Fundação Maitreya
 
Os Estoicos e os Jainas

de Maria

em 06 Jul 2011

  A finalidade dos Estóicos, tal como os Jainas, consiste também, na indiferença perante a adversidade e no fluir com a própria natureza interior, nada se desejando. E perante aquilo que não se pode mudar, ficar firme e tranquilo interiormente, mesmo que seja perante a morte, pois ela é encarada como uma lei natural e, a sabedoria reside em saber aceitá-la ou enfrentá-la com serenidade.
Os Estóicos também exigiam pureza, desprezo pelos bens terrenos, meditação sobre a morte e, faziam uma exortação à humildade e às virtudes mais nobres.
Assim, para a morte, os Estóicos e os Jainas caminham de mãos dadas pela via do jejum. Cleanto (um estóico) foi disso um exemplo, tal como o fazem muitos jainas, que quando sentem chegada a hora de deixar o seu revestimento físico, entram na morte pelo jejum e, enfrentam-na com consciência.


Estoico de RafaelOs Estóicos, cuja escola filosófica tinha por nome o Guardião do Pórtico foi fundada na Grécia em 300 a.C., por Zenão de Cítio e manteve-se activa com vários filósofos, verdadeiros sábios, que foram, não só aprofundando a doutrina, como a reformaram ao longo dos séculos. Mantinham uma severa disciplina para o desapego e indiferença aos bens inerentes à vida.
Para os Estóicos “a virtude é o único bem”. A dialéctica e a física são meramente curiosidades. Para quê preocuparmo-nos em realizar a justiça no mundo, se ela existe na natureza para quem a sabe descobrir? A felicidade existe na ausência de paixões, pois elas constituem a verdadeira servidão. Contudo, podem ser dominadas, já que procedem e dependem de nós. A doença, o sofrimento e a morte são consequências que já não dominamos, mas através duma compreensão elevada tornamo-nos indiferentes. Apenas a rectidão da vontade merece a nossa atenção, pois é o que combate o mal, e o maior mal é o vício. Esta era a base essencial da prática estóica.

O que é a filosofia para os Estóicos? É a ciência das coisas divinas e humanas.
A Filosofia não era unicamente um prazer de argumentar, nem era uma teoria dissociada da prática, mas era sim uma ciência por si mesma, baseada no conhecimento de acções virtuosas, no desenvolver a virtude pelo exercício e pelo esforço.
A doutrina Estóica assenta na aceitação dos acontecimentos independentes da vontade do homem, sem sofrimento, ou seja suportados pelo desapego. É também uma doutrina naturalista pois exige, que se viva segundo a natureza para chegar-se àquela “ataraxia” (serenidade), sem a qual não será possível obter a sabedoria.
Marco Aurélio, imperador romano marcado profundamente pela filosofia Estóica, diz-nos:

«Não há senão uma arte conveniente, uma arte suprema, é a virtude. E a filosofia é este saber, graças ao qual daremos unidade às nossas ideias e aos nossos actos, vivendo de acordo com a vontade de Deus, de acordo com a razão».
Para os Estóicos, Natureza, Deus e Fogo são termos sinónimos; divinizar a natureza, ou antes naturalizar Deus, significa facilitar ao homem o contacto directo com Ele e perante a realidade que o rodeia, ser capaz de dar à vida uma elevada expressão. Viver conforme a natureza é o ideal do autêntico sábio. A felicidade baseia-se na libertação das paixões, no sossego da alma, na indiferença. Na vida tudo está pré-determinado pelo destino. A quem assim o aceita, o destino conduzi-lo-á à sua frente, aos que resistem, o destino arrasta-os à força. Os Estóicos eram materialistas no que se refere à concepção da natureza. No mundo há apenas corpos de diferentes densidades. Porém, é necessário distinguir o verdadeiro e a verdade. Na verdade, apenas existem corpos. O verdadeiro, por seu lado, é incorpóreo e não existe. O verdadeiro é apenas enunciação. Os sentidos percebem a realidade como algo singular. A ciência tende a conhecer o geral, mas no mundo, o geral como tal não existe.

Os Estóicos admitiam quatro categorias.
I – Substrato (o que existe)
II – Qualidade.
III – Estado (por exemplo, encontrar-se).
IV – Estado relativo (encontrar-se à direita de alguma coisa).

O mundo engloba o céu, a terra e todos os seres vivos, homens e deuses e, sendo o mundo um ser vivo, com razão e inteligência, não só é divino, como é o próprio Deus.
Esta integração, a de Deus e do mundo é um dos pontos importantes da doutrina. Deus é Tudo, porque é o Todo. Os Estóicos falam naturalmente dos deuses e ao mesmo tempo de Deus, o que poderia considerar-se como monismo e pluralismo simultaneamente. Assim, Deus é comparado ao Éter que circula através do Universo e portanto tem muitos nomes. Deus é um sopro, uma força subtil, que se expande através da totalidade do mundo. Deus é a Razão e o Fogo, o autor do Universo, o Senhor do destino, Ele é a necessidade suprema.
Deus é um corpo, o mais puro dos corpos: o Universo Inteiro.
«Deus é um corpo, o mais puro dos corpos». Encontramos este conceito no Hinduísmo e com relevância no Jainismo, onde a prática de virtudes e austeridades, elevam o homem à inteligência ou cabeça do Homem Universal, personificação velada de Deus, de quem não se fala no Jainismo. O Homem Universal, do qual todos os homens fazem parte, constitui o objectivo do asceta que pelo esforço e aspiração deve subir ao Tecto do mundo. Os homens que se mantêm no seu “status” mais baixo de consciência e nada sabem de virtudes, mantêm-se nas partes inferiores deste Homem Universal, ou seja, nos seus pés e conforme se vão purificando, alcançam outras partes do Universo, até à purificação final, que é a integração no seu cérebro ou Inteligência. Embora no Jainismo não haja uma concepção de um Deus Criador, Ele vem a ser personificado neste Homem Universal, que constitui a aspiração de todo o homem. Os santos ou os iluminados que alcançam a libertação, são os Tīrthakaras que libertaram as suas Almas, através de práticas espirituais e da firme auto-disciplina durante muitas vidas. Qualquer um de nós pode consegui-lo do mesmo modo, se possuir força de vontade e abnegada aspiração. A espiritualidade perfeita é o objectivo de todo o ser humano, e nem mesmo os deuses são capazes de tal.

No Jainismo, o principal objectivo é chegar-se à indiferença aos prazeres do mundo e ao sofrimento, pela elevação de consciência. Os monges ou adeptos ensinam a forma prática de o conseguir, pela disciplina, pela pureza e pela meditação, para que sejam eliminadas as partículas cármicas que envolvem a matéria, o corpo físico e que obscurecem a Alma, não a deixando viver a sua identidade plena e feliz.
A finalidade dos Estóicos, tal como os Jainas, consiste também, na indiferença perante a adversidade e no fluir com a própria natureza interior, nada se desejando. E perante aquilo que não se pode mudar, ficar firme e tranquilo interiormente, mesmo que seja perante a morte, pois ela é encarada como uma lei natural e, a sabedoria reside em saber aceitá-la ou enfrentá-la com serenidade.
Os Estóicos também exigiam pureza, desprezo pelos bens terrenos, meditação sobre a morte e, faziam uma exortação à humildade e às virtudes mais nobres.
Assim, para a morte, os Estóicos e os Jainas caminham de mãos dadas pela via do jejum. Cleanto (um estóico) foi disso um exemplo, tal como o fazem muitos jainas, que quando sentem chegada a hora de deixar o seu revestimento físico, entram na morte pelo jejum e, enfrentam-na com consciência. Porém, ainda há os mais drásticos, que se imolam pelo fogo, tal como o fez o Jaina trazido para o Ocidente por Alexandre Magno.

Cleanto, o filósofo que sucedeu a Zenão, o fundador da escola Estóica, tem na sua morte a mesma nobreza que um Jaina.
Em consequência de uma doença, foi mandado jejuar por algum tempo mas, terminado o prazo, continuou a recusar os alimentos com o pretexto de que, como já tinha ido meio caminho até à morte, não estava na disposição de trilhar o mesmo caminho duas vezes.
Se bem que quase igual a valorização das virtudes nas filosofias Estóica e Jaina, penso que a profundidade de compreensão desta última é suprema. Com efeito, uma filosofia será tanto mais compreensível quanto mais se aproxima da Verdade, numa clara definição e sistematização de ideias, que quanto mais perfeitas ou puras, mais se consubstancializam numa essência mística ou religiosa. A filosofia é a forma de usar o pensamento, tornado distintas as coisas e os seres, através de ideias definidas, concisas e claras. Quanto mais claro e definido o pensamento, mais próximo e acessível se torna a grande número de mentes pela compreensão. Ora, a compreensão é sabedoria e inteligência e, provém daquele aspecto mais abstracto ou elevado dum Absoluto sem forma, que com a Sua Essência permeia todo o Cosmos, tal como os Estóicos e os Jainas o conceberam. O objectivo de todo o ser humano é atingir por meio das práticas de virtudes, esta pureza inteligente ou Pensamento Puro.

Tal como a doutrina Jaina na Índia, foi o ponto de partida para a recreação de outras filosofias, dizendo nós, que é a mãe ou a base da religiosidade da Índia, com a doutrina Estóica passa-se o mesmo, no que concerne às filosofias posteriores na Grécia e no restante Ocidente. Ela é, de certo modo, una e universal e, podemos reconhecer que o seu âmago se encontra noutras filosofias. É como se os seus pontos de referência estivessem em toda a parte, e o seu centro em parte alguma, e podendo ser desenvolvidos e interpretados, de forma diversa, de acordo com as mentalidades e graus de consciência.
Tanto o Estoicismo como o Jainismo, são doutrinas austeras para o comum dos homens e, por vezes é necessário surgirem novos intérpretes capazes de organizarem sistemas mais diluídos e abrangentes. Assim fez Cleanto, e depois Epicteto, e é com base nesta filosofia que mais tarde, o Cristianismo vai absorver o mais puro desta doutrina, chamando-a sua e, daí em diante, apoiando a revelação cristã.

Também Mahāvīra, reformulou a doutrina Jaina tornando-a acessível à mentalidade dos homens na sua própria época, pois o Jainismo existia desde tempos remotos. Contudo, entre Mahāvīra e Gośāla (outro Jaina e contemporâneo de Mahāvīra), havia uma diferença de interpretação importantíssima, em que a doutrina pregada por Mahāvīra, dava a oportunidade e a esperança da libertação, através do esforço do homem, enquanto para Gośāla, o determinismo é a base (tal como para os Estóicos) e, só após muitas incarnações, o ser atingirá finalmente a libertação. Até lá, é um joguete do destino e, por mais esforço que faça na prática de virtudes, apenas contribui para a libertação que se aproxima; as virtudes só são praticadas quando se aproxima a libertação. Buddha também reage a esta implacável doutrina e procura tornar acessível a busca da libertação a todos os homens, pelo esforço eJaina pela vontade. Ensinou como sair do sofrimento ou encontrar a fórmula de o superar, apelando à meditação como meio de chegar ao conhecimento de si próprio e, adquirir-se a consciência de que o sofrimento provém, verdadeiramente, dos nossos desejos. Não obstante serem o Jainismo, o Budismo e o Estoicismo, doutrinas encorajadoras para os que buscam a libertação, são porém, longínquas e incompreensíveis para aqueles que estão ligeiramente abaixo daquela condição superior de consciência, que originalmente acompanhou a instituição destas doutrinas, pelo alto pensamento dos seus autores. Perante princípios tão austeros, fica um estado de impotência e perplexidade, para aquele que ainda procura recompensas do mundo, como um bem supremo. Para estes, nunca estas doutrinas são aceitáveis, devido à incapacidade de as seguirem.

A sabedoria Estóica é fundada numa ética de ascese, tal como a maior parte das filosofias ou religiões, num esforço de elevação dos sentidos primários ou paixões. Sábio é aquele que experimenta uma verdadeira felicidade ao suportar tudo com coragem. O desprezo pela dor e pela morte, constitui o carácter mais nobre da filosofia Estóica e, implica a aceitação consciente dum grande sacrifício. Isto resulta dum reconhecimento da impermanência, considerada pelo imperador Marco Aurélio, tão importante, já que, «tudo que existe e acontece no mundo é instável, pois no abismo infinito do tempo se somem por encanto o passado, o presente e o futuro». Tal, encontramos no Jainismo e no Budismo que ensinam a impermanência da vida manifestada.
A ascese é uma filosofia e é uma forma de purificação, pelo esforço de reflexão e, implica a luta contra a paixão. A abstinência é um exame de consciência. Os Estóicos, nomeadamente Epicteto, acentua fortemente sobre uma ascese de espírito que consiste em combater as ideias falsas pela reflexão, a leitura meditativa, a interiorização e a indiferença a tudo que vem do exterior.
Uma máxima estóica é: “abstém-te e suporta”: Tal como no Jainismo onde os ascetas renunciantes se abstinham da acção para parar o influxo de karma, princípio do Jainismo, no qual assenta o caminho que leva à realização interior ou ao estado de kaivalya para tornar-se um Tīrthankara, aquele que se isola do mundo (fim do karma) e não reincarna mais. No Budismo Theravada, este princípio é semelhante, já que o Arhat se preocupa com a sua salvação.
Epicteto prega a liberdade interior e a submissão à razão e que cada um deve preocupar-se unicamente com o que depende dele mesmo, pois o que não depende de nós, devemos aceitá-lo e não desejar que seja conforme gostaríamos. Esta submissão à ordem do mundo, engloba um sentimento religioso pois implica total confiança na Providência ou Destino. Epicteto, talvez fosse dos estóicos, o mais submisso conseguindo realizar esta máxima, “suporta” porque era um escravo de um senhor romano e, como tal, aceitou a sua condição de falta de liberdade, mas aproveitou-a para desenvolver a sua liberdade interior.

Para os Estóicos, bem como para os Jainas, a filosofia leva à sabedoria pela realização interior e apoia-se sobre o conhecimento e a necessidade, como conhecer as relações temporais (efémeras) e as relações da necessidade (o que deve ser feito).
Para os Estóicos, o tempo é apenas a expressão da sabedoria divina, mas também a expressão do dinamismo da vida universal e da sua harmonia. Viver segundo a natureza é saber submeter-se e esta coexistência e agir segundo ela com consciência. A vida do sábio é saber manter a harmonia em si mesmo e de acordo com o universo. E uma vez que a simpatia das coisas exprime a Presença ou Vontade de Deus, implica que se submeta ou obedeça aos desígnios de uma Providência Omnipotente.
Crisipo, outro reformador Estóico diz: «O destino é uma disposição do todo, a eternidade de cada coisa seguindo e acompanhando cada outra coisa, disposição que é inviolável». «O destino é uma ordem e uma conexão que jamais poderão ser forçadas ou transgredidas».
Cleanto invoca este Senhor do Universo como um ser susceptível de se debruçar com benevolência sobre a sorte dos mortais insensatos. «Infelizes procurando sempre adquirir bens (os homens) não vêem nem escutam a lei comum de Deus; se eles lhe obedecessem com inteligência levariam vidas mais felizes, mas insensatos correm de um mal para outro».

Preceito ou máxima de Epicteto:
«Quando fores consultar o que adivinha, lembra-te que não sabes o que vais perguntar, e que para isso vais a saber; e se fores sábio e filósofo, antes que saias de tua casa, o poderás saber. Porque se há coisas que não estão na nossa mão, sabido está que não há mal nelas. Portanto, não há que perguntar ao que adivinha do que se há-de fugir, ou o que há-de perguntar: de outra maneira irás tremendo, quando fores. E, assim, isto há-de ter por firme pressuposto, que nem um acontecimento bom ou mau, qualquer que seja, te toca a ti, nem te há-de mover um ponto; pois podes usar dele bem, e convertê-lo em teu proveito, sem que ninguém te possa impedir. Aconselha-te com Deus com muita confiança; e do que te aconselhar, tem memória; e que se seguires seu conselho, que desprezarás a autoridade de tão grande Conselho. Quando finalmente fores ao oráculo, seja como ia Sócrates, que era tratar só das coisas, de que com nenhuma razão, nem arte se pode dar nelas, por totalmente se não saber quais são, senão pelo sucesso, que depois se vê. Para socorrer ao amigo, que está em necessidade ou à Pátria, não há para que consultar o que adivinha, se nos pusermos a perigo por isso. E quando disser, que os sinais nos sacrifícios que fez, não são propícios, sabido está, que, quando muito, podem ameaçar morte ou perda de algum membro ou desterro; mas, por outra parte, também a razão diz, que pelo amigo e pela Pátria, vos haveis de pôr em perigo. E se não, olha o que fez o grande Oráculo de Apolo de Pythio, que mandou deitar do templo a um, que vendo matar um seu amigo, não o socorreu, como estava obrigado».

São estas filosofias ou religiões mais antigas baseadas e direccionadas para o auto-domínio, para a firmeza e para a coragem, frente às circunstâncias das quais não se pode fugir. Este é também um conceito muito enraizado nas tradições filosóficas e religiosas indianas, em que cada um deve conformar-se com a condição em que nasceu, tornando-se imprescindível a participação harmoniosa da vida no seu todo: quem semeia colherá.
Também para os Estóicos, o Destino ou a Providência dá a cada um a sua parte, o seu lote e o seu papel na harmonia do Todo. Não pertence aos actores (homens), mudar os papéis que lhes foram atribuídos, mas realizá-los o melhor possível.
Nesta base, todas as doutrinas têm os seus pontos de encontro, pois a essência provém da mesma Fonte e, embora sejam grandes os génios Gregos, é na Índia porém, que encontraremos maior quantidade de seres de elevada envergadura espiritual, os iluminados ou homens de grande perfeição, que aprofundaram com exaustão as razões do sofrimento e libertaram-se das ilusões do mundo. É sabido que alguns sábios ocidentais e orientais viveram na mesma época, embora, a mentalidade ou evolução espiritual indiana tivesse um grande avanço; tanto que a Índia é considerada como a civilização Mãe deste planeta.
Na sua globalidade o pensamento religioso e espiritual da Índia estava já impregnado no povo. Faz parte da sua educação em todos os tempos, enquanto na Grécia era apenas apanágio de alguns.

Mahāvīra, reformador do Jainismo morreu 526 anos a.C., Buddha foi sensivelmente da mesma época. Platão morreu em 347 a.C.; Zenão de Cítio viveu 300 anos a.C.
Por exemplo, há diferenças notáveis na definição e clareza no ensinamento do Buddha em comparação com o de Pitágoras. Buddha é mais profundo, objectivo e esclarecedor quanto às razões que causam o sofrimento e como sair dele e, através da prática da meditação, conhecer os mecanismos da mente. Seu ensinamento é aberto a todos os homens, sem rodeios ou misteriosas iniciações nem separações etárias ou religiosas. O ensinamento de Pitágoras foi para uma elite e estava oculto às massas.

Buddha pôde falar a multidões, Pitágoras ficou reduzido a poucos discípulos e hoje seu ensinamento é algo longínquo e pouco definido, embora tenha sido a base para futuros desenvolvimentos filosóficos e doutrinais, enquanto o do Buddha mantém-se vivo, após milhares de anos e difundiu-se universalmente.
Não obstante, Pitágoras foi um grande iniciado, introduziu-nos na ciência dos números e na metáfora dos símbolos, numa abordagem metafísica que veio a constituir um grande impulso para a evolução humana, embora e como todos os grandes seres, não tenha sido compreendido pelo povo, sendo até perseguido.
Também o Jainismo, tal como o Budismo, nos dão uma explicação científica dos agregados de matéria que visa a compreensão da impermanência da vida, quer dos corpos físicos, quer dos celestiais (os astros), quer do próprio pensamento, sempre mutável, onde nada é estável ou permanente. Propõem que cada um deve procurar por si esta verdade e alcançar um estado de paz, pela superação do sofrimento que a instabilidade da vida acarreta.

Quanto aos Estóicos indicavam o caminho para a perfeição, mas eram os primeiros a reconhecer, que o Homem perfeito ou o verdadeiro sábio, não existia e nem em Sócrates ou em Platão, reconheciam o Sábio. Para o Estóico, ser sábio, é ser livre, mas sobretudo na liberdade interior e, não há nenhuma escala de graus na perfeição ou no mal ou qualquer método valorativo, para julgar a perfeição dos outros. O que denuncia um sábio ou iluminado é, sobretudo, a postura e atitude frente à vida, ao sofrimento e à felicidade, mas fundamentalmente o seu conhecimento de Deus. Muitos se aproximaram, contudo, sem tê-lo conseguido plenamente. Assim nos diz Epicteto:
«Vejo homens que proferem máximas dos Estóicos, mas não vejo o Estóico. Mostra-me pois, um Estóico. Só peço um. Um Estóico, isto é, um homem Templo Jainaque na doença se sente feliz, que morrendo se sente feliz, que desprezado e caluniado se sente feliz! Se não me podes mostrar este Estóico perfeito e acabado, ao menos mostra-me um que o comece a ser. Não desenganes um velho como eu, desse espectáculo que, confesso, ainda não pude desfrutar».

A prática da virtude é uma actividade espiritual e a virtude está de acordo com a natureza mais perfeita do homem. O homem perfeito ou sábio é feliz, mas daquela felicidade que provém de um sério esforço pela aspiração à integração em Deus e não nos divertimentos.
A ideia de felicidade de acordo com o vulgo, não se define do mesmo modo que a dos sábios. Para estes a felicidade é essencialmente a prática da virtude, porque conduz à sabedoria.
A compreensão ou o compreender, acumula sabedoria. As coisas da vida só são aceitáveis, se compreendidas, pois compreender implica realizar interiormente no coração e no intelecto (entenda-se como inteligência). No intelecto manifesta-se um rasgo de clareza mental, sobre o conhecimento do “objecto” e no coração manifesta-se como um bálsamo de omnisciência. Quando o conhecimento é realizado desta forma, fica a sabedoria.

Tal como o Jainismo, o Estoicismo assenta também em certa negação da vida, tendo ao mesmo tempo, um profundo respeito por ela, mas o ideal das duas doutrinas é chegar à “apatia” (ataraxia), ou como dirá Heinrich Zimmer, no caso dos Jainas, “ser um tolo inútil”, ou “no viver de acordo com a natureza”, segundo os Estóicos. Neste profundo respeito pela vida e por todos os seres, estão incluídos os animais e as plantas em quem se aplicam os mesmos princípios da não-violência, pois o mal é obra do insensato e resulta da loucura da humanidade.
Acalmados os desejos e ambições, o ideal Estóico e Jaina é realizar uma absoluta indiferença onde não será mais perturbado por aflições, pois ao ultrapassar a servidão dos sentidos, alcança o “isolamento” (kaivalya), termo Jaina, enquanto nos Estóicos é “indiferença”.
Também o conceito de Liberdade, coincidente nas duas doutrinas, refere-se à liberdade interior, já que apenas depende do domínio interior a serenidade e a felicidade.
Esta é a liberdade da Alma, que após haver-se purificado e libertado de todas as amarras e dores mortais, alteia-se ao mais alto universo e paira entre os Espíritos bem-aventurados, sendo recebida por uma assembleia beatífica, como nos dizem os Estóicos.

Este conceito Estóico, encontra-se também no Jainismo, onde a prática da ascese ou austeridades purificadoras, servem para libertar a Alma, já que presa a um corpo físico, naturalmente a sua luz fica obnubilada pelas partículas de matéria que a envolvem. No final da purificação, a Alma liberta-se, e leve e cristalina, pode elevar-se ao cimo do universo, para onde se retiram os Tīrthankaras, ou aqueles que se descartam da matéria e dos renascimentos.
O conhecimento sobre os elementos constituintes da matéria é importante como meio de libertar-se da roda dos renascimentos ou das agonias da existência. Os princípios fundamentais do Jainismo estão assentes em nove tattvas ou qualidades e são classificados da seguinte forma: (1) – Jīva, Alma consciente. (2) – Ajīva, não Alma consciente. (3) – Asrāva, influxo de karma. (4) – Bandha, escravidão. (5) – Punga, virtude. (6) – Pāpa, pecado. (7) – Samvara, suspensão do influxo de karma. (8) – Nirjara, exaustão de karma. (9) Moksha, libertação total da Terra.

O Jainismo propõe os meios pelos quais pode ser efectuada a ruptura do Jīva e do Ajīva para que a liberdade seja alcançada. O Jīva ou a Alma consciente, está limitada pelo Ajīva ou elementos da matéria. E, embora a Alma consciente ou Jīva se descarte de Ajīva, matéria inconsciente, a essência substancial de Ajīva permanece eternamente.
Todos estes passos para a libertação da Alma, iniciam-se quando se adquire a consciência da escravidão que o “mergulho” na matéria provoca, pois quando ela está revestida de matéria, ocorre o influxo de karma, causador do sofrimento e, movida pelo desejo de vida, obstrui a sua luz e consciência, que a deixa submersa na ignorância. Quanto mais ignorante mais karma acumula, até obter a percepção, de que o criar ou desenvolver virtudes, são o meio de aliviar e destruir a densa carga da matéria, que incentiva os sentidos primários. Eles são de entre alguns: orgulho, inveja e ambição, sendo necessária uma auto-purificação. A sede da vida e de acções, provoca indisciplina mental e esta falta de controlo significa ausência de harmonia e onde não existe harmonia, há sofrimento.

Quanto à suspensão do influxo de karma significa acabar com este ciclo vicioso pela extinção do desejo. Gradualmente pode-se diminuir o processo automático da entrada das sementes da matéria ou partículas de karma por práticas translúcidas e resplandecentes.
Atingido este ponto, resta a exaustão completa do karma, que ainda pode levar alguma vida para alcançar finalmente a libertação total, Moksha ou Kaivalya. Kaivalya representa o “isolamento”. O Kevalin, aquele que se isola da roda do karma e das reincarnações, anulou todos os resíduos na consciência e não resta qualquer vestígio leve que seja, para voltar a uma nova vida.
Os Tīrthankaras (os Kevalins) são os libertados, os que não reincarnarão mais. Atravessaram para a outra margem do rio e seguirão rumo ao Infinito…
Sem dúvida que as doutrinas estão indiscutivelmente ligadas às personagens que as instituíram; seres que nasceram com dons especiais ou receberam a Graça e essa transporta uma força ou energia divina que gera o impulso criativo do Pensamento e que sendo inovador, abrirá novos horizontes às mentes daqueles que estão preparados para o compreender. Assim, tem sido com tantos outros seres, os Iniciados que se destacaram ao longo da História humana e, entre os Estóicos para além de Zenão de Cítio, o fundador da Escola do Pórtico, salienta-se Cleanto, Crispo e Epicteto, sendo estes os mais notáveis.
Eles não se limitaram a proferir máximas Estóicas, mas realizaram interiormente o ideal do Pórtico, com exemplos de abnegação, humildade e simplicidade em suas vidas.

Zenão, nasceu em Cítio em 335/6 a.C., na ilha de Chipre. Era filho do comerciante Menaseas e seria de origem fenícia. Foi para Atenas já tarde, depois de ter praticado também o comércio. Até aos vinte e dois anos seguiu o ensinamento dos cínicos, sobretudo o de Crates. Ouviu alguns filósofos: Estilpão, Xenócrates e Diodoro Cronos. Compôs muitas obras. A sua integridade pessoal era marcada por uma vida exemplar e dedicou todo o seu esforço, na instituição desta severa mas sublime doutrina, em que a virtude era o único bem.
É pois pelo carisma de uma personalidade e da penetração no Puro Pensamento que se imprime nos outros ou até na humanidade, um avanço mental e espiritual que pode perpetuar-se por eras e eras, até ser conseguida uma nova mentalidade.
Cristo e Buddha foram outros grandes exemplos e também no Jainismo, temos os Tīrthankaras especialmente os históricos, Aristameni e Pārśva e, por último, Mahāvīra, o reformador da Religião Jaina, já que outros Tīrthankaras, são tão longínquos que se tornaram lendários.

Supõe-se que Pārśva tenha vivido 246 anos antes de Mahāvīra, ou seja, deve ter vivido então 772 anos a.C.. Pārśva ou Pārśvanatta, consta ter sido o vigésimo terceiro desta longa linhagem espiritual dos Tīrthankaras, que viveu depois do bem-aventurado Aristanemi contemporâneo de Kṛṣṇa.
O 24º Tīrthankara, Vardhamāna Mahāvīra, nasceu em 599 a.C. na província de Bihar. Era um kṣatriya (casta guerreira) e aos trinta e três anos renunciou à vida familiar e ao seu reino, pois nasceu como príncipe e, durante doze anos praticou severas austeridades. Peregrinou por vários sítios da Índia, atingindo a iluminação aos 42 anos e, pregou a doutrina Jaina até à sua morte.
Seus pais eram devotos do Senhor Pārśva, o 23º Tīrthankara, e Mahāvīra ao contrário do Buddha, nunca procurou seitas ou mestre, mas realizou a iluminação, dentro da própria doutrina em que havia nascido e reformulou-a. Era um devoto dos Tīrthankaras e um Tīrthankara se tornou.

Sendo o pensamento inerente à natureza humana, tem a possibilidade de ser desenvolvido a tal força, que permite o domínio das circunstâncias, no sentido do enobrecimento da vida e, neste contexto, cabe valorizar a contribuição Estóica na evolução do Ocidente, tal como a dos Jaina no Oriente. Consequentemente, também o Budismo e o Cristianismo constituem o elo que aproximou o Oriente e o Ocidente e, que poderá contribuir, futuramente, para uma aliança que resulte num único Pensamento espiritual planetário. São doutrinas que conseguiram e ainda conseguem impulsionar profundamente, a aspiração espiritual dos homens, não só pela pureza do ensinamento, como pela irradiação pessoal das duas personagens que as estabeleceram: Buddha e Cristo. Porém, nem uma nem outra são originais, mas foram o resultado de tais doutrinas antigas, das quais falamos anteriormente.
Os Estóicos assinalavam as virtudes como meio de alcançar a sabedoria, pois o que não se pode mudar, deve-se suportar pacientemente. Quanto ao Jainismo, Mahāvīra valorizou o esforço próprio e a prática de virtudes para alcançar a Libertação.

Desta forma, reconhecer virtudes e praticá-las é abrir caminho para a transformação interior, rumo à Consciência superior e esta mostra Deus. Todos os seres elevados ou com graus de Consciência acima do vulgar, falam de Deus e, outros se ainda não O conseguem reconhecer totalmente, vislumbram contudo, Algo, que os faz desejar alcançar e, sabem que é pela pureza que o conseguirão: uma mente pura eleva-se intuindo Deus. Esta aspiração acende o fogo para O amar e, por Ele são queimadas as impurezas nas boas obras e nas virtudes. O verdadeiro amor faz nascer nobreza de costumes, caridade, pureza e alto entendimento. O amor a Deus será tanto maior, quanto maior a sua doce visão ou união, que envolve quem gloriosamente se deleita no fogo da Beatitude. Beatitude é Contemplação, é o Amor que se põe em Deus, apartando-se de todas as coisas temporais.
Excerto do Livro "A Eterna Sabedoria".
   


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