Fundação Maitreya
 
A Missão de Jesus

de Maria

em 09 Abr 2009

  Para alguns Cristãos a grande mensagem de Jesus foi dada através do sacrifício da sua morte, pois acreditam que Cristo veio para redimir os pecados do mundo. Assim, a crucificação não foi o culminar do sacrifício de Jesus vir à manifestação, mas foi este o modo mais directo e evidente de consciencializar os seres para o mais importante, que era, após a morte, a sua Ressurreição em Espírito. Com efeito, esta não se tratou de uma presença em forma física, mas uma imagem ou aparição em forma etérica, que mostrou como a vida se prolonga após a morte, ficando a Ressurreição como uma das crenças cruciais do Cristianismo.

A Missão de Jesus

Ela representa o prolongamento da vida em Espírito e, na realidade, a imagem de Jesus Cristo tem-nos acompanhado ao longo dos séculos, pois é nos planos etéricos e no seu corpo subtil espiritual, que Ele se tem mostrado aos seres que se preparam para o ver nesses níveis. Jesus impulsionou a humanidade através daqueles que desenvolvem as suas capacidades de clarividência, e O vêem e sentem nos planos espirituais, como tantos místicos e místicas O viram e ainda hoje, as pessoas mais sensíveis, beneficiam da Sua Presença ou Irradiação energética.
A imortalidade, sempre foi uma condição do homem desde o começo da evolução humana. Ela representa naturalmente a realidade do Espírito que sobrevive depois da morte em planos invisíveis, desfrutando da liberdade da matéria física após cada incarnação no plano terrestre. Contudo, não foi o Cristo que a legou à humanidade. Ele apenas a revelou e demonstrou com a Ressurreição (que sucedeu apenas no seu corpo espiritual), a realidade da imortalidade, ou seja, que depois da morte do corpo físico, continua a existência noutros planos menos limitadores, já sem o veículo denso material.
Esta foi pois uma das mensagens de Jesus: dar a conhecer a imortalidade ou a existência do Espírito. A Ressurreição de Jesus demarcou a linha entre o reino espiritual e o material, ou entre o mundo visível e o invisível. Mesmo os Fariseus que tinham tendências mais espirituais, embora acreditassem na Ressurreição, tinham a ideia de que ela envolvia uma transformação ou transmigração e não como uma reanimação física.
Enquanto o homem não está preparado para saber certas verdades, elas não lhe são reveladas, embora ele viva nelas inconscientemente, mas o que marca e impulsiona o crescimento mental e espiritual do homem é exactamente a tomada de Consciência e o Conhecimento. No Ocidente generalizou-se a ideia, de que a imortalidade é apenas para aqueles homens que por actos de bravura ou de bondade marcam a História. Porém, a imortalidade pertence a todos os seres, pois sendo o homem, corpo e Espírito, é no Espírito, que efectivamente se perpetua a vida noutros mundos para além deste, da manifestação da matéria. A verdadeira condição original do Espírito é nos mundos sem matéria. Assim a Ressurreição quer dizer imortalidade, pois ela é a sobrevivência do Espírito após a morte física, e seria absurdo pensar-se ainda hoje, que são os mesmos corpos físicos que um dia ressuscitarão ou terão vida de novo. Antigamente, pela falta de conhecimento e de evolução espiritual, era natural que o homem se quisesse perpetuar através dos tempos, com os mitos da Ressurreição, mas actualmente, o conhecimento científico demonstra a impossibilidade de se recuperarem corpos mortos (como ainda alguns acreditam), apontando para a imortalidade e ressurreição sob prismas mais lógicos e evidentes.
A capacidade de inteligência do homem depende da sua evolução espiritual e mental e, cada corpo que adquire para uma nova vida na Terra, está obviamente, mais apto e evoluído que o anterior. Jesus veio mostrar que o objectivo dos homens é o Reino dos Céus ou a libertação terrena. Que sentido teria estar-se agarrado a cadáveres? Palavras de Jesus: «O Espírito é que dá vida, a carne não serve para nada». Evang. S. João.
Sobre a Ressurreição dos mortos em S. Mateus encontrámos: «Os Saduceus, que não acreditavam na Ressurreição, foram ter com Jesus e interrogaram-no: Mestre, Moisés disse: Se algum homem morrer sem filhos, o seu irmão casará com a viúva, sua cunhada, para suscitar descendência ao irmão. Ora entre nós, havia sete irmãos. O primeiro casou e morreu sem descendência, deixando a mulher a seu irmão; sucedeu o mesmo ao segundo, depois ao terceiro, e assim até ao sétimo. Depois de todos eles, morreu a mulher. Na Ressurreição, de qual dos sete será ela mulher, visto tê-lo sido de todos? Jesus respondeu: Estais enganados, porque desconheceis as Escrituras e o Poder de Deus. Porque na Ressurreição, nem os homens terão mulheres, nem as mulheres maridos; mas serão como anjos no Céu».
A imortalidade é vivida finalmente de forma consciente quando o homem atinge a iluminação ou perfeição e sabe que não precisa de voltar a um novo corpo, ou seja, venceu a morte para sempre porque venceu também o desejo de vida e, vai viver e permanecer noutros mundos em seu corpo espiritual. Esta vitória ou libertação terrena confere-lhe a imortalidade. Nesse estado de evolução espiritual do ser humano, o corpo espiritual adquiriu mais luz e irradiação e pode ser visto por aqueles que já despertaram a sua visão interior, sendo o caso dos Apóstolos e de Maria Madalena que viram o de Cristo, após a sua morte.
A Ressurreição ligada ao conceito da imortalidade do Espírito deixou de ter sentido quando acrescentaram a ressurreição da “carne”. Provavelmente oculta-se neste acréscimo o medo da morte.
Quanto ao sacrifício da cruz como sofrimento, hoje não se dá grande valor, embora a força da mensagem do Cristo resida no sacrifício da sua morte e no conhecimento que nos legou sobre a vida no invisível. Desta forma, o objectivo do cristão não deve ser o sofrimento, mas a felicidade da vivência no Amor de Deus do qual Jesus fazia parte. A sua grande abnegação foi vir à Terra estabelecer essa ligação, irradiar o Amor pelos seres e mostrar como todos podem chegar a Deus.
Assim, o Sacrifício de Cristo é único e inútil será insistir-se que o caminho para Deus é o sofrimento. Esse valor pertenceu a Jesus que se sacrificou, pois com a sua morte, elevou a mentalidade dos homens e mostrou a felicidade da vida pura e espiritual.
O principal apologista do sofrimento foi S. Paulo, mas numa interpretação mais profunda não é o sofrimento em si mesmo que purifica, pois Jesus era puro. O sofrimento enquanto dor, embota a mente e os sentidos, e a verdadeira realização no caminhar para Deus é a alegria ou pelo menos um estado de bem-estar. S. Paulo, talvez sentisse necessidade de purificar-se e apelar à fé e à graça, até para se redimir dos pecados cometidos em perseguição dos Cristãos, um dos quais, o inocente Estêvão, a quem provocou a morte.
S. Estêvão foi o primeiro mártir Cristão antes da conversão de S. Paulo. Era judeu e acompanhou os primeiros Apóstolos. Pregava ao povo mantendo acesas disputas sobre o messianismo de Jesus. Acusava os sacerdotes de um horrendo crime, pela morte do Messias, e chamava-lhe rebeldes, pois negavam o que era evidente. As autoridades resolveram perseguir este audaz pregador com testemunhas incitadas a registarem algumas palavras ditas por ele contra a Lei. Naturalmente, acharam o que procuravam pois certas acusações impugnavam a Tradição.
E, um dia, num daqueles movimentos de entusiasmo e inspiração, os seus olhos cravaram-se no Céu e vendo Jesus ao lado de seu Pai, clamou: «Vejo os céus abertos e o Filho do homem em pé à direita de Deus», a multidão enraivecida, arremessou-se sobre ele, foi arrastado e apedrejado e destacando-se um moço fanático chamado Saulo, que guardou as capas dos apedrejadores.
Estêvão não foi um caso isolado, pois a partir daí começou uma dramática perseguição aos Cristãos, por Romanos e Judeus ortodoxos, instigados particularmente pelas denúncias de Saulo. Saulo (depois S. Paulo), provido de uma autorização dos sacerdotes, acusava não só os Cristãos como os que os acolhiam em suas casas, lançando-os na prisão ou no tribunal e, gabava-se de que ninguém da sua geração, zelava tanto como ele pela Tradição.
O Judaísmo guia-se por uma lei de ética e de moral, “não matarás, não roubarás”. E o essencial na Escritura Hebraica é “Creio em Deus, Creio num Deus único”. Porém, se não houver a vivência interior na Divindade, a Lei torna-se letra morta, vazia de religiosidade. Jesus animou-a e completou-a com a sua própria experiência em Deus e prometia essa possibilidade a todo o ser humano sem sectarismos de raças, credos ou espaço geográfico. De facto, Jesus tinha um profundo sentido universal e, prudentemente ao dar os seus ensinamentos sem distinções, acabava com a ideia da posição privilegiada que os Judeus têm de povo escolhido.
O que constituía a base da Religião Judaica era a obediência a Deus, Jeová que impusera regras a um povo desorganizado e impetuoso quando saíram do Egipto e não a alguma raça em especial, pois os que seguiram Moisés e depois Josué eram já uma mistura de raças e uma raça pode ser constituída por vários povos, e muitos povos se cruzaram nesta odisseia por terras do Egipto de onde saíram e, de Israel para onde foram. O Judaísmo é portanto uma religião e não um povo ou uma raça. O povo eleito é aquele que se rege pela religião e obedece às ordens de Deus. Naquele tempo, essas ordens eram dadas por Deus através dos Sacerdotes e Profetas. Moisés era semelhante ou seria mesmo um Manu, o Legislador de uma civilização, que instituiu as leis civis, morais e religiosas, tal como na Índia, o Manu instituiu Leis sociais, de onde se estabeleceram mais tarde as castas. No Talmude encontram-se também, normas e códigos definidos e divide as várias categorias de Judeus, que vai desde os ignorantes, aos que estudam e discutem os textos sagrados, estando estes últimos habilitados a conduzir os restantes em suas vidas.
A conclusão é que os seres se agrupam por religiões e não por raças. A religião é que define, une ou separa os seres. O Judaísmo e o Cristianismo vieram do mesmo Deus. O Cristianismo é uma consequência necessária da evolução do Judaísmo. Porém, os que se agarraram às velhas tradições (caso dos Judeus ortodoxos e os que não reconheceram o Messias), estagnaram, tornaram-se dogmáticos, apenas cumprindo a Lei e não foram por esta razão os pioneiros da civilização. Razão porque o Ocidente evoluiu e Israel continua nas mesmas lutas pelas terras e pelos lugares santos, que há muito deixaram de irradiar a força de levar os seres à evolução.
Actualmente, em Israel, ocorrem transformações, motivadas pela necessidade de se dar um novo impulso evolutivo a um povo, porém, agora ao Muçulmano ou Palestino e não ao Judeu. Este fez o percurso evolutivo espiritual e material conjuntamente com a restante humanidade, a maioria fora de Israel, dispersos por várias nações. Incentiva-se, hoje, o regresso de todos os Judeus a Israel, pois os Sionistas objectivam construir um Estado Judaico, contudo, não é só um objectivo religioso, é sobretudo político e nacionalista, embora admitam no novo estado todas as correntes religiosas, como por exemplo os Judeus ortodoxos, os liberais ou mesmo os libertos de religião. Principalmente, o que os move é estabelecerem, exclusivamente, a etnia dos antepassados na sua verdadeira pátria espiritual, pois permanecem ligados por tradição e afecto a Jerusalém. Ora esta pátria, que naturalmente, todos os Judeus sentem ser Israel, não está verdadeiramente baseada num direito exclusivo de terra, em que cada nação seria constituída pelos cidadãos que nascem no seu território, mas pela ligação sentimental e espiritual. Com efeito, hoje em dia, que judeu conserva a filiação genuína do povo hebraico de há seis mil anos? E mesmo aqueles Israelitas (pertencentes à Religião Judaica), que nunca saíram de Israel e por gerações aí se têm mantido, poderão eles afirmar-se, os únicos filhos de Israel?
Os inúmeros Judeus que entretanto se dispersaram e que se mantêm na Religião Judaica, conservam especialmente o sentimento de pertencer a um povo, cujas raízes foram notáveis e ao qual se sentem sempre ancestralmente ligados, mas quantos sangues não se misturaram já?
Os Judeus, não só devido à dispersão como à invasão de outros povos a Israel, misturaram-se ou miscigenaram-se com muitos outros povos do planeta. Uma raça genuína no mundo de hoje, deve considerar-se rara.
Da obra de F. Oppler, “Os Judeus e o Mundo de Hoje”, citamos: «Se, de um lado o coeficiente ariano dos Judeus europeus aumentou muitas vezes, nos dois mil anos de dispersão, por outro, não existe a menor dúvida de que nesse longo período, em muitos lugares, flui algum sangue judeu para o corpo de povos europeus e americanos».
Também é um facto que as três grandes religiões do mundo, onde milhões de seres humanos estão ligados têm a sua base na Bíblia ou em Moisés. O Deus de Moisés tem sido reconhecido afinal, por quase toda a humanidade no Ocidente.
Uma nota curiosa é dada pelo cabalista Philip Berg acerca do povo eleito. Segundo a Bíblia, o povo escolhido foi aquele que aceitou as regras contidas nas Tábuas da Lei, os Dez Mandamentos. Deus perguntou primeiro a dois povos em Israel se eles queriam cumprir os mandamentos e eles rejeitaram, pois eram regras severas e não se acharam preparados para as seguirem:
Então, Ele convocou a Samael (o anjo protector de Esaú) e disse: «Vós desejais os meus mandamentos? O que está escrito neles? Perguntou. O Senhor respondeu, citando um dos preceitos para testá-lo, não matarás. Então Samael disse: Que o Céu nos proteja! Esta Tora é vossa, e permanecerá vossa. Eu não a quero. Se Vós a deres a mim, toda a minha autoridade desaparecerá, pois ela está baseada em massacre e no planeta Marte; se não houver guerra, meu poder desaparecerá deste mundo».
Da mesma forma a Tora foi oferecida a Rahab (o anjo com influência sobre Ishmael) que a rejeita, argumentando que seu poder está baseado no impulso sexual expresso nas bênçãos dadas a Adão no jardim do Éden: «Crescei e multiplicai-vos». Como a Tora proíbe o adultério, o Rahab teme que ela o privará da sua fonte de poder».
Assim Moisés e o seu povo aceitaram cumprir a Lei, tornando-se o povo eleito.
Já a mensagem de Jesus foi para todos os povos, com o direito de receberem também as bênçãos de Deus. A humanidade estava pronta para acreditar em um só Deus e aceitar as regras ou leis religiosas, onde todos se sentiriam filhos e não escolhidos. Hoje inúmeros sectores da humanidade têm consciência de que, essa irradiação emana de Deus para todo o planeta.
Jesus disse: «Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim revogá-la mas completá-la». Evang. S. Mateus. Exprime claramente a ideia de unir o novo ensinamento ao antigo, contra a regra superficial da Lei que o obscurecera, pois por esse tempo tinham os Judeus uma observância mecânica e superficial da prática religiosa, cumprindo apenas os preceitos ritualistas, e embora este seja um facto importante da Lei Judaica tinha-se na verdade, afastado do sentido religioso e espiritual. Jesus tentou encontrar o fio perdido desse valor da vida, com a ligação com Deus. E porque a divisão entre os Judeus estava criada devido à falta de religiosidade do Judaísmo, foi fácil substitui-la pela fé do Cristianismo e a partir de S. Paulo aparece a Graça para aqueles que têm fé. Opõe a Graça e a fé ao trabalho ritualista como mero cumprimento da Lei.
Jesus como reformador vinha acrescentar à Lei, um novo factor; a relação pessoal com o Divino. Como testemunho desse novo valor, era Ele próprio, pois continha em si essa vivência de Deus, abrindo assim à humanidade a porta para o Reino dos Céus.
«O Reino dos Céus é semelhante a um tesouro escondido num campo, que um homem encontra, mas torna a esconder. Cheio de alegria, vai, vende tudo o que possui e compra o campo. O Reino dos Céus é também semelhante a um negociante que busca boas pérolas. Tendo encontrado uma pérola de grande valor, vende tudo quanto possui e compra a pérola». Evang. S. Mateus.
No princípio do Cristianismo, o trabalho ou acção era puramente espiritual (curar, suavizar o sofrimento ao próximo e transmitir a palavra de Deus), enquanto no Judaísmo se falava e fala mais de acção do que de fé e, este é um dos pontos marcantes da diferença entre Judaísmo e Cristianismo. Contudo, também têm as suas preces constituídas principalmente pelas orações da liturgia e pelos salmos, sendo o estudo dos textos do Talmude o fundamental da prática religiosa. A prece tem bastante importância, pois é pela prece que os pecadores se comunicam com Deus e invocam a Sua misericórdia, agradecendo especialmente, no Kippur que é um período de recolhimento com um prazo de dez dias, em que se aguarda a remissão dos pecados, o arrependimento e o perdão.
No Judaísmo por exemplo, não existem mosteiro. Aqueles que se retiraram da vida pública os Essénios (os Judeus mais religiosos) acabaram por se extinguir. Os Essénios provinham sobretudo das classes mais desfavorecidas, praticavam o ascetismo, pregavam a vida depois da morte e protestavam contra o poder e a riqueza dos sacerdotes e dos governantes. Comiam pouco, o suficiente para se manterem vivos, viviam em comunidade e consideravam o casamento um mal necessário. Acentuavam como mais importante, os aspectos espirituais do que os rituais, consideravam a imortalidade da Alma, a vinda de um Messias e a iminente destruição do mundo. Não há pois dúvida, que existem semelhanças entre os ensinamentos de Jesus e dos Essénios.
Os Essénios continham na sua doutrina, elementos tanto comuns com os Saduceus como com os Fariseus, de onde teriam extraído alguns dos seus princípios e crenças. Com os Saduceus, aderiram à tradição sacerdotal com os seus ritos de purificação e de refeição sagrada (tal como Jesus lavará os pés aos Apóstolos e sacralizará a última Ceia). Dos Fariseus extraíram a rigorosa observância da Lei e a crença em eventos apocalípticos; proclamavam-se o verdadeiro povo de Deus e, formavam uma comunidade monástica retirados da vida comum, estudiosos das escrituras. Acrescentaram os seus próprios textos à Tora e esperavam a vinda de um Messias da linhagem de David.
A descoberta dos manuscritos de Qunram em 1947, permite hoje um conhecimento mais exacto, não só dos seus textos como do próprio Judaísmo de então.
Na verdade, a religiosidade é viver em Deus e agir no mundo com essa ligação; desta forma os governos do mundo não deviam estar dissociados desta realidade e os primeiros Messias (o valor deles mede-se pelo grau de poder espiritual, pois há vários níveis de Messias e Avatares), foram guerreiros, como David. E na Índia a ideia de Avatares comporta estes dois aspectos, onde tanto Rāma como Kṛṣṇa, foram guerreiros religiosos. Com os Templários não surge a primeira demonstração da Iniciação guerreira e avatárica dentro do Cristianismo?
O mal da humanidade foi dividir e separar a religião do governo das nações. Governar deveria ser um código religioso, como o que foi dado por Deus aos Reis Profetas de Israel. Assim se exigia o mesmo com Jesus.
Um Messias, ao ter o poder temporal e espiritual tem autoridade para mudar leis já estabelecidas, pois sendo rei (condição iniciática terrena) é Senhor absoluto no seu poder e na obediência. O povo submete-se humildemente ao poder de um rei, quanto mais, se o reconhece também como Messias. Como a mentalidade dos homens evolui, certas leis precisam de ser reformadas para acompanharem a evolução e de acordo com as circunstâncias exigidas, pelo que algumas tradições e normas vão ficando ultrapassadas.
Aarão irmão de Moisés é o primeiro ungido do Antigo Testamento. Deus manda que ele seja consagrado com o santo óleo e assuma o cargo de Sumo- Sacerdote. Saúl, por intermédio do Profeta Samuel é o segundo ungido do Senhor e é sagrado Rei, seguindo-se David e Salomão. Esta designação e função significa que Deus dá a sua bênção a alguém considerado especial, que deve expressar entre os homens a majestade e vontade divina e conduzir um povo ou uma nação, até ao Seu Trono. Aquele que é revestido desta unção sagrada deve exercer a santidade, a justiça e o poder para inspirar os homens a cumprirem a Vontade de Deus, pois é no ungido que está a Vontade Suprema.
Quando David teve a oportunidade de matar Saúl e não o fez, disse aos seus homens: «Deus me guarde de jamais cometer este crime, estendendo a mão contra o ungido do meu Senhor, pois ele é consagrado ao Senhor». Samuel, I 24.
Quando um Messias exerce o Seu Poder entre os homens, a forma que tomará a Sua Obra dependerá não só das circunstâncias exteriores, como das disposições daqueles que vêm com responsabilidades de assegurarem os acontecimentos, pois um Messias não vem só. Ele é acompanhado sempre, por uma elite de seres que o reconhecem e estimulam, pois sem o reconhecimento de alguns, pouco pode fazer sozinho numa sociedade que normalmente o rejeita. Um Messias ou Avatāra vem sempre numa linha de sacrifício com o poder de renovar, mas também de destruir. Quando um novo Alento Divino é manifestado por um Messias, ele é, naturalmente, para conduzir os homens a novos horizontes conscienciais e, derrubar as barreiras mentais que dificultam a evolução humana, gerando-se então, conflitos. Aquilo que é válido deve permanecer, o que é inferior ou caduco deve desaparecer. A existência obriga a uma constante renovação por forças regeneradoras do Universo, que se reflectem também no homem, para acompanhar a evolução.
Um Messias, contudo, tem primeiro de reconhecer-se a si próprio antes que os outros o reconheçam, pois só com essa convicção é capaz de governar as energias de Poder e de Amor que lhe são confiadas, quando se manifesta na Terra em seu corpo físico. Jesus sabe que é o Messias e é com a força da certeza que fala nas obras do Pai.
Momento sublime de comunhão com Deus e consigo próprio, aquele em que na Sinagoga abre o Livro da Escritura e depara com a profecia de Isaías:
«O Espírito do Senhor repousa sobre Mim,
Porque o Senhor Me ungiu.
Enviou-me a levar a Boa Nova aos humildes;
A curar os corações despedaçados,
A anunciar a redenção aos cativos,
E a liberdade aos prisioneiros,
A publicar um ano de graças da parte do Senhor».
Isaías, 61.
Depois cala-se e senta-se e todos os olhares se cravaram nele. No silêncio de Jesus estava a solene e íntima persuasão, e no silêncio também pairariam as palavras que os outros não ousavam pronunciar admitindo-o como Messias.
Então disse: «Está hoje cumprido este passo da Escritura que acabais de ouvir». S. Lucas.
Foram importantes os desígnios espirituais que estiveram por detrás da vinda de Jesus à Terra, e da sua morte. Novas oportunidades e altos valores foram acrescentados à vida humana depois de Jesus. Todavia, sendo a Ressurreição a apoteose do Cristianismo a morte foi, no entanto, prematura porque Jesus não cumpriu o que estava destinado para um Messias, que era assumir o poder político ou temporal e o espiritual. Jesus usou a sua vontade pois recusou o poder temporal de Deus só ficou o silêncio.
«Pai, porque me abandonaste?»
Não foi o Pai que o abandonou, mas Jesus que usou da Sua própria Vontade. Ficou como prova da sua grandeza espiritual, o sacrifício da sua morte, os seus belos ensinamentos e a Ressurreição (manifestação do corpo espiritual ou etérico).
Por acordo entre o Império Romano e os dirigentes religiosos Judeus, os doutores da Lei, todos os Judeus ficaram submetidos à autoridade fiscal e disciplinar desses dirigentes que, por sua vez, comprometeram-se a manter a ordem entre os Judeus. A ruptura essencial entre Jesus e os restantes Judeus mais conservadores foi pelas palavras perigosas, proferidas por Jesus, sobre a destruição do Templo. Depois de Jesus ter expulsado os vendilhões do Templo, os Judeus disseram-lhe: «Que sinal nos apresentas para justificares o Teu proceder? Jesus respondeu: Destruí este santuário e Eu em três dias o levantarei». Evang. S. João.
Na realidade, aconteceu que ao terceiro dia depois de morrer, Jesus apareceu aos discípulos e simbolicamente Ele é o Templo de cada um, já que por Ele se pode receber a energia divina ou Crística directamente no coração.
Tendo nascido no seio do povo de Israel para reformar a Lei, Jesus deveria ter tido também uma acção política, mas rejeitou-a. A elite de sacerdotes submetida aos Romanos teve medo duma sublevação e quis calar Jesus e, o próprio povo que esperava a libertação, atraiçoou-o instigado pelos Sacerdotes, que desta forma, apressaram a sua morte. Ele era o verdadeiro Messias esperado e citado pelos Profetas Judeus, contudo, eles não o aceitaram.
Depois de Pilatos lavar as mãos em presença da multidão, dizendo: «Estou inocente do sangue deste justo: isso é convosco», todo o povo respondeu: «Que o Seu sangue caia sobre nós e sobre os nossos filhos!», Evang. S. Mateus.
Se por um lado o Cristianismo arranjou um bode expiatório, a traição de Judas, para justificar a morte de Cristo e, mais concretamente, morrer na cruz como qualquer malfeitor, por outro foi devido à sua morte e Ressurreição que existe o Cristianismo.
Assim a Religião Cristã baseia-se em certas contradições, opostas ao ensinamento do próprio Cristo que se guiava pela verdade e rectidão e, embora se tenha deixado levar para a morte perante a qual não encontrou alternativa, era inocente. Tinha, porém, um dilema, que consistia entre cumprir a vontade de Deus assumindo-se como Messias e Rei e, naturalmente, desencadear uma revolta, ou então, rejeitar essa decisão que todos esperavam de salvar a Palestina dos Romanos.
É difícil construir a História milénios depois, tanto mais que os homens narram os acontecimentos conforme lhes convém, tendendo à deturpação dos factos, porque muitas vezes não compreendem as razões desses acontecimentos, que pela força das circunstâncias, são precipitadas por acções e emoções incontroláveis. Que o Cristianismo, como religião, serviu para um grande impulso evolutivo da humanidade não temos dúvida e, talvez fosse esta a forma mais condizente com a mentalidade da época, mesmo através de interpretações materializadoras como por exemplo, sobre a Ressurreição.
Nenhum outro homem na História esteve tão unido e identificado com Deus como Jesus e, por isso, não seria necessário morrer pregado na cruz e desprezado pelos homens para se imortalizar, pois bastava a sua personalidade e os seus belos e profundos ensinamentos. Temos o exemplo do Buddha, sobre o qual se instituiu uma religião baseada na sua extraordinária sabedoria, e pela qual se guiam milhões de seres no Oriente e, hoje, também no Ocidente. O Buddha apelou à compreensão do sofrimento para que os homens dele se libertassem, e vivessem em harmonia pela paz interior. Cristo ensinou que os homens se aperfeiçoassem e obtivessem a felicidade através da comunhão com Deus e, apelava também, à vida em rectidão para se viver em paz. Mas o Cristianismo, já como religião e devido à morte brutal do Cristo, viu e propagou o sofrimento como meio de progresso espiritual. Ora isto foi apregoado pelos Cristãos, e não pelo Cristo.
Penso contudo, que estes dois seres, em suas personalidades pouco têm em comum, pois se os seus ensinamentos não diferem muito, já as suas vidas e suas missões são completamente diferentes. Talvez porque o Cristo morreu cedo, não teve tempo de cimentar a sua obra e, portanto, não podemos conhecer melhor a sua personalidade e os verdadeiros desígnios que o trouxeram à Terra. Tudo são deduções, pois Jesus não falou directamente nos seus objectivos e, embora tenha actuado com autoridade espiritual, não teve tempo de cumprir a sua missão no mundo físico, nem o mais importante: mostrar o amadurecimento da sua natureza. Buddha, por exemplo, teve uma vida física, mental e espiritual de acordo com o ambiente onde nasceu e, por ter vivido longamente na Índia, pôde sistematizar uma filosofia ou religião que conduziu, naturalmente, muitos dos seus semelhantes, que viviam no mesmo sistema social, cultural e espiritual. Como Jesus era Judeu e seu estado anímico mental e espiritual era afim com a estrutura judaica, encontrou-se no meio de um povo que sofria o peso do pecado, convencido de que se havia desviado da vontade divina por não cumprir a Lei. E, por isso, tinha sofrido a deportação e a destruição dos reinos, o de Israel e de Judá, depois de se ter constituído como uma nação santa e poderosa. Os Judeus tornaram-se rígidos e profundamente pessimistas quanto ao presente e, estavam dependentes da esperança no futuro de uma intervenção divina, que pusesse fim ao sofrimento de viverem subjugados por outros povos. Jesus compartilhava, de certo modo, com os seus contemporâneos das esperanças e aspirações enraizadas, poderosamente, em todo um passado histórico e religioso.
Nessa mesma época no Ocidente, que experiência havia de Messias, Profetas ou Avatares? Os Romanos pouco compreendiam das tradições religiosas judaicas, estavam ligados aos seus deuses e tradições e assentavam o seu domínio político no cumprimento das leis, sob a força das armas. Ora, no Ocidente os Romanos foram os primeiros Cristãos, pelo que ajustar estas duas correntes anímicas civilizacionais foi bem difícil, do qual resultou uma amálgama de ideias, de conceitos e, com muitas contradições, à qual se dá o nome de mistérios e dogmas católicos.
Os primeiros Padres da Igreja depois dos Apóstolos, esforçaram-se por introduzir e adaptar a mentalidade e estrutura psíquica e religiosa do mundo Judeu para o mundo Romano, uns com grande engenho, outros mais literalmente. Se por um lado, o Cristianismo se rege pela Bíblia, que era e é o Livro do povo Judeu, por outro, em determinada altura, logo no século I, assumiu uma posição de afronta (e defesa), contra os Judeus e suas Leis, adaptando a vida de Cristo e a sua obra, de acordo com as suas mentalidades e objectivos. Ora, para encontrar a verdadeira essência espiritual da Religião Cristã, temos de ligar-nos à sua base primordial, que é ainda e, acreditando nos Evangelhos, a figura de Jesus, onde o Amor e a Compaixão estão tão patentes na sua vida e nas suas palavras, que se tornaram um arquétipo eterno. Aquele que se transforma e esforça pela perfeição encontra-se um dia perante a Iniciação Crística, que lhe permite entrar através do coração ou do Amor, na essência de Cristo e, com Ele partilhar e permanecer na sua glória. Para o Iniciado ou para o místico, entrar no coração de Jesus é entrar na excelsa beatitude e comungar com Ele na Fonte Divina. Jesus foi um veículo da Vontade de Deus para revelar os propósitos divinos para o mundo, actuando como um Raio de Deus através da Sua palavra. “O Verbo se fez carne”. O Seu Amor fluiu de Jesus para a humanidade, pelo poder do coração com a instituição da Iniciação Crística, ou seja, da abertura do coração ao Amor de Deus e, consequentemente, abrir-se também ao Seu Poder e realizar coisas em Seu Nome.
Era por ser o transmissor dessas verdades que Cristo falava com convicção, força e autoridade. Quem senão um ser convicto e senhor do conhecimento de Deus se atreveria a dizer tais coisas, como a de perdoar os pecados e realizar milagres?

Excerto do capítulo "O Cristianismo e o Judaísmo" da obra "A Eterna Sabedoria".
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