Fundação Maitreya
 
A Beleza do Divino

de Benoy K. Behl

em 20 Jun 2010

  Na filosofia indiana a nossa experiência da beleza quando respondemos a um pôr-do-sol ou a uma grande obra de arte é vista como um momento em que percebemos a graça que está por detrás de toda a criação. Nesse momento, levantam-se os véus de ilusão do mundo material e conseguimos ver para além…
Um artista apresenta o mundo ao seu redor influenciado pela maneira como ele vê o mundo: pelas suas percepções e crenças.


A arte antiga da Índia é um registo valioso de uma das mais antigas civilizações do mundo. Aquilo que é fascinante é que é uma cultura que continua viva até hoje.
A arte da Índia antiga apresenta-nos uma visão de grande compaixão. É uma visão do mundo que vê a harmonia em toda a criação. Vê aquilo que está em todos nós, nos animais, nas flores, nas árvores, nas folhas e até no vento que abana as folhas. Tudo que existe no mundo é visto como um reflexo do grande Ser.
O mundo dos fenómenos, dos seres individuais e dos objectos ao nosso redor é uma ilusão, percebida e transmitida pelos nossos sentidos. Essa informação fornecida pelos nossos sentidos é de uma natureza pessoal e objectiva. Absorvidos nisso, estamos cegos para além dessa realidade. A ilusão primária é a percepção de nós próprios como entidades individuais, que nos induz num caminho egocêntrico. Nesse caminho ficamos distanciados da verdade.
O mais alto propósito da vida é procurar reintegrar-se com o Ser, para nos apercebermos como uma parte da beleza do Ser único, do divino. Vermo-nos a nós próprios como uma parte da divindade da existência e assim perder a dor de uma vida encurralada numa teia de desejos intermináveis.
A experiência estética é muito valorizada na filosofia indiana. Levanta os véus da ilusão que escondem a verdade aos nossos olhos. A nossa experiência da beleza quando contemplamos um pôr-do-sol ou uma grande obra de arte é vista como um momento quando nos apercebemos a graça que está por detrás de toda a criação. Nesse momento. Levantam-se os véus de ilusão do mundo material e conseguimos ver para além… Nesse momento não são as nossas preocupações materiais que enchem a nossa consciência, cegando-nos assim à maior realidade que nos rodeia.
Na filosofia indiana o momento de uma experiência estética é considerado ser “como Brahmānanda”, ou a extasia final da própria salvação. Por isso a arte desempenhou um papel muito importante na vida do sub-continente indiano. O Chitrasūtra da Vishnudharmottara Purāna, que foi escrita à base das mais antigas tradições orais no século V, é talvez o mais antigo tratado sobre arte no mundo ao nosso conhecimento. Afirma que a arte é o maior tesouro da humanidade, muito mais valiosa que o ouro ou que as jóias.
Não há deuses na visão primordial filosófica indiana. Havia divindades: divindades que personificavam conceitos e qualidades. Nós temos essas qualidades dentro de nós e ao responder a essas divindades que a arte nos transmite, redescobrimos esses aspectos subtis dentro de nós. Olhar para a arte ajuda-nos a encher-nos com essas qualidades subtis para que eventualmente essas melhores partes de nós podem florescer. Quando estamos cheios dessa graça já não há espaço para os desejos básicos e para as dores: transformamo-nos nessa divindade.
O escultor indiano via a graça divina em tudo. A pedra que cinzelava continha a imagem do Divino e era a sua tarefa tirar as partes supérfluas e libertar a forma que estava dentro da pedra. Não era apenas uma alegria pessoal de descoberta e criação, também era a alegria de partilhar a beleza inerente do mundo com os outros.
A criação da arte na Índia foi um processo de meditação: o processo de uma vida passada na adoração e na descoberta. A criação da beleza da forma é um acto do escultor, uma nova e alegre redescoberta cada vez mais da glória e beleza divinas.
A escultura indiana é naturalista numa forma muito diferente da maneira da arte que procura representar apenas as formas transitórias dos objectos do mundo. Aqui o naturalismo é a expressão daquele sentido interno que subjaz à superfície dos objectos, esse sentido interno dentro das árvores, dos animais e das pessoas: o espírito que anima toda a criação.
Visto que o ego e a crença na própria identidade eram considerados como uma ilusão das nossas sensibilidades limitadas, nunca houve nenhum foco nos indivíduos. Grande parte da arte da Índia foi produzida durante a antiguidade. Essa arte representava as divindades, as criaturas míticas, os animais, as plantas, as árvores e formas que combinavam isso tudo com grande harmonia, para além dos homens e mulheres do povo. Todavia nunca representou os reis que patrocinavam essa arte. Nem se mencionavam os nomes dos artistas. Segundo o antigo tratado sobre a produção de arte, o Chitrasūtra, os dignitários não eram suficientemente importantes para serem representados na arte. O propósito da arte é nobre: para mostrar o eterno que está para além do efémero.
Assim, as obras de arte deviam transmitir a Verdade, mais uma vez a verdade da experiência do artista. Nenhum artista ou pensador afirmava que era o único a ver a verdade. Cada mestre do antigo período da história indiana afirma que apenas está a seguir nas pegadas dos outros que o antecederam. Houve uma ênfase no acto de perder o ego e não perpetuar o ego e a arte era um veículo principal para comunicar essas ideias.
A arte muitas vezes usa as imagens da vida material. Alcançar o conhecimento é considerado igual a alcançar a vitória. Vimos as imagens de divindades a esmagar os demónios da ignorância com os seus pés. Todavia, os demónios sorriem enquanto estão a ser vencidos. Neste mundo, onde todas as coisas são vistas como um todo cósmico, no fim, não há angústia. A arte reflecte a riqueza e a complexidade da experiência da vida. Não nega a nossa percepção do mundo material. As percepções nas nossas mentes e os sentidos do eterno e do efémero são descritos como uma “lila”, uma peça dramática e dinâmica. Na procura da verdade, é impossível evitar a experiência dessa “lila” e não há nenhuma tentativa de negar essa realidade.
Uma das maiores contribuições desse fluxo filosófico é que não há contradições entre o mundo espiritual e o mundo dos sentidos. Essa filosofia não procura negar-nos a nossa reacção à beleza que percebemos no mundo, incluindo as formas humanas ao nosso redor. Aliás, vê essa beleza como um reflexo da glória do divino. A beleza da forma humana, que está sempre presente na nossa vida, não era apresentada de maneira a suscitar os desejos básicos e a cansar o espectador com esse fardo. Essa arte vê a graça em todas as formas, tanto humanas como as outras, como uma ajuda para o despertar de um entendimento feliz dentro de nós. Procura elevar-nos através das nossas respostas estéticas.
Todos os monumentos indianos reflectem uma grande cultura cosmopolita desde a antiguidade. As influências artísticas eram recebidas de todo o lado calorosamente e, algumas dessas influências permaneceram durante séculos nos fluxos da nossa arte.
Os estilos, os motivos e as iconografias artísticas espalharam-se rapidamente na antiguidade para todos os cantos do país. Por isso, encontramos temas e estilos artísticos comuns em toda a Índia desde as brumas da nossa história. As variações regionais e as diversas cores acrescentaram mais um elemento de riqueza a essas tradições.
Aquilo que sobrevive hoje em dia da arte antiga da Índia é apenas uma pequena fracção daquilo que foi criado. Todavia, ainda assim consiste em tantos monumentos e esculturas que é impossível conceber a escala original. Há um enorme corpo de obras em todos os cantos do sub-continente indiano.
A história da arte é a história da humanidade, a história das percepções e dos pensamentos humanos. Desde a civilização mais antiga que floresceu ao longo dos vales dos rios da bacia hidrográfica do rio Indo podemos ver os alicerces da arte de uma antiga cultura. Presenciámos uma visão do mundo e as raízes de uma cultura que já sobreviveu mais de 5000 anos até aos nossos dias. É uma cultura à base da crença da unidade de toda a criação. É um acto de nos entregarmos alegremente à ordem natural em vez de dominar e controlar as forças ao nosso redor. São essas as características da visão da vida e da arte da Índia antiga.

Cortesia da Revista India Perspectives
   


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