Fundação Maitreya
 
O Ganga corre gentilmente

de Ruskin Bond

em 05 Set 2011

  Bhagirathi é um rio lindo, gentil e carinhoso (comparado com o Alaknanda turbulento), e os peregrinos e outros olham para ele com amor e respeito. O deus Shiva libertou, das suas fechaduras, as águas da deusa Ganga e elas correram apressadamente em direcção da planície, para o caminho da carruagem do Príncipe Bhagirath.

«Ele segurou o rio na sua cabeça e deixou-o vaguear, onde as densas florestas do Himalaya se espalharam pelos nós do seu cabelo».


Reverenciada pelos hindus e amada por todos, a deusa Ganga tece o seu encanto em todos aqueles que a visitam. Alguns afirmam que o verdadeiro Ganga (nas regiões altas) é o Alaknanda. Geograficamente, talvez seja verdade, mas a tradição tem um grande peso na casa dos deuses e, tradicionalmente, o Bhagirath é o Ganga. Claro que, os dois rios se encontram no sopé do Devprayag, e esse casamento das águas resolve o assunto.

Aqui na fonte do rio, nós chegamos à conclusão que estamos no centro e no coração das coisas. Temos um senso quase primevo de pertencer a essas montanhas e a esse vale em particular. Para mim, e para muitos que aqui estiveram, o Bhagirath é o mais lindo dos quatro rios principais do vale de Garhwal. O Bhagirath parece ter tudo – uma aparência gentil, florestas profundas, a ultra visão de um vale aberto enfeitado com camadas de plantações que se elevam como degraus em direcção a picos e glaciares até à sua cabeça.
Em Tehri, a grande barragem diminui a velocidade da carruagem do Príncipe Bhagirath. Mas perto da fonte, entre Bhatwari e Harsil, as florestas de pinheiros são extensas. Elas enchem as ravinas e os planaltos substituindo os ciprestes, carvalhos e nogueiras. Acima de 9000 pés o cedro (a árvore de Deus) é a árvore principal. Ela cresce e uma certa distância do Gangotri, sendo depois substituída por vidoeiro, que se encontra em determinados lugares dentro de meia milha do glaciar.

Antigamente, antes da abertura de estradas para os estados vizinhos, só os peregrinos sérios visitavam os santuários de Gangotri e outros lugares. As calçadas eram rochosas e perigosas, subindo e descendo as encostas das profundas ravinas e precipícios, conduzindo por vezes as margens de areia solta onde desabamentos varriam os caminhos originais. Não existem grandes cidades depois de Uttarkashi e essa ausência de grandes centros de população pode ser a razão principal porque as florestas se encontram aqui mais bem conservadas do que em altitudes mais baixas.

Uttarkashi é uma cidade com tamanho razoável, porém situada entre duas montanhas íngremes; dá a sensação de estarmos fechados e presos. Há quinze anos atrás, ela foi devastada por um grande terramoto, a sua situação não parece ser ideal.

Gangotri, bem mais segura, está localizada a apenas mais de 10.300 pés. Na margem direita do rio encontra-se o templo principal, um pequeno santuário bem arrumado e sem muitas decorações. Ele foi construído por Amar Singh Thapa, um general nepalês, no início da década de 1800. Foi renovado, em 1920 pelo Marajá de Jaipur. A rocha sobre a qual ele se encontra chama-se Bhagirath Shilla e dizem que é o lugar onde o Príncipe Bhagirath fez penitência para que o Ganga descesse da casa da neve eterna.

Neste local, as rochas esculpidas e polidas pelo gelo e pela água são tão lisas que em certos lugares elas parecem como rolos de seda. As águas que correm rapidamente pelas montanhas são muito diferentes do grande e vagaroso rio que se junta ao Yamuna, em Allahabad. Da profundidade dum grande glaciar, surge o Ganga cheio de grandes rochas soltas e areia. O glaciar tem cerca de uma milha de largura e ocupa muitas milhas acima. A brecha no glaciar, de onde o rio corre para a luz do dia, chama-se Gaumukh, boca de vaca, e é profundamente respeitado pelos hindus. Essa região de espuma eterna foi o cenário da maioria dos mistérios sagrados.

Em Gangotri, o Ganga não é um pequeno riacho, ele já é um rio com trinta a quarenta jardas de largura. Em Gauri Kund, abaixo do templo, ele cai duma grande altura sobre uma rocha e continua cambaleando numa sucessão de pequenas cachoeiras até entrar no precipício de Bhaironghat. Uma noite passada ao lado do rio é uma experiência misteriosa. Depois de algum tempo soa não como uma cachoeira, mas como centenas delas, e o seu barulho está sempre - presente, tanto nos sonhos, como nas horas de levantar.

Levantar cedo para saudar a madrugada provou ser desnecessário, porque as montanhas em redor não permitem a entrada do sol até às 9h da manhã. Mas os que o fizeram, corriam, exclamando com alegria aquilo que descreviam como gulabi thand, literalmente “frio rosado”. A garantia de tornar as bochechas rosadas! Uma expressão encantadora, mas eu prefiro o bronzeado rosado e permaneci debaixo das mantas pesadas até o sol subir na montanha e jogar os seus raios dourados ao longo do rio.

É meados de Outubro, e depois do Divali o santuário e a pequena cidade se fecha no Inverno, os pandits se retiram para o calor relativo de Mukbha. Logo, a neve cobrirá tudo, e até os pássaros assobiadores com plumas de cor púrpura (conhecidos por katura), que adoram sombras profundas, mudam-se para mais longe, no vale. E, mais abaixo ainda, abaixo da linha florestal, os robustos agricultores Garhwalis começam a colheita nos campos e nos terraços, cobertos de desenhos amarelos, verdes e dourados, acima do rio verde-escuro.
Sim, o Bhagirath está sempre verde. Embora profundo e imediato, ele apresenta uma certa serenidade. Em lugar nenhum ele parece rápido e confuso – diferente do turbulento Alaknanda, furioso e irritado quando se esmaga violentamente sobre uma cama de rochas. O Bhagirathi corre livremente, em paz consigo e com os devotos. Em todos os lugares, ele parece achar uma verdadeira harmonia e equilíbrio.

Cortesia da Revista India Perspectives
   


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Impresso em 22/6/2021 às 0:40

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