Fundação Maitreya
 
A Morte - Início de Vida?

de Zelinda Mendonça

em 16 Out 2006

  Há cerca de dois anos um amigo muito querido fez-me uma proposta, que na altura achei muito desajustada dos meus planos e das minhas aspirações – fazermos um trabalho sobre o tema da morte porque, dizia ele, toda a gente tem medo da morte sem razão. Como ele estava doente pensei que se esqueceria de tal proposta uma vez recuperado o seu estado de saúde. Acontece que ele não recuperou e pouco depois morreu. No próprio dia da sua morte, ainda muito jovem, decidi fazer o trabalho.


Uma Alma sobe ao Céu de Burne-JonesI PARTE

Comecei a investigar.
Procurei levar a cabo tal missão baseando-me em dados que fui colhendo em obras publicadas de natureza científica e histórica que pude reunir.

Constatei que para a Medicina a morte surge com o fim da actividade cardíaca e cerebral. O Direito acrescenta que com a morte cessam todos os vínculos de emprego, de alimentos, de pensões, de vencimentos e conjugais.
Mas todas as civilizações e culturas, de todos os tempos, não estão de acordo com a rigidez destes conceitos. Todas elas propõem soluções pos-morte, do Cristianismo ao Budismo, do Egipto Antigo, da Teosofia, etc.

A Dra. Elizabeth Kubler-Ross, de origem Suiça, mas vivendo nos Estados Unidos, foi pioneira na investigação sobre a morte e o processo de morrer.
No seu trabalho como médica de doentes terminais assistiu ao fim dos dias de muita gente. Começou a constatar que existiam parâmetros que se repetiam em quase todos os casos de morte de pessoas não preparadas para tal.
Inicialmente as pessoas não querem acreditar no facto em si. Depois vem a raiva, o rancor, a mágoa, a dor. Depois procuram negociar com Deus (se eu melhorar…), depois ficam deprimidos, isolam-se, mas sempre no final surge a serenidade, mesmo que os momentos anteriores tenham sido de muito sofrimento.
Na actualidade, graças a sofisticadas técnicas de reanimação utilizados rotineiramente nas urgências dos hospitais muita gente é devolvida à vida. Muitos dos que retornam têm uma história para contar.

Mas já na antiguidade existem relatos de pessoas que retornaram à vida. É o caso do soldado Er referido por Platão (427-347 a.C.) na sua obra “A República”. (Er foi considerado morto. Foi julgado. À volta dele todos escolhiam as suas próximas vidas e depois bebiam do rio do esquecimento e expurgavam da memória as suas vidas passadas. Ele foi proibido de beber dessa água e voltou à consciência mesmo a tempo porque o seu corpo já estava sobre a pira funerária).
S. Paulo também faz referência, na 2ª epístola aos Coríntios capítulo 12, a “um homem que foi arrebatado ao 3º céu onde ouviu palavras inefáveis que não são permitidas ao homem repetir”.
Desde a Idade Média que existem relatos semelhantes, mas é na actualidade que, devido à evolução científica existem mais casos de pessoas que “morrem” e regressam à vida.
A Dra. Kubler-Ross refere que muitos doentes terminais viam e ouviam familiares falecidos que continuavam invisíveis e inaudíveis para todos os presentes. Tais visitantes estavam lá com o propósito de acompanhar o moribundo para a outra vida. Até crianças muito pequenas falavam com excitação de um membro da família já falecido que vinha buscá-las.

O Dr. Raymond Moody também foi pioneiro nestes estudos. Tentou sistematizar os dados disponíveis baseados em muitos casos que lhe foram relatados em 1ª mão de experiências de quase morte (E.Q.M.).
O Dr. Moody compilou dados recolhidos nesses relatos formando a “experiência ideal e completa”.

“Um homem está a morrer, e ao atingir a maior relaxação física, ouve o médico declará-lo morto. Começa a ouvir um ruído desagradável, uma campainha ou um besouro, e ao mesmo tempo, começa a movimentar-se rapidamente através de um túnel escuro e comprido. Depois sente-se subitamente fora do seu corpo físico, mas nas suas imediações, de maneira que consegue vê-lo, mas de fora, como um espectador. Deste ponto exterior, observa as tentativas de reanimação, sentindo-se emocionalmente confuso.
Decorrido algum tempo, reage, habitua-se à sua estranha e nova condição. Verifica que tem ainda um “corpo”, mas de natureza e poderes muito diferentes do outro que deixou para trás. Em breve surgem novas coisas. Vêm ao seu encontro outros seres para o saudar e ajudar. Sente a presença de parentes e amigos que já morreram. Surge depois um espírito acolhedor e adorável, como nunca encontrara – um ser de luz. Este ser faz-lhe uma pergunta, mas não verbalmente, para avaliar a sua vida, e ajuda-o mostrando-lhe uma panorâmica instantânea dos maiores acontecimentos por que passou. A certa altura sente que se aproxima de uma espécie de barreira ou fronteira, a qual, aparentemente, representa o limite entre a vida terrestre e a outra vida. Sente, contudo, que tem que voltar para trás, que ainda não chegou a altura de morrer. Neste momento resiste, pois já tomou contacto com experiências pos-morte e não quer voltar. Sente-se inundado de felicidade, de amor e de paz. Apesar desta atitude, reúne-se novamente ao seu corpo físico e sobrevive.
Mais tarde, tenta contar aos outros, mas tem dificuldade em fazê-lo. Em primeiro lugar, não consegue encontrar palavras humanas adequadas para descrever estes episódios “extraterrestres”. Percebe também que as pessoas troçam dele, e desiste da sua narrativa. Contudo a experiência afecta profundamente a sua vida, especialmente a sua opinião sobre a morte e a sua relação com a vida”.

A Vida depois da Vida

O regresso à vida faz-se por decisão própria ou do “ser de luz”. Quanto mais profunda é a experiência menos desejo têm de voltar. Muitos imploram autorização pUma Alma recebida no Paraíso de Burne-Jonesara ficar.
Um homem contou … “um anjo disse –“tens de voltar”, eu nem queria
acreditar. Pedi, implorei para que me deixassem ficar ali. A ideia de ficar outra vez prisioneiro do meu corpo era infinitamente deprimente, medonho…Mas o anjo já se desvanecia em palavras: “Sharon precisa de ti”. Então percebi num instante que tinha uma responsabilidade. Sharon é a minha mulher, inválida, sofre de esclerose múltipla. Logo que compreendi isso, voltei ao meu corpo lutando pela vida”.

Nestas E.Q.M. há que destacar três aspectos fundamentais que são o “ser de luz”, a “rememorização” e as Experiências Fora do Corpo (E.F.C.). Quanto ao ser de luz é sempre um ser de Bondade, Justiça e Amor, que conforme as crenças religiosas será Jesus, Buda, um Anjo, o “Espírito Absoluto”, mas para todos representa o amor incondicional. O diálogo com ele é feito de forma telepática (daí a dificuldade de traduzir em palavras), directo, sem obstáculos, de forma tão clara que não há possibilidade de má compreensão ou de mentir.
Segundo os testemunhos este ser de luz tem por missão ajudar (nunca condenar) a pessoa a rememorar os factos da sua vida e pergunta se está pronta a morrer, se foi útil aos outros, se determinada missão foi cumprida, etc. A própria pessoa fará o julgamento da sua situação e tirará as ilações de acordo com as suas capacidades.
As E. F. C. são também marcantes pelo facto das pessoas terem uma visão alargada, vêem tudo o que as rodeia, não constituindo impedimento as paredes ou objectos que os envolvem conseguindo ver mesmo através deles. Inclusivamente vêem com estranheza o seu próprio corpo, geralmente rodeado dos médicos e enfermeiros que tentam trazê-lo à vida.
Quem passa por estas experiências não tem a menor dúvida da sua realidade e da sua importância (mau grado a ciência considerar que ainda não foi constituída prova suficiente para as sancionar). Por vezes tentam contactar alguém mas sentem-se quase sempre incompreendidos. Outras vezes não falam porque não querem macular as suas recordações, acham que tudo é muito pessoal.
O Dr. Moody fala de casos de E.Q.M. de duração extrema. Refere que as pessoas sentem ter acesso ao “conhecimento absoluto”, mas que quando a pessoa escolhe regressar, na maioria dos casos, não retêm o conhecimento. “Durante um minuto não houve pergunta que eu não soubesse a resposta” refere uma mulher em entrevista ao Dr. Moody. Esta experiência não os desencoraja a aprender, pelo contrário compreendem que o conhecimento e a sabedoria adquiridos nesta vida são uma mais valia.
Esta experiência é referida de modos diversos. Por vezes comparam a um “clarão de compreensão universal”, uma “escola”, uma “biblioteca”. Todos referem que as palavras para descrever tal experiência são um vago reflexo da realidade.
Algumas pessoas falam da visão de espaços que poderíamos considerar celestiais. Em várias descrições empregam a expressão – “uma cidade de luz”. Neste espaço não podem entrar a não ser que decidam mesmo ficar.

Nem todas as pessoas foram ou viram locais paradisíacos, algumas descrevem lugares sombrios, penosos sem luz.
Um dos casos graves é o dos suicídios tentados. Quando voltam falam de experiências desagradáveis. Sentem que os conflitos e problemas a que tentam fugir continuam presos a eles e muitas vezes de uma forma bruta, imediata e de pesadelo. Muitas vezes é-lhes mostrado as consequências das suas acções, o horror e angústia de quem os encontra ou a quem abandonam, sem haver possibilidade de emendar fosse o que fosse.

Refere o Dr. Moody «…pessoas que passaram por este desagradável estado de “limbo” observaram que tinham tido o sentimento de que deveriam ficar nesse lugar por muito tempo. Era o seu castigo por “quebrarem as regras” tentando libertar-se prematuramente daquilo que, com efeito, lhes fora dado como “desígnio”- realizar um determinado objectivo de vida”. Os conflitos a que tentavam escapar mantinham-se para além da morte, agravados por vezes por várias complicações. No estado de “fora do corpo” sentiram-se incapazes de resolver os seus problemas. Por vezes os factos que os leva ao suicídio, estão constantemente a repetir-se como se fosse um ciclo».

Um homem conta, após um acidente em que “morrera”, «tive a sensação de que duas coisas são absolutamente proibidas, o suicídio e matar outra pessoa. Nestes casos teríamos de enfrentar Deus por ter interferido nos seus propósitos. Era como se devolvêssemos a oferta de Deus contra a sua face, no caso do suicídio. Matando alguém estaríamos a interferir nos Seus propósitos para aquela individualidade».

O Dr. Melvin Morse aplicou o método científico no seu trabalho de pesquisa sobre as E.Q.M. e E.F.C. Tinha por objectivo a comparação de grupos de pessoas que tinham tido tais experiências e outras que tendo estado à beira da morte não as tiveram. Concluiu que as pessoas que passaram por aquelas experiências tinham menos ansiedade em relação à morte. Tinham maior gosto pela vida. Tinham uma inteligência mais elevada. Aumentaram por vezes as capacidades paranormais. Quanto mais profunda é a experiência, menor é o medo da morte. Os que não tiveram tais experiênciaReencontro após a morte de Burne-Joness mas estiveram perto da morte têm uma ansiedade ligeiramente maior que o normal.
O Dr. Melvin Morse também observou transformações na vida das pessoas que tiveram E.Q.M. - Fazem mais exercício, comem mais frutas e legumes, têm menos queixas psicossomáticas, perdem menos tempo no trabalho, passam menos tempo desempregados. Têm menos sintomas de depressão e ansiedade. Passam mais tempo sozinhos em buscas solitárias (meditação/contemplação). Dão mais de si mesmas à comunidade, desenvolvendo trabalho voluntário, preferem profissões de carácter social, sentem que a sua vida tem um propósito, tornam-se pessoas felizes com passatempos e buscas intelectuais, descobrem novas capacidades, são pessoas simples e comuns, não têm religião ou filosofia de vida específicas, além de viver a vida no máximo.

Mas para quem não teve estas experiências porquê interessar-se por elas? É uma questão posta muitas vezes.
Importa aprender o mais possível com elas para podermos acompanhar as pessoas na hora de morrer.

Os médicos têm a tarefa de compreender estas experiências, saber que são reais e não provocadas pelas drogas. Precisam concentrar-se mais nas necessidades do paciente do que na necessidade de impor controlo e ordem ao processo de morrer. Aperfeiçoar as actividades à cabeceira do doente, em conversas sobre a morte e o morrer. Precisam tocar, segurar a mão ou simplesmente sentar ao lado. Providenciar as actividades que podem reverter o isolamento do agonizante.

A família e os amigos precisam também compreender as E.Q.M. Saber que podem trazer um novo significado para um sorriso tranquilo antes de morrer, para um olhar de despedida. Podem ouvir declarações breves, sentir a serenidade de quem morre. Saber que é cientificamente possível considerar a hipótese de sobrevivência após a morte, o que pode trazer esperanças de voltarem a se reunir. Não menosprezar as visões de um paciente como sendo delírios. Quando tiver dúvidas não faça nem diga nada. Resista à ânsia de ter todas as respostas ou de interpretar as experiências.

Deixemos aos filósofos e pesquisadores científicos descobrirem a verdadeira natureza das E.Q.M.

As E.Q.M. são muito frequentes. Acontecem em todos os estratos da população e em todas as crenças, bem como a ateus e racionalistas.

Acontecem também a crianças muito pequenas. Para muitas pessoas fornece a prova necessária de que a consciência sobrevive e se expande depois da morte. Não são o resultado da ingestão de drogas ou tratamentos médicos. Pessoas cegas conseguem descrever tudo aquilo que viram quando em E.Q.M. e deixam de ver novamente ao voltar (as descrições são comprovadas pelos presentes).

O Dr. Melvin Morse considera que provar estas E.Q.M. são um quebra-cabeças porque são exigidos níveis de prova irracionalmente altos. Está convicto que assim acontece porque ao acreditar nelas isso mudaria radicalmente a nossa visão do mundo, desafiando tudo, desde leis naturais a convicções religiosas.

Termino esta primeira parte transcrevendo o pensamento do Doutor Mark B. Wodhouse inserido no artigo «Para além do Dualismo e do materialismo: Um Novo Modelo de Sobrevivência» inserido no livro, “A Vida Depois da Morte”, que passo a citar

«…um número relativamente grande de pessoas está a começar a acordar para a existência de penetração interdimensional juntamente com todas as implicações que daí advêm. Quer seja através de práticas de meditação amplamente divulgadas, de E.Q.M. (não intencionais), da renovada busca da transcendência, de algum mecanismo evolutivo bem guardado no fundo do nosso inconsciente colectivo, de investigadores psíquicos provarem suas teses ou de qualquer outra combinação destes e de muitos outros factores, a sobrevivência à morte física vai tornar-se progressivamente menos problemática em contextos onde anteriormente o fora.
O amadurecimento da ressonância com a penetração interdimensional envolve mais do que simplesmente a área da sobrevivência. Quer dizer entre outra coisas, que iremos testemunhar o aparecimento de um maior número de crianças com aptidões telepáticas e clarividentes e o crescimento sem paralelo da medicina da energia e curas aparentemente miraculosas. E em termos de contextos relacionados só com a sobrevivência, iremos ver um crescente número de pessoas a “deixarem os seus corpos” intencionalmente, em proporções que os psiquiatras e os sociólogos não poderão explicar em termos de histeria de massas ou cultos de irracionalidade. A investigação psíquica, incluindo as investigações da reencarnação, vai reunir cada vez mais apoios. O trabalho de libertação emocional de vidas passadas vai gradualmente ser incorporado na psicoterapia dominante. As aparições serão menos raras e, mais importante, produzirão menos medo e menos reacções negativas. E o tratamento de doentes em fase terminal irá reflectir um conhecimento claro da dinâmica da transição iminente.
A verdadeira dinâmica da sobrevivência vai continuar a ser debatida durante muito tempo no futuro, mas a questão de se sobrevivemos ou não à morte dos nossos corpos vai ser considerada por uma maioria como estando resolvida. O céptico Comité de Investigação Científica do Paranormal irá perder uma das suas mais importantes batalhas e irá constatar que a sua própria agenda está mais alinhada com a crítica construtiva.
Será que tudo isto são apenas desejos formulados? Será especulação? Por um lado é claramente visionário. Por outro lado, é certamente falseável. Mas na perspectiva do Monismo de Energia, o actual abandono ou transformação de poderosos paradigmas históricos, a evidência da investigação psíquica e os casos espontâneos que estão a alimentar as tendências colectivamente enraizadas concedem esta visão mais do que uma módica quantidade de respeitabilidade intelectual. Sejam quais forem os nomes com que evoluirá, esta visão é, por assim dizer, uma a ter em conta».
Funchal, 5 de Setembro 2006
   


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