Fundação Maitreya
 
A Meditação e os Benefícios na Saúde

de Maria

em 03 Mai 2018

  Todas as religiões reconhecem um valor supremo, a que chamam Deus. Para os cristãos, islâmicos e certas correntes hindus mais devocionais, a oração funciona como uma comunicação com Deus e é o meio pelo qual se pode obter a perfeição ou iluminação. Outras religiões, que não falam abertamente em Deus, a oração evolui para meditação, que pode ser definida como um estado intenso em atingir o mais alto da perfeição, a realização espiritual, a libertação ou iluminação, seja chamando-lhe, Nirvāṇa no caso do Budismo, seja Kaivalya no Jainismo, ou o Samādhi no Sāṃkhya - Yoga, contudo, será sempre para atingir algo que transcenda o humano.Vemos que todos os sistemas religiosos ou filosóficos do Oriente se servem da Meditação para alcançar a Transcendência. Desde tempos milenares, o Yoga, por exemplo, que tem como base a prática da Meditação foi considerado uma ciência, pois permite gradualmente, através do conhecimento e da prática (observar e conhecer), o despertar consciente para uma via segura de auto-conhecimento, auto-suficiência e transformação interior para a conquista da realização humana e espiritual.


É a forma que permite acompanhar conscientemente as transformações que se vão operando interiormente, e poder identificar e definir com clareza mental essas mutações.
De facto, não temos uma tradição de Meditação no Ocidente que se compare à tradição do Oriente. Meditar no Ocidente é reflectir sobre um problema e através da maturação do pensar chegar a conclusões (por vezes sem sucesso) ou recolher a mente ao silêncio, apenas à espera de uma ideia. Meditar na tradição Oriental é exactamente o contrário: retirar as ideias. Isto requer práticas e métodos com objectivos específicos pelos quais se vem a conhecer os próprios mecanismos da mente. Assim, para que se obtenha a paz mental, envolve primeiro, um dinamismo para o conhecimento que leva a essa paz. É um trabalho de vigilância, de alerta, que de forma natural se fortalece e educa a mente e se desenvolve a inteligência.

Assim, o que leva à serenidade da mente é o efeito, o resultado do trabalho consciente da prática. A Meditação desenvolve a percepção desses movimentos da mente, tornando-nos conhecedores da forma como a mente funciona, que o mesmo é dizer, conhecemos o que realmente somos, porque nós somos a mente. Portanto, se a prática da Meditação interfere na mente, automaticamente também interfere, e de imediato, no funcionamento do cérebro ajustando naturalmente os seus mecanismos – tornando a Meditação essencialmente numa prática de desenvolvimento inteligente sobre nós mesmos, sendo que é através deste conhecimento, que se obtém a auto-realização. A via da Meditação, não é portanto, uma fuga à vida, mas o viver de forma consciente, presente, perene, que capacita o praticante a enfrentar com maior domínio, os desafios inerentes à sua própria vida.

Ao contrário do que se divulga actualmente no Ocidente sobre a utilização da palavra Meditação para fins de relaxamento, deturpando e denegrindo todo o valor da essência da Meditação, ela é uma prática espiritual que implica a sublimação humana para alcançar a Transcendência ou o religar à Fonte, através de elevados estados de Consciência, conseguidos pela mente desperta e pelo conhecimento consciente. Na realidade, a expansão de Consciência só pode resultar de uma prática honesta e determinada de Meditação.

Um dos graves problemas dos meditadores é a impaciência quanto aos resultados da Meditação.
Não há Meditação (serenidade) instantânea. A Meditação requer um “esforço” contínuo, e é para a vida inteira. Não é uma senda de pesar, mas de alegria, e deve haver uma séria determinação, veemência e entusiasmo. O alento vai-se adquirindo com a prática, porque a Meditação é algo de muito vivo e pleno de energia, que interfere interiormente, sendo que é da própria prática da Meditação que vem a motivação, pois há uma inter-acção entre o Espírito e a prática. Passa-se de uma mente entorpecida, para uma mente activa, no sentido de a levar ao objectivo correcto ou motivação superior, que leva paradoxalmente a mente ao poder de concentração.

A prática (sādhana)(1) é um instrumento eficaz e preciso. Com a prática chega-se à experiência do silêncio profundo, sereno, e passo a passo leva à transformação total da mente. Desta forma, a mente recebe estímulos constantes, ora de esclarecimento e compreensão, ora de acalmia, que leva a encontrar nos resquícios do subconsciente, os obstáculos à evolução e à claridade. Porém, não se deve querer repetir as sensações e experiências, senão tornar-se-ia monótono. A Meditação é exactamente, algo dinâmico dentro de nós que nos oferece contínuos espaços mentais e vastos horizontes, e cada Meditação é única, pois o que vivenciamos ontem como experiência, representa apenas uma aprendizagem e que jamais será repetida. Assim é necessário ter atenção e discernimento para acolher as transformações que vão ocorrendo, porque a Meditação em si, é uma realização que nos mostra o momento da compreensão/transformação que está a ocorrer no nosso interior: representa um movimento interior de remoção de bloqueios.

Os bloqueios, podem ser específicos ou não. Específico é quando encontramos um obstáculo que pode ser de natureza dos sentimentos - raiva, inveja, revolta, ódio. Eles podem ser detectados facilmente por qualquer pessoa no seu próprio interior; então ao ter consciência desse sentimento pode “agarrá-lo” e trabalhá-lo no sentido de tomar atenção quando ele surge, e transformá-lo, sublimá-lo pela compreensão, apaziguando assim a sua mente em relação a um sentir inferior, que constituía uma fonte de sofrimento, não só para si mesmo, como para os outros.
Sublimar significa a tomada de atenção relativa a algum sentimento inferior. Enfrentando esse sentimento negativo deve-se transmutá-lo pela compreensão e, ao fim de algum tempo, vem a reconhecer essa própria transformação. Quando finalmente já não identifica esse sentimento dentro de si, não só se sente feliz, como aliviado da carga emocional de tal sentimento. Isto é o que se chama a remoção dos obstáculos interiores, os saṃskāras e nos mostra a evolução que se vai ganhando no percurso espiritual – o ser qualificou-se – deu mais espaço à luz do amor e à lucidez mental.

Aqueles que não são específicos, são mais difíceis de identificar, como por exemplo, o egoísmo, que se manifesta, não só de muitas formas evidentes, como subtilmente; pode enraizar-se em todos os actos de uma forma tão profunda que a pessoa o identifica como a sua personalidade, o “eu sou”, não dando conta da vaidade, da posse, do orgulho, enfim, vivendo num estado de natureza inferior, bem instalada no seu sentir egóico.
Um dos paradoxos da vida e que naturalmente a torna estranha, é a busca da segurança e da continuidade, contra aquilo que está sempre em estado de fluxo, movimento constante.

Nada está ao acaso, não há arbitrariedade, tudo segue uma direcção sob leis imutáveis. Por vezes tomamos decisões, que pensamos serem de um suposto livre arbítrio, contudo, essa é a hora, o momento em que já não se pode escapar mais e as forças superiores obrigam à decisão. Depende dos seres tomar as decisões com mais ou menos sofrimento ou em plena alegria; quando há consciência do Caminho e das suas necessidades, há mais intuição para decisões, quando não, o sofrimento vem pela resistência à mudança e entra a dúvida, a não - aceitação e o consequente sofrimento.
Na realidade, nada está isolado, tudo o que somos hoje resulta do que fomos ontem – o passado e o presente estão indissoluvelmente ligados, e são as referências do passado que nos servem para vivermos o presente e construir o futuro. É necessário pois aprender a combinar o Conhecimento do passado com a aspiração ao futuro. Mesmo um passado negativo, quando transferido para o presente serve de motivo para um melhoramento ou reposição de energias que foram corrompidas.

Cada pensamento consciente contribui para a evolução. Cada pensamento possibilitaria o Caminho certo, se as pessoas fossem mais conscientes das consequências dos seus pensamentos! O pensamento é uma energia poderosa; a força com que pensamos, o motivo e o objectivo influencia-nos e, dependendo da direcção do pensamento negativo ou positivo, assim colheremos os resultados.
Pensamentos mal dirigidos contribuem para uma perversão doentia da própria energia psíquica e tornam-se um obstáculo à Consciência alargada.
Um pensamento positivo de aspiração superior, ou uma palavra benéfica, pode ser um grande catalisador para uma inesperada experiência de expansão de Consciência, portanto de Amor, de súbita iluminação.

1 – Os quatro Sādhaṇas, segundo o Vedānta: o discernimento, a falta de desejo, a tranquilidade e a vontade da libertação.
   


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Impresso em 3/7/2022 às 13:20

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