Fundação Maitreya
 
Bhagavad Gītā - XIII Capítulo

de Rājarāma Quelecar

em 29 Jan 2007

  "Manter a Consciência Divina é muito difícil, com todas as influências terrenas de materialismo, sensualidade, cepticismo, se não há uma força de fé e firmeza nos propósitos espirituais, o que exige uma força de Hércules, facilmente se resvala e se esquece de Deus, como vemos na humanidade, a viver numa amnésia em relação à Sua proveniência. A matéria é “contagiosa”, sendo por isso necessário certo isolamento para quem já vive o Divino, e um grande discernimento e atenção às energias perturbadoras e cépticas dos seres que nos rodeiam.
Por essa razão diz-se: «Junta-te aos Sábios»... "
Livro, "As Iniciações e a Expansão Portuguesa" de Maria


Primeiros Princípios
I
Śri Kṛṣṇa: - O nosso corpo é chamado o campo, oh Arjuna, e quem conhece esse campo é chamado o conhecedor do campo, pelos sábios.

II
Compreende tu que sou Eu o conhecedor do campo, em todos os corpos e, oh Arjuna, o conhecimento desse campo e o do seu conhecedor constitui o conhecimento propriamente dito.

III
Que é esse campo? Qual é a sua natureza? Quais são as suas propriedades? Donde provém ele? Bem assim, quem é esse conhecedor do campo? Quais são as suas actividades? Vou-te explicar, resumidamente, para teu saber:

IV
Todas essas questões têm sido abordadas pelos Ṛṣis, a seus modos, nos Vedas, dedicando-lhes até estrofes sublimes; mas a análise racional do problema encontra-se em Brahmasūtras, em linguagem clara e concisa.

V
Esse campo é um agregado de Prakṛtī (a natureza não diferenciada, princípio eterno do “devenir” e da acção), do produto da sua evolução inorgânica: os cinco elementos (o espaço, o ar, a água, o fogo e a terra), do resultado da sua evolução orgânica: os dez sentidos e uma mente, a inteligência, a intuição do eu, enfim, os cinco objectos dos sentidos;

VI
A coesão destes elementos, a sua organização, a força vital, a atracção e a repulsão, o prazer e a dor, tudo isto é o campo com as suas formações.

VII
A antipatia pelas honras e estima, a isenção total da hipocrisia, a não-violência, a indulgência, a rectidão, a veneração do mestre, a pureza, a firmeza, o auto-domínio.

VIII
O desprendimento dos prazeres dos sentidos, a eliminação radical do egoísmo, a compreensão nítida de que o nascimento, a morte, a velhice e as doenças são o sofrimento e a dor do homem.

IX
Não ser absorto pelo lar, nem ser preso absolutamente à família, a equanimidade perante a adversidade e, bem assim, perante a prosperidade.

X
Uma devoção fervorosa sem afrouxamento, a adoração constante da presença universal do eterno, o gosto pela solidão, a vida apartada de toda a multidão ou agregados sociais.

XI
A meditação dos problemas metafísicos, a consciência de que a ciência espiritual é eterna, tudo isto é declarado como sapiência, o reverso é a ignorância.

XII
Agora, vou-te abordar o conhecimento fundamental que, uma vez assimilado, te enlevará para a imortalidade: é o Supremo Brahman Eterno, que se não pode designar pela palavra existência ou não existência:

XIII
As suas mãos e os seus pés existem em toda a parte, ao redor de nós. São inúmeras as suas cabeças, as suas faces, as suas bocas; os seus olhos dirigindo-se em todos os lugares; as suas orelhas se encontram em toda a parte; abrangendo todo o universo, se excede;

XIV
Evidencia-se por todas as actividades dos sentidos, mas sem os respectivos órgãos. Não se prende a coisa alguma, não obstante ser suporte de tudo. Tem todas as qualidades, não sendo, porém, qualificável;

XV
É o único que existe no íntimo de todos os seres animados e inanimados e fora também. É móvel e imóvel ao mesmo tempo. Está longe, encontrando-se, porém, perto. É a subtileza dos subtis, e por isso é incompreensível;

XVIr /> Ele é uno e indivisível, mas mostra-se dividido em variadas criaturas, dando aparência de existências distintas. É a origem eterna de todas as existências, o amparo de todos os seres e, enfim, o observador de tudo, na sua eternidade.

XVII
É a luz das luzes, o esplendor além das trevas profundas da nossa ignorância. É o conhecimento e o objecto do conhecimento, residindo no íntimo de tudo.

XVIII
Já te expliquei, sumariamente, o que é o campo, o que é o conhecimento e o que é o objecto do conhecimento. Todo o meu devoto que conhece essa verdade, atinge-Me.

XIX
Sabe tu que a Natureza e o Espírito são ambos sem origem e eternos; e sabe, também, que a Natureza é a causa determinante do “devenir” universal.

XX
O princípio da causalidade e o da acção provêm da Natureza. O Espírito, colhendo as sensações dos objectos exteriores, converte-se em percepções do prazer e da dor.

XXI
O Espírito, sendo inseparável da Natureza, reflecte em si as actividades dela, e esta atracção pelas qualidades sujeita-o a moldes variados, bons e maus, do seu nascimento, na Natureza.

XXII
O Espírito, inserido no nosso corpo, assistindo a todos os actos da Natureza, anuindo-os, sustentando-os; desfrutando as suas produções, é o Eu Supremo, soberano, todo poderoso.

XXIII
Assim, aquele que conhece, desse modo, o Espírito e a Natureza com as suas qualidades, qualquer que seja a sua maneira de viver e agir, não está sujeito ao ciclo da vida e morte.

XXIV
Esse conhecimento se adquire pela introspecção, em que o Eu eterno se torna aparente na própria existência humana, ou se adquire pelo Yoga da inteligência ou pelo Yoga da acção.

XXV
Mas o homem, em geral, que ignora essas vias do Yoga, adquire a Verdade escutando com fé e atenção os preceitos ditados pelos mestres e meditando-os e, assim, evita o ciclo da vida e morte.

XXVI
Sabe, oh Arjuna, que todo o ser que vem ao mundo, quer animado quer inanimado, é o resultado da união do Espírito e da Natureza.

XXVII
Aquele que vê o Ente supremo, indistintamente, em toda a existência espaço-temporal, isto é, o imperecível no perecível, só este vê realmente.

XXVIII
Aquele que compreende que o Ente supremo existe em todas as coisas e em todos os seres e, sendo incapaz de se deixar arrastar pelas paixões, atinge a condição suprema.

XXIX
Aquele que compreende que toda a acção é o atributo da Natureza, e que o Espírito só assiste impassível aos actos dela, é o sábio.

XXX
E quem chega a compreender que toda essa multiplicidade de existências se sucede no único Ser Supremo, e que tudo dimana dele, atinge o Brahman.

XXXI
Oh Arjuna, o Ser Supremo é sem origem e Eterno, não limitado pelas qualidades da Natureza, imperecível, e não obstante se encontrar no nosso corpo, Ele não age nem é afectado.

XXXII
Assim como o éter subtil enche todo o espaço e penetra todos os corpos, sem se alterar, assim o supremo Espírito, existindo em todas as partes do nosso corpo, não é afectado.

XXXIII
Assim como o único Sol ilumina a terra inteira, assim o senhor do campo ilumina o campo inteiro, oh Arjuna!

XXXIV
Aquele que, pelos olhos do conhecimento, chega a compreender a distinção entre o campo e o seu conhecedor e o segredo da libertação do jugo da Natureza, atinge o Supremo.
   


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