Fundação Maitreya
 
Plena Atenção - 1º Parte

de Ajahn Sumedho

em 03 Jan 2011

  Introdução: O objectivo deste livro é proporcionar uma instrução clara e uma reflexão sobre meditação budista, tal como é ensinada por Ajahn Sumedho, um bhikkhu (monge) da tradição Theravada. Os capítulos seguintes foram editados a partir de palestras longas que Ajahn Sumedho deu a meditadores, como uma abordagem prática à sabedoria do Budismo. Esta sabedoria é também conhecida como Dhamma ou “a forma como as coisas são”. Somos convidados a usar este livro como um manual, passo-a-passo. O primeiro capítulo tenta apresentar a prática do Budismo de uma maneira geral clara e as secções subsequentes podem ser tomadas uma a uma e seguidas de um período de meditação. O terceiro capítulo é uma reflexão acerca da compreensão que se desenvolve através da meditação.

Mara tentando o BuddhaO livro termina com a forma de tomar os Refúgios e os Preceitos o que redimensiona a prática da meditação dentro do contexto mais abrangente do trabalho a ter com a mente. Estes podem ser pedidos formalmente a budistas ordenados (Saṅgha) ou serem assumidos pessoalmente. Eles constituem os pressupostos através dos quais os valores espirituais são trazidos ao mundo.
A primeira edição deste livro, em inglês, (2000 cópias) foi impressa em 1985 – aquando da abertura do Centro Budista Amarāvatī – a qual, se esgotou rapidamente. O livro foi muito apreciado e algumas pessoas ofereceram-se para patrocinar uma nova impressão; desta forma fizemos uma revisão mais meticulosa do que a anterior e adicionámos algum design para melhorar o livro como um todo; à parte disso o texto manteve-se. Como este livro foi inteiramente produzido através de contribuições voluntárias e de serviço ao Dhamma, é pedido aos leitores que respeitem esta oferenda, mantendo-a disponível de forma gratuita.
Possam todos os seres realizar a Verdade.
Venerável Succito

PLENA ATENÇÃO

O Caminho para a Imortalidade

Antes de começar

A maior parte destas instruções podem ser levadas a cabo quer estejamos sentados, em pé ou a andar. Contudo, a técnica da Plena Atenção da respiração (ānāpānasati) mencionada nos primeiros capítulos é geralmente realizada na postura de sentado, uma vez que aquela é potencializada quando realizada num estado físico de quietude e estabilidade. Para este estado a ênfase é em sentarmo-nos de forma a que a coluna esteja erguida mas não em esforço, com o pescoço alinhado com a coluna e a cabeça em equilíbrio de forma a não pender para a frente. Muitas pessoas acham que a postura de Lotus de pernas cruzadas (sentados numa almofada ou num tapete, com um ou ambos os pés colocados na coxa oposta, com as plantas dos pés para cima) confere um equilíbrio ideal entre esforço e estabilidade – após alguns meses de prática. É bom treinarmo-nos gentilmente nesta direcção, um pouco de cada vez. Se esta postura for muito difícil, pode ser usada uma cadeira de costas direitas.
Após ter-se alcançado estabilidade e um certo equilíbrio físico, a cara e os braços devem ficar descontraídos, com as mãos a descansar no colo, uma na palma da outra. Deixem as pálpebras fecharem-se, relaxem a mente … escolham o objecto de meditação.

Jongrom, uma palavra tailandesa derivada do Pāli (linguagem das escrituras) “caṅkama” significa passear para a frente e para trás num caminho a direito. O caminho deve ser medido, sendo o ideal vinte a trinta passos entre dois objectos claramente identificáveis de modo a não ter que contar os passos enquanto pratica o jongrom. As mãos deverão estar unidas de uma forma suave, à frente ou atrás do corpo, com os braços relaxados. O olhar deverá estar direccionado no caminho sem se focar nele, a uma distância de aproximadamente dez passos à frente, não para observar nada em particular mas para manter o ângulo mais confortável para o pescoço. O caminhar começa então com uma postura correcta e quando se chega ao fim do percurso devemos permanecer imóveis por um período que pode durar uma ou duas respirações. Então, conscientemente, viramo-nos e recomeçamos a andar no sentido contrário.

Investigação

O que é meditação?

A palavra meditação é uma palavra bastante usada nos dias de hoje, abrangendo um vasto leque de práticas. No Budismo fala-se de dois tipos de meditação –“samatha” e “vipassanā”. A meditação “samatha” é um tipo de meditação na qual se concentra a mente num objecto ao invés de a deixar preambular. Escolhe-se um objecto de meditação, tal como a sensação da respiração, colocando-se toda a atenção nas sensações da inalação e da exalação. Através desta prática começamos eventualmente a experienciar uma mente calma e tornamo-nos tranquilos, pois estamos a eliminar todas as outras impressões que captamos através dos sentidos.
Os objectos usados para tranquilizar são tranquilizantes (nem valia a pena dizer!). Se quiserem excitar a mente vão para um sítio excitante, não vão para um mosteiro Budista, mas sim a uma discoteca!... Excitação é algo no qual é fácil concentrarmo-nos?! É uma vibração tão forte que nos atrai imediatamente. Se formos ao cinema e o filme for realmente empolgante ficamos fixados no ecrã. Não temos que fazer qualquer esforço para observar algo que é muito excitante, romântico ou repleto de aventuras. Mas, não estando acostumados, observar um objecto tranquilizador pode ser tremendamente enfadonho. Quando estamos habituados a coisas muito mais excitantes o que é que pode ser mais aborrecido do que ficarmos a observar a nossa própria respiração? Para o podermos fazer temos que “forçar” a nossa mente uma vez que a respiração não é interessante, romântica, cheia de aventuras ou cintilante – é simplesmente o que é. Por isso temos de nos esforçar pois não estamos a receber qualquer estímulo vindo do exterior.

Neste tipo de meditação não tentamos criar qualquer imagem, apenas concentramo-nos na sensação normal do nosso corpo tal como ele está no momento, mantendo a nossa atenção na respiração. Quando fazemos isto a respiração torna-se mais e mais refinada e nós acalmamos… conheço pessoas que prescreveram meditação samatha para a tensão arterial elevada pois acalma o coração.
Assim, esta é a prática da tranquilidade. Podemos escolher diferentes objectos para nos concentrarmos, mantendo a nossa atenção até sermos absorvidos ou tornarmo-nos um só com o objecto. Na realidade sente-se uma noção de unidade com o objecto no qual nos concentramos e isto é o que é chamado de absorção.
A outra prática é “vipassanā” ou meditação de insight. Com a meditação de insight abrimos a mente para tudo. Não escolhemos nenhum objecto em particular para nos concentrarmos ou absorvermos, mas ficamos simplesmente a observar de forma a compreendermos as coisas tal como são. E o que podemos observar ao ver “como as coisas são” é que toda a experiência sensorial é impermanente. Tudo o que vemos, ouvimos, cheiramos, saboreamos e tocamos; todas as condições mentais – os nossos sentimentos, memórias e pensamentos – são condições mentais em constante mudança, as quais surgem e cessam. Em vipassanā assumimos esta característica da impermanência (ou mudança) como uma forma de olhar para toda a experiência sensorial que podemos observar enquanto estamos aqui sentados.

Não se trata de uma mera atitude filosófica ou de uma crença numa teoria budista específica. A impermanência é para ser totalmente reconhecida no nosso interior através da abertura da mente à observação e consciencialização das coisas tal como elas são. Não é uma questão de análise, assumindo que as coisas deveriam ser de uma determinada forma e, quando não o são, tentar perceber porque é que é. Com a prática de insight não estamos nem a tentar analisar-nos, nem a tentar mudar algo de maneira a que isso se adeqúe aos nossos desejos. Nesta prática, observamos simplesmente que tudo aquilo que surge, seja mental ou físico, passa e desaparece.
Isto inclui os próprios órgãos dos sentidos, o objecto dos sentidos e a consciência que surge aquando do contacto com esses objectos. Existem também as condições mentais de gostar e de não gostar do que vemos, cheiramos, saboreamos, sentimos ou tocamos; os nomes que atribuímos e as ideias, palavras e conceitos que criamos à volta da experiência sensorial. Grande parte da nossa vida é baseada em assunções feitas devido a não se compreender e a não se investigar realmente a maneira como as coisas são. A vida, para quem não está desperto nem consciente, tende a tornar-se deprimente ou confusa, especialmente quando algo nos decepciona ou quando ocorre alguma tragédia. Nessas alturas ficamos esmagados por não observamos as coisas tal como elas são na realidade.

Na terminologia budista usamos a palavra Dhamma, ou Dharma, que significa, “como as coisas são”, “as leis naturais”. Quando observamos e praticamos o Dhamma abrimos a nossa mente para as coisas tal como são. Desta forma, já não estamos a reagir cegamente à experiência dos sentidos mas sim a compreendê-la e, através dessa compreensão, começamo-nos a desapegar. Começamo-nos a libertar de sermos naturalmente esmagados, cegos e iludidos pela aparência das coisas. Estar consciente e desperto não é uma questão de nos tornarmos nisso, mas de o sermos. Observemos as coisas tal como elas são neste preciso momento ao invés de fazer algo agora para nos tornarmos conscientes no futuro. Observamos o corpo como ele é, aqui sentado. Não pertence tudo à natureza? O corpo humano pertence à terra, precisa de ser sustentado por coisas provenientes da terra. Não podemos viver simplesmente do ar nem tentar importar comida de Marte ou de Vénus. Temos que comer daquilo que vive e cresce nesta Terra. Quando o corpo morre regressa à terra, apodrece, desfaz-se e torna-se novamente um com a terra. Segue as leis da natureza, da criação e da destruição, do nascimento e da morte. Tudo o que nasce não se mantém no mesmo estado: cresce, envelhece e morre. Tudo na natureza, até o próprio universo, tem os seus períodos de existência, nascimento e morte, começo e fim. Tudo quanto nos apercebemos e que concebemos é transitório, impermanente, e portanto nunca nos poderá satisfazer de forma permanente.

Na prática do Dhamma também podemos observar o carácter insatisfatório da experiência sensorial. Reparem simplesmente na vossa própria vida: quando esperam satisfazer-se através de objectos ou experiências sensoriais, apenas o conseguem fazer temporariamente, talvez gratificados e felizes nesse momento, mas imediatamente a seguir isso muda. Isto acontece por não existir nada na consciência sensitiva que tenha essência ou qualidade permanente, daí a experiência sensorial ser uma constante mudança. Devido à ignorância e à falta de compreensão dependemos imenso dessa experiência; habituamo-nos a exigir, desejar e a criar todo o tipo de coisas, apenas para de seguida nos sentirmos terrivelmente desapontados, desesperados, pesarosos e assustados. Essas mesmas expectativas e esperanças levam-nos ao desespero, à angústia, à lástima, à dor, ao lamento, à velhice, à doença e à morte.
Esta é a forma de examinar a consciência sensorial. A mente pode pensar de forma abstracta, pode criar todo o tipo de ideias e imagens, pode criar coisas muito apuradas ou grosseiras. Existe toda uma gama de possibilidades desde estados muito aperfeiçoados de graça, felicidade e êxtase até às mais densas e dolorosas misérias: do céu ao inferno, usando uma terminologia mais pitoresca. Mas não existe nenhum Inferno permanente nem nenhum Céu permanente. Na verdade não existe nenhum estado permanente que possa ser concebido ou criado. Ao meditarmos, assim que começamos a perceber as limitações, a qualidade insatisfatória e a natureza transitória de toda a experiência sensorial, também começamos a perceber que isto não é o eu ou o meu, é “anattā”, “não-eu”.

Quando tal é realizado começamos a libertar-nos da identificação com as condições sensoriais. Isto acontece não por as regeitarmos, mas por as compreendermos tal como elas são. Trata-se de uma verdade a ser realizada, não de uma crença. “Anattā” não é uma crença budista mas sim uma realização. Mas se não despendermos algum tempo da nossa vida a tentar investigar e compreender, iremos provavelmente viver sempre na convicção de que somos o nosso corpo. Podemos a dada altura pensar “Oh, eu não sou o meu corpo” por termos lido alguma poesia inspiradora ou uma nova abordagem filosófica, podemos até achar que é uma boa ideia não se ser o corpo, mas ainda não realizámos isso. Alguns intelectuais podem dizer “Nós não somos o corpo, o corpo não é o eu” – dizê-lo é fácil, mas sabê-lo realmente é outra coisa. Através desta prática de meditação, da investigação e da compreensão de como as coisas são, começamo-nos a libertar do apego. Quando já não tivermos expectativas ou exigências então, obviamente, já não iremos sentir o desespero, a pena e a angústia resultantes de quando não conseguimos aquilo que queremos. Então este é, de facto o objectivo – “Nibbāna” ou a realização de não nos agarrarmos a nenhum fenómeno que tenha um princípio e um fim. Quando abrimos mão deste habitual e insidioso apego a tudo quanto nasce e morre, começamos a realizar a “não-morte”.
Algumas pessoas vivem simplesmente reagindo à vida porque foram condicionadas a fazê-lo, como os cães de Pavlov. Se não estivermos despertos para as coisas como elas são, então, na verdade, não somos mais que uma mera criatura inteligente condicionada semelhante a um estúpido cão condicionado. Podemos olhar com ar de superioridade para o cão de Pavlov que saliva quando a campainha toca, mas reparem como fazemos coiNirvana - Morte do Buddhasas tão semelhantes. Isto deve-se ao facto de que na experiência sensorial tudo é condicionante, não se trata de ser pessoa, alma ou essência pessoal. Estes corpos, sentimentos, memórias e pensamentos são percepções condicionadas na mente através de dor, devido a termos nascido como seres humanos, nas nossas respectivas famílias, classe social, raça, nacionalidade, etc.; dependendo se temos um corpo masculino ou feminino, atraente ou não, … e por aí adiante.

Tudo isto são apenas as condições que não são nossas, que não somos nós. Estas condições obedecem às leis da natureza, as leis naturais. Não podemos dizer “Não quero que o meu corpo envelheça”. Bem, podemos dizê-lo mas, não importa o quão insistentes sejamos, o corpo continuará a envelhecer. Não podemos esperar que o corpo nunca adoeça ou sinta dor ou ainda que tenha sempre visão e audição perfeitas. Gostaríamos, não é verdade? “Eu espero ser sempre saudável. Nunca serei um inválido e terei sempre uma boa visão, nunca ficarei cego; tenho bom ouvido e por isso nunca serei uma daquelas pessoas de idade para as quais os outros têm de gritar e nunca ficarei senil e terei sempre controlo das minhas faculdades até morrer aos noventa e cinco anos de idade, completamente desperto, com a mente clara e alegre. E morrerei naturalmente enquanto durmo, sem dor”. Isto é como todos gostaríamos que fosse. Até pode ser que de entre nós alguns continuem a viver por bastante tempo e morram de forma bastante edílica ou também pode acontecer que amanhã os nossos olhos saltem das órbitas! Não é muito provável mas pode acontecer! Contudo, o fardo da vida diminui consideravelmente quando reflectimos nas limitações da nossa própria vida. Aí sabemos que podemos alcançar, o que podemos aprender. Tanta miséria humana resulta de criarmos demasiadas expectativas e nunca sermos capazes de alcançar tudo aquilo que desejamos.
Na nossa meditação e compreensão intuitiva das coisas tal como elas são, vemos que beleza, refinamento e prazer são condições impermanentes – assim como a dor, miséria e feiúra. Se conseguirmos realmente compreender isso, poderemos desfrutar e aguentar o que quer que seja que nos aconteça. Na verdade, grande parte da lição da vida consiste em aprender a suportar aquilo que não gostamos em nós próprios e no mundo à nossa volta; sermos capazes de ser pacientes e calmos, e não fazermos um drama acerca das imperfeições da experiência sensorial. Podemo-nos adaptar, suportar e aceitar as características mutáveis do ciclo do nascimento e da morte através do “abrir mão” e do desapego a esse mesmo ciclo. Quando nos libertamos dessa identificação, experienciamos a nossa verdadeira natureza, a qual é brilhante, clara, sábia, mas que já não é algo pessoal, não é “eu” ou “meu” – não existem metas nem apegos. Apenas nos podemos apegar àquilo que não é a nossa consciência pura!
Os ensinamentos do Buddha são simples meios úteis, formas de observar a experiência sensorial que nos ajudam a compreendê-la. Não são mandamentos ou dogmas religiosos nos quais temos de acreditar e aceitar. São meras linhas guias que apontam para a maneira como as coisas são. Desta forma não estamos a usar os ensinamentos do Buddha apegando-nos a eles como um fim em si próprios, mas apenas para nos relembrarmos de estar despertos, alertas e conscientes de que tudo o que surge, cessa.

Trata-se de uma observação e reflexão contínua e constante do mundo sensitivo visto este exercer uma influência forte e poderosa. Vivendo num corpo assim, na sociedade actual, as pressões em todos nós são incríveis. Tudo se move tão rapidamente – a televisão e a tecnologia desta era, os carros – tudo tende a mover-se a um ritmo muito rápido. É tudo muito atraente, excitante e interessante, e tudo atrai os nossos sentidos para o exterior. Simplesmente reparemos quando vamos a Londres como toda a publicidade chama a nossa atenção para os cigarros e garrafas de whisky! A nossa atenção é levada para coisas que podemos comprar, reafirmando o renascer na experiência sensorial. A sociedade materialista estimula a avidez de forma a gastarmos dinheiro e ainda assim a nunca estarmos contentes com o que temos. Existe sempre algo melhor, mais recente … mais delicioso que aquilo que ontem era o mais delicioso … e continua e continua, puxando-nos exteriormente para os objectos dos sentidos.

Mas na sala de meditação, não vimos aqui para olhar uns para os outros ou para sermos levados ou atraídos para qualquer um dos objectos na sala, mas para os usar de forma a nos relembrar. Somos relembrados quer a concentrarmos as nossas mentes num objecto pacífico quer a abrir a mente, a investigar e a reflectir acerca de como as coisas são. Cada um tem de experienciar isto por si próprio. Não é a iluminação de alguém que vai iluminar os restantes. Este é um movimento para o interior; não o de olhar para fora, para alguém que é iluminado de forma a nos iluminarmos. Damos esta oportunidade de encorajamento e encaminhamento para que aqueles de vós que estão interessados em o fazer, o possam realizar. Aqui podemos, a maior parte do tempo, ter a certeza de que ninguém nos vai roubar a mala! Hoje em dia não podemos confiar em nada, mas o risco disso acontecer aqui é menor do que se tivéssemos sentados em Piccadilly Circus. Os mosteiros Budistas são refúgios para este tipo de abertura da mente. Esta é a nossa oportunidade enquanto seres humanos. Como seres humanos temos uma mente que pode reflectir e observar. Podemos observar quer estejamos felizes ou miseráveis. Podemos observar o ódio, o ciúme ou a confusão na nossa mente. Quando estamos sentados e sentimo-nos realmente confusos e aborrecidos existe em nós algo que o sabe. Podemos odiar e reagir cegamente contra isso, mas se formos mais pacientes conseguimos observar que isso é uma condição temporária e transitória de confusão, ódio ou avareza. Mas um animal não consegue fazer isso. Quando está zangado ele é somente isso, perdidamente. Digam a um gato zangado para observar a sua raiva! Eu nunca consegui ir muito longe com a nossa gata, ela não consegue reflectir sobre a gula. Mas eu consigo e tenho a certeza de que todos vocês também o conseguem fazer. Quando vemos comida deliciosa à nossa frente o movimento da mente é o mesmo da nossa gata Doris. Mas nós conseguimos observar a atracção animal para coisas que parecem boas e que cheiram bem.
Quando observamos e compreendemos o impulso estamos a usar sabedoria. Aquilo que observa a gula não é gula. A gula não se pode observar a ela mesma, mas aquilo que não é gula pode observá-la. Este observar é aquilo a que chamamos “Buddha” ou “Sabedoria do Buddha” – a consciência das coisas tal como elas são.

Instrução

Observando a respiração (Ānāpānasati)

Ānāpānasati é a prática de concentrar a mente na respiração. Quer sejamos já peritos ou quer tenhamos desistido da prática por nos considerarmos um caso perdido, existe sempre um tempinho para observar a respiração. É uma oportunidade para desenvolver samādhi (concentração) colocando toda a nossa atenção exclusivamente na sensação da respiração. Nesse momento comprometam-se totalmente a esse ponto único durante uma inalação, e depois durante uma exalação. Não tentem fazê-lo durante, digamos, quinze minutos pois nunca seriam bem sucedidos se esse fosse o período de tempo designado para se focarem num só ponto. Portanto usem esta duração de uma inalação e de uma expiração.

O sucesso disto depende mais da vossa paciência do que da vossa vontade, pois a mente vagueia e temos sempre que, pacientemente, voltar à respiração. Quando estamos conscientes de que a mente está a vaguear então reparamos no que se passa: pode se dever ao facto de colocarmos muita energia a princípio e de não a conseguirmos manter depois, fazendo demasiado esforço sem manter o controlo. Estamos assim a usar a duração de uma inalação e a duração de uma exalação de modo a limitar o esforço para apenas este período de tempo, durante o qual mantemos a nossa atenção. Empenhem-se em colocar um esforço no princípio da inalação e em mantê-lo durante esta. Depois façam o mesmo durante a exalação e de novo na inalação. Eventualmente tudo se torna estável e diz-se que estamos em samādhi quando já não precisamos aplicar esforço. De princípio parece ser um esforço enorme ou parece que não o conseguimos fazer por não termos esse hábito. A maioria das mentes foi treinada para usar o pensamento associativo, para ler livros, para ir de palavra em palavra, para ter pensamentos e conceitos baseados na razão e na lógica. Contudo, ānāpānasati é um tipo diferente de treino onde o objecto no qual nos concentramos é tão simples que não oferece qualquer interesse a nível intelectual. Não se trata de uma questão de se estar interessado, mas de aplicar esforço e de usar esta função natural do corpo como um ponto de concentração. O corpo respira, quer estejamos cientes disso ou não. Não é como prānāyama, em que estamos a desenvolver poder através da respiração. Aqui estamos a desenvolver samādhi – concentração – e plena atenção através da observação da respiração, tal como ela é no momento. Como qualquer outra coisa isto é algo que temos de praticar para o podermos fazer; ninguém tem problema algum em perceber a teoria, é a contínua prática dessa teoria que faz com que as pessoas se sintam desencorajadas.

Mas reparem nesse desencorajamento, que surge por não sermos capazes de obter o resultado que desejamos, pois ele é o obstáculo para a prática. Reparem bem nesse mesmo sentimento, reconheçam-no e depois deixem-no ir. Voltem novamente à respiração. Estejam conscientes desse momento em que se sentem fartos ou sentem aversão ou impaciência, reconheçam-no, deixem-no ir, e voltem de novo à respiração.

O Mantra “Buddho”

Se tiverem uma mente pensante muito activa, talvez possam achar o mantra* “Buddho” algo de grande ajuda. Inalem em “Bud” e exalem em “-dho” de forma a pensarem nisso em cada inalação. Isto é uma maneira de se manter a concentração: durante os próximos quinze minutos façam a ānāpānasati, colocando toda a vossa atenção, aquietando a vossa mente com o som mântrico “Bud-dho”. Aprendam a treinar a mente até terem clareza e lucidez mental ao invés de naturalmente se afundarem em passividade. Isto requer esforço contínuo: uma inalação de “Bud” completamente clara na vossa mente, o próprio pensamento presente e claro desde o princípio até ao fim da inalação. E “dho” na exalação. Nessa altura larguem tudo o resto. Esta agora é a ocasião para fazermos exclusivamente isto – podemos resolver os nossos problemas e os problemas do mundo a seguir. Neste momento só nos é pedido isto. Tragam o mantra à consciência. Tornem-se completamente conscientes do mantra em vez deste ser apenas uma formalidade passiva que deixa a mente dormente; energizem a mente de forma a que a inalação em “Bud” seja uma inalação lúcida, não apenas um som “Bud” formal que vai desaparecendo por nunca ser avivado ou refrescado pelas nossas mentes. Podem visualizá-lo ortograficamente de forma a terem essa sílaba completamente presente durante o período de uma inalação, do princípio ao fim. Durante a exalação “-dho” pode ser realizado da mesma forma, de maneira a haver uma continuidade de esforço ao invés de esporádicas tentativas, começos e fracassos.

Verifiquem se de seguida surgem alguns pensamentos obsessivos – alguma frase tola que talvez esteja a passar pela vossa mente. Se se deixarem naturalmente afundar num estado passivo, então os pensamentos obsessivos irão tomar conta da mente. Mas ao aprenderem como a mente funciona e a usá-la habilmente, podem ter este particular pensamento, o conceito de “Buddho” (o Buddha, aquele que sabe) e sustê-lo na vossa mente, não simplesmente como um pensamento comum obsessivo, mas como um uso saudável da capacidade pensante, usando-o para manter a concentração durante o período de uma inalação - exalação, durante quinze minutos.

A prática é essa, independentemente de quantas vezes falharem e a mente começar a vaguear, somente têm de reparar que estão distraídos, ou que estão a pensar nisso ou que prefeririam não se importar com “Buddho” – “Eu não quero fazer isto. Prefiro somente sentar-me aqui e relaxar e não ter que fazer nenhum esforço. Não sinto vontade de o fazer”. Ou talvez tenham outras coisas na vossa mente nesta altura, surgindo furtivamente no limiar da consciência – reparem nisso. Verifiquem que estado de ânimo está presente na vossa mente neste preciso momento – não de forma crítica ou desencorajadora mas, calmamente e descontraidamente, reparem se isso vos tranquiliza ou se se sentem letárgicos e sonolentos; se estiveram a pensar durante todo este tempo ou se estiveram a concentrar-se. Apenas para estarem cientes.

O obstáculo para a prática da concentração é a rejeição ao fracasso e o incrível desejo de sucesso. A prática não é umOs Quatro Encontrosa questão de força de vontade mas de sabedoria, de reconhecer a sabedoria. Com esta prática podem aprender onde estão as vossas fraquezas, onde é que tendem a perder-se. Testemunhem o tipo de características de personalidade que desenvolveram na vossa vida até esta altura, não para serem críticos mas para saber como lidar com elas sem serem escravos das mesmas. Isto significa uma cuidadosa e sábia reflexão acerca de como as coisas são. Por isso observem e reconheçam até os mais horríveis e confusos estados mentais, ao invés de tentarem evitá-los a todo o custo. Essa é uma qualidade de persistência. “Nibbāna”* é muitas vezes descrita como sendo “cool” (fresca). Parece conversa de hippy, não é? Mas o significado dessa palavra tem um certo sentido. Frescura em termos de quê? No sentido de que é refrescante por não ser emaranhada em paixões mas sim desapegada, alerta e equilibrada.

A palavra “Buddho” é uma palavra que podem desenvolver nas vossas vidas como algo para preencher a mente em vez de preocupações e todo o tipo de hábitos pouco saudáveis. Peguem na palavra, olhem para ela, escutem-na: “Buddho”! Significa aquele que sabe, o Buddha, o desperto, aquele que é desperto. Podem visualizar na vossa mente. Ouçam o que a vossa mente diz: blá, blá, blá …continuamente por aí fora, um infindável tipo de excremento de aversões e medos reprimidos. Estão agora então a reconhecer isso. Não estamos a usar a palavra “Buddho” como um cassetete para aniquilar ou reprimir coisas, mas como um meio inteligente. Podemos usar as mais requintadas ferramentas para matar e prejudicar os outros, não podemos? Podemos agarrar na mais bela estátua do Buddha e esmagar a cabeça de alguém com ela! Isso não seria aquilo a que chamamos “Buddhanussati”, Reflexão no Buddha! Mas talvez façamos isso com a palavra “Buddho” de forma a suprimir esses pensamentos ou sentimentos. Isso não é fazer um uso inteligente da palavra. Lembremo-nos que não estamos aqui para aniquilar mas para permitir que as coisas se desvaneçam. Trata-se de uma prática gentil de pacientemente impor “Buddho” sobre o pensamento, não por exasperação, mas de uma forma firme e deliberada.

O mundo precisa de aprender a fazer isto, não é? Os Estados Unidos e a União Soviética poderiam fazê-lo ao invés de agarrarem em metralhadoras e armas nucleares e aniquilarem coisas que se lhes intrometem no caminho, ou dizerem coisas horríveis e ofensivas uns aos outros. Até nas nossas vidas nós fazemos isso, não fazemos? Quantos de vocês disseram coisas desagradáveis a alguém recentemente, coisas que magoam, criticismo descortês e ofensivo, simplesmente porque a outra pessoa vos irrita, empata ou assusta? Pratiquemos então com as pequenas irritantes e desagradáveis coisas que

*Nibbāna: Paz através do desapego, também se pode escrever “Nirvāna”.
estão na nossa mente, coisas que são tolas e estúpidas. Usemos “Buddho” não como um cassetete mas como um meio inteligente de permitir que esses pensamentos sigam o seu rumo; como um meio para os largarmos. Agora, durante os próximos quinze minutos, voltem aos vossos narizes, com o mantra “Buddho”. Vejam como usá-lo e trabalhar com ele.

*Mantra: palavra de relevância religiosa. A repetição de mantras pode ser utilizada como objecto de meditação.

Esforço e Relaxamento

Esforço é simplesmente fazer aquilo que temos que fazer. Varia de acordo com as características e hábitos de cada um. Algumas pessoas têm muita energia – tanta que estão sempre a mexer, à procura de coisas para fazer. Vemo-las o tempo todo a tentar encontrar coisas para fazer, colocando tudo no exterior. Na meditação não estamos à procura de algo para fazer como um escape, mas estamos a desenvolver um tipo de esforço interno. Observamos a mente e concentramo-nos no assunto.
Se fizerem demasiado esforço, apenas ficarão agitados e se não puserem esforço suficiente ficam entorpecidos e o corpo amolece. O nosso corpo é algo muito bom para ter em atenção no que diz respeito ao esforço: colocar o corpo direito, alinhá-lo, pôr o peito para fora, manter a coluna vertebral direita, tudo isto requer muita força de vontade. Se estiverem demasiado moles irão simplesmente encontrar a postura mais fácil – a força da gravidade puxa-vos para baixo. Quando está frio têm de puxar a energia para cima através da coluna de maneira a aquecerem o vosso corpo ao invés de se enfiarem debaixo de cobertores.

Com ānāpānasati, a “plena atenção da respiração”, concentram-se no ritmo. Considero isso muito útil para aprender a acalmar em vez de fazer tudo rapidamente – tal como pensar; estão-se a concentrar num ritmo que é muito mais lento que os vossos pensamentos. Mas ānāpānasati requer que abrandem pois tem um ritmo bastante brando que faz com que tal aconteça. Paramos de pensar. Estamos contentes com uma inalação, uma exalação … temos todo o tempo do mundo, só para estar com uma inalação, desde o princípio ao fim.
Se estiverem a tentar alcançar samādhi através de ānāpānasati, então já estabeleceram um objectivo para vós próprios – estão a fazê-lo de forma a obterem algo para vós e, então, ānāpānasati torna-se uma experiência muito frustrante e ficam zangados com isso. Será que podem estar somente com uma inalação? Estar satisfeitos com uma simples exalação? Estar satisfeitos apenas com o breve espaço de tempo que têm para se acalmarem?

Quando pretendem alcançar jhānas (absorções) a partir desta meditação e realmente colocam bastante esforço nisso, não acalmam. Estão a tentar obter algo disso, a tentar alcançar ou conquistar ao invés de humildemente ficarem satisfeitos com uma respiração. O sucesso de ānāpānasati é simplesmente esse – plena atenção durante uma inalação, durante o período de tempo de uma inalação. Estabeleçam a vossa atenção no princípio e no fim – ou no princípio, meio e fim. Isto dá-vos alguns pontos definidos para reflexão de maneira a que, se a mente vagueia imenso durante a prática, possam tomar especial atenção, escrutinando o princípio, o meio e o fim. Se não o fizerem a mente voltará a vaguear.
Todo o nosso esforço vai para aí; tudo o resto é suprimido durante esse tempo, ou descartado. Reflictam na diferença entre inalação e exalação – examinem-na. De qual é que gostam mais? Por vezes a respiração parece que vai desaparecer, tornando-se muito rarefeita. O corpo parece respirar por si próprio e têm este estranho sentimento de que não vão respirar. É um pouco assustador.
Mas isto é um exercício; centrem-se na respiração, sem a controlarem de todo. Por vezes quando se concentram nas narinas, sentem que todo o corpo está a respirar. O corpo continua a respirar por si próprio.
Por vezes levamos as coisas demasiado a sério, com uma total falta de alegria e felicidade, sem sentido de humor, apenas reprimindo tudo. Alegrem a mente, estejam descontraídos e à vontade, tenham todo o tempo do mundo sem a pressão de terem de alcançar algo importante: nada de especial, nada para atingir. Trata-se de algo simples, mesmo quando fazem apenas uma inalação com plena atenção durante a manhã, isso é melhor do que o que a maior parte das pessoas está a fazer e de certeza que é melhor do que estar sempre disperso.
Se forem muito negativos devem tentar ser alguém agradável e com uma maior auto-aceitação. Relaxem e não façam da meditação uma tarefa pesada. Vejam-na como uma oportunidade para estar em paz e à vontade com o momento presente. Descontraiam o corpo e estejam em paz.

Não estão a batalhar com as forças do mal. Se sentirem aversão para com ānāpānasati, reparem nisso. Não sintam que é algo que têm de fazer, mas vejam-na como um prazer, como algo que realmente gostam de fazer. Não têm de fazer mais nada, podem simplesmente estar perfeitamente descontraídos. Têm tudo o que precisam; têm a vossa respiração, têm apenas de se sentar aqui, não há nada difícil para fazer, não precisam de capacidades especiais, não precisam nem mesmo de ser particularmente inteligentes. Quando pensam “Eu não consigo fazê-lo” reconheçam isso como uma mera resistência, medo ou frustração, e descontraiam.
Se se sentirem muito tensos e rígidos por causa de ānāpānasati, então não o façam. Não façam disso uma coisa difícil, não a tornem numa tarefa penosa. Se não o conseguirem fazer, então sentem-se, simplesmente. Quando eu costumava entrar em estados terríveis eu apenas contemplava “paz”. Começava a pensar: “Eu tenho de… Eu tenho de… Eu tenho de fazer isto”. Então pensava: “Fica simplesmente em paz, relaxa”.
Dúvidas e inquietação, descontentamento e aversão – rapidamente reflectia na palavra paz, dizendo uma e outra vez, hipnotizando-me, “relaxa, relaxa”. As dúvidas pessoais começavam a vir: “Não estou a chegar a lugar nenhum com isto, é inútil, eu quero obter algo”. Mas logo ficava em paz com isso. Conseguimo-nos acalmar e quando descontraímos, conseguimos fazer ānāpānasati. Se querem fazer alguma coisa, então façam ānāpānasati.

No princípio a prática pode ser muito aborrecida, sentimo-nos desesperadamente desajeitados tal como quando estamos a aprender a tocar guitarra. Quando se começa a tocar, os nossos dedos são desajeitados. É desesperante! Mas após algum tempo de prática ganha-se habilidade e torna-se bastante fácil. Estamos a aprender a testemunhar o que se passa na nossa mente de forma a podermos saber quando começamos a ficar agitados e tensos, com aversão a tudo. Reconhecendo isso, não nos tentamos convencer de que é de outra maneira. Estamos completamente conscientes das coisas tal como elas são: e o que fazemos quando estamos tensos e nervosos? Descontraímos.
Nos meus primeiros anos com Ajahn Chah por vezes eu era muito sério no que diz respeito à meditação chegando mesmo a ser demasiado solene e taciturno comigo próprio. Eu chegava a perder todo o sentido de humor e a ficar “sério de morte”, completamente rígido como um velho tronco. Costumava fazer imenso esforço, mas tornava-se tão doloroso e desagradável pensar “Tenho de…sou tão preguiçoso”. Sentia-me tão terrivelmente culpado se não passasse o tempo todo a meditar – um escuro estado mental desprovido de alegria. Passei a observar isso, meditando vendo-me como um ramo seco. Quando tudo se tornava completamente insuportável eu recordava-me do oposto: “Não tens de fazer nada. Nenhum sítio para onde ir, não há nada para ser feito. Está em paz com a forma como as coisas são agora, descontrai, deixa”. Passei a utilizar isto.

Quando a vossa mente se encontra nesta condição, apliquem o oposto, aprendam a levar as coisas de uma forma suave. Vocês lêem livros acerca de não fazer esforço algum – “deixem apenas acontecer de uma forma natural” – e pensem “tudo o que tenho de fazer é ser preguiçoso”. O que acontece é que normalmente caem num estado entorpecido e passivo. Mas é precisamente nessa altura que precisam de se esforçar um pouco mais.
Com ānāpānasati podem manter o esforço durante uma inalação. E se não poderem sustê-lo durante uma inalação então façam-no durante pelo menos meia inalação. Desta maneira não estão a tentar ser perfeitos imediatamente. Não têm de fazer tudo certinho devido a alguma ideia de como poderia ser, mas trabalhem com os respectivos tipos de problemas, tal como eles são. Se tivermos uma mente muito dispersa é sábio reconhecer-se que assim é – isso é um insight, uma realização. Pensar que não deveriam ser assim, detestarem-se ou sentirem-se desencorajados por serem de determinada maneira, isso sim, é ignorância.

Com ānāpānasati reconhecem a realidade do agora e partem desse ponto: sustêm a vossa atenção por um pouco mais de tempo e começam a perceber o que é a concentração, tomando decisões que podem manter. Não decisões de Super-homem quando não são o Super-homem. Façam ānāpānasati por dez ou quinze minutos em vez de pensar que o conseguem fazer a noite toda. “Vou fazer ānāpānasati desde agora até ao amanhecer”. Aí falham e aborrecem-se. Estabeleçam períodos que sabem que vão conseguir cumprir. Experimentem, trabalhem com a mente até perceberem como aplicar esforço e como relaxar.
Ānāpānasati é algo imediato. Leva-nos à realização (insight) – vipassanā. A natureza impermanente da respiração não é nossa, ou é? Tendo nascido, o corpo respira por si próprio. Inspiração e expiração – uma condiciona a outra. Enquanto o corpo estiver vivo é assim que será. Não controlamos nada. Respirar pertence à natureza, não a nós; é “não-eu”. Quando observamos isto estamos a fazer vipassanā. Não é algo excitante ou fascinante ou desagradável. É natural.

Tradução de Bhikkhu Appamado.

Texto: o material deste livro foi editado a partir de palestras realizadas em Chithurst Buddhist Monastery (Mosteiro Budista de Chithurst), em Janeiro de 1984, com a excepção das seguintes três secções: “Esforço e Relaxamento”, “Amor Incondicional (Mettā)” e “Os obstáculos e a sua cessação”, sendo estas retiradas de palestras que ocorreram no International Forest Monastery (Mosteiro Internacional da Floresta), em Ubon, no nordeste da Tailândia, em Dezembro de 1982.

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Impresso em 18/9/2021 às 18:49

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