Fundação Maitreya
 
Pré-Rafaelitas

de Maria Ferreira da Silva

em 11 Ago 2014

  A “Confraria Pré-Rafaelita” foi um movimento de artistas ingleses em 1848. Os três membros mais influentes foram Dante Gabriel Rossetti, John Everett Millais e William Holman Hunt. A Escola Pré-Rafaelita envolve todo um programa artístico, espiritual e reformador após uma época marcante vitoriana, sendo por isso um movimento que recusa as regras académicas clássicas. São jovens totalmente empenhados no serviço que prestam através da arte, para mostrar a beleza e a verdade, e militam por uma reforma fundamental através da pintura, inspirada nos ideais espirituais para saírem do declínio da arte inglesa. A pintura dos P.R. sobretudo abriu uma porta, não necessariamente a uma doutrina mas a uma atitude, onde o essencial era quebrar as convenções tradicionais e ocasionar uma revolução na pintura, com a simplicidade da construção das formas e de um simbolismo enriquecedor. Este grupo, de Rossetti e dos seus amigos (mais tarde Burne Jones e William Morris), reunia secretamente e eram considerados “aventureiros”, por abalarem as normas morais e sociais mais conservadoras.

Os Pré-Rafaelitas, inspiravam-se nos grandes artistas de todos os tempos até Rafael, pintor do Séc. XV, e de onde deriva o nome da Escola. Mantiveram-se fiéis ao génio artístico italiano entre a época medieval e o Renascimento, e sob esta inspiração os Pré-Rafaelitas desencadearam uma regeneração na arte, organizada segundo belos princípios e com a suprema influência de Frei Angélico e de Botticelli. A base segura da arte de Quatrocentos italiana, na sua nobreza, exaltará estas almas ardentes, que nos mestres procurados, encontram a harmonia da beleza espiritual como um precioso diamante.

Dante Gabriel Rossetti é o primeiro a assinar as suas obras por as letras “PRB” “Pré-Rafaelitas Brotherhood”. Rossetti era fora do comum, inteligente, extremamente romântico e sensível. Cedo se interessou pela literatura, escreveu ensaios, poemas e sobretudo dedicou-se à pintura com delicadas e etéricas figuras, detalhes cheios de significado espiritual baseados na Natureza. Rossetti, nasceu a 12 de Maio em Londres, o segundo de quatro filhos, de um pai italiano e de mãe meio italiana e inglesa. O pai de Gabriel Rossetti era bastante culto, especialmente um apaixonado pela poesia e dedicou grande parte da sua energia intelectual ao comentário analítico da “Divina Comédia” e em 1831 foi convidado como professor de italiano, no Kings College em Londres. Dante Gabriel Rossetti nasceu num ambiente singular, de diversas culturas e extracto social desde a aristocracia a personagens ilustres como Panizzi ou Paganini. Cedo se revela de uma sensibilidade intensa, capaz de exaltação mística e idealista, como sua irmã Maria Francesca que entra para a vida monástica. Seu irmão Michael será crítico literário e a irmã mais nova poetisa. Uma das paixões de Gabriel é Shakespeare, mas também recita com energia Goethe,

Edgar Allan Poe e Dante Allieri, e interessa-se sobretudo pelos dramas como Hamelet e Fausto. Devido à influência da literatura clássica desenvolveu na pintura um belo estilo de pureza e elegância de formas, com temas românticos e espirituais, tais como a “Divina Comédia”, com o belo quadro dedicado a Beatriz, Romeu e Julieta, ou a mítica figura do Rei Artur. As belas mulheres que retracta transportam uma aura de força e de poder de Amor, que reflecte a luz interior de quem conhece tanto o amor humano como o platónico e o espiritual. São sensuais, de forte poder anímico e magnético que representam e integram a inocência, a graça, a pureza e o destemor de delicadas deusas. Tanto Rossetti como os seus seguidores, procuram expressar candidamente no rosto feminino, o amor e a beleza, como condutores ao transcendente.

Assim também John Everett Millais eternizou “Ofélia”, numa magnífica pintura que se encontra em Londres na National Galery. Millais nasceu em Southampton a 8 de Junho de 1829. Era o filho mais novo de uma família equilibrada, de quem recebe uma boa educação. Aos oito anos, sua mãe decide mandá-lo para Londres para estudar pintura. Quando, anos mais tarde foi admitido na Royal Academy´s Antique School, era dos estudantes mais jovens. Cedo começa a receber dinheiro pelos seus trabalhos de pintura e ilustrações e quando conhece Hunt e Rossetti, cresce uma relação afectiva que os leva a formar a “Confraria Pré-Rafaelita”. John Everett criou alguma polémica ao confrontar as mentes mais conservadoras com as suas obras “Isabella” e a “Sagrada Família”, as quais mereceram severa critica, principalmente de Charles Dickens.

William Holman Hunt é o pintor do famoso quadro que actualmente se encontra num dos altares da Catedral de S. Paulo em Londres, “The Light of the World”, e tal como Rossetti foi um marco de grande inovação da pintura inglesa do Séc. XIX, com o qual desenvolve uma intensa relação de amizade. Foi membro da Royal Academy Schools, viajou ao Egipto e à Terra Santa numa peregrinação bíblica e é onde se inspira para a sua grande obra a “A luz do Mundo”. As suas pinturas têm delicados detalhes e figuras de elegantes movimentos.

Mais tarde junta-se ao grupo um notável pintor de dons artísticos múltiplos: Edward Burne Jones. Burne Jones nasceu a 28 de Agosto de 1833 em Birmingham. Ele acrescenta uma outra acção bem precisa sobre o destino da arte Pré-Rafaelita em Inglaterra. Estudante de Arquitectura e de Teologia, acaba por entrar na pintura depois de uma viagem a Paris e de uma visita ao Louvre, onde fica profundamente impressionado com obras de Frei Angélico, Botticelli e Rafael. Quando volta a Inglaterra, descobre em Oxford os quadros da “Confraria dos Pré-Rafaelitas”, e vai a Londres à procura de Gabriel Rossetti, o principal fundador deste movimento, no qual encontra a realização dos seus sonhos e dos seus ideais. Com William Morris outro magnífico pintor, instala-se em Londres, deixa a Teologia e sob a influência de Rossetti participa nos projectos de vitrais para Bradford College d´Oxford. Em 1859 faz a primeira viagem a Itália, à qual outras se seguirão impulsionado pela grande admiração pelos mestres italianos e que vêm a exercer uma forte inspiração na sua pintura. Embora na sua Obra, retome os temas clássicos e místicos com inspiração na Bíblia, eles são contudo tratados com uma nova ilustração de formas e de cores, com grande simbolismo espiritual, como por exemplo a “Estrela de Belém”, ou a “Anunciação”, que insere no seu “ Livro das Flores”.

As obras dos Pré-Rafaelitas encontram-se por muitos Museus de Inglaterra, alguns dos quais em Londres, a National Galery e Tate Galery. Em Oxford e Cambrigde, alguns Colégios e Igrejas estão enriquecidas com vitrais desenhados por Burne Jones e outros Pré-Rafaelitas.
Também em Portugal, encontram-se duas belíssimas obras de Edward Burne Jones, no Museu da Gulbenkien, cujos temas são dignos de contemplação: “O Espelho de Vénus”, e “O Banho de Vénus.
No “Espelho de Vénus”, Vénus domina o espaço da imagem representada na sua candura de deusa, como o arquétipo da beleza feminina. O ponto principal de luz, incidindo na água, espelha a dupla visão das belas figuras nostálgicas e difusas, como magicamente presas em si próprias.
“O Banho de Vénus” reflecte a admiração do autor por Botticelli, no qual se inspira nas suas linhas de formas sinuosas, onde a beleza corporal de Vénus, se entrelaça com a espiritual e envolve de luminosidade o seu rosto etérico.

Com a remodelação do Museu, esta obra foi reconhecida e, portanto, merecedora de um lugar de destaque na secção da Pintura Europeia. O Museu merece uma atenta visita e estas obras de Edward Burne Jones enriquecem-no sem dúvida.

Artigo inserido no 2º Capítulo de Arte - pág. 61 do Livro, Folhas de Luz
   


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