Fundação Maitreya
 
Galahad

de Kara L. McShane

em 30 Mar 2012

  Sir Galahad (var. Galaad), filho de Lancelot e Elaine de Corbenic, é mais conhecido como o cavaleiro que atinge o Santo Graal. Quando Galahad aparece, ele é o principal cavaleiro do Graal; nas tradições Francesas e Inglesas, ele substitui Perceval neste papel. Galahad aparece pela primeira vez no Ciclo Vulgata do século XIII. A peça de abertura do Ciclo, a*Estoire del saint Graal*, primeiro menciona Galahad; prediz o seu nascimento e sua eventual conquista do Graal. De acordo com esta secção do texto, Galahad é o nono na linhagem de Nascien, que foi baptizado por Josefo, filho de José de Arimatéia.

Esta linhagem liga Galahad àqueles que se diz terem trazido o cristianismo (e o próprio Graal) para a Grã-Bretanha. A secção posterior,*La Queste del Saint Graal*, narra as aventuras de Galahad na busca que leva desde a corte de Artur até à cidade de Sarras, a casa do Graal na Terra e lugar onde Galahad morre ao contemplar o Graal.

As histórias das aventuras de Galahad são excepcionalmente consistentes; a descrição da demanda de Galahad na* Morte d'Arthur* de Malory,* "The Noble Tale of the Sankgreal"*, baseia-se nos principais eventos do Ciclo Vulgata. Malory preserva a profecia e prevê que a rodear Galahad, na busca do Santo Graal, estão eremitas e outras figuras religiosas que parecem continuamente interpretar sonhos e antever eventos futuros. O nascimento de Galahad e suas realizações são preconizados, tanto na Vulgata do Ciclo, como em Malory, o que dá à busca do Santo Graal todo um sentido de inevitabilidade.

Em ambos Malory e* La Queste del Saint Graal*, Galahad é armado cavaleiro por Lancelot num convento no bosque. Na festa de Pentecostes, ele chega a Camelot, onde consegue sentar-se no lugar Perigoso, um acto que demonstra ele ser o cavaleiro que vai atingir o Graal. Depois do Graal aparecer na festa de Pentecostes, os cavaleiros prometem passar um ano e um dia na busca do Graal. Galahad enceta a busca sem escudo algum. Acompanhado pelo rei Bademagu, pára numa abadia, e descobrem que a abadia abriga um escudo branco marcado com o sangue de Josefo, antepassado de Galahad. Quando Bademagu leva o escudo da abadia, um cavaleiro branco misterioso aparece e derruba-o de seu cavalo; o escudeiro do cavaleiro branco, traz de seguida o escudo para Galahad. O escudo é destinado exclusivamente a Galahad e irá proteger apenas a ele.

Em suas viagens, ele chega ao Castelo de Maidens, onde sete cavaleiros cruéis mantêm a filha de certo duque e todos os que passam pela região, cativos. Ele restabelece a ordem, derrotando os cavaleiros do mal em combate e fazendo os cavaleiros nativos do país jurarem fidelidade à filha do duque.

No entanto, Galahad não mata os sete cavaleiros cruéis. Os sete cavaleiros são mortos no dia seguinte, quando vários cavaleiros da Távola Redonda os encontram. Depois de sair do Castelo, Galahad viaja através da Floresta Waste até atinjir o mar. Lá, ele se reencontra com os companheiros do Graal cavaleiros Perceval e Bors. Os três cavaleiros viajam juntos para Logres, onde com outros nove cavaleiros estrangeiros assistem a uma missa onde têm uma visão do Graal. Nesta Missa, o próprio Cristo aparece a Galahad e diz-lhe que o Graal não é suficientemente respeitado na terra e que Galahad vai ver o Graal mais abertamente quando chegar a Sarras. Galahad, Percival e Bors, viajam de seguida para Sarras com o Graal num misterioso navio. Depois de algum tempo em Sarras, Galahad reza por sua própria morte e morre ao contemplar o Graal.

Ambos os textos explicam o nascimento de Galahad fora do casamento;
Lancelot é magicamente induzido a dormir com Elaine que é chamada Amite ou "a filha do Rei Pescador rico", e Galahad é o resultado dessa união.

Apesar das circunstâncias do seu nascimento, os textos enfatizam a virtude inerente de Galahad. O narrador na* Estoire del saint Graal* reconhece a concepção problemática de Galahad (sem explicitamente identificá-lo como um filho bastardo), mas elogia-o sobre as razões de sua linhagem digna, vida boa, e bom propósito. No Ciclo Vulgata, ele é muitas vezes referido apenas como "Bom Cavaleiro" (Lancelot-Grail 4:6, 4:20) ou o "homem digno" (LG 4:5). Malory parece ainda mais confortável com o status de Galahad como bastardo; na* Queste*, Galahad demonstra vergonha com respeito à sua paternidade numa conversa com Guinevere, mas Malory deixa essa conversa fora da sua versão (Watson 58-59).

Em vez disso, quando Guinevere é questionada por uma das suas damas sobre se Galahad deve ser justamente um bom cavaleiro, ela afirma que "de todos os partidos, ele vem como um dos melhores cavaleiros do mundo, e da mais alta linhagem" (Malory 502). No texto de Malory, o estatuto de Galahad como filho bastardo não prejudica o seu prestígio de linhagem na mínima; na realidade, a qualidade de seus pais e sua própria virtude inerente superam as circunstâncias do seu nascimento. Descrições de Galahad inevitavelmente denotam a sua juventude e beleza como características a defini-lo, e ele é muitas das vezes imediatamente reconhecível como filho de Lancelot. Na* Queste,*quando Lancelot primeiro encontra Galahad, Lancelot comenta que Galahad "é dotado de beleza excepcional" (LG 4:3). Da mesma forma, no momento da chegada de Galahad à corte de Artur, um jovem descreve Galahad a Guinevere como "um dos cavaleiros mais bonitos do mundo" (LG 4:6).

A virgindade (castidade) de Galahad é a chave para a sua perfeição e, portanto, a chave para o seu sucesso na busca do Santo Graal. A busca de Galahad tem certos paralelos com a literatura hagiográfica, nomeadamente histórias de São João Evangelista; essas semelhanças aparecem nas curas e "milagres" que Galahad executa, bem como em sua virgindade (O'Malley 40). A santidade de Galahad faz dele o cavaleiro que mais completamente alcança o Graal, e esse status distingue Galahad de seus pares da Mesa Redonda de maneiras potencialmente problemáticas. Os sucessos de Galahad, simultaneamente conferem honra na Mesa Redonda e demonstram a fraqueza de seus cavaleiros companheiros, que muitas vezes não conseguem suceder onde Galahad consegue (Armstrong 32).

A perfeição de Galahad, especialmente sua virgindade (castidade), torna-o tanto admirável como enfadonho para os adaptadores modernos da história do Graal. A versão de Malory inspira muitos contos novos das aventuras de Galahad, o mais conhecido dos quais é o de Tennyson. Os* Idylls of the King* preserva Galahad como o principal cavaleiro do Graal. Como resultado, ele é uma figura de estatuto mítico até para Perceval, um cavaleiro companheiro do Graal. As visões de Galahad do Graal separa-o do resto de seus companheiros da Mesa Redonda, como Lancelot, que declara no seu regresso a Camelot que "esta questa não era para mim '"(849). Da mesma forma, Tennyson "*Sir Galahad*" descreve um cavaleiro, que divinamente inigualável, famosamente afirma que "A minha força é como a força de dez, / Porque o meu coração é puro" (ll. 3-4). Tennyson apresenta a pureza como uma fonte de força, uma imagem de Galahad que era extremamente popular para o público vitoriano (Mancoff, Return, 123).

Corajosamente persistente na sua missão, Galahad avança sempre em direcção ao seu objectivo. Talvez seja devido a esta imagem do cavaleiro, incansável virtuoso, que poemas de Tennyson às vezes são usados em textos que associam Galahad com a guerra, e Galahad foi invocado como símbolo patriótico Inglês durante a I Guerra Mundial (Mancoff, Return, 126). Sir James Burns* Galahad: Um Chamado ao Heroísmo,* promove Galahad como o soldado justo cristão, cujo comportamento os jovens da Grã-Bretanha deveriam imitar. Este uso de Galahad aparece não só na literatura, mas também na arte. Vitrais retratando Galahad foram muitas vezes criados (de cerca de 1900 a 1930) para lembrar as mortes de homens, especialmente homens jovens, mortos durante a guerra.

Representações vitrais de Galahad também eram comuns nas escolas públicas, reforçando Galahad como um modelo idealizado para homens jovens. Tais representações muitas vezes incorporam linhas de Tennyson ou Malory e, portanto, ligam a imagem a um texto específico (Poulson 112-114). Uma janela específica, como a da Basílica de São Paulo, Fairlie, foi encomendada por Sir James e Senhora Dobbie em 1919 para comemorar a morte de seu filho Alexander. Na parte inferior da janela lê-se de Tennyson "O Santo Graal":

Então, agora a Coisa Sagrada de novo aqui se encontra Entre nós, irmão, jejua tu também e ora,
E diz aos teus cavaleiros irmãos para orar e jejuar, Pois porventura assim a visão poderá ser vista
Por ti e por aqueles, e todo o mundo ser curado.
(Ll. 124-29) (Poulson 110)

Artistas apropriaram-se da representação de Galahad como o guerreiro sagrado para comemorar os jovens que haviam sido exortados a seguir o exemplo de Galahad.
O Galahad inabalável de Tennyson reaparece em obras poéticas mais tarde.
Elizabeth Stuart Phelps "*O Terrível Teste*" posiciona Galahad como transcendente a partir da perspectiva dos leitores modernos, ela escreve
que "Nós lemos - e sorrimos; não foste homem, / Pulsos humanos não poderiam ser os teus" (ll. 13-14). Phelps, como Tennyson, apresenta Galahad como não afectado pelas tentações mundanas que afligem seus cavaleiros companheiros. William Morris, em contrapartida, apresenta um Galahad com problemas que obtém o seu conforto de Cristo. Galahad sofre desânimo em Morris "Sir Galahad, Um Mistério de Natal*", na qual reflecte que "noite após noite, te sentas / Segurando o freio como um homem de pedra, / Desanimado, sozinho: que resultará daí" (Ll. 22-24). Embora o Galahad de Morris avance em sua busca, ele expressa a solidão e a melancolia desconhecidas do imutável Galahad de Tennyson.

Este retrato humanizado de Galahad é típico das obras de Morris, ele retrata heróis arturianos como seres humanos falíveis, em vez de ideais míticos. Ao mesmo tempo que mantém o Galahad incorrupto, perfeito, Morris apresenta um homem que precisa de ser renovado, em vez do cavaleiro inabalável de Tennyson que nunca experimenta a tentação (Mancoff, Revival, 163).

As características sobre-humanas de Galahad nem sempre são retratadas sob uma luz positiva.* The Once and Future King* de T.H. White, enfatiza a perfeição de Galahad através da sua distanciação do resto da corte. Na releitura de Malory por White, as aventuras de Galahad na busca são recontadas por outros cavaleiros da Távola Redonda à medida que eles retornam a Camelot. Os outros diversos cavaleiros (em particular Gawaine) põem em causa a virgindade de Galahad e considera-o arrogante, superior, e socialmente deficiente (489). Apenas Lancelot defende Galahad, e mesmo a defesa de Lancelot em si pode ser considerada desagradável. Ele afirma que Galahad é inumano e que portanto, cai fora dos limites dos costumes sociais (495).

Várias modernizações drasticamente re-imaginam a vida de Galahad, nomeadamente as suas origens. Como resultado, esses Galahads modernos e suas aventuras são muito diferentes da sua congénere medieval. O romance de John Erskine* Galahad: O Suficiente de sua vida para explicar sua reputação (1926),* revê a vida de Galahad, especialmente a educação dele, a fim de racionalizar a sua personalidade única. O romance retrata um jovem Galahad mimado, violento, que é ensinado a ser um cavaleiro por seu pai, Lancelot. Galahad finalmente chega a Camelot, onde Guinevere tenta transformá-lo em um novo tipo de cavaleiro a ser única e exclusivamente dedicado à virtude.
No entanto, ao descobrir o caso da rainha com seu pai, Galahad abandona a corte, ao ver que seu comportamento não coincide com os seus ensinamentos. O texto deixa as aventuras de Galahad em aberto depois dele deixar Camelot. Em vez de enviar Galahad na busca do Santo Graal, o romance traça o seu desenvolvimento através de um personagem susceptível de ser associado a essa busca.

O nascimento de Galahad é recontado na peça de Richard Hovey.* Nascimento de Galahad (1898). Na peça de Hovey, Galahad é filho de Lancelot e Guinevere, sendo esta mudança exclusiva da versão de Hovey. Na introdução da esposa de Hovey sobre os fragmentos publicados das peças inacabadas de Hovey, ela escreve que "a alma pura de Galahad cresceu como uma forma de bênção, que apenas 'o milagre', o amor místico, pode trazer para a terra. Pertence aos reinos que estão acima das leis da ordem social" (Citado em Lupack,* Arthur in America, 106). Neste contexto, o cavaleiro perfeito torna-se o filho dos amantes ideais, a pureza de Lancelot e o amor de Guinevere superam a natureza adúltera (e, portanto, socialmente inaceitável) de seu relacionamento. Hovey, Erskine e White revisionam Galahad para comentar sobre expectativas sociais e a torná-lo mais interessante para os leitores modernos.

Além de sua popularidade na literatura, Galahad tem sido um tema popular de representação visual. Galahad era muitas vezes usado para representar "ataques inspirados ao mal*" (Whitaker 236). Como na poesia, muitas pinturas de Galahad enfatizam a sua perfeição e pureza, um exemplo famoso é "Sir Galahad" (1862) por George Frederic Watts (1817-1904). O Galahad de Watts é representado de perfil como olhando em frente e levando o seu cavalo, o seu elmo fica para trás, de modo a que seu cabelo encaracolado e características faciais jovens idealizadas sejam visíveis. A luz do sol ilumina o rosto e o ombro de sua armadura. A Pintura de Arthur Hughes, também intitulado "Sir Galahad" (1870), retrata um Galahad humanizado que contrasta com redondeza sobrenaturais.

Enquanto muitos artistas representam o cavaleiro inabalável, a pintura de Hughes mostra um cavaleiro determinado, mas humilde, que se debruça sobre o seu cavalo enquanto cavalga em frente na direcção de três anjos brilhantes na parte superior direita da tela. Os anjos são a fonte de luz na pintura. Joseph Noel Paton
em "*Sir Galahad and an Angel*" (1884-1885) mostra Galahad a cavalo na frente de uma formação rochosa. Um anjo está apenas um pouco atrás dele, ambas as figuras a olhar para o céu no mesmo ângulo. Outras representações de Galahad em arte incluem* Religion: The Vision of Sir Galahad and his Company* (1852), um fresco projetado por William Dyce para o quarto de vestir da Rainha no Palácio de Westminster, e uma série de tapeçarias desenhadas por Edward Burne-Jones que ilustram a "*Tale of the Sankgreal*" de Malory (Whitaker 199). As tapeçarias, projetados para a casa de W.K. D'Arcy em Stanmore Hall, incluem uma chamada "*The attainement of the Holy Grail*" (1898-9), que retrata Galahad olhando para o Graal; Perceval e Bors, embora estejam na cena, estão separados de Galahad e de sua visão por três anjos.

Livros ilustrados do final do período vitoriano fornecem uma fonte particularmente rica em imagens de Galahad. Por exemplo, representações fotográficas de Julia Margaret Cameron foram concebidas para acompanhar uma edição ilustrada de* Idylls* de Tennyson (Mancoff, Return, 137). O trabalho de Arthur Rackham "*How Galahad drew out the sword from the floating stone at Camelot*" apareceu pela primeira vez em "*O Romance do Rei Arthur e seus cavaleiros da Távola Redonda"* (1917) de Alfred Pollard, uma abreviação de Malory (Mancoff, Revival, 267). As representações de Rackham enfatizam os elementos fantásticos e grotescos à cena que ele ilustra, ao mesmo tempo que mantém imagens Arturianas estabelecidas; no processo, sua arte cria uma imaginativa re-visão dos contos arturianos (Mancoff, Revival, 268).

Mais tarde, ilustradores de livros incluem Howard Pyle, ilustrador de* A História do Graal e da Morte de Arthur* (1910), e Anna-Marie Ferguson, cuja arte enriquece a edição da Cassell 2000 & Company da* Le Morte D'Arthur de Malory* (Lupack, ilustrando Camelot , 194, 219). Ferguson muitas vezes representa ilustrações pequenas de momentos do texto de Malory, com uma ênfase especial sobre as mulheres do rei Artur. Por exemplo, além de uma ilustração de Galahad na busca do Santo Graal, ele também aparece em uma ilustração da irmã de Perceval, no qual ela oferece o seu sangue para
salvar a senhora de um castelo (Lupack, ilustrando Camelot, 229).

Antologias das aventuras de Galahad são muitas vezes feitas para crianças, para quem o cavaleiro perfeito é apresentado como um modelo comportamental e uma inspiração. Como figura altamente reconhecível na tradição arturiana, Galahad foi imortalizado por jogos de vídeo ( http://cheats.gamespy.com/genesis/galahad/), filmes (como os de 1950

Aventuras de Sir Galahad, dirigido por Spencer G. Bennet) , bandas de rock ( http://www.galahad.de/index4.html) e brinquedos.(http://megomuseum.com/legend/skgalahad.html). Também aparece ao lado de Kay, Gawain, e Tristan no livro* Camelot 3000 Comic Book* e no cómico de 1991 DC Justice League Europe Annual.

Kara L. McShane (Http://www.lib.rochester.edu/camelot/galmenu.htm)
   


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