Fundação Maitreya
 
As Escolas Védicas

de Kumud Mohan

em 23 Jun 2024

  «Acreditamos em ahimsa ou não-violência. Em qualquer caso, os castigos físicos iam resultar em ressentimentos e reforçar o problema, em vez de corrigir a criança. Normalmente mostramos as consequências do aluno a ele mesmo e encorajamo-lo a pensar sobre isso. Uma vez convencido do seu erro, ele mesmo decide o seu próprio castigo». São 8h da manhã. O shanti path (invocação para a paz) acabou no yagya shala. Os rapazes, com as cabeças rapadas e vestidos em dhotis e kurtas brancas e imaculadas, silenciosamente dirigem-se até aos edifícios das aulas. Por uma escadaria simples de cimento, chega-se a um corredor cheio de salas para aulas. O seu espaço vazio é uma surpresa. Não há cartazes, nem mesas, nem cadeiras. Apenas quatro paredes sem adornos e algumas janelas protegidas com grades.

A preservar a tradição dos “Gurukuls

De um lado há um quadro e um chowki ou palco ligeiramente elevado. Os estudantes deixam os seus sapatos lá fora e, espalhando os seus pequenos tapetes individuais no chão, sentam-se na postura de padmāsana ou a postura de lótus – considerada a ideal para o equilíbrio entre a mente e o corpo e a melhor para a concentração e absorção.

O professor entra na sala, igualmente com a cabeça rapada e vestido com o mesmo uniforme de dhoti e kurta. Os jovens levantam-se e um por um vão tocar os seus pés respeitosamente. O professor levanta a sua mão direita num gesto de bênção ou “ashirwad” antes de se sentar em frente deles na padmāsana em cima do chowki. A lição sobre a literatura do sânscrito começa. Hoje, o texto trata da sabedoria dos contos interessantes sobre animais no Panchatantra.
Shrimād Dayanand Vedarsh Mahāvidyālaya, situada ao sul de Delhi (filiada ao Dayanand Saraswati Vishwa Vidyālaya, da Universidade de Rohtak) é uma entre as trezentas escolas na Índia que estão a lutar para salvar a tradição antiquíssima do ensino dos “gurululs”. Estabelecida há cerca de 70 anos pelo Swāmi Sacchinānda Yogī, esta instituição no passado produziu um corpo de alunos altamente motivados que participaram nos movimentos de não cooperação iniciados por Mahātma Gandhi em 1942 e 1946. Depois da independência da Índia em 1947, todavia, uma falta de patrocínio juntamente com uma escassez de fundos resultou num declínio e eventual encerramento em 1961.

Todavia, cerca de 18 anos mais tarde, o Achārya Haridev de Jhajjar, Haryana, conseguiu reanimar a escola e começou a funcionar outra vez a partir de 1979. Hoje, situa-se num recinto de 6.000 metros quadrados e o Shrimād Dayanand Vedarsh Mahāvidyālaya fornece uma educação e facilidades residenciais para alguns 250 brahmachāris (celibato) segundo as tradições dos “gurukuls” védicos e funciona num regime de organização sem fins lucrativos, como estipulado pelo Swāmi Dayanand Saraswati. Jovens rapazes que concluíram o 5º ano nas escolas regulares e conseguem satisfazer alguns critérios ligados com conhecimentos gerais, poder de aprendizagem e habilidade de matemática (cerca de metade dos candidatos são rejeitados) são admitidos sem discriminação segundo a sua casta, comunidade ou religião.
Vêm de todas as partes do país – Assam, Bengala, Maharashtra, Orissa, Up, Bihar, Karnataka… Mais de sessenta por cento deles pertencem às camadas mais pobres da sociedade (muitas vezes são tribais) porque os seus pais acham que a criança terá um futuro melhor na Mahāvidyālaya. Em qualquer caso, ao pagar umas propinas de 400 rupias por mês (8 euros) para a responsabilidade total de criar uma criança, incluindo os livros, comida, roupa, educação e saúde, é menos do que aquilo que gastariam em casa. Às vezes, pais de famílias cultas, que lamentam a ausência das tradições indianas no modelo britânico de Macaulay que prevalece na Índia, preferem enviar os seus filhos a um “gurukul”. Por exemplo, Amit Kumar, duma família abastada e terratenente em Meerut, Uttar Pradesh, veio para aqui porque os seus pais preferiram as tradições dos “gurukul” e queriam que ele aprendesse bem o sânscrito.

A admissão no Vedarsh Mahāvidyālaya é formalizada coma cerimónia do fio sagrado para comemorar o início da educação védica. Essa cerimónia é um factor igual para todos, independentemente das suas origens. A primeira lição é sobre a simplicidade, auto-suficiência e auto-controlo na vivência duma comunidade. Há dez casas de banho que são partilhadas por todos os 250 alunos. O āśrama tem as suas próprias vacas. As refeições são satvik ou simples, com leite, trigo, pão, lentilhas, legumes e arroz com especiarias saudáveis como o gengibre e cravos em vez dos tamsik cebolas e alho (que, segundo as crenças tradicionais, estimulam os desejos carnais). Uma ou duas vezes por semana há fruta e iogurte e as iguarias fritas aparecem duas ou três vezes por mês (quando a instituição recebe doações).
Os alunos e professores comem as mesmas refeições, lavam as suas próprias roupas, dormem no chão e seguem o mesmo horário intensivo que começa às 4horas da manhã e acaba às 22 horas, seis dias por semana. No sétimo dia, domingo, a única concessão é que a educação formal é substituída por desportos tradicionais para treinar o corpo que incluem jogos como kabbadi (jogo de equipa que utiliza tanto o corpo como a mente), a luta greco-romana e a luta de tracção.

A longo prazo, parece que esse regime rígido penetra as almas dos alunos. As regras Vidyālaya declaram claramente que o contacto (não necessário) com forasteiros, interfere com o crescimento e o desenvolvimento dos estudantes e por isso, não é permitido. Uma vez que o ano académico começa, não há férias para além das férias anuais de Verão, dum mês. Às vezes os alunos podem falar ao telefone no seu tempo livre, depende das necessidades individuais. Além disso, não podem comunicar com o mundo lá fora nem por cartas – se não for com a licença das autoridades.
Todavia, nem tudo dessa simplicidade frugal é bem aceite. O mundan ou rapar os cabelos regularmente, por exemplo, é um ritual que no fundo, todos os alunos não gostam (porque os distingue dos outros jovens lá fora), mas eles não ousam protestar. Regras são regras afinal, e todos sabiam as regras quando entraram.
«Não encorajamos e não permitimos os castigos físicos de qualquer espécie no Vidyālaya», explica Pradhanacharya Haridev, o reitor. «Acreditamos em ahimsa ou não-violência. Em qualquer caso, os castigos físicos iam resultar em ressentimentos e reforçar o problema, em vez de corrigir a criança. Normalmente mostramos as consequências do aluno a ele mesmo e encorajamo-lo a pensar sobre isso. Uma vez convencido do seu erro, ele mesmo decide o seu próprio castigo».
A Mahāvidyālaya também produziu campeões ao nível nacional e internacional no campo do Yoga. No mundo académico também os alunos revelam-se mais brilhantes que os estudantes de outras universidades. Durante os últimos quinze anos, nove dos seus alunos ganharam medalhas de ouro nos exames da Universidade de Delhi depois de se licenciarem.

«Os nossos alunos entram em universidades normais mais tarde para melhorar as suas possibilidades de emprego», esclarece o Dr. Surya Narain Nanda, que obteve o seu doutoramento da Universidade de Delhi. Nanda é o pivot das notícias em sânscrito na televisão e já ensina desde há quatro anos. «Aliás, o curriculum aqui é muito mais difícil que nas outras universidades», diz.
Dos cerca de 20 shastris e achāryas que concluem os seus estudos no Vedarsh Mahāvidyālaya todos os anos, muitos se tornaram escritores, investigadores e professores. Alguns aperfeiçoam a arte de mantroccharana ou tradição oral de recitar os Vedas. Outros são purohits (sacerdotes) que fazem cerimónias religiosas como no caso dos nascimentos e casamentos. E ainda outros se tornam numa espécie de missionários, estabelecendo escolas védicas na Índia e no estrangeiro.

Cortesia da Revista Indian Perspectives
   


® http://www.fundacaomaitreya.com

Impresso em 13/7/2024 às 1:29

© 2004-2024, Todos os direitos reservados