Fundação Maitreya
 
Os Evangelhos Comentados

de Firmamento Editora

em 30 Nov 2006

  O Livro EVANGELHOS 2005 COMENTADOS, da Firmamento Editora, publicado em Dezembro de 2004 contém os Evangelhos dominicais do ano de 2005, relidos e comentados por 61 pessoas com experiências de fé e de vida. Cada evangelho é comentado por uma pessoa cuja biografia, experiência interior ou religiosa justifique um encontro entre o texto bíblico e a sua experiência pessoal irrepetível e única. Por amável cedência da Firmamento e a autorização dos respectivos autores, congratulamo-nos por esta possibilidade de editar no Spiritus Site alguns desses comentários, sendo este de Abdoolkarim Vakil.




Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Evangelho Jo 18, 1-19,42

Naquele tempo, Jesus saiu com os seus discípulos para o outro lado da torrente do Cedron. Havia lá um jardim, onde Ele entrou com os seus discípulos Judas, que O ia entregar, conhecia também o local, porque Jesus Se reunira lá muitas vezes com os discípulos.
Tomando consigo uma companhia de soldados e alguns guardas, enviados pelos príncipes dos sacerdotes e pelos fariseus, Judas chegou ali, com archotes, lanternas e armas.
Sabendo Jesus tudo o que Lhe ia acontecer, adiantou-Se e perguntou-lhes:
«A quem buscais?». Eles responderam-Lhe: «A Jesus, o Nazareno».
Jesus disse-lhes: «Sou Eu».
Judas, que O ia entregar, também estava com eles. Quando Jesus lhes disse: «Sou Eu», recuaram e caíram por terra.
Jesus perguntou-lhes novamente: «A quem buscais?».
Eles responderam: «A Jesus, o Nazareno».
Disse-lhes Jesus:
«Já vos disse que sou Eu. Por isso, se é a Mim que buscais, deixai que estes se retirem».
Assim se cumpriam as palavras que Ele tinha dito: «Daqueles que Me deste, não perdi nenhum».
Então, Simão Pedro, que tinha uma espada, desembainhou-a e feriu um servo do sumo sacerdote, cortando-lhe a orelha direita.
O servo chamava-se Malco. Mas Jesus disse a Pedro: «Mete a tua espada na bainha. Não hei-de beber o cálice que meu Pai Me deu?».
Então, a companhia de soldados, o oficial e os guardas dos judeus apoderaram-se de Jesus e manietaram-n’O.
Levaram-n’O primeiro a Anás, por ser sogro de Caifás, que era o sumo sacerdote nesse ano.
Caifás é que tinha dado o seguinte conselho aos judeus: «Convém que morra um só homem pelo povo».
Entretanto, Simão Pedro seguia Jesus com outro discípulo. Esse discípulo era conhecido do sumo sacerdote e entrou com Jesus no pátio do sumo sacerdote, enquanto Pedro ficava à porta, do lado de fora.
Então o outro discípulo, conhecido do sumo sacerdote, falou à porteira e levou Pedro para dentro.
A porteira disse a Pedro: «Tu não és dos discípulos desse homem?».
Ele respondeu: «Não sou».
Estavam ali presentes os servos e os guardas, que, por causa do frio, tinham acendido um braseiro e se aqueciam. Pedro também se encontrava com eles a aquecer-se.
Entretanto, o sumo sacerdote interrogou Jesus acerca dos seus discípulos e da sua doutrina.
Jesus respondeu-lhe:
«Falei abertamente ao mundo. Sempre ensinei na sinagoga e no templo, onde todos os judeus se reúnem, e não disse nada em segredo. Porque Me interrogas?
Pergunta aos que Me ouviram o que lhes disse: eles bem sabem aquilo de que lhes falei».
A estas palavras, um dos guardas que estava ali presente deu uma bofetada a Jesus e disse-Lhe: «É assim que respondes ao sumo sacerdote?».
Jesus respondeu-lhe:
«Se falei mal, mostra-Me em quê. Mas, se falei bem, porque Me bates?».
Então Anás mandou Jesus manietado ao sumo sacerdote Caifás.
Simão Pedro continuava ali a aquecer-se.
Disseram-lhe então: «Tu não és também um dos seus discípulos?».
Ele negou, dizendo: «Não sou».
Replicou um dos servos do sumo sacerdote, parente daquele a quem Pedro cortara a orelha: «Então eu não te vi com Ele no jardim?». Pedro negou novamente, e logo um galo cantou.
Depois, levaram Jesus da residência de Caifás ao pretório. Era de manhã cedo. Eles não entraram no pretório, para não se contaminarem e assim poderem comer a Páscoa.
Pilatos veio cá fora ter com eles e perguntou-lhes: «Que acusação trazeis contra este homem?». Eles responderam-lhe: «Se não fosse malfeitor, não t’O entregávamos».
Disse-lhes Pilatos: «Tomai-O vós próprios, e julgai-O segundo a vossa lei».
Os judeus responderam: «Não nos é permitido dar a morte a ninguém».
Assim se cumpriam as palavras que Jesus tinha dito, ao indicar de que morte ia morrer.
Entretanto, Pilatos entrou novamente no pretório, chamou Jesus e perguntou-Lhe:
«Tu és o rei dos Judeus?».
Jesus respondeu-lhe: «É por ti que o dizes, ou foram outros que to disseram de Mim?».
Disse-Lhe Pilatos: «Porventura sou eu judeu? O teu povo e os sumos sacerdotes é que Te entregaram a Mim. Que fizeste?».
Jesus respondeu: «O meu reino não é deste mundo. Se meu reino fosse deste mundo, os meus guardas lutariam para que Eu não fosse entregue aos judeus. Mas o meu reino não é daqui».
Disse-Lhe Pilatos: «Então, Tu és rei?».
Jesus respondeu-lhe: «É como dizes: sou rei. Para isso nasci e vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz».
Disse-Lhe Pilatos: «Que é a verdade?».
Dito isto, saiu novamente para fora e declarou aos judeus: «Não encontro neste homem culpa nenhuma. Mas vós estais habituados a que eu vos solte alguém pela Páscoa. Quereis que vos solte o rei dos Judeus?».
Eles gritaram de novo: «Esse não. Antes Barrabás».
Barrabás era um salteador. Então Pilatos mandou que levassem Jesus e O açoitassem. Os soldados teceram uma coroa de espinhos, colocaram-Lha na cabeça e envolveram Jesus num manto de púrpura.
Depois aproximavam-se d’Ele e diziam: «Salve, rei dos Judeus». E davam-Lhe bofetadas.
Pilatos saiu novamente para fora e disse: «Eu vo-l’O trago aqui fora, para saberdes que não encontro n’Ele culpa nenhuma». Jesus saiu, trazendo a coroa de espinhos e o manto de púrpura.
Pilatos disse-lhes: «Eis o homem». Quando viram Jesus, os príncipes dos sacerdotes e os guardas gritaram: «Crucifica-O! Crucifica-O!».
Disse-lhes Pilatos: «Tomai-O vós mesmos e crucificai-O, que eu não encontro n’Ele culpa alguma».
Responderam-lhe os judeus: «Nós temos uma lei e, segundo a nossa lei, deve morrer, porque Se fez Filho de Deus».
Quando Pilatos ouviu estas palavras, ficou assustado. Voltou a entrar no pretório e perguntou a Jesus: «Donde és Tu?».
Mas Jesus não lhe deu resposta. Disse-Lhe então Pilatos: «Não me falas? Não sabes que tenho poder para Te soltar e para Te crucificar?».
Jesus respondeu-lhe: «Nenhum poder terias sobre Mim, se não te fosse dado do alto. Por isso, quem Me entregou a ti tem maior pecado».
A partir de então, Pilatos procurava libertar Jesus. Mas os judeus gritavam: «Se O libertares, não és amigo de César: todo aquele que se faz rei é contra César».
Ao ouvir estas palavras, Pilatos trouxe Jesus para fora e sentou-se no tribunal, no lugar chamado «Lagedo», em hebraico «Gabatá».
Era a Preparação da Páscoa, por volta do meio-dia. Disse então aos judeus: «Eis o vosso rei!». Mas eles gritaram: «À morte, à morte! Crucifica-O!».
Disse-lhes Pilatos: «Hei-de crucificar o vosso rei?».
Replicaram-lhe os príncipes dos sacerdotes: «Não temos outro rei senão César» Entregou-lhes então Jesus, para ser crucificado. E eles apoderaram-se de Jesus.
Levando a cruz, Jesus saiu para o chamado Lugar do Calvário, que em hebraico se diz Gólgota. Ali O crucificaram, e com Ele mais dois: um de cada lado e Jesus no meio.
Pilatos escreveu ainda um letreiro e colocou-o no alto da cruz; nele estava escrito:
«Jesus, o Nazareno, Rei dos judeus». Muitos judeus leram esse letreiro, porque o lugar onde Jesus tinha sido crucificado era perto da cidade.
Estava escrito em hebraico, grego e latim. Diziam então a Pilatos os príncipes dos sacerdotes dos judeus: «Não escrevas: ‘Rei dos Judeus’, mas que Ele afirmou: ‘Eu sou o rei dos Judeus’».
Pilatos retorquiu: «O que escrevi está escrito».
Quando crucificaram Jesus, os soldados tomaram as suas vestes, das quais fizeram quatro lotes, um para cada soldado, e ficaram também com a túnica. A túnica não tinha costura: era tecida de alto a baixo como um todo.
Disseram uns aos outros: «Não a rasguemos, mas lancemos sortes, para ver de quem será».
Assim se cumpria a Escritura: «Repartiram entre si as minhas vestes e deitaram sortes sobre a minha túnica». Foi o que fizeram os soldados.
Estavam junto à cruz de Jesus sua Mãe, a irmã de sua Mãe, Maria, mulher de Cléofas, e Maria Madalena.
Ao ver sua Mãe e o discípulo predilecto, Jesus disse a sua Mãe: «Mulher, eis o teu filho». Depois disse ao discípulo: «Eis a tua Mãe».
E a partir daquela hora, o discípulo recebeu-a em sua casa. Depois, sabendo que tudo estava consumado e para que se cumprisse a Escritura, Jesus disse:
«Tenho sede».
Estava ali um vaso cheio de vinagre. Prenderam a uma vara uma esponja embebida em vinagre e levaram-Lha à boca. Quando Jesus tomou o vinagre, exclamou: «Tudo está consumado». E, inclinando a cabeça, expirou.
Por ser a Preparação e para que os corpos não ficassem na cruz durante o sábado,– era um grande dia aquele sábado –os judeus pediram a Pilatos que se lhes quebrassem as pernas e fossem retirados.
Os soldados vieram e quebraram as pernas ao primeiro, depois ao outro que tinha sido crucificado com ele.
Ao chegarem a Jesus, vendo-O já morto, não Lhe quebraram as pernas, mas um dos soldados trespassou-Lhe o lado com uma lança, e logo saiu sangue e água.
Aquele que viu é que dá testemunho, e o seu testemunho é verdadeiro. Ele sabe que diz a verdade, para que também vós acrediteis.
Assim aconteceu para se cumprir a Escritura, que diz: «Nenhum osso lhe será quebrado».
Diz ainda outra passagem da Escritura: «Hão-de olhar para Aquele que trespassaram».
Depois disto, José de Arimateia, que era discípulo de Jesus, embora oculto por medo dos judeus, pediu licença a Pilatos para levar o corpo de Jesus.
Pilatos permitiu-lho.
José veio então tirar o corpo de Jesus. Veio também Nicodemos, aquele que, antes, tinha ido de noite ao encontro de Jesus. Trazia uma mistura de quase cem libras de mirra e aloés.
Tomaram o corpo de Jesus e envolveram-no em ligaduras juntamente com os perfumes, como é costume sepultar entre os Judeus.
No local em que Jesus tinha sido crucificado, havia um jardim e, no jardim, um sepulcro novo, no qual ainda ninguém fora sepultado.
Foi aí que, por causa da Preparação dos Judeus, porque o sepulcro ficava perto, depositaram Jesus.

João 18, 1-19,42

Abdoolkarim Vakil

“Jesus disse: “Tudo está consumado.” E, inclinando a cabeça, entregou o espírito.” Nestas palavras tem-se procurado ver a marca distintiva do Cristo e da cristologia do Quarto Evangelho - o seu núcleo e mensagem.
Do ponto de vista fisiológico (questão que já reúne alguns consensos), inclinando a cabeça, Jesus crucificado poderá ter causado a sua própria morte por asfixiamento, marcando o seu momento de encontro com o Pai. A escolha das palavras “entregou o espírito”, enfatiza o voluntarismo daquele seu último acto e, também, de como Jesus assumiu a sua missão e se entregou a uma morte a que sempre aludiu e várias vezes iludiu - até que chegou a Hora por ele nomeada. Recordemos que Jesus dissera: “Dou a minha vida para voltar a tomá-la. Ninguém Me tira a vida; Eu dou-a livremente”.
Este voluntarismo transparece logo na abertura do trecho que estamos a ler, na frontalidade tranquila, mas literalmente subjugadora, com que Jesus - com um “Eu Sou!” prenhe de significação – se apresenta aos soldados romanos que o procuraram no horto – o local onde ele sabia que Judas os levaria para o prenderem. Mais tarde, no momento mais crítico deste episódio, é essa mesma atitude segura e desconcertantemente ousada que o vemos assumir perante Pilatos – quando, sendo réu no processo, mais parece ser o seu instrutor.
Respondendo a perguntas e servindo-se das palavras dos seus acusadores, vai provocando o extremar das posições que contra si se erguem, até que, pela boca dos acusadores, se revelem, inadvertidamente, os sentidos subjacentes ao processo em causa. Assim, julgado, Jesus coloca o mundo em julgamento.
Através deste voluntarismo desafiador provoca a morte que anuncia. Dar e tomar de novo a vida, declara Jesus, está ao seu alcance, por mandamento que recebeu do Pai. Esta mesma declaração, provocara já divisão e hostilidade entre as autoridades religiosas judias.
A primeira alusão que Jesus fez à sua própria morte fora então entendida como um desafio às autoridades, reforçando o desacato que causou ao expulsar, à chicotada, os vendilhões e cambistas do Templo. Correspondendo ao pedido de justificação solicitado pelos dirigentes judeus, Jesus respondeu com o provocador e profético: “Destruí este Templo e em três dias Eu o levantarei.” E “levantar”, tal como “subir”, “elevar”, “glorificar”, “exaltar”, são precisamente os termos usados quando ele anuncia essa morte que, assim, significa mais triunfo e vitória, do que humilhação, agonia ou derrota.
Tudo se consome e tudo se cumpre na Cruz. Para ela convergem todos os sinais e prenúncios do texto; a sua arquitectura e economia narrativa; a sua mensagem e promessa. Foi para esta hora que Jesus veio. Entregando-se, nela cumpre a sua missão no mundo. Desde que, pelos olhos e palavras de João Baptista, pela primeira vez o encontramos no texto, ele é “o Cordeiro de Deus, Aquele que tira o pecado do mundo”. Na cruz e pela cruz se resolve o drama cósmico que o prólogo poeticamente resume: A Palavra fez-Se Homem, e da contemplação da sua glória renascem em Deus os que acreditam no seu Nome.
Contemplando essa Palavra junto à Cruz, dela se faz testemunha o discípulo que Jesus amava e para dar testemunho escreveu: “Estes sinais foram escritos para que acreditais que Jesus é o Messias, o Filho de Deus e para que, acreditando, tenhais a vida em seu Nome.” “E nós sabemos que o seu testemunho é verdadeiro”, confirma o apêndice deste trecho.
Como se professa pelo Credo dos Apóstolos, “Jesus Cristo padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado.” Através de Pôncios Pilatos ancora-se a morte de Jesus na história e a história entra no Credo.
A tentação de ler o “verdadeiro” testemunho do apóstolo em termos de veracidade histórica, faz-nos resvalar facilmente da historicidade da morte de Jesus para uma leitura em que o seu significado está intimamente relacionado com a sua veracidade histórica. Proclamando a centralidade do mistério Pascal, a Profissão da Fé Cristã autoriza-nos - para uma melhor compreensão do sentido da redenção – a iluminar a investigação dos evangelhos com o recurso às fontes históricas.
No entanto, de acordo com a perspectiva da história, quando se pergunta porque morreu Jesus - o Jesus, judeu, histórico, que pregou em Jerusalém e durante o festival de Pesah causou grande desacato no Templo - a resposta é: “Porque fez a coisa errada, no lugar errado, no momento errado”, sem que nada se possa dizer sobre o seu significado redentor. Não está em causa o mérito ou importância de melhor conhecer o contexto histórico em que Jesus viveu mas, simplesmente, de reconhecer que não é por aí que o cristão ou o não cristão chegarão à compreensão do mistério pascal.
E é aqui, justamente, que reside a virtude e o poder do texto joanino. A verdade que ele testemunha é uma verdade de fé, e a narrativa que a sustenta é uma narrativa interpretativa, cuja profundidade - até mesmo pela mestria literária e poeticidade da prosa - continuamente subverte uma leitura que se queira puramente histórica.
É precisamente porque se trata de uma economia textual arquitectada por um jogo de símbolos, de figuras de estilo, de correspondências, contrastes, paralelos e remetimentos, que a leitura da Paixão e Morte do Senhor, descontextualizada do resto deste evangelho, se me afigura também problemática.
João 18-19 constitui, seguramente, uma unidade. No tríptico que há muito se identificou existir nestes dois capítulos (18,1-27, 18,28-19,16a e 19,16b-42), é possível ver também o tríptico cristológico (do Bom Pastor, Rei, e Cordeiro Pascal) que resumiria o todo. Mas vale a pena reflectir, brevemente que seja, sobre a possível perversão do sentido e significado da morte de Jesus em que pode incorrer um enfoque que se esgote tão somente nessa mesma paixão e morte.
Das inúmeras expressões artísticas, literárias, visuais e musicais que ao longo dos tempos procuraram representar, reflectir e fazer-nos pensar sobre o significado da Paixão e Morte de Jesus, há duas que pela polémica que recentemente têm provocado - e pela qualidade do debate que têm suscitado - são sugestivas de como se colocam estas questões.
A primeira é a Paixão segundo S. João, de J. S. Bach, que tem por libreto, exactamente, o texto de João 18-19. Bach, que ocupava o cargo de Kantor da Igreja Luterana de Leipzig, e cuja composição a partir do Evangelho de S. João foi elaborada e representada no cumprimento dessa função, serviu-se, para o libretto, da tradução literal do texto grego do evangelho feita por Martinho Lutero.
O violento anti-judaísmo pregado por Lutero realça, na interpretação que faz do Evangelho de S. João (e, em particular, da Paixão), o Jesus humano e reforça a questão tão discutida do anti-judaísmo a que potencialmente se presta este evangelho.
Transpondo para o texto a configuração dramática de uma composição que acentua uma polarização centrada na plebe judaica, a Paixão de Bach tem ocasionalmente levado à suspeita de anti-judaísmo e a objecções contra a sua representação. Quando estas acusações nos conduzem a confrontar com seriedade a questão do anti-judaísmo deste evangelho - e das leituras anti-judaicas a que historicamente ele se tem prestado – a polémica é, só por si, positiva; contudo, outras intervenções neste debate têm-se feito ao revés deste sentido anti-judaico, recuperando diferentes modos de ler o mesmo texto. Alguns, por exemplo, vêem na teologia do oratório de Bach a recuperação da enfâse, também ela luterana, de raiz paulina, dada ao pecado cristão e à expiação. Defendem que é esta orientação que se manifesta nos comentários introduzidos pelo compositor através dos hinos, e que a representação da Paixão dramaticamente faz sobressair: numa Leipzig cristã, em que coristas e espectadores eram afinal vizinhos uns dos outros - e em que o reconhecimento social rapidamente se sobrepunha a qualquer identificação “teatral” de “judeus” - a acentuação hímnica da confissão e expiação da culpa e, ainda, a cumplicidade do pecador cristão na morte do Senhor, exigida para sua redenção, predominava sobre qualquer noção de deicídio judaico - que a enfática declamação do solista, de que por ela resulta a redenção universal, apagaria.
Forte contraste oferece, porém, A Paixão de Cristo de Mel Gibson que tanta polémica e entusiasmo tem gerado. O primeiro problema do filme reside no seu proclamado realismo histórico, altamente questionável, e que mais não é do que um mero efeito de realidade. A veracidade de que se reclama e que o sustenta através da literalidade da encenação dos evangelhos, esconde a fragilidade de assentar sobre uma selecção arbitrária de elementos de cada um deles, criando uma imagem compósita que não salvaguarda a fidelidade integral a nenhum dos quatro evangelhos. Mas o maior problema - em parte resultante da omissão da ressurreição – reside em abordar a paixão e morte de Jesus como um fim cujo sentido se esgota em si mesmo. Como a representação histórica no filme - que esvaziada de sentido histórico pouco mais é que antiquariato visual - também a violência está descontextualizada, desprovida de intenções, e sem sentido para além dela mesma.
De João talvez se possa reclamar a visão cósmica de uma batalha entre a luz e as trevas, mas está desprovida do amor e da redenção que neste superam a simples dicotomia. A João vai também o filme buscar a Cruz que Jesus carrega às costas, mas despida do sentido que o evangelho lhe atribui; onde João tentou transmitir a atitude com que Jesus encarou a morte, o filme retém apenas a experiência do suplício e humilhação. Finalmente, do Quarto Evangelho - em que a ressurreição mais parece algo de suplementar do que orgânico à narrativa – poder-se-ia o filme ter apoiado em defesa da centralidade exclusiva concedida à crucificação. Mas esta comparação melhor evidencia a seguinte diferença: o que no evangelho é momento transcendente e de glorificação, no filme pouco mais é que violência pornográfica. No evangelho, a morte de Jesus é glória, porque pela sua morte liberta; com a sua morte se vê abolida a Morte e a humanidade é reconciliada com Deus: “Deus amou de tal forma o mundo que entregou o seu Filho único, para que todo o que n’Ele acreditar não morra, mas tenha a vida eterna”.
Seguir Jesus, é tomar a Cruz todos os dias, em inúmeros e consequentes - se bem que aparentemente insignificantes - gestos de reconciliação na vida quotidiana: assim ensina o Catecismo da Igreja Católica. O significado da Cruz é o que a Páscoa convida todos os cristãos a meditar e o que João 18-19 tão profundamente nos incita a explorar em termos de mistério pascal.
“Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por meio d’Ele. Quem acredita n’Ele não está condenado; quem não acredita já está condenado, porque não acredita no Nome do Filho único de Deus. Aquele que acredita no Filho possui a vida eterna. Quem rejeita o Filho nunca verá a vida, pois a ira de Deus permanece sobre ele”.
Aceitando contribuir para a leitura e reflexão sobre a Paixão e Morte do Senhor, quis que o meu comentário reflectisse a perspectiva de quem, sendo muçulmano - e não reconhecendo Jesus como Cristo, Filho de Deus e Palavra Encarnada, que foi “crucificado morto e sepultado; desceu à mansão dos mortos; ressuscitou ao terceiro dia”, mas apenas como profeta - procurou entender e respeitar o significado cristão da mensagem.
O próprio facto de um muçulmano, lado a lado com cristãos de várias denominações e, assim como ele, crentes de outras religiões e não-crentes, terem sido convidados a contribuir para um livro que se quer para leitura e prática cristãs, é profundamente significativo do reconhecimento da transformação da sociedade portuguesa contemporânea na sociedade empiricamente multicultural e multireligiosa que ela hoje é. A sociedade de valores multiculturais e ecumenicamente multireligiosa e fraternal, essa está ainda por criar, mas está nas nossa mãos fazê-lo. O pluralismo religioso desafia-nos diversamente enquanto crentes (e não crentes). A cada uma das nossas religiões, e em termos próprios a cada uma, o pluralismo impõe uma reflexão doutrinária e comunitária sobre a nossa relação com os outros. No cristianismo, é em torno da Trindade, da Encarnação, do mistério pascal da crucificação e ressurreição de Cristo, da Revelação e da Salvação que o diálogo e o confronto de interpretações e a tomada de posições se polarizam, em abertura ou fecho.
As Igrejas assumiram o debate. Entre os teólogos ele floresce. Mas aqui e hoje, quando, com João ante os olhos e a Páscoa no coração, renovas o compromisso de seguir Cristo e tomar a cruz, que significa ela, leitor cristão e leitora cristã, para a tua relação connosco, não-cristãos?

Muçulmano
   


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Impresso em 25/6/2021 às 1:03

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