Fundação Maitreya
 
A Arte

de Utpal K. Banerjee

em 12 Mar 2007

  Segundo Kamaladevi Chattopadhyay, antigamente os indianos foram atraídos pela beleza como um atributo de divindade. O país sempre tem sido um berço de uma variedade infinita de artes visuais, artes performativas e artesanato, em que a beleza foi dotada com divindade. Houve cânticos ricos e líricas oracionais dirigidos à beleza como a fonte de vida. Portanto é natural que esta tentativa de se estender à beleza e as suas várias manifestações se tornou num factor constante na vida quotidiana do povo.


A Arte

Na vida diária da Índia

Segundo Kamaladevi Chattopadhyay, antigamente os indianos foram atraídos pela beleza como um atributo de divindade. O país sempre tem sido um berço de uma variedade infinita de artes visuais, artes performativas e artesanato, em que a beleza foi dotada com divindade. Houve cânticos ricos e líricas oracionais dirigidos à beleza como a fonte de vida. Portanto é natural que esta tentativa de se estender à beleza e as suas várias manifestações se tornou num factor constante na vida quotidiana do povo.
Assim a arte se tornou numa parte integral da vida e personalidade, da qual se pode gostar em todas as actividades. As medidas de comparação como harmonia, proporção, ritmo e proeminência misturam-se completamente com rituais e ofertas votivas. Na Índia, o artesanato sempre foi uma actividade básica da sociedade humana porque as artes são uma parte integral da vida indiana. A arte é reconhecida aqui como uma expressão da alma humana na forma material, que nos dá prazer. As belas artes representam esta forma material.

Desde tempo antiquíssimo, os homens primitivos ornaram o seu corpo, e depois, objectos de uso diário. Mais tarde, ornaram as suas armas e finalmente o seu ambiente. Numa continuidade ininterrupta, paredes - ásperas das cabanas e havelis (casas) camponesas e chãos vulgares floresceram em quadros encantadores. Um agente de morte como o arco e a seta foram embelezados com decorações. Deram a Kumbhs (vasilhas) formas agradáveis e desenhos fascinantes cobriram as panelas. Aqui se observa a transformação do simplesmente funcional em obras de arte visual assim tornando o vulgar num objecto estimado. Nenhum aspecto da vida quotidiana é significativo ou modesto para reclamar beleza ou adquirir santidade como símbolo de bom presságio.

Por exemplo, a olaria foi considerada a lírica de artesanatos. A Kumbh (vasilha) é feita pelo oleiro que começa a trabalhar todas as manhãs acendendo uma lamparina como uma marca de respeito ao seu Criador. Até o oleiro mais analfabeto preparando faiança mostra uma percepção natural de qualidade estética. Obras de madeira representam um outro mundo maravilhoso provindo da afindade do homem à natureza onde todas as coisas têm de ser embelezadas por entalhes.
Assim, todos os objectos de casa como o pilão, a batedeira, a charrua, até a carroça para transportar a madeira se tornam em peças de artesanato. As portas de casas bem como de templos são decoradas por entalhes como um sinal de bom presságio.
Pela mesma razão são decorados os tectos, colunas, pilastras, vigas e consolas do canto. Depois disso vem a sofisticação – em forma de arcas, recipientes, caixas para guardar joalharia e bijutaria ou nozes e especiaria, candeias e tabuleiros e peões de xadrez. Muito antes do mobiliário moderno, a literatura védica referiu uma variedade de divã-cama. Caxemira, Gujarat, Tamil Nadu e Karnataka têm uma profusão de entalhes ricos de madeira. As imagens de divindades populares em toda parte da Índia também são decoradas com entalhes de madeira.
Decorações embutidas, pinturas em madeira e objectos de laca são outras variedades emergendo da mesma inspiração.

A pedra vem depois do barro e da madeira. A Índia é dotada de uma grande variedade de pedras e monumentos de pedra em todo o país e atingem muitas vezes um esplendor sublime demonstrando harmonia perfeita entre a sua arquitectura e escultura. Em Tamil Nadu há uma grande tradição de ícones talhados que possuem excelência clássica. E os canteiros, conhecidos como sthapatis, são geralmente versados nos domínios ligados à dança, música, matemática e religião. Em Bengala Ocidental e Rajastão, os artesões fazem obras de arte de pedra para uso diário de casa tais como pratos e tigelas.
Tecidos calorosos são celebrados desde muito tampo devido ao seu trabalho feito à mão. Entre eles, tecidos de algodão e seda são pérolas de tecelagem indiana. A sensibilidade e a cor exprimem-se no simbolismo associando cores às estações e, mesmo aos meses. Carmesim é a cor de bom presságio trazida por noivas, ocra amarela é o símbolo de renúncia e branco de puridade. Até os desuses têm cores individuais! Assam e Manipur têm uma vocação diária de mulheres de tecer tecidos belos. A seda não só tem uma tradição antiga mas também ocupa um lugar importante devido ao seu uso regular em rituais. De lã, o xaile, especialmente de Caxemira, é um produto excelente de tapeçaria artística para os meses de Inverno.
Bandhani (prender e tintar), Zardosi (decoração bordada) e Applique (obra feita de remendos) são outras artes relacionadas do uso diário, além de foi de metal, bordados, tapetes magnificentes e coberturas para o chão.

Na Índia, objectos artísticos de metal abrangem imagens religiosas, objectos ritualistas bem como úteis. Estes encontram-se profusamente em Kerala, Tamil Nadu, Gujarat, Rajastão e Uttar Pradesh. Bridi de Andhra Pradesh, um tipo de embutido em prata, tem uma grande variedade e originalidade de desenhos. Outros exemplos de decoração incluem recipientes simples usados em rituais e decorações de templos como chauki (altar para o ícone) e chatra (a cobertura pendente).
A joalharia na Índia tem poucos paralelos visto que há um ornamento especial para todas as partes do corpo humano. Faz uma parte integral do modelo social da Índia com profundas alusões religiosas. A joalharia especial é ligada a todos os samaskaras (acontecimento importante iniciando uma época na vida de uma pessoa). No Ocidente, as jóias são usadas para corresponder com o resto do vestido e acessórios. Mas na Índia as jóias são trazidas como um conjunto. A joalharia popular da Índia é a mais distinta com motivos inspirados pelo ambiente ao redor e desenvolvidos em desenhos estilizados.
Desde a época mogol, gravuras com figuras e desenhos ritualistas gravados à água-forte em grandes pormenores sobre pedras preciosas, corais e conchas fazem parte de uma arte bem desenvolvida e foram trazidas por mulheres.
Os objectos decorativos de verga e a tecelagem de esteira são artes rurais intimamente ligadas à vida quotidiana, imaginadas para cumprir exigências comuns. Em toda a parte as conchas têm uma implicação religiosa e social na vida quotidiana.

No mundo infantil indiano, os brinquedos e as bonecas têm uma fresquidão de uma qualidade eterna. Numa tradição gloriosa de brinquedos desde a civilização Harappa, animais populares são verdadeiramente fabulosos na sua diversidade e retrato compreensivo de caracteres animais. Os objectos de couro são muito comuns desde 3000 a.C. em todos os aspectos da vida quotidiana.
Finalmente, os objectos de vidro, com a qualidade de opalescência e brilho de miríades de diamantes, se encontraram em antigas estupas (túmulos) budistas e continuam a ser até hoje objectos úteis, como, põe exemplo, pulseiras comuns.
Nas artes visuais, pinturas de rocha em grutas são exemplos que se remontam para quase 10.000 anos. Muitas vezes se encontram em grupos, um facto que afirma o seu carácter comunitário. Nas épocas tardias se encontram uma tradição definitiva de pintura sobre vários objectos, especialmente sobre soalhos, paredes e objectos de uso diário. Em quase todos os casos, a pintura se associa a uma origem ritualista que se pode encontrar no Chitralakshana, tratado mais antigo da Índia sobre pintura. Até Vastsyayan em 650 a.C. falou eloquentemente sobre a beleza da decoração popular.

As pinturas em chão, feitas exclusivamente por mulheres, são entre as artes mais expressivas populares em todas as províncias. Decorando o chão é um serviço habitual que se faz todos os dias e que é considerado como um bom presságio. A sala de altar (para a adoração diária), a sala de jantar, a plataforma de manjericão santo e a entrada para a casa são apropriadamente decoradas como os desenhos mudando do dia para o dia. Os desenhos são simbólicos e basicamente comuns a todo o país. Estes incluem desenhos geométricos, suástica, lódão, tridente, peixes, conchas, os marcos de passos da deusa Lakshmi, trepadeiras, flores e figuras parecidas com seres humanos.
As pinturas murais têm temas alargados que abrangem uma série de painéis. Além dos fins decorativos, estas também constituem uma forma de educação visual. As pinturas Madhubani de Bihar têm gravuras elaboradas de Khobar ghar (sala de núpcias) invocando a bênção de divindade para os recém-casados. As pinturas em paredes são um acto comunitário realizado por todas as mulheres de uma família ou de um grupo.
Em todas as partes da Índia do Norte, as figuras de Devi (deusa) são pintadas nas paredes e decoradas por mulheres casadas. Usam-se, nas pinturas murais de Rajastão, temas e dos contos heróicos dos Rajputes. As pinturas murais de Worli em Maharashtra representam a vida quotidiana. Outras pinturas murais comuns são a bar-boond (travessão e ponto de Kumaon, os relevos em reboco de lama e estrume de vaca de Himachal Pradesh, Pathachitra de Orixá e a arte de caligrafia Tughra (em árabe) feita pelas mulheres muçulmanas. Objectos pintados e decorados de cerâmica de Gujarat e Rājastan, ganifa (um baralho de cartas) de Orissa, pinturas em madeira em Tamil Nadu e Sikri recipientes de erva de Bihar entram na vida quotidiana em forma de pequenos objectos úteis.

As artes performativas na Índia têm feito parte da vida quotidiana, facto que se manifesta especialmente nos rituais de samaskaras, que estabelecem uma compreensão do caos de que a vida assim proclamando uma ordem em vida, provém e em que esta volta. Estes acontecimentos importantes, que iniciam uma época na vida de uma pessoa, indicam consagração e purificação, por meio de rituais, cânticos e canções, adulações e lamentações, assim colocando todas as pessoas juntas numa relação bem definida com a sociedade. Alguns samaskaras, apesar de todos terem existido desde a época védica, são mais prevalecentes do que outros. Mas todos têm cânticos, orações e canções que são escolhidos com alusão carinhosa à família e à natureza.
Na Índia, todos os dias são considerados como um ciclo de oito praharas (unidades de três horas), cada qual tendo a sua própria raga (melodia) na música clássica.
A parte da manhã tem canções devocionais para a alma pia bem como a arte yogica de Surya Namaskara (saudação ao sol). A parte do meio-dia tem muitas majestosas bandish (líricas) e a tarde é saudada com canções românticas, prosseguindo para ragas mais melancólicas de noite. A cultura popular está mergulhada em melodias e ritmos maravilhosos associados a serviços regulares de vida. Por exemplo, em Assam o povo dança a encantadora Vaisakhi Bihu para a sementeira, a Kartik Bihu para a transplantação e a Magh Bihu para a colheita.

Todas as regiões são representadas pelas suas próprias artes regionais. Assim, a Kathak (uma forma de dança) usa o véu em muitas maneiras encantadoras. Pelo contrário, a Bharatanatyam (outra forma de dança) não usa véu visto que não se usa no Sul da Índia. Observando mais cuidadosamente, flores não são furadas por agulha no sul mas são enroladas, o facto que é reflectido nos mudras (gesto) Kataka Mukha e Kartri Mukha em Bharatanatyam. Porém, Kathak tem o mudra representando a perfuração de flores por agulha como é usual no Norte.
De facto, todos os mudras emanam da natureza e das acções de vida quotidiana.
Nem todas as artes performativas são estilizadas mas reflectem o povo e o seu ambiente.
As artes tradicionais, ligadas a vida quotidiana, ainda não desapareceram devido à sua afinidade forte ao homem comum. Assim, o ritual de Kolam, feito com grande reverência e criatividade fora da porta pela dona de casa, ainda é uma obra bela. Os cavalos de Terracotta são ainda colocados como oferta votiva em templos de Bengala Ocidental. Têxteis e joalharia tradicionais ainda são trazidos durante casamentos e o enxoval de uma noiva ainda inclui os seus objectos de oração em toda a parte do país. O papel importante desempenhado pelos rituais religiosos, a que a maioria das artes são ligadas intimamente, assegurou a conservação da tradição e da beleza em muitas casas indianas. De facto, a mistura das artes e artesanatos em casa efectuou uma transformação cultural e uma nova relação entre todas as partes da Índia numa maneira notavelmente harmoniosa.

Cortesia da Revista India Perspectives
   


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