Fundação Maitreya
 
A Civilização Moderna e o seu dilema Cultural e Religioso

de Pratap Chandra Chunder

em 26 Abr 2007

  A civilização moderna é uma confusa amálgama de curiosas contradições, é uma miscelânea de lógica pungente de ciência e tecnologia por um lado, e fé cega, superstição e magia, por outro. Aqui, o laissez-faire existe lado a lado com o controlo da economia. A democracia parlamentar partilha o trono com a ditadura implacável. Algumas pessoas enaltecem os devotos da não-violência e de serviço altruísta, tais como Mahātma Gandhi, Martin Luther King (Jr.) e Madre Teresa de Calcutá, enquanto outros aplaudem Adolf Hitler, Mao Tsé-Tung, Pol Pot e seus congéneres, que cometeram genocídios atrozes.

Neste contexto os traficantes de drogas, vendedores de tabaco e os dessiminadores da SIDA loquazmente partilham os mesmos palcos com salvadores de vidas, filantropos e gurus espirituais. As bombas nucleares e as armas de destruição massiva coexistem com a penicilina e pacemakers. Os homens que alunam e investigam o espaço atraem igual atracção que aqueles que praticam astrologia e bruxaria. Este é um mundo estranho do qual a civilização moderna se gaba.
Até o significado de “civilização” é controverso. O dicionário New Collegiate da Webster´s refere-se a “civilização” com um significado de a) um nível relativamente alto de desenvolvimento cultural e tecnológico em que se atingiu a escrita e a conservação dos registos escritos, b) cultura característica de um particular momento ou lugar, c) refinamento de pensamento – espécie de gosto, e) uma situação de conforto urbano.
Assim a visão destes significados pertence a um nível instruído, uma vez que a definição é mais extensa para quem não é letrado.

Will Durant na sua obra monumental “A história da Civilização” (parte I) define civilização assim: «Civilização é a ordem social que promove a cultura. São quatro os elementos que a constituem: provisão económica, organização política, tradições morais e a persecução do conhecimento e das artes. Começa onde o caos e a insegurança acabam» (pág.17).
Will Durant elabora as sua proposições. Acrescenta, «Alguns factores condicionam as civilizações e podem encorajá-las ou impedi-las» (ibid). Ele refere-se a condições geológicas ou económicas, mas não se refere à condição racial. Ele defende, «cultura sugere agricultura, mas civilização sugere cidade». Porém é difícil aceitar que a civilização esteja confinada só à cidade. Arnold J. Toybee no seu “Estudo de História” (vol. 12, pág. 277) assinala, «existiram sociedades sem cidades que, no entanto, estiveram em processos de civilização». Dá exemplos de áreas maias e de casos egípcíos e acrescenta, «A cultura nómada, de novo, seria um caso de civilização sem cidades...» (ibid). Toynbee continua a definir civilização em termos espirituais, talvez possa ser definida como um esforço para criar um estado de sociedade na qual toda a humanidade será capaz de viver junta em harmonia, como membros de uma família inclusiva. «Este é, acredito, o fim para o qual todas as civilizações conhecidas até aqui, se movem inconscientemente, se não mesmo conscientemente» (pág. 279). Esta é sem dúvida uma abordagem ampla que é espelhada na bem conhecida estância em sãoscrito:

Ayam nija paroveti ganamā laghuchetasām /
Udāra charitānām tu vasudhaiva kutumbakam//

Nesta estância a abordagem é muito mais prática. De acordo com ela, só para as pessoas tolerantes é que o mundo é uma família, não o é para as pessoas vis.
De facto a história da humanidade é uma história de conflito perene entre forças centrífugas e forças centrípetas. Há algumas compulsões que tendem a manter a humanidade junta, enquanto que há outras que fazem por a separar. Os homens progrediram ou regrediram como resultado destas forças divergentes. O processo de descentralização destrói o processo de unificação.
Esta divergência entre tendências unificadoras e divisoras pode ser simplificada fundindo-a no conceito de unidade na diversidade. A vida da humanidade com diferentes raças, seitas e grupos sociais reflete a diversidade. Ao mesmo tempo existem compulsões na vida humana que requerem alguma forma de unidade apenas para a mera sobrevivência. Will Durant reforça a necessidade de unidade para a humanidade desta maneira:
«Tem que haver alguma unidade de linguagem para servir como meio de intercâmbio mental. Através da igreja ou da família, da escola ou de qualquer outra forma, tem de existir um código moral unificador, algumas regras do jogo da vida, conhecidas mesmo por aqueles que as violam, e dando condução a alguma ordem e regularidade, alguma direcção e estímulo. Talvez haja também alguma unidade de crença básica, alguma fé, sobrenatural ou utópica que faça erguer a moralidade do calculismo para a devoção, e dê nobreza e significado pese embora a nossa brevidade mortal. E finalmente tem de haver alguma tolerância, alguma técnica mesmo que primitiva, para a transmissão das culturas» (ibid p.3).

A diversidade tem de ser respeitada
Assim a necessidade de unidade deve ser aceite mas tal não significa que a diversidade tem de desaparecer de todo. Os nossos antigos sábios queriam que respeitássemos a diversidade desde que não entrasse em conflito com as normas aceites de unidade. Em um dos Dharma Sūtras está escrito “Desajātī kuladharmas channair avirddh pramānam”. Por outras palavras, os costumes locais, os costumes tribais, os costumes familiares são aceitáveis desde que não se oponham aos sagrados textos dos Vedas. De acordo com este sábio, os Vedas estabeleciam unidade e outros costumes desde que não opostos à diversidade védica. Este era um método de abordagem exequível para situações contraditórias.

O poeta Rabindranath Tagore também enfatizou a necessidade de unidade na civilização. No seu trabalho Samabāya escreveu, «O que é a civilização? Não é nada senão uma situação em que o homem cria uma esfera de acção com tal unidade que a força do indivíduo dá força a todos os homens e a força de todos os homens torna o indivíduo forte». Algures em Visvabhārati escreveu: «O verdadeiro significado da palavra civilização é a realização de si próprio na civilização, é sentir-se a si mesmo entre os outros. O significado de origem da palavra “Sabha” é de que onde houver brilho há luz. Isto é, a luz da manifestação do homem não se confina ao homem em si, mas fundir-se-á com todos os outros homens».
Nesta questão de unidade na civilização Swāmi Vivekānanda foi mais além. Ele não se confinou à mescla de indivíduos, mas alargou se às raças. Escreveu, « Não existe um único momento em civilização alguma que seja espontâneo. Não houve uma única raça no mundo que se tivesse tornado civilizada a não ser que tivesse vindo outra raça civilizada e se misturasse com ela. A origem da civilização deve ter pertencido, por assim dizer, a uma ou duas raças que foram para fora espalhar as suas ideias, se misturaram com outras raças expandindo-se, assim, a civilização». (Obras Completas, vol.2, p. 28).
Concluindo esta discussão, há necessidade de unidade na civilização, mas que não se faça à custa da diversidade. De forma a serem bem sucedidas as pessoas terão de se tornar peritas no equilíbrio da unidade e da diversidade o que, não raro, as coloca perante um sério dilema.

Forças Contraditórias
Há outras forças contraditórias a trabalharem na civilização moderna (aliás em todas as civilizações) que criam constantemente situações difíceis. Posso mencionar algumas: 1) continuidade e mudança, 2) individualismo e centralismo, 3) conflitos entre o ter e o não-ter, e por fim 4) espiritualismo, materialismo e sensualismo. Cada uma destas forças rivais torna difícil a nossa escolha do caminho certo. Frequentemente temos de coordenar, comprometer e sintetizar estas tendências contraditórias. Vou seguir com alguns comentários sobre este tópico.
Em primeiro lugar, no que respeita a “continuidade e mudança”, parece que a humanidade geralmente se fixa no passado. Muito frequentemente, o que reina é a tradição. Embora haja protestos ocasionais, não há como se opôr totalmente ao passado. Tagore escreveu, «He atit tumi bhuvane bhuvane kāj kore jao gopane gopane “ – “ Oh passado, no mundo, vais actuando secretamente».
Por consequência coloca-se a questão, quão moderna é a civilização moderna? A resposta resume-se a isto: muito dela consiste no passado, muito dela é antiquada, e não muito é recente. Swāmi Vivekānanda disse uma vez que «noventa e nove por cento das pessoas são selvagens». Há alguma força que subjaz a esta afirmação. Mesmo que alguma revolução traga mudanças, a contra-revolução fará os ponteiros do relógio andar para trás. No seu livro Fundações da Arte Moderna, o pintor francês Ozenfant escreveu, «Este livro é uma fuga nesse tema onde elementos profundos me possuiram, em segredo, sob os gestos ainda vivos dos nossos remotos progenitores», e acrescenta: «Mas o que me abala, pelo contrário, não é saber quão efémero é tudo isto, mas o quão prodigiosamente estável é a humanidade e as qualidades comuns que caracterizam tudo o que, em todo lado e em todo o tempo, a afectou profundamente.

Esta continuidade na humanidade parece ter algumas bases científicas. O homem é produto principalmente da hereditariedade e do meio. A impressão do passado é carregada por hereditariedade nos genes do homem que ocasionalmente é modificado pela educação e pelo esforço. Colectivamente, a humanidade progrediu muito através das mudanças. Contudo, o passado não foi de todo obliterado. Nisto reside o conflito entre conservadorismo e progresso. Este conflito afecta os esforços do homem nos campos culturais e religiosos, como veremos.
Em segundo lugar, quanto ao individualismo e centralismo, devemos lembrar-nos que, embora o homem seja um ser social, tem rompantes dos seus agrados e desagrados, susceptibiliza-se com todas as formas, quer de controlo social, quer de persuasão centralizada. O homem ama a liberdade, mas não tem autorização para a gozar. Muitos países impõem fiscalização e censura na sua liberdade a vários níveis: Isto leva-o ao ressentimento e à rebelião. Um rebelde com sucesso é um pioneiro e um desbravador que traz mudanças na ciência, arte, literatura, religião, etc. O mundo solta uma parte do passado e encara um novo futuro. Os desenvolvimentos da ciência e da tecnologia modernos são praticamente produtos do individualismo humano. O centralismo também pode derrubar um centralizador a anterior para impôr um nível mais elevado de centralismo, como foi feito na Rússia e China, mas no fim poderá vir a ter que se submeter ao liberalismo.

De novo, os conflitos entre o ter e não-ter continuam a afectar a vida da humanidade. Estes conflitos dão cor à cultura e à religião, sem falar na política e na economia. Swāmi Vivekānanda foi brutalmente franco quando disse: «é um insulto às pessoas famintas, oferecer-lhes religião; é um insulto ao esfomeado ensinar-lhe assuntos metafísicos» (Pearls of Wisdom, p. 134). Depois da Revolução Industrial em Inglaterra rebentou um conflito entre o capitalista e o trabalhador, entre a burguesia e o proletariado que afectou muitos aspectos da vida humana.
Finalmente há uma contenda continuada entre as aspirações espirituais, materiais e sensuais da humanidade. O conceito indiano do trivarga – os objectivos espirituais, materiais e sensuais do homem – exigem uma coordenação de objectivos. Por exemplo Kautilya no seu Arthashātra aconselhava, «Samam va trivarga anyonya anubandhanam», ou seja: estes objectivos são para serem atingidos na totalidade ou em complemento uns com os outros. O Mahābhārata era mais directo quando afirmava «Dharmārthakāmāh samameva sevya, yo hyekasakta sa janojghanya» (ver o meu Kautilya on Love and Morals). O que quer dizer, os objectivos espirituais, materiais e sensuais devem ser perseguidos com igual esforço. Quem se devota a um destes é uma pessoa desprezível.

Contudo, os sábios indianos preferem os objectivos espirituais aos outros. O materialismo de Cārvāka foi rejeitado na Índia, mas não o foi no ocidente.
Resumidamente expus como as forças conflictuosas afectam a nossa civilização. Naturalmente criam confusão e dilema na humanidade. De acordo com o dicionário New Collegiate da Webster´s, “dilema” significa 1) um argumento que apresenta duas ou mais alternativas igualmente conclusivas contra um oponente; 2) uma escolha ou situação envolvendo escolha entre alternativas igualmente insatisfatórias; 3) um problema aparentemente incapaz de uma solução satisfatória.
Os pares de forças conflituosas que acima descrevi criam escolhas difíceis afectando diferentes aspectos da vida humana incluindo cultura e religião, como veremos de seguida.

Um mundo muito estranho
Ao chegar à conclusão deste artigo lembrei-me da observação bem conhecida de Ādi Shakarāchārya «samsāroyam ativa vichitra», «muito estranho é o mundo».
A civilização moderna apresenta uma manta de retalhos de culturas que coexistem e se coordenam entre si, e por outro lado, também entram em conflito umas com as outras, enquanto ao mesmo tempo são feitos esforços por instituições internacionais, como a ONU e a sua subsidiária UNESCO, com o propósito de resolver os conflitos e concertar uma coexistência pacífica.
Deixem-me dar alguns exemplos. Pelo mundo fora existem centenas de milhares de sociedades aborígenes e grupos étnicos na Ásia, África, América e Oceânia. A Concise Encyclopaedia of Arts de Parnells diz-nos, «na vasta e selvagem Terra Arnhem, reserva no noroeste da Austrália, a vida continua como há centenas de anos atrás e os aborígenes conservam vivas as suas ideias tradicionais, leis e lendas, através de pinturas e desenhos. Os aborígenes pintam em qualquer superfície disponível, rochas, paredes de cabanas, nos seus próprios corpos e até no chão. A maior parte do seu trabalho perdeu-se rapidamente. As formas de vida moderna estão a agarrar os aborígenes gradualmente. Muitos dos seus filhos frequentam a escola e absorvem as culturas ocidentais tanto quanto, senão mais ainda, as suas próprias. Já existem aborígenes populares que pintam no estilo ocidental mais do que no estilo tradicional. O mesmo se aplica para os Adivasis na Índia, bem como para os Santal, Garos, Khasis, Nagas etc. Especialmente para os que foram treinados pelos Cristãos ou convertidos ao Cristianismo».

Por outro lado, fez-se por encontrar a cultura tribal. A mesma autoridade fala-nos de África dizendo que «ao princípio os missionários detestavam a Cultura Africana. Pensavam que muitas das esculturas eram ídolos para serem adorados pelas populações. O seu zêlo para aniquilar a adoração dos ídolos levou-os a destruir muitas esculturas, mas as suas acções basearam-se em mal-entendidos» (p. 84).
Semelhante destruição de cultura, à força, aconteceu em assuntos políticos, ideológicos e religiosos. Bem conhecidos são os exemplos da dizimação Nazi contra os Judeus e sua cultura; os assaltos comunistas à arte e cultura burguesa na base do realismo socialista. Mao Tse Tung afirmou em 1942: «No mundo actual toda a cultura, toda a literatura e toda a arte relacionam-se com a definição de classes e ajustam-se para definir linhas políticas. Na verdade, a arte pela arte é coisa que não existe, a arte acima das classes sociais, arte desligada ou independente das políticas». (Citações do Congressista Mao, p.256). Mas em 1959 tornou-se menos severo e afirmou, «Deixar florir centenas de flores em botão e uma centena de escolas de debate do pensamento é a política para promover as artes, a ciência e o florescimento da cultura socialista na nossa terra» (pp.256-259). Contudo, esta política liberal foi invertida durante o regime do “Grupo dos Quatro”.

Os países democráticos não ficam atrás no forçar da visão da classe dirigente nas actividades criativas. Há vários métodos de impôr censura na literatura, na dança, no teatro, na música e por aí fora, nas formas aparentes de blasfémia, pornografia, ou de actividade contra o estado. DH Lawrence, James Joyce, Henry Miller, George Bernard Shaw e muitos outros escritores sofreram nas mãos da censura. V F Calverton dá alguns exemplos de controlo frívolo. Ele escreveu, «É a mesma atitude burguesa que fez com que a atitude do Museu Britânico se tornasse tão ridícula. Os volumes das séries de Havelock Ellis “ Psicologia do Sexo” foram excluídos; a Bíblia Ilustrada de G W Foot e La Bible Amusante de Leo Taxirs foram enterradas sem registo e as imagens de objectos indecentes descobertos em Pompeia e valiosos livros de folclore grego não foram catalogados para que o público não os pudesse receber» (Sex Problem in Modern Society, ed. McDermott, Modern Library, p.376).
Não preciso enumerar quantos livros e trabalhos de arte foram queimados, quantos lugares de culto foram demolidos e destruídos por religiosos fanáticos de todas as denominações. Existe uma vasta tendência entre todas as culturas dominantes para sorverem culturas subservientes e, do centralismo, para reprimir o individualismo.

Reacção
Mas o iniciar da reacção e o surgir do etnicismo, conservadorismo e fundamentalismo criam defesas contra a cultura da dizimação. O processo de defesa pode adoptar uma linha pacífica ou violenta. Num artigo recente “ Guerra ao Terror”, Vladimir Inozemtsev, um editor russo, escreve abertamente, «em muitos aspectos o terrorismo moderno é uma resposta dos países pobres ao avanço do ocidente. Não é tanto da agressão directa que o mundo muçulmano se está a libertar, mas da persistente penetração dos valores ocidentais no seu ambiente cultural e histórico» (The Statesman, 14 de Setembro 2005). O centralismo soviético já colapsou na Rússia e seus países satélites devido às contradicções internas. Os comunistas chineses, de alguma forma, salvam a sua regra adoptando um compromisso através do mercado económico socialista. Muitas outras sociedades ou comunidades salvam a sua cultura retraindo-se nas suas conchas. Alguns estão a proclamar as suas exigências pelas suas línguas, (como o Bangladesh ao retirar-se do Pakistão) ou separam as suas identidades culturais (como os militantes Tamil lutaram no Sri Lanka), etc.

Noutro lado a cena é pacífica e existe uma cultura de dar e tomar. Por exemplo, no campo da arte moderna, as gravuras japonesas influenciaram Matisse, as esculturas africanas, Picasso e Braque, a Ilhas do Mar do Sul, Paul Gaugin, e por aí adiante. Na literatura James Mitchener trouxe os seus materiais do Havai, Sommerset Maugham das ilhas da Polinésia. Bankim Chandra Chatterjee escreveu as suas novelas baseadas no modelo inglês. Na música, Tagore baseou-se para compôr algumas das suas canções nos tons do oeste; o jazz americano vem dos ritmos africanos, as músicas pop e danças disco, dos elementos folclóricos. A televisão, a internet, o vídeo e as tecnologias modernas que existem na expansão do conhecimento, desempenham um papel dual. Por um lado, divulgam a cultura da populaça e por outro, impõem a cultura de marca internacional. Nesta mistura induzida pelo choque de culturas a Organização das Nações Unidas e sua agência UNESCO jogam um papel principal. Como Ministro da Educação Segurança Social e Cultura na União estive presente numa reunião da UNESCO em Paris e presidi à conferência de Educação Internacional organizada em Genebra. Sei o quanto a UNESCO se preocupa quanto à necessidade de envolvimento do mundo na educação básica, realizando seminários, traduções, intercâmbio de programas, exibições, etc, para se conseguir atingir a compreensão internacional entre diversos países e sociedades. Um ideal básico da unidade mundial cultural, sem detrimento da diversidade cultural, está a emergir gradualmente. A UNESCO apoia e financia os Centros de Patrimónios Mundiais; há uma série de actividades de natureza construtiva apoiadas pela UNESCO; alguns estados organizam programas de intercâmbio cultural e enviam delegações culturais que defendem a paz e geram boa vontade entre as nações. Todos estes passos são bem-vindos. São muito superiores às contendas e conflitos baseados em antagonismos culturais.

Contudo, o choque cultural e a camaradagem andam para cima e para baixo, como um baloiço.
Arnold Toynbee aceitou as religiões como “uma componente da cultura“ e discutiu de forma elaborada este ponto de vista no seu “A Study of History” (vol.12 pp.76ff). Religião é difícil de definir. O Mahābhārata afirma, “ dharmasya tattamnihitam guhāyām”: A verdadeira natureza da religião reside em local escondido. O dilema religioso é causado por conflito de ideias sobre a religião. A religião é relacionada com Deus no Hinduísmo, Cristianismo, Islamismo, etc. A religião não tem Deus, no Budismo inicial e no Jainismo. A ideologia comunista é oposta à religião no seu todo. Considera a religião como o ópio do povo. Durante o regime soviético, o ateísmo foi sistematicamente pregado pelo estado entre os seus cidadãos, como é descrito no artigo “ O ateísmo procura um novo caminho“, no Boletim do Instituto para o estudo da USSR, Setembro 1963. Mas nele refere-se um papel soviético do mesmo ano que afirma «Recentemente a propaganda ateísta tornou-se mais activa, mas em geral, ainda é ineficaz; é parcialmente conduzida em vão, e falha no que toca aos crentes» (p.48). A China Comunista suavizou os seus antagonismos relativos à religião, mas, regularmente oprime a seita dos Falunagong. Pelo contrário, o conservadorismo, o fanatismo, e o fundamentalismo abriram as suas garras em algumas religiões maioritárias. O mundo é abalado pelo terrorismo islâmico contra o qual os EUA, o Reino Unido, e países aliados combinaram as suas forças. Num livro recente “Terrorismo Islâmico” (2004) Syed Manal Shah Alquadri escreve, «A onda de revivalismo está a varrer o mundo. Membros de todas as comunidades estão-se a virar cada vez mais para a religião. No seu zêlo religioso, alguns fanáticos transgridem os seus próprios limites religiosos, tomando o fanatismo como recurso» (p.186).

A receita de Śri Rāmakrishna
Śri Rāmakrishna apadrinhou a sua teoria “Yata mat tat path” como uma solução para a contenda religiosa: tolerância e respeito mútuo pela religião de cada um, valeu-lhe um enorme número de seguidores. Contudo, viveu um dilema relativo às práticas religiosas que envolviam contactos sensuais com mulheres, como as práticas de algumas seitas Tântricas e Vaishnavas. Ele citou uma alegoria: «Um templo pode ser alcançado pela autoestrada ou pelo esgôto. Qual se deve tomar? Não será o esgôto, por certo». Por outras palavras, o homem tem de praticar o livre arbítrio ao escolher o seu caminho religioso. Swāmi Vivekānanda, o seu discípulo principal, pregou a religião universal no Parlamento das Religiões em Chicago. Contudo rejeitou os meios dos missionários fanáticos do Cristianismo.
O Senhor Buddha no passado pregou uma forma simples de religião no seu Dhammapada: «Sabbapapassa akaranam/ Kusalassa upasampada/ Sacitta pariyadapanam/ Etam Buddhana sasanam» (Buddha Vagga 183). Quer dizer, «Abstenção de todos os pecados, fazendo bem, e tendo só pensamento puro, esta é a doutrina do Buddha».
Os cristãos rezam: «Não nos deixeis cair em tentação e livrai-nos do mal» (S. Mateus S.13). De novo, «O Islão é a religião do agir correcto, do pensar correcto e do falar correcto fundada em amor divino, caridade universal, fraternidade e compaixão humana – a religião que inspira à rectidão e à verdade» (Alquadri, ibid, p. 4).

No entanto, a luta entre os seguidores de religiões diferentes continua, bem como entre aqueles que pertencem a linhas diferentes da mesma religião. Os Hindus estão divididos em várias castas e credos. Os Cristãos estão separados em Católicos e Protestantes e em várias outras denominações tais como Jesuítas, Quakers, Adventistas do Sétimo Dia, Mormons e outros mais. Os Budistas têm os Mahāyāna, Hināyana, Vajrāyana, Sahajāyana e outras linhas. O Islão tem os Shiítas e Sunitas, Ahamadiyas e Bahais. Frequentemente há guerras sangrentas entre as seitas. O ser humano está sempre sob um dilema religioso, sobre quais dos opostos deve seguir.
Além disso, o passado alegremente protela-se na religião: animismo, toteísmo, magia, adoradores da sepente, e bruxaria vindos da antiguidade respeitável confundem a humanidade. Entre muitos grupos tribais ainda se pratica a bruxaria; mulheres inocentes são torturadas e mortas, as chamadas bruxas. Mas de forma bastante estranha, recentemente, mesmo entre os cristãos modernos em países avançados, a bruxaria volta a ser praticada.
Por tudo isto, o homem moderno está profundamente confundido no seu dilema religioso. Que caminho espiritual seguir? Não tenho respostas concretas para tal. Mas apoio a definição alargada de Dharma encontrada no Mahābhārata, que diz, «Dhāranat dharma ityahur / dharma ahārayate prajāh».

Dharma é assim chamado porque junta. Dharma junta as pessoas. O que significa, que o que quer que una as pessoas é dharma, o que desintegra as pessoas é adharma. Essa é a religião que suporta o mundo. O dilema religioso pode ser resolvido ao descobrir e ao seguir o caminho para a integração, ou união do mundo, e não para a sua desintegração e destruição; ao adoptar a paz e a prosperidade, e não, o terrorismo e a guerra.

Tradução de Helena Gallis
   


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Impresso em 25/6/2021 às 2:01

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