Fundação Maitreya
 
Os Sufis

de Pedro Teixeira da Mota

em 18 Ago 2006

  Entre as etimologias da palavra Sufi, temos suf, lã, a roupa usada pelos ascetas e místicos; ahl-isuffa ou ashab i-suffa, (os da varanda), os discípulos mais próximos do Profeta e que passavam o tempo a orar na mesquita. Por outro lado, Suf, significa em arábico, sagrado, Safa, sincero, e Safa, pureza, sendo esta a etimologia escolhida por Jami, um dos mais considerados místicos do Islão. Os sufis seriam então os mais puros e místicos, os mais decididos a conhecer a Verdade e a Divindade, através duma vida iniciática e de práticas espirituais mais intensas.

Sufis numa MesquitaSendo o sufismo originário dos próprios discípulos do profeta Maomé, notam-se contudo influências pré-islâmicas, sobretudo dos monges cristãos e budistas, bem como das doutrinas dos profetas Zoroastro e Mani e das especulações gnósticas. O encerramento da Academia Platónica, em Atenas, por Justiniano, forçou os últimos sábios gregos a emigrarem para Pérsia no século VII, contribuindo para um desenvolvimento da filosofia, ciência, e portanto da sabedoria islâmica. Com a dinastia dos Omayyades (661-755), e com a dos Abbasides (755-1258), dá-se uma grande expansão e inicia-se um processo assimilativo dos conhecimentos quer da Pérsia, quer da Índia e da Grécia, com a capital e centro a deslocar–se de Damasco para Bagdade, onde florescerá uma cultura universalista. Entre 813 e 833 o Califa Ma'mun funda a Casa de Sabedoria, espécie de primeira universidade e grande biblioteca, em que a religião aceita a entrada da razão e da ciência a seu lado, como saberes autorizados e nobres, acolhendo assim sábios de todo o império. O Islão atinge uma imensa expansão e inicia-se um processo inter-comunicativo de conhecimentos e realizações, que ninguém mais poderá deter.

Podemos dizer, que esta grande irradiação e valor do Islamismo resultou e resulta da grandeza das suas ideias da Unidade de Deus e da igualdade dos homens, dos seus pilares de esmola, jejum, peregrinação e oração, e sobretudo do Sufismo, com a sua capacidade de mostrar uma espiritualidade de fulgurantes ligações a Deus, com os seus sheiks, walis (santos), e fakirs, a surgirem em todos os extractos de todos os povos, e com uma solidariedade humana bem acima de todas as diferenças étnicas ou sociais, bem dinamizadas ainda hoje fortemente por tantas silsilahs, as irmandades sufis.
Pode-se dizer que Sufismo ou Tasawwuf, são os estados e métodos dum caminho de crescente união íntima e experimental com o espírito e com Deus.
É no século XIII que surge a época mais original e criativa da longa história do misticismo islâmico com os conhecidos Suhrawardi, Ibn Fariz, Ibn Arabi, Mevlana Rumi, Farabi, Ibn Sina e Al-Qushair, todos eles profundamente imbuídos de neo-platonismo.
Eis os estágios principais do Caminho sufi: começa-se por seguirem-se as práticas e doutrinas normais religiosas, ou seja, a lei ou código de conduta, ou caminho, Shari'at. Depois há o desprendimento dos rituais exteriores e a ênfase é na purificação interna, através do desapego, o ascetismo, a meditação, Tariqat. Por fim há a gnose, Marifat, o conhecimento intuitivo e directo, e o peregrino torna-se um com o Senhor, ou a Verdade, Haqiqat, vendo-O em toda a parte.

As práticas espirituais com vista a atingir-se a gnose, "Ma'rifat", de Deus têm sempre como base ou objectivo a purificação do coração (qalb), que é no fundo o campo de batalha entre o espíritMu´in uddin Chischti - Mestre Sufio divino e os verdadeiros infiéis, as tendências adversárias da harmonia divina. As principais práticas são: Dhikr ou Zikr-i Jihr, a repetição ou rememorização do nome de Deus, feita em voz alta ou Zikr-i Khafi, executada mentalmente. Fikr, o pensamento ou meditação no que se invoca ou adora. Pas-i Anfas, o controle da respiração. Muraqabah, a vigilância de coração e, finalmente surgindo a absorção na contemplação mística.
As confrarias místicas, orientadas por notáveis mestres místicos, os pirs, e sheiks, guiam os discípulos a avançarem pelas estações do caminho, mas o grande Mevlana Rumi, o fundador dos derviches voadores de Konya, dirá - “Deus é quem abre as portas”.
Eis alguns dos mestres principais das ordens sufis que ao longo dos séculos têm sido o coração do Islão:

O sheik Abdul Qadir Jilani, nascido em Jil perto de Bagdade em 1087, fundou a ordem mística mais antiga do Islão, a Qadiriya, da qual fez parte o pioneiro príncipe mogol Dara Shikoh. Conhecido como o patrão de Bagdade, Jilani, aliava à santidade a erudição, a inteligência e o dom da palavra, sendo famosos os seus sermões, nos quais teria mesmo convertido judeus e cristãos.
Dizia que Deus dera tal estatuto ao homem que este podia atingir o estado, makam, dos anjos, ou até mais alto. O seu túmulo ou jardim encontrava-se no centro de Bagdade, e hoje, após as destruições dos americanos, pouco restará certamente.
Entre os seus discípulos principais está Nizam-uddin que adquiriu uma irradiação de ensino místico formidável, abandonando o corpo num jardim de Delhi, na Índia, onde ainda hoje o amor divino que o percorreu se comunica a qualquer peregrino que por lá passe. Desencarnou em 4 de Março de 1326 e o seu santuário por estar dentro de Delhi é de fácil e recomendável visita.
Das outras tariqua principais mencionemos a Chischtiya, fundada por Mu'in uddin Chischti (1142-1239). Atingiu o seu estado e reputação em Ajmer, Índia, onde se encontra sepultado, e é muito celebrado. O seu discípulo mais famoso foi Cutb uddin, tão místico como ele e que, morrendo em 29 de Dezembro de 1232 deixou o seu túmulo com tal energia (baraka) que ainda hoje o amor e a gnose de qualquer peregrino que lá medite se afinam.

A Nakhschbandiya, fundada por Bahauddin Nakhschband, (1318-1389), é outra linhagem rica de místicos, bem como a Ne’ matollahi, fundada por Wali (1331-1432), muito forte no Irão, hoje inegavelmente o país em que os estudos e a vivência do sufismo estão mais aprofundados e desenvolvidos, e por isso mesmo ameaçados pelos fundamentalismos americanos.
Mas não nos esqueçamos que também vários filões têm sido transmitidos em Portugal, de Silves, Beja, Mértola, Sintra, Alfama ou Mouraria a tantos outros locais de passagem e realização sufi, e que hoje são-nos mais conhecidos graças aos estudos e publicações de Garcia Domingues, Borges Coelho, Dias Farinha, Adalberto Alves, Adel Sidarus, e outros.

Actualmente, o sufismo, nas confrarias, ou em místicos isolados que praticam os ensinamentos, que se elevam à ligação com os mestres sufis ou com o profeta Maomé, é uma realidade viva e muito enriquecedora, sobretudo numa perspectiva ecuménica, para Portugal.
   


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