Fundação Maitreya
 
O Yoga Vāsiṣṭha - 5ª Palestra

de Alejandro Corniero

em 11 Ago 2012

  Disse o bem-aventurado Vasiṣṭha:
«O egoísmo é a raiz das formas de sofrimento mais disseminada nos bosques deste mundo, cujas árvores produzem as envenenadas flores dos desejos. Por consequência, ó Rāma, esforça-te diligentemente para fazeres desaparecer do teu coração o sentido do egoísmo e busca a felicidade, comprovando, a cada momento, o nada que é o teu pequeno eu 1. O erro do egoísmo é comparável a uma nuvem escura: esconde nas suas trevas o brilhante disco da lua da verdade, e oculta da nossa vista, os seus luminosos raios. A errónea impressão de realidade do mundo não pode apagar-se, sem o conhecimento que provém dos Śāstras e dos lábios vivos de um Instrutor 2
O que predica a irrealidade do mundo e a realidade de Brahman não é levado a sério pelo ignorante, que o olha como a um louco. O Sábio e o ignorante não conseguem pôr-se de acordo sobre este assunto, tal como não conseguem entender-se o bêbedo com a pessoa sóbria.
O homem inteligente, que crê que o Espírito supremo e sempre sereno de Brahman penetra o universo, não pode ser desviado da sua sólida convicção.


Os ignorantes desconhecem a noção de Espírito: crêem que a matéria é a causa e o efeito de sua própria produção. Mas o homem dotado de sabedoria consegue discernir o Espírito dominando em todas as formas da creação, da mesma maneira que se vê a substância, quer dizer, o ouro, em todos os adornos feitos nesse metal.

Só há um Ser realmente existente: é em Si mesmo Verdade e Consciência; a Sua natureza é paz e Inteligência pura. É imaculado, omnipresente, em constante quietude, sem oscilações.
Sendo quietude e calma perfeita, nada vê na existência; e Suas creações subsistem neste repouso, como partículas de Seu próprio resplendor.

Da mesma forma que se vê brilhar as estrelas na escuridão da noite, e emergir as ondas na superfície das águas, também assim se manifestam todos esses fenómenos em Sua realidade.

Tudo quanto este Ser queira ser, auto concebe-se no acto, sendo-o; só esta Inteligência é a verdadeira Realidade, e tudo o resto é real, apenas na medida em que saem d’Ela e voltam a Ela.
Nós também surgimos dessa Vontade divina: assim, pois, em nenhum de nós há realidade ou irrealidade.

Essa Inteligência desperta chama-se mundo fenoménico, adormecida e calma, é o que chamamos de salvação, libertação ou extinção do sofrimento.

Agora escuta, Rāma, e te ensinarei a conhecer a Verdade divina.
O homem de alma elevada observa o mundo como observaria um filamento de palha e repudia as suas preocupações como uma serpente se despoja de sua pele.

Aquele cuja alma é iluminada pela maravilhosa luz da verdade do santo Yoga Adhyātma, encontra-se sempre sob a protecção das leis espirituais, tal como o Ovo do mundo 3, sempre protegido por Brahmā.

Aproxima-te do Instrutor, Rāma, com fé e veneração, e escuta todos os dias a Verdade sagrada que sai de seus lábios, servindo-o com todas as tuas forças. Através dele receberás, um dia, a Verdade divina e serás livre.

Quem é conhecido pelas suas virtudes, tem o poder de governar o seu destino, de transformar os seus males em Bem e tornar a sua prosperidade duradora. Quem está insatisfeito com seu presente e deseja progredir, bem como quem tem sede de conhecimento e busca a Verdade, é chamado, na verdade, de ser humano; todos os demais não passam de uns brutos.

O renovado desejo de gozar o que já se gozou e de voltar a ver o que já viu, não é meio para se desligar do mundo, mas é sem dúvida a causa de numerosos nascimentos devidos a esses mesmos prazeres.

Que se repercuta no mundo a grandeza de tuas virtudes, tua renúncia, a excelência de tua conduta, teu serviço desinteressado aos homens e a tua consagração a Deus na pessoa do Instrutor, porque daqueles, cujas boas acções resplandecem como a luz da lua, diz-se que estão verdadeiramente vivos, enquanto os demais, que não alcançam um renome semelhante, estão mortos, ainda que vivam.

Os frutos da realização amadurecem seguindo com paciência os mandamentos dos Śāstras, repetindo, sem pressas de alcançar o êxito, os mantras 4 recebidos nas iniciações, e aperfeiçoando-se ao longo de grande prática.

Para que servem a riqueza, a beleza, a fama ou o poder sem o conhecimento da Verdade? Consagra-te, assim, ao saber e considera a riqueza um desperdício sem valor.

Eleva-te e aceita o remédio capaz de te preservar da velhice e da morte: o conhecimento de que toda a riqueza e prosperidade, todo o prazer e gozo são prejudiciais se não estiverem consagrados ao bem dos outros; de outra forma, o seu único efeito é desgostar e debilitar o nosso organismo.

Agora, Rāma-ji, eis a Verdade suprema:
Bem-aventurados os que escutam e, por três vezes benditos, os que fazem da sua realização, o objectivo de sua vida.

Brahman é o intelecto. Brahman é a alma. Brahman é a inteligência. É a substância. É a solidez. É o princípio de todas as coisas. O universo inteiro é Brahman. E, contudo, Ele transcende tudo isto.
Na realidade o mundo nada é, porque tudo é unicamente Brahman.
À margem do facto da existência de Brahman, não há nada que se possa comprovar como absolutamente certo, e a verdade das Escrituras declara:
«Verdadeiramente, Tudo é Brahman ».

Guarda-te do grandioso espectáculo deste mundo, que é tão substancial para a vista e tão absurdo para a experiência; é a guarida dos dragões do desejo lançando a venenosa espuma de suas paixões.

Tenta abandonar os teus desejos e evitarás todas as dificuldades; deixa de pensar em algo e o apego por ele desaparecerá por si só. Até o simples pisar de uma flor é acompanhado por um esforço, mas não é preciso qualquer esforço para destruir o desejo, porque ele desaparecerá por si mesmo, se não se pensar nele. Para colher uma flor, tens de abrir a mão, mas para destruir teus frágeis e enganosos desejos, não tens de fazer nada.

Afastando os pensamentos dos objectos e fixando-os em Brahman, serás capaz de realizar o que é impossível para os demais.

A inteira preocupação das nossas vidas é desejar e fazer, e a seguir, desejar novamente; contudo, quando se extirpa da alma toda a sua inquieta propensão, fica liberta de toda a ansiedade.

Abandona a tua louca confiança depositada nos fenómenos visíveis, larga tudo isso e permanece enraizado na consciência do “Sou o Infinito”.

Antes de ter apagado da alma a ideia de que há coisas desejáveis, e outras que não o são, é difícil encontrar a paz e a graça da serenidade, como é difícil à luminosidade da luz trespassar um céu encapotado.

Os nossos desejos e aversões são como dois macacos que vivem na árvore do nosso coração; enquanto a sacudirem e agitarem com suas brincadeiras e saltos, não pode haver repouso.»

Notas
1. O ego empírico. Vide nota 3. III Palestra
2. A tradição hindu mantém que ninguém pode alcançar a realização apenas com a leitura de livros, com cerimónias rituais, ou com práticas de ordem ética; é necessário um Mestre vivo (guru).
3. Na creação do mundo descrita nos Upanishads, o Universo, na sua primeira forma e como alma cósmica (Hiranyagarbha) , é chamado de Ovo do Brahmā, o Creador segundo a tradição hindu.
4. Breve oração mística dada por um Mestre a um discípulo admitido após uma iniciação yóguica. Quando repetido correctamente proporciona a consciência espiritual.
   


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