesus saiu de casa e foi sentar-Se à beira-mar.
Reuniu-se à sua volta tão grande multidão que teve de subir para um barco e sentar-Se, enquanto a multidão ficava na margem.
Disse muitas coisas em parábolas, nestes termos:

«Saiu o semeador a semear. Quando semeava, caíram algumas sementes ao longo do caminho: vieram as aves e comeram-nas. Outras caíram em sítios pedregosos, onde não havia muita terra, e logo nasceram, porque a terra era pouco profunda; mas depois de nascer o sol, queimaram-se e secaram, por não terem raiz.
Outras caíram entre espinhos, e os espinhos cresceram e afogaram-nas.
Outras caíram em boa terra e deram fruto: umas, cem; outras, sessenta; outras, trinta por um.
Quem tem ouvidos, oiça».
Os discípulos aproximaram-se de Jesus e disseram-Lhe: «Porque lhes falas em parábolas?».
Jesus respondeu:

«Porque a vós é dado conhecer os mistérios do reino dos Céus, mas a eles não. Pois àquele que tem dar-se-á e terá em abundância; mas àquele que não tem, até o pouco que tem lhe será tirado. É por isso que lhes falo em parábolas, porque vêem sem ver e ouvem sem ouvir nem entender.
Neles se cumpre a profecia de Isaías que diz: “Ouvindo ouvireis, mas sem compreender; olhando olhareis, mas sem ver. Porque o coração deste povo tornou-se duro: endureceram os seus ouvidos e fecharam os seus olhos, para não acontecer que, vendo com os olhos e ouvindo com os ouvidos e compreendendo com o coração, se convertam e Eu os cure”.
Quanto a vós, felizes os vossos olhos porque vêem e os vossos ouvidos porque ouvem!
Em verdade vos digo: muitos profetas e justos desejaram ver o que vós vedes e não viram e ouvir o que vós ouvis e não ouviram.

Escutai, então, o que significa a parábola do semeador: Quando um homem ouve a palavra do reino e não a compreende, vem o Maligno e arrebata o que foi semeado no seu coração.
Este é o que recebeu a semente ao longo do caminho. Aquele que recebeu a semente em sítios pedregosos é o que ouve a palavra e a acolhe de momento com alegria, mas não tem raiz em si mesmo, porque é inconstante, e, ao chegar a tribulação ou a perseguição por causa da palavra, sucumbe logo.
Aquele que recebeu a semente entre espinhos é o que ouve a palavra, mas os cuidados deste mundo e a sedução da riqueza sufocam a palavra, que assim não dá fruto. E aquele que recebeu a palavra em boa terra é o que ouve a palavra e a compreende. Esse dá fruto e produz ora cem, ora sessenta, ora trinta por um».

Comentário

“Diz-me, porque é que não consegui assassinar-te?” (Mehmet Ali Agca ao Papa, na sua visita à prisão de Rebibbia)
A parábola é intransponível. O amor é intransponível. Assim sendo, aceitem esta carta-oração sem que a igualem ao céu ou à semente...

“As lágrimas são um mapa pleno de significação e de leituras. Temos muitas maneiras de chorar e, o modo como o fazemos, revela não só a temperatura dos sentimentos, mas a natureza da própria sensibilidade. Ao chorar, mesmo na solidão mais estrita, dirigimo-nos a alguém: esforçamo-nos para que ninguém veja que choramos, mas choramos sempre para um outro ver. As lágrimas emprestam um realismo único, irresistível à dramática expressão de nós próprios. São um traço tão pessoal como o olhar ou o mover-se ou o amar[1]”, escreve José Tolentino Mendonça.
Bem sabes que sempre fui em parte incerta e nunca emprestei de mim mesma uma parte completa.
Todas essas coisas que poderei dar-te irão parecer-te estranhamente insuficientes: as fotografias, as flores, o aspecto vulnerável da minha escuta... De mim, terás apenas essas quantas coisas imprecisas que semeaste com precisão mas que eu espalhei onde pensava na desigualdade da minha esperança.

Sabes que as tuas sementes sempre resvalaram do meu espírito e caíram das minhas mãos.
Não que não te escutasse. Não. Sempre fui atenta, bem sabes também. É apenas um desequilíbrio entre aquele que semeia e aquele que vai ao lugar e colhe... Terei colhido? Terás colhido as vezes sem conta que olhei para as sementes e as deixei pelo caminho e as pisei?... Nos celeiros pedregosos, procurarás talvez a minha voz. Quererás saber porquê armazenar o que não sei... Só então te poderei dizer que escutei, por isso, armazenei. Também relevarás o pó das sementes. O pó que as tornava luzidias e suficientemente fortes para as estações da morte. Mas pó nenhum apagará a vida da semente, e tu dirás mais vezes: ‘Avança na vida, não inclines a morte na árvore...’. E eu saberei argumentar falando das quatro estações sem saber praticamente nenhum movimento de nenhuma das quatro. Mais uma vez, falaremos prodigiosamente a fala das parábolas como uma mãe que limpa os olhos ao filho e tem o mesmo frio que o agasalho que lhe deu no Inverno em que ficou despida. E, mais uma vez, terás de me explicar o milagre das estrelas, o segredo das noites, a respiração assustada dos braços certos e meigos. E explicarás, outra vez. Outra vez. E todas serão inúteis na surdez das noites confusas. Insistirás nas histórias em que se molham os pés e se vai em direcção ao mar, não obstante, todas as mudanças das marés...

Preciso que me acredites. Preciso de acreditar.
Lançarás, então, a semente da solidão para eu desistir primeiro, para ser incompreensível demais o que quero. E eu chorarei. Sentada à beira-mar como tu fizeste ao pescador ou no tecido negro desses cereais que se assemelham a montanhas azuis ou a tempos difíceis nas serras de neves paradas e verdadeiras.
Chorarei porque sei que em nenhum dia me vou parecer contigo. Nunca trarei as tuas rugas no meu corpo e tudo o que me derem, em vez de ti, será pó: um ligeiro descanso entre dois intervalos de tudo recomeçar quando acaba.

Nesse momento, vou apanhar as sementes antigas, e tu reafirmas: ‘Há quanto tempo foi a última vez que nos vimos?’. E eu terei vergonha das marcas, das sebes crescidas. E eu ali estática na raiz. Pedirás notícias das sementes que rapidamente se tornaram velhas e inúteis. Pedirás uma justificação para o que depressa se desfez na nossa casa. E eu chorarei. Ainda assim, saberás que te amo da mesma maneira que as coisas redondas e perfeitas. Incendiarei as tuas sementes de afecto e compreenderei que nada se compara contigo. E que aconteceu, uma vez, amar-te, por acaso. E ser verdade... Ficarão perdidos os dias em que não juntámos as nossas sementes brancas e de leite. Ficarão intransponíveis no quintal, sobre vigas de ferro, no tijolo, na mina onde nasceu um bebé sem braços que abraçava a mãe nas pedras como a alegria que escorregou das nossas mãos. Irei, então, avidamente recuperar a alegria, depois a figueira, depois o berço magoado da mãe mineira que adoeceu a olhar o bebé, sem braços, na mina de muitas pedras trazidas por homens com braços. Laranjas tombadas no chão, na mina, biberões serenos e ternos no musgo, nos vales, e eu saberei... Saberei que era só um instante, o instante em que guardavas os meus brinquedos no teu baú e na mina onde vivia o menino sem braços... Estranhamente, virão até mim mais homens esquecidos, completamente esquecidos da última vindima e da abundância das macieiras onde as maçãs eram todas para eles. Cheios de maçãs, nas tábuas do chão, dirás ao homem dos braços fortes o trabalho que não fez na página do seu livro e no castanheiro, na cerejeira que mede mil cuidados quando as cerejas inquirem a dose de amor... Calcorreando até me encontrares, atraiçoou-te. Atraiçoam-te mais uns tantos e até a menina da mercearia que não sabe fazer bem contas... Subitamente, aprenderás a rezar do mesmo modo que eu, a fazer contas do mesmo modo que a menina da mercearia que não conta contigo para as suas contas e erra no troco. Aprenderás a fazer promessas com as sementes que lanças. Sem amargor. Sem ressentimento. Só com o amieiro junto ao rio. “Acompanharei os teus sucessivos erros...”, dirás. “Sobre a terra, ver-te-ei descontente”, pensarás.

Muitas vezes, o estranho desejo de tocar-te e a folha seca do amieiro na distância dos dois... Virá um falso profeta que me puxará um braço com muita violência para eu provar a sua urina e o pus, como se eles fossem a extensão do mar, a duração das marés, para lá da minha alma...
A voz da minha mãe soará: ‘És mais extensa e vasta...’. Começarei a conhecer melhor a linguagem dos bebés e do amor. Canções de embalar. Confiança. E transformo os teus mistérios em orações, carroças de sangue nos telhados, fumo por dentro das minúsculas saudades cederão. Cairão grinaldas e o homem habitual não semeará os habituais caminhos por onde passa. Goteiras. Sarjetas não aguentarão a visão.
Deverei esquecer que fui amada?

Os gemidos do musgo, a estufa que precisa de liberdade, o tempo que gastei expressando nenúfares em portas de cimento, e chorarei exigindo a tua inevitável liberdade. A sabedoria da primeira semente. O teu perdão. Nesse rastro, a semente que gerou ira era compaixão. E, simplesmente, algumas coisas eram apenas o que eram: homens tristes eram homens tristes, a incapacidade da pedra era a incapacidade da pedra. Tudo coisas que nunca me pertenceram totalmente na procura do ilimitado respeito.
Senhor, saberás reconhecer o meu coração quando ele trouxer o encantamento e a ingenuidade da primeira semente?
Luz? Clarão? Ou aquela semente aguda que caiu no aluvião?

[1] MENDONÇA, José Tolentino, O Dom das Lágrimas- Orações da Antiga Liturgia Cristã, Lisboa, Assírio e Alvim, 2002 p.12.

Gilda Nunes Barata, Poeta. Licenciada em Direito. Mestre em Literatura Comparada. Doutoranda en Estudos Filosóficos.
   


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Impresso em 22/6/2021 às 9:51

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