Fundação Maitreya
 
Celebrando a dança cósmica de Shiva

de Radhakrishna Rao

em 14 Jul 2010

  O “Natarāja” ou o Shiva dançante, é um dos temas magníficos da mitologia hindu. Uma fonte de inspiração para artistas e um símbolo de adoração para o povo em geral, a figura tem muitos significados, mensagens e metáforas.
O ícone de “Natarāja” representado na dança cósmica de Shiva, é muito popular junto dos conhecedores de arte e apaixonados pela dança em todo o mundo. O progenitor divino da dança, o “Natarāja” sempre fascinou e captou o imaginário indiano ao longo dos séculos. A arte e a cultura indianas são repletas de referências as várias formas de dança, interpretadas e aperfeiçoadas pelo “Nataraja”- a fonte criativa da dança.


Há muitos santuários e templos dedicados ao “Natarāja”em Tamil Nadu, um estado no sul da Índia. O mais venerado entre todos os templos de “Natarāja”, é o magnifico santuário em Chidambaram onde a lenda reza que Shiva dançou o ānanda tandava ou a dança do êxtase. Situado a cerca de 200 km de Madrasta, o templo de “Natarāja”, que é também conhecido como o Kanakasabha (sala dourada de dança), é intrinsecamente ligado com a arte, a cultura e a arquitectura do país e com a própria fundação da tradição espiritual hindu. Chidambaran é o mais importante dos cinco santuários dedicados a Shiva dançante em Tamil Nadu. Aqui, no antiquíssimo santuário do “Natarāja”, Shiva representa o elemento de ākāsa (ar). Os outros quatro santuários são Kancheepuram (terra), Thiruvannamalai (fogo) e Kalahasti (vento). Na tradição espiritual hindu, esses cinco elementos vitais, que juntamente são conhecidos como os Pancha Mahabhutas , constituem os alicerces da vida.
Dado que o santuário do “Natarāja” em Chidambaran é o mais venerado, chama-se o Ponnambalam, que significa “templo dourado” e kanakasabha, significando a sala dourada da dança. Atrás da imagem do “Natarāja”, separado por um véu é o ākāsa liṇga - o célebre segredo de Chimdabaram. O sítio do ākāsa liṇga é conhecido como chitsabha. O Kanakasabha é o complemento frontal do Chitsabha. É um pequeno alpendre construído na mesma fundação de pedra, com uma porta de madeira. O nritya sabha ou a sala da dança, é uma estrutura artística com um desenho muito estético. O edifício foi construído por Kulothunga Chola e é uma sala graciosa com 56 colunas decoradas com figuras representando os vários humores e manifestações do Lorde de “Natarāja”. Aliás, o templo de Chimdabaram desempenha um papel central na arte da dança e a divindade que preside, “Natarāja” representa o rei dos intérpretes, sendo um símbolo da arte da dança. O seu significado esotérico é cheio de grandes dimensões espirituais – o tambor na mão direita simboliza que ele é o salvador e o protector do mundo. A pele em volta da cintura significa a anulação do aham (ego). O pé direito a esmagar o anão malevolente significa a destruição do mal. Na antiguidade, Chimdabaram era conhecido por diferentes nomes como Tillai Ponnambalam, Vyagrapuram e Chibataram. A lenda reza que foi o filho de um sábio, Madhyandina Ṛṣi, que encontrou um Shivaliṇga em baixo de uma árvore na floresta de Tillai e rezou a Deus, pedindo o dom de ter os pés e as unhas de tigre para poder subir às árvores e buscar flores para oferecer durante as suas orações, antes que as abelhas tivessem a oportunidade de lhes sugar o mel. O seu pedido foi concedido e ele ficou conhecido como Vyagrapada, que significa um indivíduo com pés de tigre.
Há outra lenda fascinante sobre como Shiva dançou a sua primeira dança de sempre em Chimdabaram. Era uma vez o Shiva de três olhos, que representa o princípio da destruição na trindade hindu, que quis ensinar uma lição aos sábios de Darukavanam, que se tinham tornado muito arrogantes devido aos seus conhecimentos. Assumindo a forma de um mendicante e acompanhado pelo deus Vishnu, mascarado com Mohini, Shiva foi a Darukavanam. As mulheres dos sábios ficaram encantadas com a beleza do casal divino, facto que enfureceu os sábios. Num ataque de ciúmes, estes tentaram destruir o casal. Fizeram uma fogueira sacrificial, de onde surgiu um tigre que saltou em cima de Shiva. Mas Shiva tirou-lhe a pele e atou-a em volta de sua cintura. Em seguida, os sábios enviaram um anão malevolente ou um apsamara puruṣa contra Shiva, que o matou sem esforço. Com isso os sábios reconheceram a derrota. Assim começou uma majestosa e encantadora dança cósmica de Shiva, que todos os deuses e sábios testemunharam até ao pleno contentamento dos seus corações. Entretanto, quando Adisesha, a serpente que serve como cama a Vishnu, ouviu a descrição animada que este fez da dança, este quis ver a dança também e rezou para que Shiva lhe permitisse vê-la.
Shiva disse-lhe então que iria dançar para ele em Tillai. Adisesha nasceu como Patañjali e foi à floresta, onde Vyagrapada se lhe juntou. Ambos começaram a adorar Shiva, e quando foi a altura de Shiva dançar na presença dos seus devotos a divindade-guardiã do sítio, Bhadra Kālī, não lhe permitiu dançar. Em seguida fizeram um acordo onde, tanto Shiva como Kālī fariam um concurso de dança e a divindade que vencesse iria ganhar o direito de ocupar esse lugar. Assim Shiva dançou a sua ānanda tandava (dança do êxtase) na presença dos seus devotos e venceu Kālī para tomar posse de Tillai. O magnífico templo de Meenakshi Sundareswara em Madurai tem um santuário dedicado a “Natarāja”, que é o santuário mais importante, depois do templo de Chidambaram. Esse santuário chama-se o rājatha sabha (sala de prata). Aí é possível ver o ídolo de Natarāja de pé balançando a sua perna direita, enquanto nas outras quatro salas ele é representado balançando a sua perna esquerda. No santuário dedicado a Shiva em Kutralam, diz-se que o Natarāja dançou a sua vivaz dança de tripura tandava no célebre chitsabha. No templo de Kailasanatha em Mahabalipuram, perto de Madrasta, é possível ver uma gama variada de formas dançantes, interpretadas pelo Natarāja. É um tributo esculpido à dança cósmica de Shiva.

Cortesia da Revista India Perspectives
   


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