Fundação Maitreya
 
A Via da Vigilância Interior

de Edward Salim Michael

em 08 Jul 2008

  Este extraordinário livro – ao mesmo tempo simples e poderoso – é um monumento à longa luta de um homem, um anglo-indiano chamado Edward Salim Michael. Homem genuinamente humilde e despretensioso, sem qualquer educação formal, passou quatro anos de labuta incansável, a escrever esta obra. Só concordou em fazê-lo para poder deixar algo, após a sua morte, ao grupo dos seus alunos (em França, Bélgica, Inglaterra e Alemanha) e a uma “agonizante humanidade” – uma humanidade que vê como “tendo perdido por completo o contacto com o Sagrado, se contenta em viver uma existência vegetativa, preocupada apenas com o mundo material exterior”.
Trata-se de um ensinamento que lida com a difícil tarefa do despertar interior do ser humano.


Preocupa-se com certas técnicas de meditação que poderão abrir a porta ao praticante sincero, de acesso ao conhecimento directo do Sublime – um contacto directo com a Origem Divina que, sem o saber é, Ele mesmo. O caminho para essa Fonte é a via da vigilância interior.
Este livro é tanto um desafio, quanto é edificante, tão prático, quanto poético, e é um privilégio poder oferecê-lo com a finalidade de contribuir para a libertação espiritual da humanidade. Tais oportunidades são raras na vida, e esta é, inquestionavelmente, uma delas.

PREFÁCIO

Por Ajahn Sumedho

Estou encantado pelo facto de «A Via da Vigilância Interior» de Edward Salim Michael ter sido reeditado. Lembro-me de ter encontrado este livro na Escola de Verão da Sociedade Budista há 25 anos. Tinha uma foto do Buddha na capa e gostei do título – por isso comecei a folheá-lo.
Os capítulos de Nada Yoga intrigaram-me particularmente, porque há já alguns anos tinha descoberto este “som interior” mas nunca tinha ouvido falar nem havia lido sobre tal no Cânon Pāli. Desenvolvi, então, uma prática meditativa recorrendo a esta vibração de fundo e experimentei grandes benefícios no desenvolvimento da plena atenção enquanto abandonava todo e qualquer pensamento. Esta perspectiva possibilitou uma consciência transcendente, podendo reflectir nos estados mentais que aparecem e desaparecem na percepção interna.
Apreciei as instruções de Edward Salim Michael sobre como integrar o conhecimento na vida diária.
Edward Salim Michael não era um budista professo, mas recomendei este livro a muitos budistas que acham as referências e instruções do Nada Yoga muito úteis na prática da plena atenção.

Ajahn Sumedho
Mosteiro Budista de Amarāvatī
17 de Dezembro 2007

INTRODUÇÃO

Antes que o aspirante possa obter algum verdadeiro benefício do seu trabalho espiritual, antes mesmo que possa tocar e compreender a orla do misticismo e ter disso uma correcta visão, é necessário compreender, no seu íntimo, que os seus esforços espirituais podem não lhe trazer grande vantagem – e podem até ser estéreis – se não andarem lado-a-lado com o desenvolvimento da integridade moral. De facto, desde o início da jornada espiritual, é essencial, para o buscador, ver a importância do seu desenvolvimento moral interno e trabalhar nisto com toda a sinceridade.
Tudo no universo está sujeito a uma lei cósmica invisível de atracção e de gravitação em plena correspondência com o nível ser, de acordo com o seu peso e a sua densidade. Má conduta, não interessa quão ínfima, se repetida, ganhará raízes e, com desconhecimento do aspirante, torná-lo-á mais denso, impedindo-o nos seus esforços espirituais os quais então não darão o devido fruto.
Também, os seus esforços poderão brotar, sem saber, dos níveis inferiores do seu ser, provenientes de motivos pessoais ocultos ou de objectivos errados. As aspirações espirituais podem ser constantemente influenciadas ou misturadas com a sua natureza inferior, com todas as suas fantasias, ideias preconcebidas, desejo inconsciente de prestíSalim Michaelgio ou poder, sentimentos exacerbados e tendências nocivas, tudo o que trás consigo, podendo não ter consciência ao princípio.
Tornado num hábito de longo tempo, aceita a sua maneira de ser e de pensar sem questionar; e mesmo se acidentalmente tocar um nível mais elevado durante a meditação, acaba por o deformar posteriormente. Porque este estado descerá ao seu nível geral de ser e de compreender nesse momento, falando do que não corresponde à Realidade. Sendo assim, é extremamente difícil não trair ou não distorcer de alguma forma o que é recebido de planos mais elevados, independentemente de quão sincero e escrupuloso possa ser. Em qualquer dos casos, dado não haver linguagem que possa expressar adequadamente estes estados mais elevados, deve-se ser o mais cauteloso possível no que se diz sobre tão importante assunto.
O desenvolvimento da integridade e do verdadeiro ser, são, por consequência, indispensáveis para o aspirante na sua senda espiritual. Se ele prometer, tem de cumprir – independente do grau de dificuldade com que se possa deparar. Deve acautelar-se constantemente, de toda e qualquer mentira, desonestidade ou inexactidão inconsciente, quer para consigo quer para com os outros. Deverá vigiar os seus pensamentos, suas palavras e sua forma de ser para com os demais. Deverá ser o mais honrado e sincero que possa, quer para consigo, quer para com todos aqueles com quem lida. Deve desenvolver a compaixão para com todos, porque nunca sabe quão profunda e escondida dor, preocupação e angústia poderá carregar essa pessoa dentro dela, e também tomar consciência do facto de que, de uma maneira ou doutra, todos os seres sofrem.
Se, logo do princípio, os valores morais não se desenvolverem a par com o seu trabalho espiritual interior, o pesquisador pode estar seguro que as suas lutas não lhe trarão nem a verdadeira compreensão nem a revelação espiritual que busca. Os seus esforços mal dirigidos podem até mesmo acentuar e cristalizar as tendências indesejáveis, tornando-as mais difíceis de erradicar daí em diante.
Fidelidade para consigo mesmo também significa fidelidade para com os outros; o que se deseja para si mesmo, deverá desejar-se para os outros também. Se não se deseja ser roubado da sua felicidade, também não deverá roubar a dos outros. O aspirante tem de começar o seu trabalho espiritual com a clara compreensão de que não há nada no universo que não seja parte do todo. E se cada coisa é parte do todo, então apenas existe a Unidade. Todos os seres e tudo quanto existe no mundo, bem como todos os planetas e as estrelas, são parte do Ser Divino Universal da mesma maneira que cabeça, pescoço, braços, tronco, pernas, órgãos internos e células sanguíneas são parte do todo de cada um. Qualquer mal que se faça a um deles, o todo sofrerá inevitavelmente, mais cedo ou mais tarde. Esta é a razão porque, ao longo de grande parte do texto, se insiste tanto para que os valores morais e a sinceridade do ser humano sejam uma máxima.
Como tudo está sujeito à lei da gravidade, o que quer que o ser humano pense ou faça, mesmo sem estar consciente disso, forja-o no que ele é – e por fim determinará o estado de consciência no qual ele gravitará sem poder escapar quando deixar esta forma de existência.

Tradução de Helena Gallis
Editado pelas Publicações Maitreya
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