Fundação Maitreya
 
324 Dias na Índia

de Rui Pereira

em 28 Dez 2007

  “O que me fez ir à Índia?”, “O que trouxe eu de lá?”.
Na realidade esta viagem começou muito tempo antes, fruto de um anseio interior que ainda hoje não sei explicar completamente. Foi este mesmo anseio que já antes me levara a empreender determinadas iniciativas. Já na fase final da viagem, numa das palestras de filosofia Yogī do Swāmiji Dharmānanda, ele dizia: «- Muitas pessoas vêm à Índia sem saberem conscientemente, que o que as está a mover é um anseio da própria Alma, do próprio Espírito».


É como se existisse algo em mim que não estivesse satisfeito e que só pela realização de tais empreendimentos certas respostas me pudessem chegar, trazendo assim a satisfação destas questões, que só parecem ter resposta em determinados meios e condições. Sei que poderei não encontrar o que procuro, mas sei também que só o saberei se o procurar. Na verdade sei que encontrarei. Que nunca me falte a coragem de continuar a buscar!
Se há alguma definição que possa dar a esta viagem é: Peregrinação, este foi o espírito presente. Dentro das minhas limitações e reservas, procurei caminhar com os Indianos e com eles sentir e viver esta sua realidade tão única. Se por um lado os contrastes são fortíssimos, parece ser a tolerância o elemento de unificação e suporte desta cultura tão antiga. Uma sabedoria discreta parece ter espaço para se manifestar, nesta sociedade, onde figuras emblemáticas (sem que isso signifique propriamente exposição pública), apareçam como estrelas num céu por vezes tão escuro. Acaso seria possível o aparecimento de um Gandhi se não houvesse um solo minimamente preparado? Ele e a “terra” manifestaram uma sintonia que deu frutos. Não terá sido pela compreensão profunda do que representa a “não-violência” (Ahimsā), para o crescimento interno que possibilitou fazer o uso correcto desta ‘arma’ e com ela conquistar a independência da Índia?

A história ancestral da Índia tem vários exemplos marcantes de, inclusive imperadores abdicarem dos “poderes temporais” para se dedicarem à “conquista interna”.
A maior democracia do mundo renova-se emergente neste novo milénio, fazendo renascer elementos simbólicos desta cultura ancestral, onde os textos sagrados mais antigos da humanidade parecem ser portadores de sabedoria sempre actual. Textos que durante centenas de anos foram transmitidos oralmente sem que uma “vírgula” fosse perdida, e para ter uma ideia, só o Mahābhārata contém 100.000 versos! É esta sabedoria dos Vedas e o Yoga que parecem atrair cada vez mais Ocidentais.
No meio da confusão que parecem ser as cidades Indianas, onde quem não tem buzina fica em casa e onde os caixotes do lixo parecem não fazer parte da cultura, eu ouvia e passei também a comentar: “É no meio deste aparente caos que podemos encontrar as mais valiosas pedras preciosas”. Talvez por isso o maior diamante do mundo tenha aqui sido encontrado...
O próprio panteão das divindades Hindus aparenta uma grande confusão, onde em cada local parecem ganhar nova forma, características e nomes específicos. As diferenças arquitectónicas, manifestações de vários períodos históricos, as diferentes línguas ou celebrações, em que todas as principais religiões se fazem expressar de formas únicas, acentuam ainda mais estes contrastes que parecem não ter paralelo: Hinduísmo, Budismo, Islamismo, Jainismo, Cristianismo e Shikismo. Tudo está ali presente, já para não falar das ramificações de cada uma delas!
O “embate cultural” de quem acaba de chegar é forte e pode demover quem tenha maior dificuldade em aceitar o factor inesperado. Passar do “organizado” mundo Ocidental, para esta “outra realidade”, onde tudo parecia vir ao meu encontro e tinha de ser negociado em tempo real, veio-me mostrar que existem outras formas de relação com o mundo.

O facto de sermos Ocidentais parece fazer aumentar o poder magnético sobre nós, pois potencialmente representamos rupias extras, já que muitas vezes, os preços variam consoante a origem do cliente. Torna-se necessário aprender a regatear e a estar-se minimamente convicto do que se quer para que não se alimentar uma rede de comissões não desejada. Por exemplo, em Kochi (Cochim), um condutor de riquexó, fez-me a proposta de me levar a todos os pontos que eu quisesse desde que fosse a 4 ou 5 lojas, isto sem ter que pagar uma única rupia, nem a ele, nem às lojas! Realmente parece um negócio das arábias! Assim, deu-se início a mais uma aventura, onde fui aonde queria, e depois, aonde ele queria, passando por lojas de tapetes, artesanato, pedras preciosas... Onde, depois de se já lá estar dentro, entre o chá que é oferecido e o “poder negocial Indiano”, dizer-se que estamos ali só para ver, não parece fazer muito sentido. Um pouco contrariado lá comprei umas coisas bem leves, pois tinha de as carregar nas minhas viagens. Todas estas interacções acontecem como se fossemos apresentados por um amigo comum! Nunca me perguntaram tantas vezes o nome, de onde vinha, para onde ia, (...) como na Índia! Mas com o tempo apercebemo-nos de que tudo isto é normal. Para finalizar o passeio, acabei por convidar o dito condutor do emblemático riquexó para um refresco natural, tendo como cenário as típicas “redes de pesca chinesas” do Kerala, com um belo pôr-do-sol como fundo. Tudo Normal.
A alimentação também tem as suas características específicas, que se por um lado é um oásis para vegetarianos, por outro, vários cuidados são necessários, como por exemplo, em relação ao consumo de condimentos, em especial os picantes, que impressionam o mais ousado dos Ocidentais.

O itinerário escolhido teve em consideração as alterações climatéricas que se fazem sentir, escolhendo o sul da Índia no Inverno, para ir subindo em direcção aos Himalaias à medida que as temperaturas se fossem elevando.
Se a componente cultural inevitavelmente fazia parte desta viagem, já a componente espiritual necessitava de uma busca um pouco mais cuidada.
Em Puna contactei o Osho Āśram. Neste espaço, com elevada presença de Ocidentais, participei de algumas actividades,
Desci até Goa, onde fiquei com a sensação de que muito ficou por escrever nos compêndios da história. Se por um lado existiram aspectos positivos neste primeiro passo dado pelos Portugueses quinhentistas para este que parece ser o processo inevitável da globalização, também parece, que aspectos importantes ficaram por contar, como o da destruição de muitos templos Hindus, ou das ditas conversões à força, com as mais variadas consequências na vida das populações locais. Poucos falam o Português, e os que o falam, vê-se que há muito não o praticam. Foi interessante de ver, um grupo de Goeses, que se juntaram na mesma residência onde me encontrava em Cabo de Rāma, a Sul de Goa, a cantarem músicas Portuguesas. Espanto ainda maior fora ao ouvi-los cantar o hino nacional Português! Serão estas, memórias de um passado ou a nostalgia de um futuro? A relação entre estes dois países, tirando algumas iniciativas pontuais, parece praticamente inexistente. O que existe da cultura portuguesa é o que foi deixada pelos Portugueses de há 500 anos. No entanto, espaço não parece faltar, para um profundo encontro entre estas duas culturas. Parece-me mais do que nunca fazer sentido, um reconhecimento não unilateral, mas mútuo. Se existe um país que possa espelhar de algum modo o reflexo da “Alma Portuguesa” não será Índia? Contudo, isto é só uma mera observação...
Uma breve passagem por Karnataka, leva-me a Gokarna, cidade sagrada para Hindus, banhada por tranquilas praias sem que a força do turismo tivesse desvirtuado a autenticidade do local. Foi aqui que tive o prazer de conhecer, um pouco mais a fundo, a cultura Hindu e de entrar em vários templos, com um privilégio especial de ter sido acompanhado por alguém que conhecia bem o local e ainda por cima em Português! Muito agradável!...

O Kerala é o estado mais a Sul do lado Ocidental da Índia, que por essa mesma característica, sempre foi um ponto importante de navegação e comércio durante muitos séculos. Terá sido aqui que S. Tomé terá contactado pela primeira vez a Índia deixando sinais dessa passagem que perduraram até aos nossos dias...
Vasco da Gama por aqui passou várias vezes e aqui estivera sepultado antes de ser trasladado para os Jerónimos. É neste mesmo estado que fica o famoso Āśram de Ammāji, ou “Hugging mother” (“Mãe que abraça”). Acerca de Ammāji falarei um pouco à frente, aquando da passagem por Calcutá.
As pessoas com que me depararei no caminho e as amizades que se foram desenvolvendo, são aspectos importantes que marcaram esta viagem, onde se parecem salientar os pontos que nos unem e os que nos separam...
Depois de passar por Madurai, é em Tiruvannamalai que me deixo ficar durante cerca de 15 dias, frequentando com assiduidade o Āśram de Rāmana Maharṣi. Foi no Arunachala, montanha sagrada dedicada a Śiva, que Rāmana viveu, numa gruta e aí meditou por vários anos. Este ponto continua a atrair um número crescente de Indianos e Ocidentais, especialmente na famosa circunvalação de 14 kms em torno do Arunachala, que foi um momento único nesta paragem.
Quando a dona da pensão, onde me encontrava hospedado, me dizia que meditava frequentemente, foi quando realmente compreendi com profundidade aquilo que de certa forma já sabia, mas que ainda não contactara: na Índia, a meditação é algo que faz parte da vivência “comum” de qualquer pessoa. Suas raízes são milenares ao contrário do que acontece no Ocidente que só actualmente começa a ser compreendida.
O Arunachala e o ambiente que ali se vive atraía-me e tranquilizava-me, o que me levou por momentos a rejeitar a ideia de partir, mas tinha de ser...

Prossegui em direcção a Pondicherry, em visita ao Āśram de Śi Aurobindo, onde uma profunda Paz inunda o Samādhi, local onde estão os “veículos físicos” de Aurobindo e “The Mother” (“A Mãe”). Esta expressão, “The Mother”, atribuída à pessoa que na realidade é a esposa, é frequente na Índia, tendo inclusivamente criado algumas confusões para o mundo Ocidental, mas simplesmente parece reflectir um “maior” carinho de quem percorre o caminho espiritual em conjunto.
Antes de Chennai ainda parei em Mamalapuram com os seus monumentos históricos dedicados às divindades Hindus. Talvez reminiscências deste passado que perduram até hoje, onde o trabalho na pedra se faz em quantidade e qualidade como não vi em mais lugar algum.
Em Chennai (Madras), cidade bem conhecido dos Portugueses quinhentistas que aí buscaram as ligações com São Tomé e que desse encontro deixaram marcas. Terá sido aqui que este Apóstolo viveu os seus últimos anos e que terá sido morto. Os Portugueses edificaram vários templos, como por exemplo, a Igreja dedicada à Senhora da Expectação (Senhora da Esperança) que possui uma cruz esculpida em rocha que supostamente terá sido trazida pelo próprio santo. Por devoção e/ou rivalidade com Espanha, que “tinham o Apóstolo São Tiago”, os Portugueses vêm a ter especial devoção a este apóstolo. Parece haver a busca de uma legitimação Superior para as empresas humanas... O certo é que quando parece haver um certo sincronismo destas duas forças tudo parece ganhar outra “força”.
A sede da Sociedade Teosófica encontra-se não muito longe do sepulcro, em Adyar, parecendo indicar que não é uma mera coincidência. Num dos edifícios da Sociedade lê-se: “There is no religion highter than Truth” (“Não há religião superior à Verdade”). O seu grande jardim com os vários templos dos diferentes credos emana uma tranquilidade ecuménica e contemplativa.
Há muito que desejava visitar uma Mesquita o que acabou por acontecer em Chennai, bem próximo do hotel onde me encontrava. Quando cheguei à mesquita facilmente me apercebi das hesitações entre os presentes... Acabei por me sentar à entrada. Pouco depois, sou abordado por um muçulmano que me cumprimentou e me apresenta a vários outros que, consecutivamente, me convidaram a fazer parte da oração do final da tarde. Tal como eles, faço os rituais de purificação ainda no exterior da mesquita. À entrada entregaram-me um chapéu para a cabeça, que parece fazer parte dos requisitos indispensáveis para a entrada numa mesquita. A simplicidade do templo, onde não existem imagens nem qualquer representação de carácter figurativo, parece aumentar a concentração no rito, daquela comunidade que age, coordenadamente, a uma única voz.

Depois, sou convidado a ir à biblioteca Islâmica conduzido numa moto pelas ruelas de Chennai. Após uma conversa interessante ofereceram-me alguns livros, incluindo o próprio Alcorão. Acabou por ser pedagogicamente interessante diminuindo, pelo menos um pouco, o meu desconhecimento desta religião, o que agradeci.
A próxima paragem foi em Andhra Pradesh, onde o objectivo era fazer uma breve visita ao local mais antigo relacionado com o Budismo, no Sul da Índia; a Stūpa de Amarāvatī. O que se vê actualmente desta Stūpa não é realmente o mais atraente; o que resta é só a base e um reduzido número de pedras. O restante edifício está espalhado pelos vários museus do mundo! Amarāvatī significa “terra sem morte”. Talvez isto ajude a perceber porque, ainda hoje, este local continua a ser visitado, apesar da simplicidade. O próprio Dalai Lama ali havia estado, com Budistas Tibetanos em retiro, vendo visíveis ainda, os muitos panos de orações estendidos em toda a área envolvente, o que criava um ambiente de celebração e religiosidade.
Visitei um templo dedicado a Durga. Durante os habituais pujas individuais realizados pelos pujaris, é normal fazer-se uma oferta à Divindade, que podem ser frutos, velas, dinheiro... Já em ocasiões anteriores, estas intenções que pareciam ter um objectivo mais comercial do que espiritual, tinham-me levado a evitar estes pujas. Aqui a situação agravou-se quando, com um ar sério, me disseram que aceitavam dólares! Se já estava de reserva pior fiquei, perdendo assim a vontade de voltar a pôr os pés num Templo Hindu. Contudo, esta mesma situação ajudou-me a reflectir um pouco; se vou a um templo para sair de lá irritado, certamente mais vale não ir! Mas vou eu deixar de ir por causa da estupidez de alguns seres? E não estaria eu a deixar-me afectar por essa mesma estupidez esquecendo a motivação que ali me levara?

O estado seguinte foi Orissa, vindo a ficar em Puri, conhecida pelo famoso templo de Jagannath (“Senhor do Universo”) que infelizmente, só permite a entrada de Hindus. Não muito longe fica um outro, não menos famoso: o templo de Konarak (foto), onde as marcas do tempo se fazem sentir... Este Templo tem particularidades únicas, que só se voltam a repetir no Templo de Khajuraho, em Madhya Pradesh. A sexualidade é usada como motivo decorativo de um templo! Algo que por certo, não passaria pela cabeça de um Ocidental! O primeiro contacto pode trazer-nos certo tipo de questões, que normalmente, poderão correr o risco de ficar na superficialidade e com facilidade esquecidas nos ventos agitados das nossas vidas... Não estariam estes construtores a querer fazer-nos reflectir, um pouco mais profundamente, acerca desta relação entre a Sexualidade e a Espiritualidade? Único.
Ainda em Orissa foi possível visitar Dhauli, que apesar da simplicidade do local foi profundamente simbólica. Foi aqui que há cerca de 2300 anos houve uma das maiores batalhas na história da Índia. Aśoka, o imperador que então governava, pretende anexar Kalinga (hoje Orissa). Ao ver os horrores e profundos sofrimentos causados pela guerra, ficou profundamente angustiado com o que tinha causado. A partir deste episódio abandona a conquista militar para se dedicar à conquista espiritual. Adoptando o Budismo como religião oficial, cria as condições para que de uma religião local, esta passe a ter, uma expressão universal, sem que com isso deixasse de haver liberdade religiosa. Os próprios filhos foram embaixadores deste espírito de paz e conhecimento, acompanhados de milhares de monges que viajaram pelos mais diversos países.
Durante o “Holi”, também conhecido como a “festa das cores”, que celebra o início da Primavera, fiz questão de estar no meio dos Indianos. Vêm para as ruas com tintas de cores alegres, pintando-se mutuamente, terminando a celebração com milhares de pessoas, que se juntam na praia para o banho. Escusado será dizer que também eu fiquei com a cara toda pintada.
Calcutá foi a próxima paragem, o calor que aumentava gradualmente fazia desejar cada vez mais a subida para paragens mais altas.

Aqui encontrei pessoas que já antes conhecera em locais anteriores. O voluntariado de estrangeiros nas casas da Madre Teresa é frequente em Calcutá, tendo sido uma surpresa ver muitos Espanhóis, movidos por este propósito. Partilhei um pouco dessa mesma experiência numa casa de deficientes mentais, que foi uma pequena vivência que me marcou positivamente, apesar das muitas condicionantes envolventes.
Foi nesta cidade que motivado por uma amiga, venho a contactar Ammāji, que andava em digressão pela Índia. Também conhecida como “Hugging mother” (“A mãe que abraça”) era com cepticismo, mas também curiosidade que me observava quando, entusiasticamente, ouvia falar dela. Porque andará uma pessoa a abraçar milhares de outras pessoas? E porque me deixarei eu abraçar por uma estranha? Mas o pensamento: “Quem é que não gosta de um bom abraço?” parece ter sido a abertura no meio do cepticismo. Na realidade nada havia a perder. Fui. Este tipo de experiências é muito pessoal, sendo vividas de modos únicos consoante cada um. Dos milhares de pessoas que passaram pela mesma experiência certamente todos a viveram de seu modo particular. Quanto a mim, o que posso dizer, é que realmente há abraços especiais e que para lá da minha compreensão, existem “vibrações” que passam e marcam momentos únicos, que ainda hoje lembro e que abriram a porta a outras experiências, que caso contrário poderiam ser mais difíceis de vir a acontecer. Não é fácil descrever, mas a sensação é de ter sido abraçado pelo amor de mãe mas a um nível superior, a um nível impessoal onde os aspectos da personalidade menos trabalhados não passam, porque simplesmente estão transformados... É difícil de descrever...
São muitos aqueles os que vão para o seu Āśram desenvolver as características femininas, não no sentido Ocidental de feminismo, mas num sentido muito mais amplo de fazer brotar as belas características femininas praticamente esquecidas, inclusivamente pelas mulheres, de forma a colmatar esta carência nesta sociedade masculinizada, permitindo assim, o preenchimento de características adormecidas que urgem despertar, para que o Ser se manifeste de uma forma completa e equilibrada.

A subida para as montanhas leva-me a Darjeeling, que para além do famoso chá, tem um grande campo de refugiados Tibetanos que inevitavelmente me fez lembrar a questão da ocupação do Tibete. Espalhado pelo campo existiam vários cartazes, relatando o facto de os Chineses terem em sua posse o prisioneiro político mais novo do mundo. Aquele que os Tibetanos consideram ser a encarnação da segunda mais alta individualidade na hierarquia, após o Dalai Lama: o 11º Panchen Lama.
A entrada no Sikkim vem marcar o início do contacto com os Himālayas e com um outro tipo de experiências que não são alheias à beleza destas incríveis montanhas que induzem à contemplação e àquilo que bem posso chamar de “experiências radicais”... Conhecidas como “trekking”, as caminhadas nas montanhas, são a forma mais usada por aqueles que querem ter um contacto directo com as montanhas. Caminhar durante vários dias por caminhos de montanha ou simples carreiros entre a Índia e o Nepal foi uma descoberta nova. As dificuldades do próprio caminho vieram mostrar-me que a minha condição física estava um pouco enferrujada e onde o cansaço aumentava devido ao ar mais rarefeito.
Parece que quanto mais difícil, maior a intensidade das vivências e mais tarde melhor nos relembramos das experiências...
Bem diferente, mas da mesma forma radical, fora a participação no primeiro Vipassanā que acontecera nas proximidades de Gangtok, capital do Sikkim. Ouvia falar com alguma frequência, através de estrangeiros que já tinham experimentado este Vipassanā de Goenka. Fazia-me sentido, e decidi participar assim que houvesse oportunidade. A meditação já vinha fazendo parte da minha vivência... Estes dez dias de meditação orientada e em total silêncio vieram trazer uma nova abordagem acerca desta prática especialmente quando tão intensificada. Sobrevivi apesar das dores e dos diferentes estados mentais. Esta primeira experiência vem-me trazer maior consciência do corpo e de tensões que parecem ter sido acumuladas desde sempre! O objectivo parece simples mas torna-se complexo de realizar, porque o observador se confunde com o observado. Se somos aquilo com que nos identificamos, o que acontece quando não nos identificamos com “nada” e nos mantemos na posição do observador?

Ainda fiz mais um pequeno “trekking” por algumas aldeias típicas do Sikkim, com a minha amiga Silva, da Eslovénia, que comigo viajava desde Calcutá. Conhecemos um monge da tradição Tibetana na subida para o mosteiro de Tashiding com quem conversámos demoradamente. Venho a alugar-lhe uma casa simples onde acabei por ficar durante um mês, absorvendo a tranquilidade do local, contactando um pouco com este tipo de Budismo e acima de tudo, a digerir a experiência do Vipassanā. Já no final deste período faço um novo “trekking” com o objectivo de alcançar Dzongri, que fica a 4200 mts de altitude para observar o Kangchenzonga, a terceira montanha mais alta do mundo.
Meia hora ao romper do dia foi o tempo que os madrugadores tiveram para admirar a bela cordilheira, antes que as nuvens cobrissem toda a paisagem. Foi aquela meia hora que permitiu contemplar e sentir o que é estar no meio daquelas grandiosas montanhas. Lembro-me de olhar para James, da Escócia, e de reconhecer nele aquilo que também eu sentia: aquela meia hora era suficiente para coroar todo o esforço daquele empreendimento, que no caso dele era muito maior, já que, tinha limitações motoras. Ele continuou a caminhada por vários dias ao longo daquela cadeia montanhosa. Voltei a encontrar-me com ele em Kathmandu.
O objectivo seguinte era viajar para o Nepal, pois precisava de renovar o visto Indiano e os dois meses de autorização máxima de permanência no Sikkim tinham terminado.
Sempre que podia, ia obtendo alguma informação da delicada situação política do Nepal, onde as forças da oposição se opunham ao rei, gerando os variados conflitos pelas ruas de Kathmandu. Quando cheguei ao Nepal a situação estava em fase de rescaldo não havendo mais conflitos, mas a presença militar nas ruas era significativa. Os turistas eram em número reduzido e pareciam manter-se na cidade para acompanhar o mundial de futebol que se aproximava.
Entretanto e devido a uma estranha coincidência, fiquei impossibilitado de usar os dois cartões ATM que transportava, pois terminou a validade de um e perdi o outro, levando esta situação alguns dias para ficar resolvida. Acabou por ser uma oportunidade que aproveitei, para participar no segundo Vipassanā, que iria dar início um ou dois dias depois, precisamente no centro Vipassanā de Kathmandu, que fica nas proximidades da cidade. Esta segunda experiência levou-me a um confronto mais intenso ao nível dos estados mentais; se inicialmente não haviam dúvidas quanto à realização desta experiência, dias houve em que tive vontade de fugir dali. Na realidade nada de anormal neste tipo de situações...

Foi com total espontaneidade que no décimo dia, após a quebra do silêncio, abraço Nuno que comigo falou em Português, talvez pelo inesperado da situação e/ou pelo facto de há cerca de 6 meses não ver nenhum Português. Tivemos oportunidade de partilhar um pouco das nossas experiências e acabámos por viajar uns dias juntos, em Pokhara e Lumbini. Viajando por terra, tinha partido uns bons meses antes, se bem me lembro da Suiça, atravessando cerca de 20 países até chegar à Índia! O primeiro impacto da Índia deixou-o fascinado, o que acontecera em Amritsar, estado do Punjab, e centro da religião Shik. O seu fascínio acabou por contagiar, vindo posteriormente a visitar este local tão especial.
Tivemos a ousadia de durante o mundial ir ver o jogo Portugal – Holanda a um bar de Holandeses, que apesar de um pouco surpresos se mostraram simpáticos.
Por falar de futebol foi uma surpresa agradável ver muitos Nepaleses e Tibetanos a apoiar a selecção Portuguesa, parecendo haver uma qualquer identificação de “pequenos” países, que a custo, procuram fazer-se ouvir num mundo dominado pelos “grandes”. Claro que, quando os nossos moçoilos jogam com a paixão dominada, conseguem encantar até a mais desatenta das avozinhas.
Curiosamente, foi a passagem pelo Vipassanā, que me fez firmar a decisão de experimentar um “rafting” logo que possível, o que acabou por acontecer num dos agitados rios do Nepal. Quando nos preparávamos para entrar no bote, o meu coraçãozinho passou a bater rapidamente e a mente começou a levantar uma série de questões que eram de todo evitáveis naquele momento. Valeu a tranquilidade da tripulação que parecia estar a lidar com a situação mais vulgar do mundo. Acabou por ser, uma experiência de confrontação comigo próprio ao nível dos medos e também divertido. Por vezes ainda penso, qual a relação entre a ousadia de me descobrir internamente, o que tinha feito anteriormente no Vipassanā, e a ousadia de me dispor a fazer este tipo experiências externas mais radicais, pelo menos para mim.
Ainda visitámos Lumbini, terra onde Siddartha, aquele que se tornou Buddha, nascera. Fiquei no mosteiro Coreano a usufruir da paz daquele local.
Já na fronteira compro bilhete de comboio para Amritsar, no Punjab. Este bilhete vem a custar-me a viagem mais desagradável nos sempre lotados comboios Indianos. É só quando estou para embarcar que percebo que estou na “lista de espera” (“waiting list”), bilhetes em que só momentos antes do comboio chegar são confirmados através listas colocadas nas estações. Note-se que na Índia todos os bilhetes têm o nome e idade da pessoa. Normalmente estes bilhetes são uma boa opção, quando se está nos primeiros números da dita lista de espera, pois há sempre desistências, que infelizmente não foi o caso. Ainda fiquei um pouco ‘atravessado’ com os senhores da dita agência que nada me informaram a este respeito, mas nada havia a fazer e ali também não queria ficar. Assim, viajo naquele comboio apinhado durante cerca de 24 horas entre as portas de saída e as “belas” casas de banho. Posteriormente, ainda no comboio, quis comprar um bilhete de primeira classe, mas acabei por desistir pois não levava dinheiro suficiente. Pronto, nada a fazer... Dentro do que havia lá me desenrasquei, vindo a ter um lugar disponível já sobre a manhã... Imprevistos que acontecem com certa regularidade...

Entretanto, Amritsar vem a mostrar-se um local incrível. O famoso “Golden Temple” (“Templo de Ouro”) que não é só um nome simbólico, já que o templo central é adornado de puro ouro. Amritsar é o centro da religião Shik, onde se encontra o livro sagrado, e onde, permanentemente, se ouvem os cânticos sagrados acompanhados dos instrumentos tradicionais que nos embalam, naquela atmosfera mística (foto). Guru Nānak foi o fundador desta religião que apareceu como reacção ao Hinduísmo e Islamismo. Em Rishikesh, Swāmiji Dharmānanda descrevia assim esta religião: “O Shikismo não é propriamente outra religião, mas sim a condensação do melhor existente no Hinduísmo e no Islamismo, comparável à jóia na coroa”.
Por motivos históricos e após muitas perseguições e torturas veio a tornar-se numa espécie de religião militar, para puderem defender o território e praticar o seu culto. Talvez fruto da minha imaginação, não conseguia deixar de pensar nos templários... Pensamentos... Assim é um pouco desta atmosfera religiosa militar, onde se vêem os homens com as suas longas barbas, turbantes na cabeça e por vezes transportando a sua lança, prestarem a sua devoção naquele espaço. O local é de acolhimento e partilha. São servidas milhares de refeições gratuitamente num espírito de voluntariado. Realmente único.
Voltava a encontrar-me na incerteza do caminho, devido à sempre instável situação de Caxemira (Kashmir), onde extremistas executam atentados bombistas, sendo esta questão sensível nas delicadas relações entre a Índia e o Paquistão. Tranquilizou-me o facto de falar com um viajante Indiano que acabara da chegar de lá, tal como as informações recolhidas no hotel. Foi num “Jeep partilhado” (“Share jeep”), meio de transporte usual nas montanhas, que chego a Srinagar. Todo aquele vale fértil transparece uma beleza incrível e com condições propícias ao estabelecimento de populações. Existem inclusive autores que apontam para a possibilidade de ter sido o local para onde terão ido as “tribos perdidas de Israel”, e apesar de não se conseguir perceber relações entre os nomes e os locais, nomes como “Trono de Salomão” ou um outro local que fala de Moisés, deixam sempre algo que pensar.
Venho a ficar nas famosas “house boat” (casa barco) num dos canais junto ao lago Dal que pertencia a uma família muçulmana. A insegurança que anteriormente me preocupava vem a transformar-se numa segurança incómoda. O presidente da Índia estava de visita a Srinagar transformando esta cidade num dos pontos mais seguros da Índia. A cidade fora “fechada”, onde só se viam carros militares e polícia. Nos pontos mais delicados existiam postos de segurança e todo o comércio foi encerrado. Em relação a esta questão da segurança, lembro-me de não acreditar no que os meus olhos viam, quando ao estar numa Mesquita, os militares se faziam acompanhar com as armas mesmo no interior do templo! Sim, surreal, mas era mesmo verdade; estava mesmo a ver bem.

A presença muçulmana em Srinagar é maioritária, deixando a sensação que nos transportamos para um país Islâmico; é ao som dos alto-falantes das Mesquitas que acordamos, ainda antes do nascer do Sol, para as primeiras orações do dia.
Srinagar era a capital de Verão Indiana no tempo do Império Mogol e são dessa época os belos jardins, onde a presença da água tem um destaque central. Um destes imperadores Mogois dizia, que «a haver paraíso na terra era mesmo ali, o vale de Caxemira».
Dois dias de autocarro são necessários para chegar a Leh, em Ladakh. Paragem em Kargil, onde cada passageiro procura o seu hotel para dormir, com hora de partida marcada para o dia seguinte, bem cedo por sinal. Ao meu lado, no autocarro estava um Japonês, com cerca de 60 anos ou até um pouco mais. Há já alguns meses que andava em viagem pela Ásia. Passámos parte da viagem a conversar, tinha uma série de teorias interessantes... Uma das descrições destas suas viagens atraiu-me especialmente: o monte Kailas, no Tibete. Ainda vejo as várias possibilidades de me deslocar até lá, mas vim a perceber que teria de ficar para mais tarde... Das poucas centenas de quilómetros que via no mapa, vi rapidamente a distância aumentar para milhares, pois não existem fronteiras abertas entre a Índia e China, sendo a passagem feita pelo Nepal ou Paquistão, o que não fica propriamente no caminho. Esta questão das relações entre estes dois países é algo muito delicado. Vê-se uma significativa presença militar no Norte da Índia, que se intensifica nesta única ligação entre Srinagar e Leh. Estas frágeis linhas fronteiriças são circundadas por um perímetro de segurança de vários quilómetros, só para militares e populações locais. Era com surpresa que via no mapa Indiano áreas assinaladas como fazendo parte da Índia, mas na realidade controladas pelos Chineses.
Quando chego a Ladak voltei a ficar com a sensação de que acabava de chegar a outro país; as pessoas eram diferentes, a arquitectura, a paisagem, a língua... Tudo era diferente, incluindo a curiosidade de ali haver burros, em vez das tradicionais vacas a vaguearem livremente pelas ruas de Leh.

A própria presença de turistas Ocidentais surpreendeu pela quantidade.
Toda a cultura é Budista e é facilmente reconhecida a ligação ancestral com o Tibete. Leh estivera durante milhares de anos nas rotas das caravanas. Por aqui passava a famosa rota da seda, que seguia para a Ásia Central, pelo Nubra Valley.
A adaptação a Leh foi algo demorada, resultado da elevada altitude e dos meus habituais problemas digestivos, que parecem ser reactivados ou intensificados de cada vez que me mudo para um novo destino.
Depois de me restabelecer, aluguei uma moto para conhecer os belos mosteiros em redor de Leh. A nitidez da atmosfera era incrível. Esta nitidez motivada pela altitude, por vezes era tal, que fazia parecer que tudo estava muito mais próximo, mais presente! Não dá para explicar, mas tinha a sensação que se estendesse a mão poderia tocar nas nuvens, nos mosteiros, nas montanhas... O pouco verde existente, que ladeia os rios e vales cultivados, são autênticos oásis. As montanhas elevam-se nuas com todas as tonalidades de castanho cortado pela candura da neve no topo das mesmas. Durante o dia, transpiram a água gélida que alimenta os rios velozes, transportando consigo o corpo da cordilheira.
Foi na viagem que fiz a Hemis, que reencontro Monika que conhecera no Sikkim, uns meses antes. Com os seus cerca de 50 anos, eram muitos os meses que já andava a viajar pela Ásia, especialmente a Índia. Passámos a fazer alguns passeios em conjunto, visitando aspectos ligados ao Budismo e à natureza. E é ainda durante esta viagem de moto, que ao visitar o interior de um mosteiro me venho a deparar com uma imensa estátua, de traços Orientais e de cor dourada. É entre o factor surpresa e a grandeza da imagem, que se estende para o andar inferior, que contemplo esta representação do Senhor Maitreya (foto).
Posso dizer que foi muito bom ter esquecido o capacete, pois foi o que me fez voltar atrás e me levou a explorar o mosteiro um pouco mais. Talvez pelo inesperado aquele momento teve um sabor particular.

Voltei a encontrar outras estátuas de Maitreya, que é aguardado entre os Budistas como o Buddha vindouro.
Um dos locais que visitámos foi Pangong Lake, o sereno lago nas montanhas que trouxe mais uma surpresa; a cerca de 2500 metros há um lago com água salgada!
Hummm... O local é de uma serenidade que mais uma vez não sei descrever. Monika dizia qualquer coisa do género: “Não há palavras!”.
Visitámos o Nubra Valley passando pelo ponto motorizado mais alto do mundo, com aproximadamente 6000 metros, sendo este o meu recorde absoluto.
Deparámo-nos novamente com estas interdições militares que não me pareciam ter sentido algum. Como é possível que caminhos usados durante milénios sejam agora lacrados? Como no caso dos vários percursos da rota da seda. Incompreensão ou rebeldia não sei, mas muita era a vontade de as transgredir! Aqui, em Ladakh, deparei-me com pelo menos três destas limitações. Foi no Nubra Valley que viemos a contornar um dos postos de controlo, subindo por uma estrada paralela. Esta caminhada levou-nos a uma aldeia, em que facilmente se percebia pelas reacções das pessoas, que presenças estranhas não eram usuais. Contudo, fomos bem recebidos com várias interacções com os locais, sendo inclusive convidados para um chá na casa de um senhor de idade. A linguagem era mais ao nível gestual e intuitivo do que propriamente o uso das palavras... Ficou o calor da dádiva... e de um arco-íris que se formara majestoso aquando do nosso regresso...

Descemos em direcção a Manali durante mais uma cansativa viagem de dois dias de autocarro. Passámos algum tempo em Macloed Ganj local acolhedor onde vive o Dalai Lama, que naquela ocasião estava na Mongólia. Estivemos no local onde, periodicamente, ele costuma dar os seus ensinamentos. Foi com surpresa que ao aproximar-me deste local ouço um imenso barulho, como se de uma briga se tratasse, envolvendo várias pessoas. Lembro-me pensar qualquer coisa do género: “Estes monges estão muito violentos!”. Foi só quando cheguei ao pátio que realmente consegui perceber o que estava a acontecer; tratava-se do “debate”, que consiste na discussão pública entre monges, exercício que faz parte do seu treino. É uma espécie de exorcização de emoções e tensões latentes...
Era mais uma vez tempo de despedida... Monika continuava viagem, eu ficava mais um dia. A próxima paragem seria Rishikesh.
Estas partilhas trouxeram sempre algumas questões curiosas: Por exemplo, até que ponto eu absorvo do outro e até que ponto o outro absorve de mim? Quando digo isto, refiro-me especificamente ao facto de após o segundo Vipassanā, já fazia dois meses que não fumava, o que voltou a acontecer na presença de Monika. Ela curiosamente após esta partilha, deixa de fumar.
Cheguei a Rishikesh, carregando as minhas mochilas, que de cada vez que as transportava inevitavelmente me faziam reflectir sobre a questão do desapego, neste caso especial; “das tralhas materiais”. Muitos livros eu levei com a justificação de que sendo uma estadia de um ano tinha muito tempo para ler e estudar... Não podia estar mais errado! Um bom guia de viagem e um bom livro... entre algumas notas parece ser mais do que suficiente. Até umas imensas botas tinha levado a pensar nos Himālayas, que por falta de espaço iam penduradas fora da mochila. Na primeira oportunidade enviei mais de 6 quilos para Portugal, entre botas, livros e outras coisas. A situação parecia realmente séria; sonhara com pesadas mochilas que me limitavam os movimentos...

Passo por uma ponte pedestre, o famoso Ganges que ali desliza abrandando a velocidade do seu curso, como que a dizer que as montanhas ficaram atrás abrindo-se a planície a jusante. Conhecida também como “A Porta dos Himālayas”, Rishikesh, quer pelas características geográficas, quer pela importância religiosa, continua a vibrar forças que parecem vir de um passado distante, fazendo-se sentir no presente, sendo um ponto sempre ligado à espiritualidade. Parece ser aqui, que muitos encontram respostas para os seus anseios que se apaziguam nestas águas refrescantes do Ganges. Diga-se que o Ganges é venerado e considerado sagrado não como aspecto masculino, mas sim no seu aspecto feminino: a Mãe Ganges.
Entre āśrams, hotéis, restaurantes templos, lojinhas, espaços de massagem Ayurvédica, Reiki, Yoga... tudo coabita num estilo bem característico da Índia; onde não faltam os muitos vendedores de rua e os macacos...
Depois de dois ou três dias num simples hotel, mudo-me para o Sri Ved Niketan Āśram, que atraía não só pelos preços e localização, mas especialmente, pelos ensinamentos de Swāmiji Dharmānanda. O Āśram era tranquilo, frequentado maioritariamente por Ocidentais. A grande motivação destas pessoas era o Yoga. Os ensinamentos teóricos, com uma forte componente prática, fora a grande mais valia adquirida no próprio Ashram. Swāmiji da ordem dos Swāmis, veste o traje laranja que passou a usar após fazer carreira no exército Indiano. Seus ensinamentos baseiam-se nos ensinamentos dos ancestrais grandes livros, salientando-se o Bhagavad Gītā com o seu amado Kṛṣṇa; tem em especial os ensinamentos de Yogānanda, Rāmakrishna, Babaji... mas também os mestres de outras religiões como Jesus, Buddha, Guru Nānak (fundador da religião Shik)... entre outros. No altar que tinha na sala havia uma foto ou quadro de todos eles onde a energia feminina aparecia representada por Durga, Kālī, Sarasvatī, Sitā... Ao nível mais humano destacava muitas vezes Madre Teresa ou Ammāji.
Infelizmente não sendo aqui possível partilhar todos os ensinamentos dados por Dharmānanda e tudo o que ali vivi, partilharei contudo algumas ideias que me parecem mais inspiradoras ou esclarecedoras sobre determinados aspectos, pelo menos na minha perspectiva.

Veicular estas ideias tem o único objectivo de alargar o espaço de reflexão das nossas mentes. Não tenho qualquer pretensão de criar qualquer atrito desnecessário com outras formas de pensar. Se eventualmente tal acontecer, apresento desde já o meu pedido de desculpas, pois essa não é de forma alguma a minha intenção. Como Dharmānanda dizia nas palestras «- Não precisam de aceitar estes ensinamentos como verdades absolutas. Olhem para estes ensinamentos como alimento para a mente».

Notas: Referirei os termos: “Pensamento Yogī” ou “Filosofia Yogī”, pois parece-me mais apropriado do que termos como “Pensamento Indiano” ou “Pensamento Hindu”, já que estes últimos me parecem demasiado generalistas.

Uma das questões que sempre me fascinou foi perceber a relação entre a parte psicológica e a parte espiritual. As ideias que transportamos parecem ter em última analise o poder de nos fazer expandir infinitamente ou de nos estagnar por eras! Isto parece ser verdade tanto para um indivíduo como para um conjunto de indivíduos...
Outro ponto que me parece interessante referir é o facto de, “Aquilo que É” (que podemos chamar: “a Verdade”) É e continuar a sê-Lo, quer estejamos em harmonia com Ela ou não. Transcrevo um pequeno trecho da “Autobiografia de um Yogī”: «- Não é questão de crença; a atitude científica que se deve adoptar em qualquer assunto é a de saber se é verdade. A lei da gravidade funcionou tão eficientemente antes de Newton como depois dele».
Por exemplo, a psicologia ocidental fala de um ‘inconsciente’ e a psicologia yogī fala-nos de um “superconsciente” para a mesma realidade. A questão é que ‘inconsciente’ transporta certas qualidades que estão intrínsecas na própria palavra. Não será isto semelhante a dizer “– A passagem está fechada”, quando na realidade não existe nada a fechá-la!? (Nenhum muro, nenhum portão!) Na realidade o que parece existir é uma barreira mental que foi assumida colectivamente. Não será isto importante de ser considerado? Vejamos mais um pouco... “Superconsciente” transporta-nos para algo de grande, que não sabemos o que é, mas deixa sempre um pouco de curiosidade para descobrir. Para além do consciente e do subconsciente existe um “superconsciente”! Intuitivamente parece que mesmo entre Ocidentais se procura descobrir cada vez mais que estado é este, isto prova-nos o crescente interesse pela meditação e o Yoga! Certamente que estas pessoas não estão procurando um estado de ‘inconsciência’ mas certamente de “superconsciência”!

Dizem-nos os Yogīs que através da meditação profunda se pode conhecer esta “superconciência” que é um estado de ‘Pura Consciência’ que pode ser experienciado por todos os indivíduos directamente (porquê beber de charcos se posso beber da Fonte?). É o próprio indivíduo que o deseja sem que disso pareça aperceber-se...
A compreensão de que, para realizar estes estados de “superconsciência” é imprescindível conhecer corpo e mente, é condição fundamental, para que seja depois possível transcende-los (“Conhece-te a ti mesmo!”). Este é um processo gradual que requer tempo e espaços próprios. Cada passo é um passo a menos, por muito distante que seja o destino. Mais importante ainda do que dar início ao caminho é saber em que direcção caminhar! Neste caso, saber a direcção a tomar já faz parte do próprio caminho.
Uma das grandes vantagens em termos práticos destes conhecimentos é uma sensação de tranquilidade que lentamente se vai instalando em nós, que vai ganhando espaço, à medida que as compreensões se vão fazendo e que determinadas realidades em nós vão sendo experienciadas.
A questão da “identificação” ganha importância central. No que se refere à mente deixo estes pensamentos: «Os pensamentos são o material base da vida». «Se sofro ou desfruto, tudo depende do domínio do pensamento». «Cada vez que tenho um pensamento, energia mental é dissipada». «Temos o poder criativo de alterar padrões de pensamento negativo em padrões de pensamento positivo». Diria mesmo que é primeiramente neste nível interno que este poder deve ser usado! A materialização ao nível externo desta criatividade será já uma consequência destas forças positivas em acção no nosso interior.

Psicologicamente falando, com o que me devo então identificar? Swāmiji não se cansava de repetir: «Eu sou Eterno, Eu sou Imortal, Eu sou felicidade». Outras vezes referia: «Eu sou amor, sabedoria, felicidade, paz...». O objectivo é sempre a identificação com as qualidades imutáveis. Também lhe poderíamos chamar outros nomes como: Deus, Pura Consciência, Espírito... mas não será mais tangível para as nossas mentes a identificação com estas qualidades de forma a reconhece-las em nós? Não era isto que também o Mestre Jesus apontava como meta a realizar ao dizer: «Eu e o Pai somos Um»? As qualidades imutáveis desta Pura Consciência parecem esperar “pacientemente” por nós... até que consigamos transcender este mundo de dualidades... e as reconheçamos no nosso interior.
Mesmo que uma pessoa se diga não-espiritual trazem estes ensinamentos algum benefício? Parece que facilmente todos concordaremos que ao me identificar cada vez mais com estas características em mim, mais aceito que elas se manifestem. Certamente que ninguém, pelo menos ao nível consciente deseja ódio, infelicidade... O certo é que acabamos por criar estes estados psíquicos negativos quando cultivamos pensamentos negativos como estes “Não sou suficientemente bom”. O que acontece quando uma pessoa se identifica permanentemente com este tipo de pensamento? E atenção que isto é muito mais frequente do que se possa pensar! O facto da nossa sociedade valorizar grandemente a competição ‘desenfreada’ desde tenras idades vem trazer uma pressão psicológica acrescida, onde o máximo parece muitas vezes não ser ainda suficiente! Este, “Não sou suficientemente bom” instala-se na mente, na carne, nos ossos... até ao ponto em que pensamos de tal forma “que não sou suficientemente bom” que deixamos de nos questionar. Na realidade somos nós e mais ninguém que tem o poder de mudar estes padrões negativos, pois somos nós que temos o poder criativo! Culpar os outros também não é a saída...
Os ensinamentos continuam entre aspectos teóricos e práticos. A natureza da mente e causas da dor humana. Exercícios de prāṇayāma (respiração). Explicação de mantras. Concentração (Dhāraṇa) e meditação (Dhyāna). Purificação e activação de chakras. Kuṇḍalinī Yoga. Mudras e Bandhas. Com destaque central, o Bhagavad Gīta aparece como base do Gyana, Karma e Bhakti Yoga. Todos estes ensinamentos são trazidos para uma perspectiva de aplicabilidade prática.
Tudo isto serve para que cada um após um período de treino, de preferência com um bom professor, encontre as melhores técnicas para que por si só possa se harmonizar com o que melhor tem em si.

Aparentemente, ensinamentos contraditórios aparecem em simultâneo: Por um lado é dito “Aceita-te tal como és!” no momento seguinte é dito “É necessário criar forte disciplina para mudar”. A mente lógica, racional (Manas), não consegue perceber isto, porque na realidade é esta mente que queremos superar, passando para uma mente discriminativa (Buddhi)!
Um assunto bastante diferente prende-se com a questão da atitude que se deve criar quando se pensa em ter uma criança, onde a mãe tem um papel fundamental neste período delicado da gestação (e sempre). Os estados psicológicos que a mãe vive, durante este período, são de tal forma importantes que a criança absorve, nela própria, todos eles. Se a mãe estiver feliz e viver sentimentos de amor é com estes sentimentos que a criança virá a enfrentar o mundo. O mesmo acontece com sentimentos de irritabilidade, medo... O papel do pai é feito a outro nível: tudo fazer para que a futura mãe se sinta bem. Dizia Swāmiji um pouco a brincar em relação ao pai da futura criança: «Durante este período não há viagens de negócios». Mais importante ainda é a questão da dúvida que pode existir na mãe quanto ao abortar ou não. Ausência de amor e sentimentos de rejeição ficarão impregnados no seu ser, a bem dizer no fundo do seu coração, que acompanharão a criança durante a sua vida. Devo dizer que à luz do pensamento Yogī, nada acontece casualmente; significa isto que se a criança passa por estas experiências, digamos, menos positivas, é porque ela própria, criara as condições kármicas para que tal viesse a acontecer. O mesmo é dizer que não adianta culpar os pais porque ela própria também tem responsabilidade. Em caso de aborto, qual a atitude interna a tomar? Dizem os Yogīs que Ātman (Alma) entra em contacto com este plano físico no momento em que o espermatozóide fecunda o óvulo e se cria a primeira célula. Segundo eles algum karma é criado em caso de aborto. Contudo, este mesmo karma varia consoante os motivos e com a atitude interna com que tal é feito.

Suponhamos que alguém muito querido nos vem visitar mas nós não temos o mínimo de condições para o receber. Se tal acontecer devo explicar-lhe amorosamente porque não o posso receber em minha casa e pedir-lhe perdão. Assim não serão criados ressentimentos da parte desta Alma e trabalha-se no sentido de anular o efeito do Karma. Isto parece ter um efeito psicológico positivo, pois a mulher tem forma de se libertar de sentimentos de culpa que possam aparecer. A intersecção à Divindade ou alguma figura da nossa devoção, a ida a um templo, fazer uma doação... são tudo atitudes que parecem ajudar a criar sentimentos positivos e a contrariar estes efeitos kármicos.
Uma outra temática que Swāmiji dava grande importância é saber realmente quais as minhas necessidades, nos diferentes níveis da minha vivência, desde as necessidades mais físicas às mais espirituais. Ele fala sempre de três principais, que parecem funcionar como bases estruturantes:
• A necessidade de ter uma parceira amorosa (parceiro amoroso para as mulheres) que ajude a suprir as minhas necessidades.
• Correcto tipo de trabalho, onde não seja o dinheiro a principal motivação, mas que seja segundo a minha natureza. Trabalho não deve criar tensões (pelo menos exageradas) nem deve ir contra o meu temperamento interno.
• Viver num ambiente saudável.

Ao nível da energia sexual vários são os ensinamentos... Parece-me importante referir este pensamento em relação ao celibato: “celibato não significa não ter sexo, mas a conversão da energia sexual em espiritual; ou no coração (amor) ou no cérebro (inteligência)!”
Muitos conhecimentos são postos em causa, como por exemplo a teoria da evolução das espécies de Darwin. Dizem categoricamente que «uma espécie não se transforma noutra espécie!».
Ainda parece existir a tendência de pensar que as emoções são sentidas ao nível do coração físico o que na realidade não se comprova! Parece que os “nossos” poetas andaram um pouco enganados... Pessoas que substituíram o coração por um “coração mecânico” continuam a ter emoções. Não significará isto que o centro das emoções tem outra localização? O conhecimento dos centros energéticos, conhecidos como Chakras clarifica muitos destes aspectos...
Com o objectivo de desbloquear tensões, de purificar, de transformar a energia, destacam-se os exercícios de prāṇayāma, mudras, bandhas... Por vezes a prática destes exercícios provocam sobreaquecimento do corpo, havendo também técnicas para arrefecimento. Claro que um bom banho nas águas refrescantes do Ganges por si só já é uma grande ajuda, mas estas técnicas realmente ajudam pois são técnicas direccionadas a partes específicas do corpo. Estimulados pelo ambiente e num espírito de estímulo mútuo, eu e Tierry, Português que conhecera mesmo ali no āśram, tínhamos intensificado as nossas práticas. Levantando-nos por volta das quatro (normalmente após um banho fresquinho) fazíamos alguns exercícios de prāṇayāma e meditação extra, para lá das restantes práticas com o grupo no āśram. Ao meio da tarde fazíamos cerca de uma hora de mantras e novamente meditação... Depois de cerca de uma semana e meia verificámos que partes dos nossos corpos aqueciam para lá do normal. Quanto a mim, abrandar o ritmo, foi o suficiente para fazer baixar a temperatura que se fizera sentir no topo da cabeça.

Apesar de estarmos a fazer as mesmas práticas, Tierry fora afectado ao nível da testa e nariz onde calor e irritabilidade se fizeram sentir. Ele usou uma técnica de limpeza (Neti) que funciona muito bem para arrefecer esta parte do corpo, que consiste em fazer passar água fria com um pouco de sal por uma narina saindo posteriormente pela outra. Foi assim que percebemos que os nossos “veículos físicos” precisavam de um pouco mais de tempo para se adaptarem a estas práticas mais intensas. Guardo esta e outras experiências com especial simpatia.
Um dos aspectos centrais da religião Hindu e à qual Swāmiji dava uma relevância central é o Sanatana Dharma (Eterna Sabedoria) em que os ensinamentos de todos os mestres, de todas as religiões são aceites, tais como o mestre Jesus, Maomé, Buddha... assim como também, os ensinamentos na área da ciência.
As únicas três ideias que não são categoricamente aceites em Sanatana Dharma são:
• «Este é o único caminho e os outros caminhos são errados. Em Sanatana Dharma diz-se: Existem infinitos caminhos para Deus».
• «A existência de condenação eterna no “inferno”, o que existe é uma Lei: A lei do Karma».
• «Que existe uma única vida», o que equivale a dizer que existe uma Lei da Reencarnação. O facto é que tudo faz mais sentido através desta lei. Através dela podemos compreender um pouco melhor o porquê de uma criança morrer muito nova, ou de haverem pessoas deficientes... Como dizia Swāmiji: «Deus não é parcial», o mesmo é dizer que «O que é para um é para todos!». A questão é que como existe a Lei do Karma (causa-efeito), eu venho a sofrer as consequências das minhas acções, se não nesta vida, em vidas seguintes. “Colhes o que semeias”: Se semeamos sofrimento, colhemos sofrimento; se semeamos boas atitudes (amor, paz...) é também isso que receberemos. Esta Lei explica porque vimos a passar certas situações nesta vida, que parecem não fazer qualquer sentido, e a resposta está precisamente em acontecimentos que ocorreram em outras vidas, estando agora a passar pelos “efeitos” dessas acções.

Dizia que a vida tem e é para ser vivida de acordo com as Leis Cósmicas, caso contrário “a outra via”, baseada na ignorância, fantasias pessoais... só nos trará grandes frustrações e muito sofrimento desnecessário.
Dizia um pouco mais à frente: «Enquanto me identificar com o corpo ou mente nunca irei encontrar satisfação profunda! Tal só acontecerá quando me conseguir identificar com a Alma (Ātman)!».
Vem a propósito a simbologia do nascimento de Jesus e de Kṛṣṇa, que em ambos os casos, foram perseguidos de morte logo após o seu nascimento. Dizia Swāmiji «Quando começas a desenvolver um pouco de consciência Crística todas as forças internas e externas tentam matá-la».
Por vezes os ensinamentos parecem realmente contraditórios, parecendo colidir com os nossos sistemas de valores. Um questionar repetido sobre as nossas prioridades é feito. Por exemplo, quando dizia: «Não sei o que acontece nos vossos países, mas no meu, uma criança pequena vai à escola carregando uma grande mochila, e de vez em quando vejo que esta mochila é maior do que o próprio peso da criança! E o que diz um grande santo Indiano? (cita-o em sânscrito) –Lês todos os livros do mundo, todas as bibliotecas; nada virá! Se compreendeste o que esta palavra chamada amor é, se compreendeste o que é amor, como recebe-lo e como dá-lo, és a pessoa mais sábia do mundo. Nada mais te é requisitado». Viera isto a propósito da importância da purificação dos nossos pensamentos e a atitude correcta de corpo e mente. Não dos conhecimentos em si mas de como os usamos.

A propósito de atitude correcta... Quão difícil me tem sido compreender realmente o que é. E como por vezes bem que tenho preferido fazer de conta que o que ouço e vejo talvez não seja bem para mim! Quando digo isto digo-o no mesmo sentido que vem na Bhagavad Gītā: «Tal como permanece (sempre) cheio e dentro de imutáveis limites o oceano ao qual, todavia, as águas não cessam de afluir, do mesmo modo, aquele no qual refluíam todos os desejos obtém a paz suprema, mas não aquele que alimenta desejo após desejo». Sei que pode ser um pouco mal interpretado quando se lê “desejo após desejo”. A questão aqui é ao querer pôr determinados ensinamentos em prática inevitavelmente venho a colidir com os meus hábitos do passado, aos quais, a mente se agarra, resistindo fortemente à mudança, vindo a constatar uma grande dificuldade de mudar estes padrões! Por exemplo, ao meditar, quão forte é a reacção da mente e corpo em resistência, quando pretendo meditar durante períodos um pouco mais prolongados! A mente e as suas oscilações e um corpo que ao fim de algum tempo parece ser uma espécie de destroços de guerra, onde todas as mazelas, todas as dores aparecem. Dizia Swāmiji: “Dor física; quando vocês se sentarem em meditação; joelhos irão doer, os ombros também, tudo irá doer, toda a dor do mundo parece vir quando queremos meditar. Quando vocês se forem divertir, não haverá dor em lado algum! Querem meditar, toda a dor virá. Há que suportar a dor, pelo menos um pouco. Aprende a suportar a dor!” Velhas estruturas têm obrigatoriamente de ser abandonadas e novas têm de ser criadas. Firmeza é necessária, novos aliados precisam-se... Mas ainda assim quão difícil é! E por vezes “coisitas” que parecem tão pouco significativas, o quão enraizadas estão! Relacionado com esta temática Swāmiji transmitia alguns pensamentos encorajadores: «Aprende com as situações desagradáveis». «Mesmo que todos me rejeitem, eu não me rejeito a mim próprio!», «Por cada vez que uma porta se fecha, dez irão abrir-se. Com essa atitude devemos olhar em frente, sem olhar para trás».
Este texto já vai longo... Contudo, há mais algumas ideias que quero referir, antes de dar por terminada esta viagem pelas Índias...

Dizia Swāmiji:- «O que acontece quando determinado ensinamento vai passando de geração em geração? Ao fim de poucas gerações torna-se oposto àquilo que era inicialmente, como aconteceu com Buddha, Mestre Jesus, Maomé...».
Continuava:- «Todas as sociedades devem ter um método, onde seja possível, rever os ensinamentos que foram transformados, mal interpretados, torcidos, ‘torturados’, tornando-se absolutamente estéreis; acabando no oposto ao que fora ensinado pelo mestre. Um método onde os ensinamentos sejam revistos e revivificados, torna-se assim necessário. Uma atitude de questionamento deve ser mantida. As sociedades que param este processo bloqueiam o seu próprio crescimento espiritual». Acrescentava: -«A cultura Indiana está aberta a questionar os antigos ensinamentos». Parece que esta atitude de questionamento foi realmente incorporada na cultura Indiana! Quem visitou a Índia sabe bem do que falo. Vários são os ensinamentos sagrados, em forma de diálogo entre devoto e Divindade, ou discípulo e mestre, onde o devoto tem por seu melhor amigo a própria Divindade! É precisamente essa a atitude de questionamento directo de Arjuna para com Kṛṣṇa.
Finalizou dizendo: -«Devem sempre aprender a questionar».
Acerca de uma “história”, que sempre me pareceu muito mal contada, não seria coerente comigo se não partilhasse este último trecho, acerca de um dos maiores símbolos da nossa cultura: Maria Madalena.
Dizia Swāmiji: «Jesus, Tu és o único salvador do mundo!» É o que a igreja nos diz. «Jesus és o único filho de Deus! Não há outro filho de Deus! Nunca poderá haver uma filha de Deus! Só um filho de Deus! Um único salvador!». É esse o discurso da igreja. E no momento seguinte, a mulher mais próxima do coração de Jesus é uma prostituta!(!!!) Conseguem vocês compreender? Pensem um pouco...
Jesus é o salvador, o filho de Deus, mas a mulher mais próxima do seu coração é uma prostituta. Isto foi o que aconteceu durante 2000 anos! Uma das melhores jóias da vossa cultura foi deitada abaixo!
LEVANTEM-NA!

Digam ao Papa para mudar. O Papa pode ser aconselhado um pouco. Se não o fizer criem vocês as vossas próprias Igrejas. Pequenas igrejas, como vêem na Índia; qualquer pessoa pode fazer um templo. Façam vocês também, os vossos templos; uma nova idade de igrejas. Jesus no centro, a Mãe Maria à direita, Maria Madalena à esquerda (dizia sorrindo) e ponham um pouco do meu Rāma, do meu Kṛṣṇa... Ponham o Buddha... Façam uma nova idade de igrejas!... Nas vossas casas, nos lares, quartos... Ponham de lado que Jesus é o único salvador! Definitivamente é um dos melhores mestres alguma vez nascido, mas não o único salvador. Incluam tudo, nada de exclusivismos».
As águas do Ganges, sempre refrescantes, continuavam o seu curso natural... Os peregrinos vinham e iam... As vacas prosseguiam na sua vida tranquila... Os macacos por vezes visitavam o āśram, testando os mais distraídos. Certo dia, enquanto “dormitava” após o almoço, na simplicidade do meu quarto, no āśram, ouço sons que me pareciam bem próximos. Ainda me ocorreu que talvez não estivesse a ouvir bem. Após reforçar a atenção constato que os ditos sons são mesmo dali. Abro os olhos e vejo um macaco, que me observa também, com um ar bem atrevido a comer tranquilamente a segunda banana! Na Índia a noção de privacidade muda um pouco... Tinha deixado a porta aberta o que pareceu ser uma espécie de convite...
Os últimos dias na Índia estavam programados para Gokarna, no sul da Índia, onde já tinha passado anteriormente. Viagem a fazer de comboio durante cerca de 30 horas, feitos em compartimento de primeira classe com Laura. Não que tivesse sido por nossa vontade, mas sim por força das circunstâncias, já que todos os outros bilhetes estavam esgotados, “obrigando-nos” assim, a comprar este bilhete de primeira classe em compartimento de duas pessoas, atravessando a Índia desta forma, de norte a sul, é algo que a ter nome só pode ser “mordomias bucólicas”. Depois das despedidas no āśram e carregando a mochila, ainda pesada, fui surpreendido pela oferta, completamente inesperada, de um motociclista que me aguardava para me dar boleia, até à paragem dos autocarros que fica a uns quatro quilómetros do āśram. Era um dos empregados do restaurante onde habitualmente ia. Lembro-me de me ter despedido deles, mas o que aconteceu foi completamente inesperado. Curiosamente do outro lado do rio o trânsito estava completamente parado, o que com os meios de transporte habituais me teria feito, certamente, perder o autocarro. O que valeu mesmo foi aquela moto e as ruas secundárias que ele bem conhecia. Cheguei a tempo para o autocarro pretendido. Tudo parecia estar surpreendentemente sincronizado...

Em Gokarna, ainda se festejava o Divāli (a festa da Luz) o que dava um sabor especial de festividade, entre procissões, fogo de artifício ou a iluminação nocturna do tīrtha com milhares de velas... O mar continuava belo e apelativo... Os últimos dias passaram tranquilos... Tive o prazer de conviver novamente, com “a portuguesa” que ali habita. Foi ela quem me enviou para Rishikesh, o quadro que terminei momentos antes de apanhar o comboio para Bombaim, viagem de regresso à Europa. Era uma oferta que fazia a Swāmiji Dharmānanda que com prazer também faço neste espaço. Swāmiji comentara nas palestras que gostaria de ter uma imagem de Madre Teresa (foto), pois tem-lhe especial devoção referindo-a sempre pelo trabalho social que fez na Índia. Achei que podia fazer alguma coisa...
Foi “a portuguesa” que me levou à estação de Gokarna numa viagem de coragem na sua vespa, que não se apresentou nada simples, já que levávamos as mochilas, por estradas de buracos, claridade “lusco-fusco”... Foi ela ainda que me preparou uns bolinhos de coco especiais para a viagem de regresso... Que mais precisava eu?
«- NADA».
Dedicado à “energia feminina”.
   


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Impresso em 17/6/2021 às 2:38

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